



Thomas Bulfinch
O Livro de Ouro da
MITOLOGIA
(A Idade da Fbula)
HISTRIAS DE DEUSES E HERIS
Traduo
David Jardim Jnior ---
26a Edio
---


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 Do original
The Age of Fable
Copyright da traduo (c) by Ediouro Publicaes S.A.
Coordenao editorial
MARIA ANGELA VILLELA
Preparao de originais
MARIA JOS DE SANT'ANNA
Produo editorial
JAQUELINE LAVR
Reviso
ANA PAULA DA CUNHA, ADRIANE CURVELLO E MARCO A. AFONSO
Projeto grfico, editorao e capa
MRIAM LERNER
Produo grfica
ARMANDO P. GOMES
CIP - BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS
B951L Bulfinch, Thomas, 1796-1867
26a ed O livro de ouro da mitologia: (a idade da fbula) :
histrias de deuses e heris / Thomas Bulfinch ; traduo de David Jardim
Jnior - 26a ed. - Rio de janeiro, 2002
Traduo de : The age of fable
ISBN 85-00-00671-4
1. Mitologia clssica. 2- Mitologia grega. 3. Mitologia romana.
I. Ttulo. II. Ttulo: Histria de deuses e heris.
99-0642. CDD 292.13
CDU 292
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 O Livro de Ouro da Mitologia corresponde ao volume A Idade da Fbula 
de Thomas Bulfinch.  o melhor livro de referncia e divulgao da mitologia, 
indicado em centenas de escolas e universidades de todo o mundo. 
Thomas Bulfinch nasceu em 1796 em Massachusetts, Estados Unidos, 
filho do famoso arquiteto Charles Bulfinch. Graduou-se em 1814 pela 
Universidade de Harvard e foi professor da Boston Latin School. Bulfinch 
tentou o comrcio mas foi  falncia. 
A literatura foi seu interesse principal durante toda a vida, e A Idade da 
Fbula, seu trabalho mais conhecido, tornou-se o livro mais famoso de 
divulgao da mitologia. Estava escrevendo Heris e Sbios da Grcia e Roma 
quando faleceu, em 1867. 


 


Fragmento do topo de uma coluna do Templo de Apolo 





SUMRIO 
I INTRODUO 6 
II PROMETEU E PANDORA 19 
III APOLO E DAFNE - PRAMO E TISBE - CFALO E PRCRIS 27 
IV JUNO E SUAS RIVAIS, IO E CALISTO - DIANA E ACTON - LATONA E OS CAMPONESES 39 
V FAETONTE 51 
VI MIDAS - BUCIS E FILMON 59 
VII PROSRPINA - GLAUCO E SILA 67 
VIII PIGMALIO - DROPE - VNUS E ADNIS - APOLO E JACINTO 78 
IX CEIX E ALCONE - AS ALCONES 86 
X VERTUNO E POMONA 94 
XI CUPIDO E PSIQUE 99 
XII CADMO - OS MIRMIDES 112 
XIII NISO E SILA - ECO E NARCISO - CLTIA, HELO E LEANDRO 120 
XIV MINERVA - NOBE 130 
XV AS GREIAS E AS GRGONAS - PERSEU - MEDUSA - ATLAS - ANDRMEDA 142 
XVI OS MONSTROS: GIGANTES, A ESFINGE, PGASO E A QUIMERA, CENTAUROS, GRIFOS E 
PIGMEUS 150 
XVII O VELOCINO DE OURO - MEDIA 159 
XVIII MELAGRO E ATALANTA 169 
XIX HRCULES - HEBE E GANIMEDES 176 
XX TESEU - DDALO - CASTOR E PLUX 186 
XXI BACO - ARIADNE 196 ---


XXII AS DIVINDADES RURAIS - ERISCHTON - RECO - AS DIVINDADES AQUTICAS - AS 
CAMENAS - OS VENTOS 204 





 XXIII AQUELAU E HRCULES - ADMETO E ALCESTES - ANTGONA - PENLOPE 216 
XXIV ORFEU E EURDICE - ARISTEU - ANFON - LINO - TMIRIS - MRSIAS - 
MELMPUS 224 
XXV RION - BICUS - SIMNIDES - SAFO 235 
XXVI ENDIMIO - RION - AURORA E TITONO - CIS E GALATIA 246 
XXVII A GUERRA DE TRIA 254 
XXVIII A QUEDA DE TRIA - REGRESSO DOS GREGOS - AGAMNON, ORESTES E 
ELECTRA 271 
XXIX O REGRESSO DE ULISSES 281 
XXX OS FECIOS - DESTINO DOS PRETENDENTES 294 
XXI AVENTURAS DE ENIAS - AS HARPIAS - DIDO - PALINURO 306 
XXXII AS REGIES INFERNAIS - A SIBILA 316 
XXXIII ENIAS NA ITLIA - CAMILA - EVANDRO - NISO E EURALO - MEZNCIO - 
TURNO 327 
XXXIV PITGORAS - DIVINDADES EGPCIAS - ORCULOS 340 
XXXV ORIGEM DA MITOLOGIA - ESTTUAS DE DEUSES E DEUSAS - POETAS DA 
MITOLOGIA 352 
XXXVI MONSTROS MODERNOS - A FNIX - O BASILISCO - O UNICRNIO - A 
SALAMANDRA 362 
XXXVII MITOLOGIA ORIENTAL - ZOROASTRO - MITOLOGIA HINDU - CASTAS - BUDA - 
DALAI LAMA 369 
XXXVIII MITOLOGIA NRDICA - VALHALA - AS VALQURIAS 380 
XXXIX A VISITA DE TOR A JOTUNHEIM 388 
XL A MORTE DE BALDUR - OS ELFOS - CARACTERES RNICOS - OS ESCALDOS - A 
ISLNDIA 395 
XLI OS DRUIDAS - IONA 403 
XLII BEOWULF 410 
NDICE ONOMSTICO 413 






 CAPTULO I 
INTRODUO 
---


A 



s religies da Grcia e da Roma antigas desapareceram. As chamadas 
divindades do Olimpo no tm mais um s homem que as cultue, entre 
os vivos. J no pertencem  teologia, mas  literatura e ao bom gosto. 
Ainda persistem, e persistiro, pois esto demasiadamente vinculadas s mais 
notveis produes da poesia e das belas artes, antigas e modernas, para carem 
no esquecimento. 
Propomo-nos a contar episdios relativos quelas divindades, que nos 
chegaram dos antigos, e aos quais aludem, com freqncia, poetas, ensastas e 
oradores modernos. Desse modo, nossos leitores podero, a um s tempo, 
distrair-se com as mais encantadoras fices que a fantasia jamais criou, e 
adquirir conhecimentos indispensveis a todo aquele que se quiser familiarizar 
com a boa literatura de sua prpria poca. 
A fim de compreendermos aqueles episdios, cumpre-nos, em primeiro 
lugar, conhecer as idias sobre a estrutura do universo, aceita pelos gregos - o 
povo de quem os romanos, e as demais naes receberam sua cincia e sua 
religio. 
Os gregos acreditavam que a Terra fosse chata e redonda, e que seu pas 
ocupava o centro da Terra, sendo seu ponto central, por sua vez, o Monte 
Olimpo, residncia dos deuses, ou Delfos, to famoso por seu orculo. 








Vnus de Milo 

Grego 

MUSEU DO LOUVRE, PARIS 



O disco circular terrestre era atravessado de leste a oeste e dividido em duas 
partes iguais pelo Mar, como os gregos chamavam o Mediterrneo e sua 
continuao, o Ponto Euxino, os nicos mares que conheciam. 
Em torno da Terra corria o rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte 
na parte ocidental da Terra e em direo contrria do lado oriental. Seu curso 
firme e constante no era perturbado pelas mais violentas tempestades. Era dele 
que o mar e todos os rios da Terra recebiam suas guas. 
A parte setentrional da Terra era supostamente habitada por uma raa 
feliz, chamada hiperbreos, que desfrutava uma primavera eterna e uma 
felicidade perene, por trs das gigantescas montanhas, cujas cavernas lanavam 
as cortantes lufadas do vento norte, que faziam tremer de frio os habitantes da 
Hlade (Grcia). Aquele pas era inacessvel por terra ou por mar. Sua gente 
vivia livre da velhice, do trabalho e da guerra. Moore nos deixou um "Canto de 
um Hiperbreo", que assim comea: 
De um pas venho pelo sol banhado, 
De jardins reluzentes, 
Onde o vento do norte jaz domado 
E os uivos estridentes. 
Na parte meridional da Terra, junto ao curso do Oceano, morava um 
povo to feliz e virtuoso como os hiperbreos, chamado etope. Os deuses 
o favoreciam a tal ponto, que se dispunham, s vezes, a deixar os cimos 
do Olimpo, para compartilhar de seus sacrifcios e banquetes. 
Na parte ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar 
abenoado, os Campos Elseos, para onde os mortais favorecidos pelos 
deuses eram levados, sem provar a morte, a fim de gozar a imortalidade 
da bem-aventurana. Essa regio feliz era tambm conhecida como os 
Campos Afortunados ou Ilha dos Abenoados. 
Como se v, os gregos dos tempos primitivos pouca coisa sabiam a 
respeito dos outros povos, a no ser os que habitavam as regies situadas 
a leste e ao sul de seu prprio pas, ou perto do litoral do Mediterrneo. 
Sua imaginao, enquanto isto, povoava a parte ocidental daquele mar de 
gigantes, monstros e feiticeiras, ao mesmo tempo em que colocava em 
torno do disco da Terra, que provavelmente consideravam como de extenso 
reduzida, naes que gozavam favores especiais dos deuses, que as 
beneficiavam com a aventura e a longevidade. 



 Supunha-se que a Aurora, o Sol e a Lua levantavam-se no Oceano, em sua 
parte oriental, e atravessavam o ar, oferecendo luz aos deuses e aos homens. 
Tambm as estrelas, com exceo das que formavam as constelaes das Ursas, 
e outras que lhes ficavam prximas, levantavam-se e deitavam-se no Oceano. 
Ali, o deus-sol embarcava num barco alado, que o transportava em torno da 
parte setentrional da Terra, at o lugar onde se levantava, no nascente. Milton 
faz aluso a esse fato em seu "Comus": 
Eis que do dia o carro refulgente, 
Com seu eixo de ouro, docemente, 
Sulca as guas do oceano, sem desmaio, 
Enquanto do inclinado sol o raio 
Para o alto se volta, como seta 
Visando, com firmeza, a outra meta 
De sua moradia no nascente. 

 

 

A morada dos deuses era o 
cume do Monte Olimpo, na 
Tesslia. Uma porta de nuvem, 
da qual tomavam conta as 
deusas chamadas Estaes, 
abria-se a fim de permitir a 
passagem dos imortais para 
a Terra e para dar-lhes 
entrada, em seu regresso. Os 
deuses tinham moradas 
distintas; todos, porm, quando 
convocados, compareciam ao 
palcio de Jpiter, do mesmo modo 
que faziam as divindades cuja 
morada habitual ficava na Terra, nas 

O Olimpo 

Luigi Sabatelli 

 

 





 guas, ou embaixo do mundo. Era tambm no grande salo do palcio do rei do 
Olimpo que os deuses se regalavam, todos os dias, com ambrosia e nctar, seu 
alimento e bebida, sendo o nctar servido pela linda deusa Hebe. Ali discutiam os 
assuntos relativos ao cu e  terra; enquanto saboreavam o nctar, Apolo, deus da 
msica, deliciava-os com os sons de sua lira e as musas cantavam. Quando o sol se 
punha, os deuses retiravam-se para as suas respectivas moradas, a fim de dormir. 
Os versos seguintes da "Odissia" mostram como Homero concebia o 
Olimpo: 
Disse Minerva, a deusa de olhos pulcros, 
E ao Olimpo subiu,  regia e eterna 
Sede dos deuses, onde a tempestade 
Ruge jamais, e a chuva no atinge 
E nem a neve. Onde o dia brilha 
Num cu limpo de nuvens e ameaas. 
Felicidades sempiterna gozam 

Ali os seus divinos habitantes1 


1 (N. do T.) no original ingls, os versos de Homero so apresentados em verso de Cowper. 

As tnicas e outras peas dos vesturios das deusas eram tecidas por Minerva e 
pelas Graas, e todas as demais peas de natureza mais slida eram formadas por 
diversos metais. Vulcano era o arquiteto, o ferreiro, o armeiro, o 
construtor de carros e o artista de todas as obras do Olimpo. 
Construa com bronze as moradas dos deuses; fazia os 
sapatos de ouro com que os imortais caminhavam sobre 
o ar ou sobre a gua, ou se moviam de um lugar para o 
outro, com a velocidade do vento, ou mesmo do 
pensamento. Tambm fazia com o bronze os cavalos 
celestiais, que arrastavam os carros dos deuses pelo ar, ou 
ao longo da superfcie do mar. Tinha o poder de dar 
movimento prprio s suas obras, de sorte que os trpodes 
(carros e mesas) podiam mover-se sozinhos para entrar 
ou sair do palcio celestial. Chegava a dotar de 
inteligncia as servas de ouro que fazia para cuidar 
dele prprio. 



 Jpiter 


Jpiter ou Jove (Zeus)2, embora chamado pai dos deuses e dos homens, 
tivera um comeo. Seu pai foi Saturno (Cronos) e sua me Ria (Ops). Saturno e 
Ria pertenciam  raa dos Tits, filhos da Terra e do Cu, que surgiram do Caos, 
sobre o qual falaremos com mais mincia no prximo captulo. 
Havia outra cosmogonia, ou verso sobre a criao, de acordo com a qual a 
Terra, o rebo e o Amor foram os primeiros seres. O Amor (Eros) nasceu do ovo 
da Noite, que flutuava no Caos. Com suas setas e sua tocha, atingia e animava 
todas as coisas, espalhando a vida e a alegria. 

2 Os nomes entre parnteses so gregos, os outros, romanos ou latinos. 

Saturno e Ria no eram os nicos Tits. Havia outros, cujos nomes eram 
Oceano, Hiprion, Iapeto e Ofon, do sexo masculino; e Tmis, Mnemsine, 
Eurgnome, do sexo feminino. Eram os deuses primitivos, cujo domnio foi, depois, 
transferido para outros. Saturno cedeu lugar a Jpiter, Oceano e Netuno; Hiprion, a 
Apolo. Hiprion era o pai do Sol, da Lua e da Aurora. , portanto, o deus-sol original 
e apresentavam-no com o esplendor e a beleza mais tarde atribudos a Apolo.

 





As madeixas de Hiprion, do prprio Jove afronte. 
SHAKESPEARE 
Ofon e Eurnome governaram o Olimpo, at serem destronados por 
Saturno e Ria. Milton faz aluso a eles, no Paraso Perdido, dizendo que os 
pagos parecem ter tido algum conhecimento da tentao e da queda do homem: 
Contavam em suas lendas que a serpente 
A quem chamavam Ofion, com Eurnome, 
(Talvez a mesma usurpadora Eva) 
Reinaram no princpio sobre o Olimpo 

De onde Saturno os expulsou depois. 


Afrodite 

Sidone 

MUSEU DO LOUVRE, 

PARIS 

As representaes de Saturno no so muito consistentes; de um lado, dizem 
que seu reino constituiu a idade de ouro da inocncia e da pureza, e, por outro lado, 
ele  qualificado como um monstro, que devorava os prprios filhos1. Jpiter, 
contudo, escapou a esse destino e, quando cresceu, desposou Mtis 
(Prudncia) e esta ministrou um medicamento a Saturno, que o fez vomitar 
seus filhos. Jpiter, juntamente com seus irmos e irms, rebelou-se, 
ento, contra Saturno e seus irmos, os Tits, venceu-os e aprisionou 
alguns deles no Trtaro, impondo outras penalidades aos demais. Atlas 
foi condenado a sustentar o cu em seus ombros. 

1 Essa inconsistncia vem do fato de se confundir o Saturno dos romanos com a divindade Cronos (Tempo) dos 
gregos, que, como traz um fim a todas as coisas que tiveram um comeo,  acusada de devorar a prpria prole. 

Depois do destronamento de Saturno, Jpiter dividiu os domnios 
paternos com seus irmos Netuno (Poseidon) e Pluto (Dis). Jpiter ficou 
com o cu, Netuno, com o oceano, e Pluto com o reino dos mortos. A 
Terra e o Olimpo eram propriedades comuns. Jpiter tornou-se rei dos 
deuses e dos homens. Sua arma era o raio e ele usava um escudo chamado 
gide, feito por Vulcano. Sua ave favorita era a guia, que carregava os raios. 

Juno (Hera) era a esposa de Jpiter e rainha dos deuses. ris, a deusa 
do arco-ris, era a servente e mensageira de Juno. O pavo, sua ave favorita. 

Vulcano (Hefesto), o artista celestial, era filho de Jpiter e de Juno. 
Nascera coxo e sua me sentiu-se to aborrecida ao v-lo que o atirou para 

 



fora do cu. Outra verso diz que Jpiter atirou-o para fora com um pontap, 
devido  sua participao numa briga do rei do Olimpo com Juno. O defeito 
fsico de Vulcano seria conseqncia dessa queda. Sua queda durou um dia 
inteiro e o deus coxo acabou caindo na Ilha de Lenos que, desde ento, lhe foi 
consagrada. Milton alude a esse episdio, no Livro I do Paraso Perdido: 
Caiu do amanhecer ao meio-dia, 
Do meio-dia at a noite vir. 
Um dia inteiro de vero, com o sol 
Posto, do znite caiu, tal como 
Uma estrela cadente, na ilha egia 
De Lenos. 
Marte (Ares), deus da guerra, era tambm filho de Jpiter e de Juno. 
Febo (Apolo), deus da arte de atirar com o arco, da profecia e da msica, 
era filho de Jpiter e de Latona, e irmo de Diana (rtemis). Era o deus do sol, 
como sua irm Diana era a deusa da lua. 
Vnus (Afrodite), deusa do amor e da beleza, era filha de Jpiter e Dione, 
mas outra verso a d como sada da espuma do mar. O Zfiro a levou, sobre as 
ondas, at a Ilha de Chipre, onde foi recolhida e cuidada pelas Estaes, que a 
levaram, depois,  assemblia dos deuses. Todos ficaram encantados com sua 
beleza e desejaram-na para esposa. Jpiter deu-a a Vulcano, em gratido pelo 
servio que ele prestara, forjando os raios. Desse modo, a mais bela das deusas 
tornou-se esposa do menos favorecido dos deuses. Vnus possua um cinto 
bordado, o Cestus, que tinha o poder de inspirar o amor. Suas aves preferidas 
eram os pombos e os cisnes, e a rosa e o mirto eram as plantas a ela dedicadas. 
Cupido (Eros), deus do amor, era filho de Vnus, e seu companheiro 
constante. Armado com seu arco, desfechava as setas do desejo no corao dos 
deuses e dos homens. Havia, tambm, uma divindade chamada Antero, 
apresentada, s vezes, como o vingador do amor desdenhado e, outras vezes, 
como o smbolo do afeto recproco. Contava-se a seu respeito, a seguinte lenda: 





Tendo Vnus queixado-se a Tmis de que seu filho Eros continuava 
sempre criana, foi-lhe explicado que isso se dava porque Cupido vivia solitrio. 
Haveria de crescer, se tivesse um irmo. Antero nasceu pouco depois e, logo em 
seguida, Eros comeou a crescer e a tornar-se robusto. 
Minerva (Palas), a deusa da sabedoria, era filha de Jpiter, mas no tinha 
me. Sara da cabea do rei dos deuses, completamente armada. A coruja era sua 
ave predileta e a planta a ela dedicada era a oliveira. 
Byron, em "Childe Harold" refere-se, da seguinte maneira, ao nascimento 
de Minerva: 
No podem, por acaso, os tiranos 
Seno pelos tiranos ser vencidos, 
No pode mais, acaso, a Liberdade 
Achar na Terra um campeo, um filho, 
Como Colmbia, ao irromper, um dia, 
Armada e imaculada como Palas? 
Mercrio (Hermes), filho de Jpiter e de Maia, era o deus do comrcio, 
da luta e de outros exerccios ginsticos e at mesmo da ladroeira; em suma, de 
tudo quanto requeresse destreza e habilidade. Era o mensageiro de Jpiter e 
trazia asas no chapu e nas sandlias. Na mo, levava uma haste com duas 
serpentes, chamada caduceu. 
Atribua-se a Mercrio a inveno da lira. Certo dia, encontrando um 
casco de tartaruga, fez alguns orifcios nas extremidades opostas do mesmo, 
introduziu fios de linho atravs desses orifcios, e o instrumento estava 
completo. As cordas eram nove, em honra das musas. Mercrio ofereceu a lira a 
Apolo, recebendo dele, em troca, o caduceu. 
Ceres (Demter), filha de Saturno e de Ria, tinha uma filha chamada 
Prosrpina (Persfone), que se tornou mulher de Pluto e rainha do reino dos 
mortos. Ceres era a deusa da agricultura. 
Baco (Dioniso), deus do vinho, era filho de Jpiter e de Semeie. No 
representava apenas o poder embriagador do vinho, mas tambm suas 
influncias benficas e sociais, de maneira que era tido como o promotor da 
civilizao, legislador e amante da paz. 





 

As Musas, filhas de Jpiter e 
Mnemsine (Memria), eram as 
deusas do canto e da memria. Em 
nmero de nove, tinham as musas 
a seu encargo, cada uma 
separadamente, um ramo especial 
da literatura, da cincia e das artes. 
Calope era a musa da poesia pica, 
Clio, da histria, Euterpe, da poesia 
lrica, Melpmene, da tragdia, Terpscore, da 
dana e do canto, Erato, da poesia ertica, Polnia, da poesia sacra, 
Urnia, da astronomia e Talia, da comdia. 

Cupido e As Graas 

Franois Boucher 

NATIONAL GALLERY 
OF ART, 
WASHINGTON, D.C. 

 

As Trs Graas, Eufrosina, Agla e Talia, eram as deusas do 
banquete, da dana, de todas as diverses sociais e das belas-artes 
Assim descreve Spenser as atividades das Trs Graas: 
Ofertam as trs ao homem os dons amveis 
Que ornam o corpo e ornamentam a inteligncia: 
Aspecto sedutor, bela aparncia, 
Voz de louvor e gestos de amizade. 
Em suma, tudo aquilo que, entre os homens, 
Se costuma chamar Civilidade. 
Tambm as Parcas eram trs: Cloto, Lquesis e tropos. Sua ocupao 
consistia em tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortavam-no, 
quando muito bem entendiam. Eram filhas de Tmis (a Lei), que Jove fez sentar 
em seu prprio trono, para aconselh-lo. 
As Ernias, ou Frias, eram trs deusas que puniam, com tormentos 
secretos, os crimes daqueles que escapavam ou zombavam da justia pblica. 
Tinham as cabeas cobertas de serpentes e o aspecto terrvel e amedrontador. 
Conhecidas tambm como as Eumnides, chamavam-se, respectivamente, 
Alecto, Tisfone e Megera. 
Nmese era tambm uma deusa da vingana, que representava a justa ira 
dos imortais, em particular para com os orgulhosos e insolentes. 
P, que tinha a Arcdia como morada favorita, era o deus dos rebanhos e 
dos pastores. 





Os Stiros eram divindades dos bosques e dos campos, imaginados como 
tendo cabelos cerdosos, pequenos chifres e ps de cabra. Momo era o deus da 
alegria e Pluto, o deus da riqueza. 
DIVINDADES ROMANAS 
As divindades mencionadas at agora so gregas, embora tambm aceitas 
pelos romanos. Mencionemos, agora, as divindades peculiares a Roma. 
Saturno era um antigo deus italiano. Tentou-se identific-lo com o deus 
grego Cronos, imaginando-se que, depois de destronado por Jpiter, ele teria 
fugido para a Itlia, onde reinou durante a chamada Idade de Ouro. Em memria 
desse reinado benfico, realizavam-se todos os anos, durante o inverno, as 
festividades denominadas saturnais. Todos os negcios pblicos eram, ento, 
suspensos, as declaraes de guerra e as execues de criminosos adiadas, os 
amigos trocavam presentes e os escravos adquiriam liberdades momentneas: 
era-lhes oferecida uma festa, na qual eles se sentavam  mesa, servidos por seus 
senhores. Isso destinava-se a mostrar que, perante a natureza, todos os homens 
so iguais e que, no reinado de Saturno, os bens da terra eram comuns a todos. 

Fauno2, neto de Saturno, era cultuado como deus dos campos e dos 
pastores, e tambm como uma divindade proftica. No plural, seu nome era 
empregado para denominar divindades brincalhonas, os faunos, semelhantes aos 
stiros dos gregos. 
Quirino era deus da guerra que se confundia com Rmulo, o fundador de 
Roma, o qual, depois de morto, fora levado para ter um lugar entre os deuses. 
Belona era a deusa da guerra. Terminus, o deus dos limites territoriais. 
Sua imagem resumia-se numa simples pedra ou num poste, fincado no cho, 
para marcar os limites que separavam os campos de um proprietrio do campo 
de seu vizinho. 
Pales era a deusa que velava pelo gado e pelas pastagens, Pomona a que 
cuidava das rvores frutferas e Flora, a deusa das flores. 
Lucina presidia os nascimentos. 

2 H, tambm, uma deusa chamada Fauna ou Bona Dea. 





Vesta (a Hstia dos gregos) velava pelas lareiras. Em seu templo, ardia 
constantemente um fogo sagrado, sob a guarda de seis sacerdotisas virgens, as 
Vestais. Como se acreditava que a salvao da cidade dependia da conservao 
desse fogo, a negligncia das vestais, caso o fogo se extinguisse, era punida com 
extrema severidade, e o fogo era aceso de novo, por meio dos raios do sol. 
Liber era o nome latino de Baco; Mulcber, o de Vulcano. 

Jano era o porteiro do cu. Era ele que abria o ano, e o seu primeiro ms 
at hoje o relembra. Como divindade guardi das portas, era geralmente 
apresentado com duas cabeas, pois todas as 
portas se voltam para dois lados. Seus templos 
em Roma eram numerosos. Em tempo de guerra 
suas portas principais permaneciam abertas. Em 
tempo de paz, eram fechadas. S foram fechadas, 
porm, uma vez no reinado de Numa e outra no 
reinado de Augusto. 

Os Penates eram os deuses que atendiam ao 
bem-estar e prosperidade das famlias. Seu nome 
vem de Penus, a despensa, que a eles era 
consagrada. Cada chefe de famlia era o sacerdote 
dos Penates de sua casa. 

Os Lares eram tambm deuses da famlia, 
mas diferiam dos Penates porque eram espritos 
deificados de mortais. Os lares de uma famlia 
eram as almas dos antepassados, que velavam por 
seus descendentes. As expresses lmures e larva 
correspondiam mais ou menos  nossa expresso 
"fantasma". 

 

 

 

Saturno 

Agostino de Duccin 

 

 

 





Os romanos acreditavam que cada homem tinha seu Gnio e cada mulher, sua 
Juno, isto , um esprito que lhes dera a vida e que era considerado como seu 
protetor, durante toda a vida. No dia de seu aniversrio, os homens faziam 
oferendas ao seu Gnio, as mulheres,  sua Juno. 
Assim alude um poeta moderno a algumas dessas divindades romanas: 
A saborosa fruta ama Pomona 
E Liber prefere a vinha. 
Pales prefere a estala, a fresca palha 
Que o calor do gado aquece. 
Vnus ama as palavras sussurrantes 
Do jovem e da namorada 
No doce abril, das rvores  sombra, 
Por noite enluarada. 
MACAULAY, "Profecia de Cpis" 


 



 CAPTULO II 
PROMETEU E PANDORA 
---


A 



 criao do mundo  um problema que, muito naturalmente, desperta a 
curiosidade do homem, seu habitante. Os antigos pagos, que no 
dispunham, sobre o assunto, das informaes de que dispomos, 
procedentes das Escrituras, tinham sua prpria verso sobre o acontecimento, 
que era a seguinte: 
Antes de serem criados o mar, a terra e o cu, todas as coisas 
apresentavam um aspecto a que se dava o nome de Caos - uma informe e 
confusa massa, mero peso morto, no qual, contudo, jaziam latentes as sementes 
das coisas. A terra, o mar e o ar estavam todos misturados; assim, a terra no era 
slida, o mar no era lquido e o ar no era transparente. Deus e a Natureza 
intervieram finalmente e puseram fim a essa discrdia, separando a terra do mar 
e o cu de ambos. Sendo a parte gnea a mais leve, espalhou-se e formou o 
firmamento; o ar colocou-se em seguida, no que diz respeito ao peso e ao lugar. 
A terra, sendo a mais pesada, ficou para baixo, e a gua ocupou o ponto inferior, 
fazendo-a flutuar. 
Nesse ponto, um deus - no se sabe qual - tratou de empregar seus 
bons ofcios para arranjar e dispor as coisas na Terra. Determinou aos rios e 
lagos seus lugares, levantou montanhas, escavou vales, distribuiu os bosques, as 
fontes, os campos frteis e as ridas plancies, os peixes tomaram posse do mar, 
as aves, do ar e os quadrpedes, da terra. 






Tornara-se necessrio, porm, um animal mais nobre, e foi feito o 
Homem. No se sabe se o criador o fez de materiais divinos, ou se na Terra, h 
to pouco tempo separada do cu, ainda havia algumas sementes celestiais 
ocultas. Prometeu tomou um pouco dessa terra e, misturando-a com gua, fez o 
homem  semelhana dos deuses. Deu-lhe o porte erecto, de maneira que, 
enquanto os outros animais tm o rosto voltado para baixo, olhando a terra, o 
homem levanta a cabea para o cu e olha as estrelas. 
Prometeu era um dos tits, uma raa gigantesca, que habitou a Terra antes 
do homem. Ele e seu irmo Epimeteu foram incumbidos de fazer o homem e 
assegurar-lhe, e aos outros animais, todas as faculdades necessrias  sua 
preservao. Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu, de examin-la, depois 
de pronta. Assim, Epimeteu tratou de atribuir a cada animal seus dons variados, 
de coragem, fora, rapidez, sagacidade; asas a um, garras a outro, uma carapaa 
protegendo um terceiro etc. Quando, porm, chegou a vez do homem, que tinha 
de ser superior a todos os outros animais, Epimeteu gastara seus recursos com 
tanta prodigalidade que nada mais restava. Perplexo, recorreu a seu irmo 
Prometeu, que, com a ajuda de Minerva, subiu ao cu e acendeu sua tocha no 
carro do sol, trazendo o fogo para o homem. Com esse dom, o homem assegurou 
sua superioridade sobre todos os outros animais. O fogo lhe forneceu o meio de 
construir as armas com que subjugou os animais e as ferramentas com que 
cultivou a terra; aquecer sua morada, de maneira a tornar-se relativamente 
independente do clima, e, finalmente, criar a arte da cunhagem das moedas, que 
ampliou e facilitou o comrcio. 

A mulher no fora ainda criada. A verso (bem absurda)  que Jpiter a fez 
e enviou-a a Prometeu e a seu irmo, para puni-los pela ousadia de furtar o fogo 
do cu, e ao homem, por t-lo aceito. A primeira mulher chamava-se Pandora. Foi 
feita no cu, e cada um dos deuses contribuiu com alguma coisa para aperfeio-
la. Vnus deu-lhe a beleza, Mercrio, a persuaso, Apolo, a msica etc. Assim 
dotada, a mulher foi mandada  Terra e oferecida a Epimeteu, que de boa vontade 
a aceitou, embora advertido pelo irmo para ter cuidado com Jpiter e seus 
presentes. Epimeteu tinha em sua casa uma caixa, na qual guardava certos 
artigos malignos, de que no se utilizara, ao preparar o homem para sua nova 



 Pandora abre a caixa. 
Walter Crane 





morada. Pandora foi tomada por intensa curiosidade de saber o que continha 
aquela caixa, e, certo dia, destampou-a para olhar. Assim, escapou e se espalhou 
por toda a parte uma multido de pragas que atingiram o desgraado homem, 
tais como a gota, o reumatismo e a elica, para o corpo, e a inveja, o despeito e a 
vingana, para o esprito. Pandora apressou-se em colocar a tampa na caixa, 
mas, infelizmente, escapara todo o contedo da mesma, com exceo de uma 
nica coisa, que ficara no fundo, e que era a esperana. Assim, sejam quais 
forem os males que nos ameacem, a esperana no nos deixa inteiramente; e, 
enquanto a tivermos, nenhum mal nos torna inteiramente desgraados. 
Uma outra verso  a de que Pandora foi mandada por Jpiter com boa 
inteno, a fim de agradar ao homem. O rei dos deuses entregou-lhe, como 
presente de casamento, uma caixa, em que cada deus colocara um bem. Pandora 
abriu a caixa, inadvertidamente, e todos os bens escaparam, exceto a esperana. 
Essa verso , sem dvida, mais aceitvel do que a primeira. Realmente, como 
poderia a esperana, jia to preciosa quanto , ter sido misturada a toda a sorte 
de males, como na primeira verso? 
Estando assim povoado o mundo, seus primeiros tempos constituram 
uma era de inocncia e ventura, chamada a Idade de Ouro. Reinavam a verdade 
e a justia, embora no impostas pela lei, e no havia juzes para ameaar ou 
punir. As florestas ainda no tinham sido despojadas de suas rvores para 
fornecer madeira aos navios, nem os homens haviam construdo fortificaes em 
torno de suas cidades. Espadas, lanas ou elmos eram objetos desconhecidos. A 
terra produzia tudo necessrio para o homem, sem que este se desse ao trabalho 
de lavrar ou colher. Vicejava uma primavera perptua, as flores cresciam sem 
sementes, as torrentes dos rios eram de leite e de vinho, o mel dourado escorria 
dos carvalhos. 
Seguiu-se a Idade de Prata, inferior  de Ouro, porm melhor do que a de 
Cobre. Jpiter reduziu a primavera e dividiu o ano em estaes. Pela primeira 
vez o homem teve de sofrer os rigores do calor e do frio, e tornaram-se 
necessrias as casas. As primeiras moradas foram as cavernas, os abrigos das 
rvores frondosas e cabanas feitas de hastes. Tornou-se necessrio plantar para 
colher. O agricultor teve de semear e de arar a terra, com ajuda do boi. 





Veio, em seguida, a Idade de Bronze, j mais agitada e sob a ameaa das 
armas, mas ainda no inteiramente m. A pior foi a Idade do Ferro. O crime 
irrompeu, como uma inundao; a modstia, a verdade e a honra fugiram, 
deixando em seus lugares a fraude e a astcia, a violncia e a insacivel 
cobia. Os marinheiros estenderam as velas aos ventos e as rvores foram 
derrubadas nas montanhas para servir de quilhas dos navios e ultrajar a face 
do oceano. A terra, que at ento fora cultivada em comum, comeou a ser 
dividida entre os possuidores. Os homens no se contentaram com o que 
produzia a superfcie: escavou-se ento a terra e tirou-se do seu seio os 
minrios e metais. Produziu-se o danoso ferro e o ainda mais danoso ouro. 
Surgiu a guerra, utilizando-se de um e de outro como armas; o hspede no 
se sentia em segurana em casa de seu amigo; os genros e sogros, os irmos e 
irms, os maridos e mulheres no podiam confiar uns nos outros. Os filhos 
desejavam a morte dos pais, a fim de lhes herdarem a riqueza; o amor 
familiar caiu prostrado. A terra ficou mida de sangue, e os deuses a 
abandonaram, um a um, at que ficou somente Astria1, que, finalmente, 
acabou tambm partindo. 
Vendo aquele estado de coisas, Jpiter indignou-se e convocou os 
deuses para um conselho. Todos obedeceram  convocao e tomaram o 
caminho do palcio do cu. Esse caminho pode ser visto por qualquer um nas 
noites claras, atravessando o cu, e  chamado de Via Lctea. Ao longo dele 
ficam os palcios dos deuses ilustres; a plebe celestial vive  parte, de um 
lado ou de outro. 
Dirigindo-se  assemblia, Jpiter exps as terrveis condies que 
reinavam na Terra e encerrou as suas palavras anunciando a inteno de 
destruir todos os seus habitantes e fazer surgir uma nova raa, diferente da 
primeira, que seria mais digna de viver e saberia melhor cultuar os deuses. 
Assim dizendo, apoderou-se de um raio e j estava prestes a atir-lo contra 
o mundo, destruindo-o pelo fogo, quando atentou para o perigo que o 
incndio poderia acarretar para o prprio cu. Mudou, ento, de idia, e 
resolveu inundar a terra. O vento norte, que espalha as nuvens, foi 
encadeado; o vento sul foi solto e em breve cobriu todo o cu com escurido 
profunda. As nuvens, empurradas em bloco, romperam-se com fragor; 
torrentes de chuva caram; as plantaes inundaram-se; o trabalho de um 

1 Deusa da inocncia e da pureza. Depois de sair da Terra, foi colocada entre as estrelas, onde se transformou na 
constelao Virgo. Era filha de Tmis (Justia), representada com uma balana, em que pesa as alegaes das 
partes adversrias. 
Uma idia favorita dos antigos poetas era a de que aquelas deusas um dia regressaro  Terra, trazendo 
de volta a Idade do Ouro. 



ano do lavrador pereceu em uma hora. No satisfeito com suas prprias guas, 
Jpiter pediu a ajuda de seu irmo Netuno. Este soltou os rios e lanou-os sobre 
a terra. Ao mesmo tempo, sacudiu-a com um terremoto e lanou o refluxo do 
oceano sobre as praias. Rebanhos, animais, homens e casas foram engolidos e os 
templos, com seus recintos sacros, profanados. Todo edifcio que permanecera 
de p foi submergido e suas torres ficaram abaixo das guas. Tudo se 
transformou em mar, num mar sem praias. Aqui e ali, um indivduo refugia-se 
num cume e alguns poucos, em barcos, apiam o remo no mesmo solo que ainda 
h pouco o arado sulcara. Os peixes nadam sobre os galhos das rvores; a ncora 
se prende num jardim. Onde recentemente os cordeirinhos brincavam, as focas 
cabriolam desajeitadamente. O lobo nada entre as ovelhas, os fulvos lees e os 
tigres lutam nas guas. A fora do javali de nada lhe serve, nem a ligeireza do 
cervo. As aves tombam, cansadas, na gua, no tendo encontrado terra onde 
pousar. Os seres vivos que a gua poupara caem como presas da fome. 
De todas as montanhas, apenas o Parnaso ultrapassa as guas. Ali, 
Deucalio e sua esposa Pirra, da raa de Prometeu, encontram refgio - ele  
um homem justo, ela, uma devota fiel dos deuses. Vendo que no havia outro 
vivente alm desse casal, e lembrando-se de sua vida inofensiva e de sua 
conduta piedosa, Jpiter ordenou aos ventos do norte que afastassem as nuvens e 
mostrassem o cu  terra e a terra ao cu. Tambm Netuno ordenou a Trito que 
soasse sua concha determinando a retirada das guas. As guas obedeceram; o 
mar voltou s suas costas e os rios, aos seus leitos. Deucalio assim se dirigiu, 
ento, a Pirra: " esposa, nica mulher sobrevivente, unida a mim 
primeiramente pelos laos do parentesco e do casamento, e agora por um perigo 
comum, pudssemos ns possuir o poder de nosso antepassado Prometeu e 
renovar a raa, como ele fez, pela primeira vez! Como no podemos, porm, 
dirijamo-nos quele templo e indaguemos dos deuses o que nos resta fazer." 
Entraram num templo coberto de lama e aproximaram-se do altar, onde nenhum 
fogo crepitava. Prostraram-se na terra e rogaram  deusa que os esclarecesse 
sobre a maneira de se comportar naquela situao miservel. "Sa do templo 
com a cabea coberta e as vestes desatadas e atirai para trs os ossos de 





vossa me" - respondeu o orculo. Estas palavras foram ouvidas com 
assombro. Pirra foi a primeira a romper o silncio: "No podemos obedecer; no 
vamos nos atrever a profanar os restos de nossos pais." Seguiram pela fraca 
sombra do bosque, refletindo sobre o orculo. Afinal, Deucalio falou: "Se 
minha sagacidade no me ilude, poderemos obedecer  ordem sem cometermos 
qualquer impiedade. A terra  a me comum de ns todos; as pedras so seus 
ossos; poderemos lan-las para trs de ns; e creio ser isto que o orculo quis 
dizer. Pelo menos, no far mal tentar." Os dois velaram o rosto, afrouxaram as 
vestes, apanharam as pedras e atiraram-nas para trs. As pedras (maravilha das 
maravilhas!) amoleceram e comearam a tomar forma. Pouco a pouco, foram 
assumindo uma grosseira semelhana com a forma humana, como um bloco 
ainda mal acabado nas mos de um escultor. A umidade e o lodo que havia 
sobre elas transformaram-se em carne; a parte ptrea transformou-se nos ossos; 
as veias ou veios da pedra continuaram veias, conservando seu nome e apenas 
mudando sua utilidade. As pedras lanadas pelas mos do homem tornaram-se 
homens, as lanadas pela mulher tornaram-se mulheres. Era uma raa forte e 
bem disposta para o trabalho como at hoje somos, mostrando bem a nossa 
origem. 
A comparao de Eva com Pandora  muito bvia para ter escapado a 
Milton, que a apresenta no Livro IV do Paraso Perdido: 
Mais bela que Pandora a quem os deuses 
Cumularam de todos os seus bens 
E, ah! bem semelhante na desgraa, 
Quando ao insensato filho de Jafete 
Por Hermes conduzido, a humanidade 
Tomou, com sua esplndida beleza, 
E caiu a vingana sobre aquele 
Que de Jove furtou o sacro fogo 
Prometeu e Epimeteu eram filhos de Iapeto que Milton mudou em Jafete. 

Prometeu tem sido um assunto preferido dos poetas. Representa o 
amigo da humanidade, que se colocou em sua defesa, quando Jove se irritou





contra ela, e que ensinou aos homens a civilizao e as artes. Ao assim fazer, 
contudo, desobedeceu  vontade de Jpiter e tornou-se ele prprio alvo da ira do 
rei dos deuses e dos homens. Jpiter mandou acorrent-lo num rochedo do 
Cucaso, onde um abutre lhe arrancava o fgado, que se renovava,  medida que 
era devorado. Essa tortura poderia terminar a qualquer momento, se Prometeu se 
resignasse, a submeter-se ao seu opressor, pois era senhor de um segredo do 
qual dependia a estabilidade do trono de Jove e, se o tivesse revelado, 
imediatamente teria obtido graa. No se rebaixou a faz-lo, porm. Tornou-se, 
assim, smbolo da abnegada resistncia a um sofrimento imerecido e da fora de 
vontade de resistir  opresso. 
Tanto Byron como Shelley abordaram esse tema. So de Shelley os 
seguintes versos: 
Tit, a cujos olhos imortais 
As dores dos mortais 
Mostram-se em sua crua realidade, 
Como algo que os prprios deuses vem, 
Que prmio mereceu tua piedade? 
Um profundo e silente sofrimento, 
O abutre, a corrente, a rocha, 
E o orgulho de sofrer sem um lamento. 
Byron faz aluso ao mesmo episdio em sua "Ode a Napoleo 
Bonaparte": 
Como o ladro do fogo celestial 
Resistirs sem medo 
E compartilhars com o imortal 

O abutre e o rochedo? 



 Captulo III 
APOLO E DAFNE - PRAMO E TISBE - 
CFALO E PRCRIS 
---


O 



 lodo com que as guas do dilvio recobriram a Terra acarretou uma 
excessiva fertilidade, que produziu enorme variedade de coisas, boas e 
ms. Entre elas, surgiu Pton, uma serpente enorme, terror do povo, 
que se refugiou nas cavernas do Monte Parnaso. Apolo matou-a com suas setas 
- armas que no usara antes seno contra fracos animais, como lebres, cabras 
monteses e outras semelhantes. Para comemorar essa grande vitria, ele instituiu 
os jogos pticos, nos quais o vencedor nas provas de fora, rapidez na carreira ou 
nas corridas de carro era coroado com uma grinalda de folhas de faia, pois o 
loureiro ainda no fora escolhido por Apolo como sua planta predileta. 
A famosa esttua de Apolo do Belvedere representa o deus depois de sua 
vitria sobre a serpente Pton. Byron assim alude ao fato no "Childe Harold": 
O potente senhor do arco certeiro, 
Deus da vida, da luz e da poesia, 
O Sol, em forma humana apresentado, 
Radioso com o triunfo no combate. 
Partiu agora mesmo a seta ultriz. 
Nos olhos, nas narinas, se desenham 
O desdm, a altivez prpria de um deus. 






APOLO E DAFNE 
Dafne foi o primeiro amor de Apolo. No surgiu por acaso, mas pela 
malcia de Cupido. Apolo viu o menino brincando com seu arco e suas setas e, 
estando ele prprio muito envaidecido com sua recente vitria sobre Pton, 
disse-lhe: 

- Que tens a fazer com armas mortferas, menino insolente? Deixe-as 
para as mos de quem delas sejam dignos. V a vitria que com elas alcancei, 
contra a vasta serpente que estendia o corpo venenoso por grande extenso da 
plancie! Contenta-te com tua tocha, criana, e atia tua chama, como 
costumas dizer, mas no te atrevas a intrometer-te com minhas armas. 

Abaixo: 

Apolo Belvedere 

Cpia romana 

MUSEU DO 
VATICANO, 

ROMA 

O filho de Vnus ouviu essas palavras e retrucou: 

- Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as 
minhas podem ferir-te. 

Assim dizendo, ps-se de p numa rocha do Parnaso e tirou da 
aljava duas setas diferentes, uma feita para atrair o amor; outra, 
para afast-lo. A primeira era de ouro e tinha a 
ponta aguada, a segunda, de ponta rombuda, 
era de chumbo. Com a seta de ponta de 
chumbo, feriu a ninfa Dafne, filha do rio-deus 
Peneu, e com a de ouro feriu Apolo no 
corao. Sem demora, o deus foi tomado de 
amor pela donzela e esta sentiu horror  idia 
de amar. Seu prazer consistia nas caminhadas pelos 
bosques e na caa. Muitos amantes a buscavam, mas 
ela recusava a todos, passeando pelos bosques, sem 
pensar em Cupido nem em Himeneu. Seu pai muitas 
vezes lhe dizia: "Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos." 
Temendo o casamento como a um crime, com as belas faces 
coradas, ela se abraou ao pai, implorando: "Concede esta 
graa, pai querido! Faze com que eu no me case jamais!" 

 

 

 

 

 






 

Dafne e Apolo 

Antnio Pollaiuolo 

NATIONAL GALLERY, LONDRES 



A contragosto, ele consentiu, observando, ao mesmo tempo, porm: 
- O teu prprio rosto  contrrio a este voto. 
Apolo amou-a e lutou para obt-la; ele, que era o orculo de todo o 
mundo, no foi bastante sbio para prever o seu prprio destino. Vendo os 
cabelos carem desordenados pelos ombros da ninfa, imaginou: "Se so to belos 
em desordem, como devero ser quando arranjados?" Viu seus olhos brilharem 
como estrelas; viu seus lbios, e no se deu por satisfeito s em v-los. Admirou 
suas mos e os braos, nus at os ombros, e tudo que estava escondido da vista 
imaginou mais belo ainda. Seguiu-a; ela fugiu, mais rpida que o vento, e no se 
retardou um momento ante suas splicas. 
- Pra, filha de Peneu! - ele exclamou. No sou um inimigo. No fujas 
de mim, como a ovelha foge do lobo, ou a pomba do milhafre.  por amor que te 
persigo. Sofro de medo que, por minha culpa, caias e te machuques nestas 
pedras. No corras to depressa, peo-te, e correrei tambm mais devagar. No 
sou um homem rude, um campnio boal. Jpiter  meu pai, sou senhor de 
Delfos e Tenedos e conheo todas as coisas, presentes e futuras. Sou o deus do 
canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais 
fatal que as minhas atravessou-me o corao! Sou o deus da medicina e conheo 
a virtude de todas as plantas medicinais. Ah! Sofro de uma enfermidade que 
blsamo algum pode curar! 
A ninfa continuou sua fuga, nem ouvindo de todo a splica do deus. E, 
mesmo ao fugir, ela o encantava. O vento agitava-lhe as vestes e os cabelos 
desatados lhe caam pelas costas. O deus sentiu-se impaciente ao ver 
desprezados os seus rogos e, excitado por Cupido, diminuiu a distncia que o 
separava da jovem. Era como um co perseguindo uma lebre, com a boca aberta, 
pronto para apanh-la, enquanto o dbil animal avana, escapando no ltimo 
momento. Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com 
as do amor. O perseguidor  mais rpido, porm, e adianta-se na carreira: sua 
respirao ofegante, j atinge os cabelos da ninfa. As foras de Dafne comeam 
a fraquejar e, prestes a cair, ela invoca seu pai, o rio-deus: 
- Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me, ou muda minhas 
formas, que me tm sido to fatais! 





Mal pronunciara estas palavras, um torpor lhe ganha todos 
os membros; seu peito comeou a revestir-se de uma leve 
casca; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus 
braos mudam-se em galhos; os ps cravam-se no cho, 
como razes; seu rosto tornou-se o cimo do arbusto, nada 
conservando do que fora, a no ser a beleza. 

Apolo abraou-se aos ramos da rvore e beijou 
ardentemente a madeira. Os ramos afastaram-se de seus 
lbios. 

- J que no podes ser minha esposa - exclamou 
o deus - sers a minha planta preferida. Usarei tuas folhas 
como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava; 
e quando os grandes conquistadores romanos caminharem 
para o Capitlio,  frente dos cortejos triunfais, sers usada 
como coroas para suas frontes. E, to eternamente jovem 
quanto eu prprio, tambm hs de ser sempre verde e tuas 
folhas no envelhecero. 

Apolo e Dafne 

Gian Loreno Bernini 

VLLLA BORGHESE, ROMA 

 

No parecer estranho, sem dvida, que Apolo fosse o 
deus tanto da msica quanto da poesia, mas o h de parecer o fato de a medicina 
fazer companhia quelas duas artes. O poeta Armstrong, que era mdico, assim 
aplica o motivo: 
Exaltando a alegria, por si mesma, 
O sofrimento a msica alivia. 
Os priscos sbios adoravam, assim, 
A medicina, o canto e a melodia. 
Os poetas fazem freqentemente aluso ao episdio de Dafne e de Apolo. 
Waller compara-o ao caso daqueles cujos versos de amor, embora no consigam 
abrandar o corao da amada, servem para trazer fama ao poeta: 
O que cantou, porm, com tal paixo, 
No foi cantado nem sentido em vo. 
Se foi surda a amada ao canto seu, 
O canto aos outros homens comoveu. 
Assim Febo, deixando a ilusria 
Paixo, no louro ps a eterna glria 




A seguinte estrofe do "Adonais" de Shelley alude s primeiras querelas de 
Byron com os crticos: 
Os lobos que s sabem perseguir, 
Os corvos to valentes contra os mortos, 
Os abutres que seguem o vencedor 
E devoram os despojos desprezados, 
Como fugiram todos, quando ele, 
Como Apolo vibrando o ureo arco, 
A seta disparou contra a serpente! 
PRAMO E TISBE 
Pramo era o mais belo jovem e Tisbe, a mais formosa donzela, em toda a 
Babilnia, onde Semramis reinava. Seus pais moravam em casas contguas; a 
vizinhana aproximou os dois jovens e o conhecimento transformou-se em 
amor. Seriam venturosos se se casassem, mas seus pais proibiram. Uma coisa, 
contudo, no podiam proibir: que o amor crescesse com o mesmo ardor no 
corao dos dois jovens. Conversavam por sinais ou por meio de olhares, e o 
fogo se tornava mais intenso, por ser oculto. Na parede que separava as duas 
casas, havia uma fenda, provocada por algum defeito de construo. Ningum a 
havia notado antes, mas os amantes a descobriram. Que h que o amor no 
descubra? A fenda permitia a passagem da voz; e ternas mensagens passaram 
nas duas direes, atravs da fenda. Quando Pramo e Tisbe se punham de p, 
cada um de seu lado, suas respiraes se confundiam. 
- Parede cruel! - exclamavam. - Por que mantns separados dois 
amantes? Mas no seremos ingratos. Devemos-te, confessamos, o privilgio de 
dirigir palavras de amor a ouvidos complacentes. 
Diziam tais palavras, cada um de seu lado da parede; e, quando a noite 
chegava e tinham de dizer adeus, apertavam o lbio contra a parede, ela do seu 
lado, ele do outro, j que no podiam aproximar-se mais. 
De manh, quando Aurora expulsara as estrelas e o sol derretera o 
granizo nas ervas, os dois encontraram-se no lugar de costume. E ento, 





depois de lamentarem seu cruel destino, combinaram que, na noite seguinte, 
quando tudo estivesse quieto, eles se furtariam aos olhares vigilantes, deixariam 
suas moradas, dirigir-se-iam ao campo e, para um encontro, iriam ter a um 
conhecido monumento que ficava fora dos limites da cidade, chamado o Tmulo 
de Nino, e combinaram que aquele que chegasse primeiro esperaria o outro, 
junto de uma certa rvore. Era uma amoreira branca, prxima de uma fonte. 
Tudo ficou combinado e os dois aguardaram, impacientes, que o sol se 
escondesse sob as guas e que a noite delas se levantasse. Ento, Tisbe ergueu-
se, cautelosamente, sem ser observada pela famlia, cobriu a cabea com um 
vu, caminhou at o monumento e sentou-se embaixo da rvore. Enquanto 
estava ali sentada, sozinha,  luz difusa da noite, avistou uma leoa, que, com a 
boca ensangentada por uma presa recente, aproximava-se da fonte, para matar a 
sede. Ao v-la, Tisbe fugiu e refugiou-se numa gruta, deixando cair o vu 
quando fugia. A leoa, depois de saciar a sede na fonte, virou-se para voltar aos 
bosques, e, ao ver o vu no cho, investiu contra ele e despedaou-o, com sua 
boca ensangentada. 
Pramo, que se atrasara, aproximou-se, ento, do local do encontro. Viu, 
na areia, as pegadas da leoa e o sangue fugiu-lhe das faces. Logo em seguida, 
encontrou o vu, dilacerado e cheio de sangue. 
- Desventurada donzela! - exclamou. - Fui a causa de tua morte! Tu, 
mais digna de viver do que eu, caste como primeira vtima. Seguir-te-ei. Fui o 
culpado, atraindo-te a um lugar to perigoso, e no estando ali eu prprio para 
guardar-te. Vinde, lees, dos rochedos e despedaai com vossos dentes este 
corpo maldito! 
Apanhou o vu, levou-o at a rvore onde fora combinado o encontro, e 
cobriu-o de beijos e de lgrimas. 
- Meu sangue tambm manchar teu tecido - exclamou. E arrancando a 
espada, mergulhou-a no corao. 
O sangue esguichou da ferida, tingiu de vermelho as amoras brancas da 
arvore, e, penetrando na terra, atingiu as razes, de modo que a cor vermelha 
subiu, atravs do tronco, at o fruto. 
Enquanto isso, Tisbe, ainda trmula de medo, e no desejando, 
contudo, desapontar o amante, saiu cautelosamente, procurando o jovem com 





aflio, ansiosa por contar-lhe o perigo que atravessara. Ao chegar ao local e 
vendo a nova cor das amoras, duvidou de que estivesse no mesmo lugar. 
Enquanto hesitava, avistou um vulto que se debatia nas vascas da agonia. 
Recuou, e um tremor percorreu-lhe todo o corpo, como a gua tranqila se 
encrespa ao ser atingida por uma lufada repentina de vento. Logo, porm, 
reconheceu o amante, gritou e bateu no peito, abraando-se ao corpo sem vida, 
derramando lgrimas sobre as feridas e beijando os lbios frios. 
- Pramo, quem te fez isto? - exclamou. - Responde, Pramo! E tua 
Tisbe quem fala. Sou eu, a tua Tisbe, quem fala. Ouve-me, meu amor, e ergue 
esta cabea pendente! 
Ao ouvir o nome de Tisbe, Pramo abriu os olhos e fechou-os de novo. A 
donzela avistou o vu ensangentado e a bainha vazia da espada. 
- Tua prpria mo te matou e por minha causa - disse. - Tambm 
posso ser corajosa uma vez, e meu amor  to forte quanto o teu. Seguir-te-ei na 
morte, pois dela fui a causa; e a morte, que era a nica que nos podia separar, 
no me impedir de juntar-me a ti. E vs, infelizes pais de ns ambos, no 
negueis nossas splicas conjuntas. Como o amor e a morte nos juntaram, deixai 
que um nico tmulo nos guarde. E tu, rvore, conserva as marcas de nossa 
morte. Que tuas frutas sirvam como memria de nosso sangue. 
Assim dizendo, mergulhou a espada no peito. 
Os pais ratificaram seu desejo, e tambm os deuses. Os dois corpos foram 
enterrados na mesma sepultura, e a rvore passou a dar frutos vermelhos, como 
faz at hoje. 
Moore, na "Batalha da Slfide", referindo-se  lmpada de segurana de 
Davy, relembra a parede que separava Tisbe de seu amante: 
Bendita a gaze de metal to fina 
Seguro protetor, 
Com que Davy rodeia, e que domina 
O fogo destruidor. 
Atravs da parede, a todo o instante, 
Podem a Chama e o Ar, 
Como podiam Tisbe e seu amante, 

Se ver, mas no beijar. 



Nos Lusadas, h a seguinte aluso indireta ao episdio de Pramo e Tisbe 
e  metamorfose das amoras, quando o poeta descreve a Ilha dos Amores: 
Os dons que d Pomona, ali natura 
Produze diferentes nos sabores, 
Sem ter necessidade de cultura, 
Que sem ela se do muito melhores; 
As cerejas purpreas na pintura; 
As amoras, que o nome tm de amores; 
O pomo, que da ptria Prsia veio, 

Melhor tornado no terreno alheio.1 
Se o leitor tem to pouco corao que se disponha a dar algumas 
gargalhadas  custa dos desventurados Pramo e Tisbe, ter oportunidade de 
faz-lo recorrendo  comdia de Shakespeare Sonho de uma noite de vero, 
onde o episdio  apresentado de forma divertida. 
CFALO E PRCRIS 
Cfalo era um belo jovem, amante dos exerccios. Levantava-se antes do 
amanhecer, para perseguir a caa. Aurora viu-o, apaixonou-se por ele e raptou-o. 
Cfalo, porm, era recm-casado, e amava profundamente sua esposa que se 
chamava Prcris. A jovem era favorita de Diana, que lhe dera um co, mais 
veloz que qualquer outro, e um dardo, que jamais errada o alvo; e Prcris 
oferecera estes presentes ao marido. Cfalo sentia-se to feliz com a esposa, que 
resistiu a todas as propostas de Aurora, que, afinal, o despediu, irritada, dizendo: 
- Vai, ingrato mortal, fica com tua esposa, a qual, se no me engano, hs 
de lamentar ter conhecido. 
Cfalo regressou e voltou a ser to feliz quanto antes, com sua esposa, 
- faanhas pelos bosques. Ora, aconteceu que uma divindade irritada 
mandara uma voraz raposa devastar a regio, e os caadores acorreram, em 
grande nmero, para captur-la. Todos os seus esforos foram em vo; 

1 No original ingls, a estrofe dos "Lusadas" figura em verso de Micke, que se afasta bastante do texto 
portugus, dizendo, por exemplo, que a cor das amoras vem do fato de ter sido a fruta "manchada com o sangue 
das amantes", numa aluso muito mais direta a Piramos e Tisbe que a vaga aluso feita por Cames. 




 nenhum co conseguia acompanhar o animal na corrida. E, finalmente, 
procuraram Cfalo, a fim de que lhes emprestasse seu famoso co, cujo 
nome era Lelaps. Mal o co fora solto, disparou como um dardo, com tal 
velocidade que a vista no podia segui-lo. Se no tivessem visto suas 
pegadas na areia, todos teriam acreditado que ele voara. De p, no alto de 
um morro, Cfalo e os outros assistiram  corrida. A raposa tentou todas as 
artimanhas: corria em crculo, perseguida de perto pelo co que, de boca 
aberta, investia sempre, mas mordia apenas o ar. Cfalo j ia lanar mo 

Cfalo e Aurora 
(detalhe) 

Nicolas Poussin 

NATIONAL GALLERY, 
LONDRES 





do dardo, quando viu o co e a raposa pararem instantaneamente. Os deuses 
celestes, criadores de ambos, no queriam que nenhum dos dois sasse vitorioso. 
E, em sua prpria atitude de vida e de ao, haviam sido petrificados. To 
naturais pareciam, que, ao v-los, tinha-se a impresso de que um ia latir e a 
outra dar um salto para a frente. 
Cfalo, embora tivesse perdido o co, continuou a deleitar-se com a caa. 
Saa pela madrugada, vagava pelos bosques e pelos montes, sem qualquer 
acompanhante, no necessitando ajuda, pois seu dardo era arma segura para 
todos os casos. Fatigado com a caa, quando o sol ia alto no cu, procurava um 
abrigo sombreado, junto ao qual corria um frgido regato e, estendido na relva, 
com as vestes atiradas para um lado, gozava a frescura da brisa. s vezes, 
costumava dizer em voz alta: 
- Vem, brisa suave, vem afagar-me e leva o calor que me abrasa. 
Algum que passava um dia, ouviu-o falando desse modo ao ar e, 
acreditando, por tolice, que ele estivesse falando com alguma mulher, correu a 
contar o segredo a Prcris, sua esposa. O amor  crdulo. Prcris, diante do 
choque, desmaiou. Voltando a si, sem demora, disse: 
- No pode ser verdade; no acreditarei nisso, a no ser que eu mesma 
seja testemunha. 
Assim, aguardou, com o corao ansioso, at a manh seguinte, quando 
Cfalo saiu, como de costume. Acompanhou-o, ento, furtivamente, e escondeu-
se no lugar que o informante indicara. Cfalo apareceu, quando se sentiu 
cansado da caada, e estendeu-se na verde relva, exclamando: 
- Vem, brisa suave, vem afagar-me. Sabes quanto te amo! Tu tornas 
deliciosos os bosques e minhas caminhadas solitrias! 
Continuava a soltar estas exclamaes, quando ouviu, ou julgou ouvir, no 
meio do bosque, um rudo semelhante a um soluo. Supondo ser algum animal 
selvagem, atirou o dardo na direo do rudo. Um grito de sua amada Prcris 
revelou-lhe que a arma atingira o alvo com preciso. Correu para o lugar e 
encontrou-a ensangentada, tentando arrancar da ferida o dardo, que fora 
presente dela mesma. Cfalo ergueu-a do cho, lutou para estancar o sangue, 
gritou-lhe que vivesse, que no o deixasse desamparado, recriminando-se de sua 
morte. Ela entreabriu os olhos e conseguiu murmurar estas palavras: 





- Imploro-te, se algum dia me amaste, se algum dia mereci de ti 
benevolncia, meu marido, que satisfaas minha ltima vontade: no te cases 
com essa odiosa Brisa! 
Isto revelou todo o mistrio; mas que adiantava revel-lo agora? Prcris 
morreu, mas seu rosto tinha uma expresso de calma, olhando com ternura e 
perdo para o marido, que a fez compreender a verdade. 
Moore, entre suas "Baladas Legendrias", tem uma sobre Cfalo e Prcris, 
que assim comea: 
Num campo, um caador repousou, certo dia, 
Para do sol se abrigar 
E, deitado, implorava a brisa que fugia 
O rosto lhe beijar. 
E, enquanto assim pedia, a brisa descuidada 
Fugia para alm. 
Chamava o caador: " vem brisa adorada!" 
E Eco repetia: " vem, brisa adorada!" 
"Brisa adorada, vem!" 


 

A Morte de Prcris 

Piero di Cosimo 

NATIONAL GALLERY. 

LONDRES 

 

 

 

 

 

 

 



 CAPTULO IV 
JUNO E SUAS RIVAIS, IO E CALISTO 
DIANA E ACTON 
LATONA E OS CAMPONESES 
---


C 



erta vez, Juno notou que o dia escurecera de sbito e imediatamente 
desconfiou de que o marido levantara uma nuvem para esconder 
algumas de suas faanhas que no gostava de expor  luz. Juno afastou 
a nuvem e viu o marido,  margem de um rio cristalino, com uma bela novilha 
ao seu lado. A rainha dos deuses desconfiou de que a aparncia da novilha 
ocultava alguma bela ninfa de estirpe mortal, como, na verdade, era o caso. 
Tratava-se de Io, filha do rio deus naco, a quem Jpiter cortejava, e a quem dera 
aquela forma, ao sentir a aproximao de sua esposa. 
Juno foi-se juntar ao marido e, vendo a novilha, elogiou a sua beleza e 
perguntou quem era ela e a que rebanho pertencia. Jpiter, para evitar que as 
perguntas continuassem, respondeu que se tratava de uma nova criao da terra. 
Juno pediu-lhe que lhe desse a novilha de presente. Que poderia Jpiter fazer? 
No queria entregar a amante  sua esposa; como recusar-lhe, porm, um 
presente to insignificante como uma novilha? No poderia faz-lo sem 
despertar suspeitas. Assim, concordou. A deusa ainda no pusera de lado suas 
desconfianas: entregou, portanto, a novilha a Argos, ordenando que fosse 
vigiada atentamente. 
Ora, Argos tinha cem olhos na cabea e, para dormir, jamais fechava 
mais de dois, ao mesmo tempo, de maneira que velava por Io 
constantemente. Deixava-a pastar durante o dia e,  noite, amarrava-a com uma 





corda em torno do pescoo. Io sentia mpetos de estender os braos para 
implorar liberdade a Argos, mas no tinha braos e sua voz era um mugido que 
amedrontava at ela prpria. Viu seu pai e suas irms, aproximou-se deles, 
deixou-os acarici-la e louvar-lhe a beleza. Seu pai estendeu-lhe um punhado de 
relva e ela lambeu-lhe a mo estendida. Ansiava-se por se fazer conhecida dele, 
mas, infelizmente, as palavras lhe faltavam. Afinal, teve idia de escrever, e 
escreveu seu nome - era bem curto - com o casco, na areia. naco 
reconheceu-a e, descobrindo que sua filha, a quem h tanto tempo procurara em 
vo, estava escondida sob aquele disfarce, chorou e abraando-se com seu 
branco pescoo, exclamou: 
- Ah, minha filha! Teria sido menos doloroso perder-te inteiramente! 
Enquanto assim se lamentava, Argos, observando o que se passava, aproximou-
se e levou Io dali, indo ele prprio sentar-se num alto talude, de onde podia 
olhar em todas as direes. 
Jpiter perturbou-se ao ver os sofrimentos da amante e, chamando 
Mercrio, ordenou-lhe que matasse Argos. Mercrio apressou-se: calou as 
sandlias aladas, ps o barrete, pegou sua vara de condo que fazia dormir e 
atirou-se das alturas do cu para a terra. Despojou-se, ento, de suas asas, 
conservando apenas a vara de condo, com a qual se apresentou como um pastor 
conduzindo um rebanho. Enquanto caminhava, tocava sua gaita. Argos ouviu-o 
deleitado, pois era a primeira vez que via o instrumento. 
- Jovem! - exclamou. - Vem assentar-te ao meu lado nesta pedra. 
No h melhor lugar para teu rebanho pastar por estas redondezas e aqui h uma 
sombra suave, tal como os pastores apreciam. 
Mercrio sentou-se, conversou e contou histrias at bem tarde, e tocou 
em seu instrumento as melodias mais suaves, tentando adormecer os olhos 
vigilantes, mas tudo em vo. Argos conseguia deixar alguns de seus olhos 
abertos, embora fechando os demais. 
Entre outras histrias, Mercrio contou-lhe como fora inventado o 
instrumento que tocava. 
- Havia uma certa ninfa, cujo nome era Sirinx, muito querida pelos 
stiros e pelos espritos dos bosques; ela, porm, no se entregava a nenhum, 
sendo fiel cultuadora de Diana, e dedicava-se  caa. Quem a visse em 
suas vestes de caa a teria tomado pela prpria Diana; a nica diferena 





 que seu arco era de chifre e o da deusa, de prata. Certo dia, quando ela voltava 
da caa, P encontrou-a, disse-lhe isto e muito mais. A ninfa correu, sem parar 
para ouvir as lisonjas, e ele a perseguia, at as margens do rio, onde a agarrou, 
dando-lhe apenas tempo de gritar pedindo a ajuda de suas companheiras, as 
ninfas da gua. Estas ouviram e acederam ao pedido. P abraou o que 
acreditava ser o corpo de uma ninfa e na verdade era apenas um feixe de juncos! 
Como desse um suspiro, o ar, atravessando os juncos, produziu uma 
melodia melanclica. Encantado com a novidade e com a doura da msica, o 
deus exclamou: 
- Assim, pelo menos, sers minha. 
Tomou alguns dos juncos, de tamanhos desiguais, colocou-os lado a lado, 
e assim construiu o instrumento que chamou de Sirinx, em homenagem  ninfa. 
Antes de Mercrio terminar sua histria, percebeu que Argos adormecera, 
com todos os olhos fechados. Enquanto cabeceava, Mercrio, com um s golpe, 
cortou-lhe a cabea e atirou-a embaixo do rochedo. Desventurado Argos! A luz 
de seus cem olhos apagou-se imediatamente. Juno tomou-os e colocou-os, como 
ornamentos, na cauda de seu pavo, onde at hoje permanecem. 
A vingana de Juno no estava ainda saciada, contudo. Mandou um 
moscardo perseguir Io, que fugiu de sua perseguio atravs do mundo inteiro. 
Atravessou a nado o Mar Jnico, que dela tirou o seu nome; correu pelas 
plancies da Ilria; galgou o Monte Hemo e atravessou o estreito da Trcia, da 
por diante chamado de Bsforo (rio da vaca); vagou pela Ctia e pelo pas dos 
cimerianos e chegou, afinal, s margens do Nilo. Jpiter, enfim, intercedeu por 
ela e, diante de sua promessa de que no daria mais ateno alguma  ninfa, 
Juno consentiu em devolver-lhe a antiga forma. Foi curioso v-la recuperar a 
prpria aparncia. Os speros plos caram-lhe do corpo, os chifres encolheram, 
os olhos estreitaram-se, a boca diminuiu; mos e unhas surgiram em lugar dos 
cascos das patas dianteiras; em breve nada mais restava da novilha, a no ser a 
beleza. A princpio, Io teve medo de falar, mas pouco a pouco, recuperou a 
confiana e foi levada de volta para junto do pai e das irms. 





Num poema dedicado por Keats a Leigh Hunt, h a seguinte aluso ao 
episdio de P e Sirinx: 
E nos contou como, em um dia, Sirinx 
De P fugiu, tremendo, apavorada. 
Desventurada ninfa! Pobre P! 
Como chorou, ao ver que conquistara 
Da brisa apenas um suspiro doce! 
CALISTO 
Calisto foi outra jovem que provocou o cime de Juno, que a transformou 
numa ursa. 
- Acabarei com aquela beleza que cativou meu marido - disse a deusa. 
Calisto caiu apoiada nas mos e nos joelhos. Tentou estender os braos 
numa splica: eles j estavam comeando a se cobrir de plo negro. As mos 
arredondaram-se, armaram-se de garras aduncas e tornaram-se patas; a boca, 
cuja beleza Jpiter costumava exaltar, transformou-se num horrvel par de 
maxilas; a voz que se no fosse mudada inspiraria piedade aos coraes tornou-
se um rugido, prprio a inspirar o terror. Contudo, sua antiga disposio 
permaneceu e, continuando a gemer, Calisto deplorou seu destino e mantinha-se 
to ereta quanto podia, erguendo as patas para implorar merc, e sentia que Jove 
era cruel, embora no pudesse diz-lo. Ah! quantas vezes, temerosa de ficar nos 
bosques sozinha a noite inteira, vagueava pelas vizinhanas de sua antiga 
morada! Quantas vezes, amedrontada pelos ces, ela, at to pouco tempo 
caadora, fugia aterrorizada, dos caadores! Quantas vezes fugia das feras, 
esquecendo-se de que, agora, no passava ela mesma de uma fera! E, embora 
sendo ursa, tinha medo dos ursos. 

Um dia, um jovem a viu, quando estava caando. Ela tambm o viu e nele 
reconheceu o prprio filho, agora homem. Parou, tendo vontade de abra-lo. 
Ao se aproximar, o jovem, assustado, ergueu a lana de caa e ia trespass-la, 
quando Jpiter, vendo o que se passava, impediu a consumao do crime e 
afastou os dois, colocando-os no cu, transformados nas constelaes da Ursa 
Maior e da Ursa Menor.1 

1 Ovdio, de cujas "Metamorfoses" Bulfinch copiou o episdio, no diz, expressamente, que Calisto foi 
transformada na Constelao da Ursa Maior. Limita-se a dizer que ela e seu filho, Arcas, foram levados para o 
cu por Jpiter, que os transformou em dois astros vizinhos: 
Arcuit omnipotens, paritesque ipsosque nefaste Sustulit, et celeri rapto per inania vento Imposuit celo 
vicinaque sidera fecit. 



Segundo a tradio, Arcas no foi transformado na Ursa Menor, nem havia lgica em tal transformao, uma vez 
que no fora antes, como sua me, metamorfoseado em urso. As duas constelaes a que Ovdio se refere so as 
da Ursa Maior e de Arctofilax (guardio da Ursa), tambm chamada do Boieiro (Bootes). 
2 Ibid. 

Juno enfureceu-se vendo sua rival merecer tal honra, procurou Ttis e 
Oceano, as antigas potncias do mar e, em resposta s suas perguntas, assim 
descreveu o motivo de sua vinda: 
- Perguntais-me por que eu, rainha dos deuses, deixei as plancies 
celestiais e vim em busca destas profundidades? Sabei que estou suplantada no 
cu: meu lugar  dado a outra. Dificilmente acreditareis em mim; mas olhai 
quando a noite escurecer o mundo, e vereis os dois de quem tenho tanta razo de 
queixa exaltados no cu, naquela parte em que o crculo  menor, nas 
vizinhanas do plo. Por que iria algum, de agora em diante, tremer  idia de 
ofender Juno, quando tais recompensas so as conseqncias do meu desprazer? 
Vede o que consegui fazer! Impedi-a de usar a forma humana - ela  colocada 
entre as estrelas! Tal  o resultado do meu castigo, tal a extenso de meu poder! 
Seria melhor que ela tivesse recuperado a forma humana, como permiti que Io 
recuperasse. Talvez Jove pretenda despos-la, e deixar-me de lado. Mas vs, 
meus pais de adoo, se estais a meu lado e encarais com desgosto esse indigno 
tratamento que me foi imposto, mostrai-mo, peo-vos, impedindo esse casal 
indigno de penetrar em vossas guas! 

As potncias do oceano concordaram e, conseqentemente, as duas 
constelaes da Ursa Maior e da Ursa Menor movem-se em crculo no cu, 
porm, jamais descem, como as outras estrelas, por trs do oceano.2 
Milton alude ao fato de a constelao da Ursa jamais se esconder, quando 
diz: 
Que  meia-noite mi'a lmpada seja 
Vista em alguma torre solitria 
De onde eu possa contemplar a Ursa etc. 
E Prometeu, no poema de J. R. Lowell, exclama: 
Ergueram-se e puseram-se as estrelas, 
Iluminando os ferros que me prendem; 
A Ursa, que passeia toda a noite, 
Em seu abrigo j se refugiara, 
Ouvindo os passos tmidos de Aurora. 



A ltima estrela da cauda da Ursa Menor  a Estrela Polar, tambm 
chamada Cinosura,  qual se refere Milton: 
Novos prazeres me deleitam os olhos 
Na paisagem que se estende em torno. 
............................................................... 
Avistam altas e ameadas torres, 
Escondidas sob rvores frondosas, 
Onde talvez se oculte uma beleza, 
A Cinosura de vizinhos olhos. 
A aluso , aqui, tanto  Estrela Polar como guia dos marinheiros quanto  
atrao magntica do norte. Milton a chama tambm de Estrela da Arcdia 
porque o filho de Calisto se chamava Arcas e ele e a me viviam na Arcdia. Em 
"Comus", o irmo, surpreendido pela noite nos bosques, exclama: 
... Uma plida luz! 
Chega at ns o tmido claro, 
Vindo de alguma habitao humilde, 
Bem junto com teus raios ofuscantes. 
E sers, para ns, da Arcdia o astro. 
Ou a tria Cinosura. 
DIANA E ACTON 
Vimos, assim, dois exemplos da severidade de Juno para com suas rivais. 
Vejamos, agora, como uma deusa virgem castigou um ofensor de seu recato. 
Era meio-dia, e o sol encontrava-se a igual distncia de ambas as metas, 
quando o moo Acton, filho do Rei Cadmo, assim se dirigiu aos jovens que 
com ele caavam o cervo nas montanhas: 
- Amigos, nossas redes e nossas armas esto midas do sangue das 
vtimas. J nos divertimos bastante por um dia, e amanh poderemos recomear 
as nossas atividades. 





Agora que Febo cresta a Terra, deixemos 
de lado nossos instrumentos e entreguemo-nos ao 
repouso. 

Diana surpreendida 
no banho por Acton 
(detalhe) 

Parmigianin 

 

Havia um vale rodeado por densa 
vegetao de ciprestes e pinheiros, consagrado  
rainha caadora, Diana. Na extremidade do vale 
havia uma gruta, no adornada pela arte, mas a 
natureza imitara a arte em sua construo, pois 
cravejara a abbada de seu teto com pedras, to 
delicadamente como se estivessem dispostas 
pelas mos do homem. De um lado, jorrava uma 
fonte, cujas guas se espalhavam numa bacia 
cristalina. Ali, a deusa dos bosques costumava ir, 
quando cansada de caar, e lavava seu corpo 
virginal na gua espumejante. 

Certo dia, tendo entrado ali com suas 
ninfas, entregou a uma delas o dardo, a aljava e o arco, a tnica a uma segunda, 
enquanto uma terceira retirava-lhe as sandlias dos ps. Ento, Crcale, a mais 
habilidosa de todas, penteou-lhe os cabelos e Nfele, Hale e as demais 
carregavam a gua, em grandes urnas. Enquanto a deusa entregava-se assim aos 
cuidados ntimos, Acton, tendo-se separado dos companheiros e vagando sem 
qualquer objetivo definido, chegou ao local, levado pelo destino. Quando surgiu 
 entrada da gruta, as ninfas, vendo um homem, gritaram e correram para junto 
da deusa, a fim de escond-la com seus corpos. Ela, porm, era mais alta que as 
outras e sobrepujava todas pela cabea. Uma cor semelhante  que tinge as 
nuvens no crepsculo e na aurora cobriu o rosto de Diana, assim apanhada de 
surpresa. Cercada, como estava, por suas ninfas, ainda fez meno de voltar-se e 
procurou, impulsiva, as setas. Como estas no estivessem ao seu alcance, atirou 
gua ao rosto do intruso, exclamando: 
- Agora, vai, e dize, se te atreves, que viste Diana sem suas vestes. 
Imediatamente um par de chifres galhados cresceu na cabea de 
Acton, seu pescoo encompridou-se, suas orelhas tornaram-se pontudas, 
suas mos e braos transformaram-se em patas, seu corpo cobriu-se de um 



 

 
plo espesso. O medo substituiu a antiga ousadia, e o heri fugiu. Ele prprio 
admirava a velocidade com que corria, mas, quando viu os chifres refletidos na 
gua, quis dizer "Desgraado!", e a palavra no saiu. Gemeu, e lgrimas 
escorreram-lhe pela cara que tomara o lugar de sua prpria. Sua conscincia no 
entanto, permaneceu. Que fazer? Voltar para casa, procurar seu palcio, ou ficar 
escondido nos bosques? Tinha medo de uma coisa e vergonha de outra. 
Enquanto hesitava, os ces o avistaram. Primeiro Melampus, um co espartano, 
deu o sinal, com um latido, depois, Panfagu, Dorceu, Lelaps, Teron, Nape, Tigre 
e todo o resto correram-lhe no encalo, mais velozes que o vento. Por 
despenhadeiros e rochedos, atravs de gargantas que pareciam impraticveis, 
Acton fugiu e os ces o seguiram. Onde ele muitas vezes caara o cervo e 
aulara a matilha, a matilha o caava, aulada por seus caadores! Queria gritar: 
"Sou Acton! Reconhecei vosso dono!", mas as palavras no obedeciam  sua 
vontade. O ar ressoava com os latidos dos ces. De sbito, um agarrou-o pelas 
costas, outro, pelos ombros. Enquanto os dois imobilizavam seu dono, o resto da 
matilha aproximou-se e cravou os dentes em sua carne. Ele gemeu - um 
gemido que no era humano, mas que no era, tambm, o de um cervo - 

Diana saindo do banho 
Franois Boucher 

MUSEU DO LOUVRE, PARIS 





e, caindo de joelhos, ergueu os olhos e teria erguido os braos, numa splica, se 
os tivesse. Seus amigos e companheiros festejaram os ces e procuraram Acton 
por toda a parte, chamando-o para juntar-se  comitiva. Escutando o seu nome, 
ele virou a cabea e ouviu os outros lamentarem a sua ausncia. Antes estivesse 
ausente! Teria se comprazido em ver as faanhas dos ces, mas senti-las era 
demais. Todos estavam em torno dele, mordendo e despedaando; e somente 
quando Acton exalou o ltimo suspiro, a ira de Diana se satisfez. 
No poema "Adonai", Shelley faz aluso  histria de Acton: 
Um dbil vulto, entre outros vultos, surge; 
Um fantasma entre os homens; solitrio, 
Como da tempestade a derradeira 
Nuvem, tendo por dobre funerrio 
O trovo. Ele, a Acton semelhante, 
Contemplou a nudez da Natureza 
E foge agora pela terra inteira: 
Os prprios pensamentos o perseguem, 
Como ferozes ces, de instante a instante. 
A aluso refere-se, provavelmente, ao prprio Shelley. 
LATONA E OS CAMPONESES 
Alguns acham que, neste caso, a deusa foi mais severa que justa, enquanto 
outros louvam sua conduta, como rigorosamente de acordo com seu recato 
virginal. Como sempre, um acontecimento recente traz ao esprito outro mais 
antigo e um dos que ouviram o episdio contou esta histria: 
"Alguns camponeses da Lcia insultaram, certa vez, a deusa Latona, 
mas no impunemente. Quando eu era jovem, meu pai, que estava 
demasiadamente velho para certos trabalhos, mandou-me  Lcia, para de l 
trazer um rebanho de gado selecionado e ali tive ocasio de ver o lago e os 
pntanos onde se passou o maravilhoso acontecimento. Perto fica um 
pequeno altar, enegrecido pela fumaa dos sacrifcios e quase escondido 




 

 
entre os juncos. Indaguei que altar seria aquele, se dos Faunos ou das Niades, 
ou de algum deus das montanhas vizinhas, e um habitante da regio respondeu-
me: 
- Nenhum deus de montanha ou de rio possui este altar, mas sim aquela 
a quem a real Juno, em seu cime, expulsou de terra em terra, negando-lhe um 
recanto qualquer onde pudesse criar os gmeos. Trazendo em seus braos as 
divindades infantes, Latona chegou a esta terra, cansada e sedenta. Por acaso, 
viu, no fundo do vale, esta lagoa de guas claras, onde a gente da regio 
trabalha, colhendo junco e vime. A deusa aproximou-se e, ajoelhando-se  
margem da lagoa, ia saciar a sede em suas guas, mas os rsticos a impediram 
que o fizesse. 

Diana matando Acton 

MUSEU DE BELAS ARTES, 

BOSTON 

- Por que me recusais a gua? - ela perguntou. - A gua pertence 
a todos. A natureza no permite que ningum reclame direitos de posse 
sobre a luz do sol, o ar ou a gua. Venho compartilhar do meu direito a um 
bem comum. Peo-vos, no entanto, como um favor. No pretendo lavar 
nelas meus membros, por mais extenuada que esteja, mas apenas matar 
minha sede. Tenho a boca to seca, que mal consigo falar. Um gole de 
gua ser o nctar para mim; h de reviver-me, e ser-vos-ei grata como 



pela prpria vida. Possam estas crianas, que estendem os bracinhos, como que 
pedindo por mim, mover-vos  piedade! 
Realmente, as crianas, enquanto ela falava, estendiam os bracinhos. 
Quem no se comoveria com estas ternas palavras da deusa? Mas aqueles 
rsticos persistiram em sua rudeza; chegaram a acrescentar insultos e ameaas 
de violncia se ela no abandonasse o local. E no se limitaram a isso. Entraram 
na lagoa e agitaram a lama com os ps, de maneira a tornar a gua imprpria 
para ser bebida. Latona sentiu-se indignada a tal ponto que nem mais pensou em 
sua sede. J no implorava aos rsticos, mas, levantando os braos para o cu, 
exclamou: 
- Possam eles jamais deixar esta lagoa, mas passar nela suas vidas! 
E isto aconteceu. Eles agora vivem na gua, s vezes inteiramente 
submergidos, outras vezes levantando as cabeas  superfcie ou nela nadando. 
s vezes, saem para a margem da lagoa, mas logo pulam de novo para dentro 
d'gua. Ainda continuaram a usar suas vozes de viles nos vituprios e, embora 
a gua os cubra todos, no se envergonham de coaxar no meio dela. Sua voz 
tornou-se rude, a garganta intumesceu, a boca distendeu-se com o constante 
coaxar, os pescoos encolheram-se e desapareceram e a cabea se juntou ao 
corpo. As costas tornaram-se verdes, o ventre desproporcionado, branco, em 
resumo, eles so agora rs e moram na lamacenta lagoa." 
Este episdio explica a aluso em um dos sonetos de Milton "Sobre as 
calnias que se seguiram  redao de certos tratados": 
Ante os asnos e os ces, raas malss, 
Que visavam, rastejando como um verme 
Nada mais fiz que confiar na Histria. 
Tambm a raa transformada em rs 
De Latona insultou a prole inerme, 
Que a lua e o sol depois regeu em glria. 


O episdio, como se viu, alude  perseguio sofrida por Latona da 
parte de Juno. A tradio contava que a futura me de Apolo e Diana, 
fugindo da ira de Juno, andou por todas as ilhas do Mar Egeu, procurando 



um lugar de repouso, mas todos temiam demasiadamente a poderosa rainha do 
cu para proteger sua rival. Somente Delos concordou em se tornar o bero das 
futuras divindades. Delos era, ento, uma ilha flutuante, mas, quando Latona ali 
chegou, Jpiter prendeu-a com cadeias fortssimas ao fundo do mar, de maneira 
que pudesse tornar-se um abrigo seguro para seus bem-amados. Byron alude a 
Delos em seu "Don Juan": 
Verdes ilhas da Grcia! Ilhas da Grcia! 
Onde amou e cantou a ardente Safo, 
Onde a arte nasceu, na paz e guerra, 
Onde Delos se ergueu e ergueu-se Febo! 


 

Eros e golfinhos 

parte de mosaico da 

Casa dos Golfinhos, 
em Delos 



 CAPTULO V 
FAETONTE 
---


F 



aetonte era filho de Apolo e da ninfa Climene. Certo dia, um 
companheiro de escola do menino zombou da idia de ser ele filho de 
um deus, e Faetonte, furioso e envergonhado, contou o ocorrido a sua 
me. 
- Se sou, na verdade, de origem celeste - disse - d-me, minha me, 
uma prova disso, que me assegure o direito de reclamar a honra. 
Climene estendeu os braos para o cu, exclamando: 
- Tomo por testemunha o Sol que nos olha, de que te disse a verdade. Se 
menti, seja esta a ltima vez que contemplo esta luz. No  preciso muito 
trabalho para tu mesmo ires averiguar; a terra onde mora o Sol fica prxima da 
nossa. Vai perguntar-lhe se te reconhece como filho. 
Faetonte ouviu deleitado estas palavras. Viajou para a ndia, que fica junto 
das regies do nascente, e cheio de esperana e de orgulho aproximou-se do 
destino, de onde seu pai comea o curso. 

O palcio do Sol erguia-se muito alto, sobre colunas, reluzente de ouro e 
de pedras preciosas, com tetos de marfim polido e as portas de prata. A 
perfeio da obra sobrepujava o material.1 Nas paredes, Vulcano havia 
representado a terra, o mar e o cu, com seus habitantes. No mar, estavam as 
ninfas, algumas divertindo-se nas ondas, algumas correndo montadas em peixes, 
enquanto outras, sentadas nos rochedos, secavam os cabelos esverdeados 
pelo mar. Seus rostos no eram inteiramente semelhantes entre si, nem 


1 Materiem superat opus - Ovdio. 



 

inteiramente diferentes, mas tal 
como devem ser os rostos 
de irms. A terra 
mostrava as cidades, 
florestas, rios e as 
divindades rsticas. 
Dominando tudo, 
estava esculpida a 
imagem do glorioso 
cu, e, nas portas de 
prata, os signos do 
zodaco, seis de cada lado. 

O filho de Climene 
subiu a escadaria de acesso e 
entrou no palcio de seu pai. 
Aproximou-se, mas parou a distncia, pois a luz era mais forte do 
que podia suportar. Febo, ostentando uma veste de prpura, achava-se sentado num 
trono, onde brilhavam diamantes. Ao seu lado direito e ao esquerdo, estavam de p 
o Dia, o Ms e o Ano e, a intervalos regulares, as Horas. A Primavera l estava, 
com a cabea coroada de flores, o Vero livre de seus trajos, com uma guirlanda de 
hastes de trigo maduros, o Outono com os ps manchados do caldo da uva e o 
Inverno com os cabelos cobertos de granizo. Cercado por estes ajudantes, o Sol, 
com os olhos que vem todas as coisas, contemplou o jovem ofuscado com a 
novidade e o esplendor da cena e perguntou-lhe o motivo da visita. 
- O luz do mundo ilimitado, Febo, meu pai, se me permites dar-te este 
nome, oferece-me uma prova, peo-te, pela qual possa ser reconhecido como teu 
filho. 
Calou-se. O pai, pondo de lado os raios que brilhavam em torno da 
cabea, f-lo aproximar-se e disse-lhe, abraando-o: 
- Meu filho, mereces no ser repudiado e confirmo o que tua me te 
disse. Para pr fim s tuas dvidas, pede o que quiseres, e tua vontade ser 
satisfeita. Tomo por testemunha aquele horrvel lago, que nunca vi, mas pelo 
qual juram os deuses em seus compromissos mais solenes. 
Faetonte imediatamente pediu para ter licena de dirigir por um dia o 
carro do sol. O pai arrependeu-se da promessa; trs e quatro vezes, sacudiu a 
radiosa cabea, advertindo: 

A Queda de Faetonte. 

Gravura baseada em Cornelis, 
por Hendrik Goltzius 

METROPOLITAN, NOVA YORK 

 





- Falei levianamente. Este  o nico pedido que deveria negar-te. Peo-te 
que o retires. No  uma tarefa fcil, meu Faetonte, nem adequada  tua 
juventude e  tua fora. Teu destino  mortal e pedes o que est alm da 
capacidade de um mortal. Em tua ignorncia, aspiras fazer o que nem os 
prprios deuses fazem. Ningum, a no ser eu mesmo, pode guiar o flamejante 
carro do dia. Nem mesmo Jpiter, cujo terrvel brao direito lana os raios. O 
incio do caminho  uma ladeira, to ngreme que os cavalos s primeiras horas 
da manh mal conseguem subir; o meio fica to alto no cu que eu mesmo mal 
consigo, sem susto, olhar para baixo e contemplar a terra e o mar estendidos aos 
meus ps. A ltima parte  uma descida rpida, e exige o maior cuidado ao guiar 
o carro. Ttis, que fica  minha espera, muitas vezes treme por mim, receando 
que eu seja precipitado das alturas. Ajunta a isto que o cu est constantemente 
girando e levando as estrelas consigo. Tenho de estar sempre em guarda, para 
que aquele movimento, que tudo arrasta, no me arraste tambm. Imaginemos 
que eu te emprestasse o carro, que irias fazer? Conseguirias manter teu curso, 
enquanto a esfera estivesse girando sob ti? Talvez penses que existem florestas, 
cidades, moradas de deuses, palcios e templos no itinerrio. Ao contrrio, o 
caminho corre no meio de monstros aterradores. Passas junto aos chifres do 
Touro, em frente do Sagitrio e perto das fauces do Leo e onde o Escorpio 
estende seus ferres numa direo e o Caranguejo na outra. E vers que no  
fcil guiar esses cavalos, com seus peitos repletos do fogo que sai por suas bocas 
e narinas. Eu mesmo mal os posso governar, quando eles se mostram indceis e 
resistem s rdeas. Cuidado, meu filho, para que eu no seja o doador de um 
presente fatal; desiste de teu pedido enquanto  tempo. Queres uma prova de que 
s fruto de meu sangue? Dou-te uma prova em meus temores por ti. Olha meu 
rosto. Se pudesses penetrar dentro de meu peito, verias ali toda a ansiedade 
paterna. Procura pelo mundo e escolhe o que a terra ou o mar contenham de 
mais precioso: pede sem medo de recusa. Apenas neste pedido imploro-te que 
no insistas. No  a honra, mas a destruio que procuras. Por que me abraas e 
ainda splicas? Ters, se insistires; o juramento est feito e deve ser mantido, 
mas imploro-te que escolhas mais sensatamente. 





Calou-se; mas o jovem rejeitou todos os seus conselhos e manteve o 
pedido. Assim, tendo resistido tanto quanto pde, Febo afinal encaminhou-se 
para onde estava o soberbo carro. 
Era de ouro, presente de Vulcano; o eixo era de ouro, o timo de ouro e as 
rodas de ouro, os raios das rodas de prata. Ao longo da bolia, havia fileiras de 
topzios e diamantes, que refletiam o brilho do sol. 
Enquanto o ousado jovem olhava com admirao, Aurora abriu as portas 
de prpura do nascente e mostrou o caminho juncado de rosas. As estrelas 
retiraram-se, conduzidas pela Estrela d'Alva, que, ltima de todas, retirou-se 
tambm. Febo, quando viu a Terra comeando a brilhar e a Lua preparando-se 
para retirar-se, ordenou s Horas que arreassem os cavalos. Elas obedeceram: 
tiraram das espaosas cocheiras os corcis alimentados com ambrosia e 
prenderam as rdeas. Ento, o pai umedeceu o rosto do filho com um ungento 
poderoso, tornando-o capaz de suportar o calor da chama. Colocou os raios em 
sua cabea e, com um suspiro agoureiro, disse: 

- Se, pelo menos nisso, meu filho, vais seguir meus conselhos, poupa o 
chicote, e sustenta as rdeas com fora. Os cavalos seguem velozes por seu 
prprio gosto; o trabalho  cont-los. No deves seguir o caminho direto entre os 
cinco crculos, mas afastar para a esquerda. Conserva o limite da zona mediana, 
evitando igualmente o norte e o sul. Vers as marcas das rodas e elas te serviro 
de guia. E, para que o Cu e a Terra possam receber cada um a quantidade 
devida de calor, no subas demais, seno incendiars as moradas celestes, nem 
andes muito baixo, para que no ateies fogo  Terra; o meio  o caminho mais 
seguro e melhor.2 E, agora, deixo-te entregue  tua sorte, que espero melhor para 
ti do que tu mesmo fizeste. A noite est saindo das portas ocidentais e no 
podemos atrasar por mais tempo. Toma as rdeas; mas, se, no ltimo momento, 
teu corao fraquejar, e tirares proveito dos meus conselhos, fica aqui onde 
ests, em segurana, e deixa-me iluminar e aquecer a Terra. 
O gil jovem subiu no carro de um pulo, e, de p, segurou as rdeas, 
deleitado, dizendo palavras de agradecimento ao relutante pai. 
Enquanto isto, os cavalos enchiam o ar com seus relinchos e o rudo 
de sua respirao ardente, e escavavam o cho, com impacincia. As barras 
foram descidas e as ilimitadas plancies do universo estenderam-se diante 

2 Mdio tutissumus ibis - Ovdio. Irs com mais segurana pelo meio. 





deles. Investiram e fenderam as primeiras nuvens e passaram  frente das brisas 
matinais que haviam partido tambm do nascente. Os cavalos logo perceberam 
que a carga que transportavam era mais leve que a de costume; e como um navio 
sem lastro  sacudido de um lado para o outro no mar, assim o carro, sem seu 
peso costumeiro, era sacudido como se estivesse vazio. Os corcis avanaram, 
deixando o caminho sempre trilhado. Faetonte est assustado e no sabe como 
guiar os animais; e nem que soubesse teria a fora necessria. Ento, pela 
primeira vez, a Ursa Maior e a Menor foram abrasadas de calor e teriam querido, 
se tal fosse possvel, mergulhar na gua; e a Serpente, que jaz enroscada em 
torno do Plo Norte, entorpecida e inofensiva, com o calor sentiu reviver sua 
fria. O Boeiro, dizem, fugiu, embora dificultado pelo peso de seu arado e de 
todo desacostumado aos movimentos rpidos. 
Quando o desventurado Faetonte baixou os olhos para a terra, que agora 
se desdobrava em grande extenso embaixo dele, empalideceu e seus joelhos 
bateram um contra o outro de pavor. A despeito do claro que o rodeava, seus 
olhos turvaram-se. Desejou jamais ter tocado os cavalos paternos, jamais ter 
sabido sua origem, jamais ter insistido em seu pedido.  levado como uma 
embarcao arrastada pela tempestade, quando o piloto nada mais pode fazer e 
limita-se s preces. Que fazer? Grande parte do caminho celeste ficara para trs, 
mas muito mais restava pela frente. Volta os olhos de uma direo para a outra; 
ora para o ponto de onde comeara a corrida, ora para os reinos do poente, que 
deveria alcanar. Perdera o domnio de si mesmo e no sabia o que fazer - se 
encurtar as rdeas ou se afroux-las; esquecera os nomes dos cavalos. V com 
terror as monstruosas formas espalhadas pela superfcie do cu. Aqui, 
Escorpio estendia seus dois grandes braos, com a cauda e as garras 
recurvadas estendendo-se por dois signos do zodaco. Quando o jovem o viu, 
ressumando veneno e ameaando com os ferres, sua coragem fraquejou e 
as rdeas lhe caram das mos. Sentindo-as soltas em suas costas, os cavalos 
avanaram e, sem restries, penetraram em regies desconhecidas do cu, 
entre as estrelas, arrastando o carro em lugares sem estrada, ora a grande 
altura, ora quase junto da terra. A Lua viu, com assombro, o carro de seu 
irmo correndo abaixo do seu prprio. As nuvens comearam a esfumaar 





e os cumes das montanhas a se incendiar; os campos tornaram-se ressequidos de 
calor, as plantas murcharam, as rvores queimavam-se com seus ramos copados, 
as colheitas estavam em chamas! Incendiavam-se as montanhas cobertas de 
florestas. Atos, o Taurus, o Tmolo e o Etna; Ida, outrora celebrada por suas 
fontes, agora secas; Hlicon, o monte das musas, e o Hemo; o Etna, com fogo 
por fora e por dentro, o Parnaso, com seus dois picos, e o Rdope, obrigado, 
afinal, a perder sua coroa de neve. Seu clima frio no constituiu proteo para a 
Ctia, o Cucaso incendiou-se; incendiaram-se o Ossa e o Pindo, e o Olimpo, 
maior que ambos; os Alpes, que to altos se erguem no ar, e os Apeninos, 
coroados de nuvens. 
Faetonte contemplou o mundo em chamas e sentiu o calor intolervel. O 
ar que respirava era como o ar de uma fornalha, cheio de cinza, e a fumaa 
estava negra como breu. Avanou sem saber para onde. Ento, acredita-se, o 
povo da Etipia tornou-se negro, pelo fato de o sangue ser forado a subir to 
subitamente  superfcie, e formou-se, pela seca, o deserto lbico, nas condies 
em que permanece at hoje. As ninfas das fontes, com os cabelos desgrenhados, 
choravam suas guas, e os rios tambm no tinham proteo entre suas margens: 
o Tanaus fumegava, e o Caico, o Xantux e Meandro, o Eufrates babilnico e o 
Ganges, o Tejo, com suas areias aurferas, e o Caister, onde se renem os cisnes. 
O Nilo fugiu e escondeu suas cabeceiras no deserto, onde ainda continuam 
escondidas. No ponto em que costumava descarregar no mar suas guas, atravs 
de sete bocas, apenas restaram sete canais secos. A terra ressequida criou fendas, 
atravs das quais a luz penetrou no Trtaro, amedrontando o rei das trevas e a 
rainha sua esposa. O mar evaporou-se. Onde antes era gua, formou-se uma 
plancie seca; e as montanhas que jazem por baixo das ondas ergueram a cabea 
e tornaram-se ilhas. Os peixes procuraram as ltimas profundidades e os delfins 
j no se atreviam a brincar  superfcie, como de costume. At mesmo Nereu e 
sua esposa, Dris, com as Nereidas, suas filhas, buscaram as grutas mais 
profundas para refgio. Trs vezes Netuno tentou erguer a cabea acima da 
superfcie da gua, e trs vezes teve de recuar, com o calor. A terra, embora 
cercada, como estava, pelas guas, com a cabea e os ombros nus, protegendo o 
rosto com as mos, olhou para o cu e, com voz enrouquecida, dirigiu-se a 
Jpiter: 





-  pai dos deuses, se mereci este tratamento e se  teu desejo que eu 
perea pelo fogo, por que poupas teus raios? Deixa-me, pelo menos, cair por 
tuas mos. E esta a recompensa de minha fertilidade, de meus obedientes 
servios? Foi para isso que forneci erva para o gado, frutos para os homens e 
incenso para os teus altares? Mas, se sou indigna de considerao, que fez meu 
irmo Oceano para merecer tal destino? Se nenhum de ns pode provocar tua 
piedade, pensa, peo-te, em teu prprio cu e v como esto fumegantes ambos 
os plos que sustentam teu palcio, que cair, se eles forem destrudos. Atlas 
fraqueja e mal sustenta sua carga. Se o mar, a terra e o cu perecerem, cairemos 
no antigo Caos. Salva o que ainda nos resta da chama devoradora. Pensa em 
nossa salvao, neste momento fatal! 

Assim falou a Terra, e, vencida pelo calor e pela sede, nada mais pde 
dizer. Ento, Jpiter onipotente, invocando o testemunho de todos os deuses, 
inclusive daquele que emprestara o carro, e mostrando-lhes que tudo estaria 
perdido, a no ser que fosse aplicado um remdio urgente, subiu  torre altaneira 
de onde espalha as nuvens sobre a terra e arremessa os recurvados raios. Desta 
vez, porm, no havia uma s nuvem que pudesse ser usada para proteo da 
terra, nem chuva que pudesse ser lanada. Jpiter trovejou e, erguendo um raio 
incandescente na mo direita, lanou-o contra o condutor do carro e arrancou-o, 
ao mesmo tempo, do seu lugar e da existncia! Faetonte, com os cabelos em 
chama, caiu de cabea para baixo, como uma estrela cadente que marca o cu 
com seu brilho enquanto cai, e Eridano, o grande rio, recebeu-o e refrescou seu 
corpo ardente.3 As niades italianas ergueram-lhe um tmulo e gravaram estas 
palavras sobre a pedra: 
Aqui jaz Faetonte, que o paterno 
Carro ousou dirigir, em vo. Contudo 
Honrou-o a nobre audcia de tent-lo 
Suas irms, as Helades, enquanto lamentavam seu destino, 
transformaram-se em choupos, nas margens do rio, e suas lgrimas, que 
continuavam a cair, transformaram-se em mbar, ao atingir a gua. 

3 Hic situs est Phaeton, currus auriga paterni, quem si non tenuit, magnis tamem excidit ausis - Ovdio. 
Aqui jaz Faetonte, condutor do carro paterno, que se no foi bem-sucedido, pelo menos ousou tentar 
uma grande empresa. 





Milman, em seu poema "Samor", faz a seguinte aluso  histria de 
Faetonte: 
Como quando o universo horrorizado 
Jazia mudo e quieto, quando o filho 
Do Sol, dizem os poetas, o paterno 
Carro levava por atalhos falsos. 
At que Jove o fulminou, e o msero 
Afogou-se no golfo junto ao qual 
As irms, os seus ramos agitando, 
Por ele choram lgrimas de mbar. 
Nos belos versos em que Walter Savage Landor descreve a concha 
marinha, h uma aluso ao palcio e ao carro do Sol. A ninfa da gua diz: 
Tenho sinuosas conchas, ostentando 
Os matizes da prola e que o brilho 
Fazem lembrar do majestoso prtico 
Do palcio do Sol. 


 



 CAPTULO VI 
MIDAS - BAUCIS E FILMON 
---


C 



erta vez, Baco deu por falta de seu mestre e pai de criao, Sileno. O 
velho andara bebendo e, tendo perdido o caminho, foi encontrado por 
alguns camponeses que o levaram ao seu rei, Midas. Midas reconheceu-
o, tratou-o com hospitalidade, conservando-o em sua companhia durante dez 
dias e dez noites, no meio de grande alegria. No dcimo-primeiro dia, levou 
Sileno de volta e entregou-o so e salvo a seu pupilo. Baco ofereceu, ento, a 
Midas o direito de escolher a recompensa que desejasse, qualquer que fosse ela. 
Midas pediu que tudo em que tocasse imediatamente fosse mudado em ouro. 
Baco consentiu embora pesaroso por no ter ele feito uma escolha melhor. 
Midas seguiu caminho, jubiloso com o poder recm-adquirido, que se apressou a 
pr em prova. Mal acreditou nos prprios olhos quando viu um raminho que 
arrancara de um carvalho transformar-se em ouro em sua mo. Segurou uma 
pedra; ela mudou-se em ouro. Pegou um torro de terra; virou ouro. Colheu um 
fruto na macieira; ter-se-ia dito que furtara o jardim das Hesprides. Sua alegria 
no conheceu limite e, logo que chegou  casa, ordenou aos criados que 
servissem um magnfico repasto. Ento verificou, horrorizado, que, se tocava o 
po, este enrijecia em suas mos; se levava a comida  boca, seus dentes no 
conseguiam mastig-la. Tomou um clice de vinho, mas a bebida desceu-lhe 
pela garganta como ouro derretido. 





Consternado com essa aflio sem precedente, Midas lutou para livrar-se 
daquele poder: detestava o dom que tanto cobiara. Tudo em vo, porm; a 
morte por inanio parecia aguard-lo. Ergueu os braos, reluzentes de ouro, 
numa prece a Baco, implorando que o livrasse daquela fulgurante destruio. 
Baco, divindade benvola, ouviu e consentiu. 
- Vai ao Rio Pactolo - disse -, segue a corrente at a fonte que lhe d 
origem, ali mergulha tua cabea e teu corpo e lava tua culpa e o teu castigo. 
Midas assim fez e mal tocara as guas, antes mesmo de terem passado 
para elas o poder de transformar tudo em ouro, as areias do rio tornaram-se 
aurferas, e assim continuam at hoje. 
Dali por diante, Midas, odiando a riqueza e o esplendor, passou a morar 
no campo, longe da cidade, e a cultuar P, o deus dos campos. Certa ocasio, P 
teve a temeridade de comparar sua msica  de Apolo, e de desafiar o deus da 
lira para uma competio. O desafio foi aceito, e Tmolo, o deus da montanha, 
foi escolhido como rbitro. O velho acomodou-se e tirou as rvores de seus 
ouvidos, para escutar. A um dado sinal, P tocou sua avena e, com sua rstica 
melodia, deu grande satisfao a si mesmo e a seu fiel devoto Midas, que se 
achava presente. Em seguida, Tmolo virou a cabea para o Rei Sol, e todas as 
rvores acompanharam seu gesto. Apolo ergueu-se, com a testa enfeitada do 
louro parnasiano, e a tnica de prpura tria arrastando-se no cho. Com a mo 
esquerda, segurava a lira, que dedilhava com a direita. Empolgado com a 
harmonia, Tmolo imediatamente concedeu a vitria ao deus da lira, e todos 
concordaram com o julgamento, menos Midas, que discordou e ps em dvida a 
justia do prmio. Apolo no tolerou que um par de orelhas de to depravados 
ouvidos continuasse a ter a forma humana, e f-las aumentar de tamanho, 
tornarem-se peludas, por dentro e por fora, e adquirirem movimento prprio; em 
suma: tornaram-se perfeitamente iguais s orelhas de um burro. 
O Rei Midas sentiu-se bastante mortificado com a deformao, mas 
consolou-se, lembrando-se de que era possvel esconder o infortnio, o 
que tentou, por meio de um amplo turbante. O cabeleireiro, porm, ficou, 
evidentemente, a par do segredo. Teve ordem de no revel-lo, sendo 
ameaado de terrvel castigo, se se atrevesse a desobedecer. Verificou, 
porm, que era demais para sua discrio guardar o segredo; e, assim, 

 





Midas banhando-se no Rio 
Pactolus. 

Nicolas Poussin 

METROPOLITAN, NOVA YORK 



foi ao campo, abriu um buraco no cho, e, abaixando-se, contou o caso, em voz 
baixa, e tampou o buraco. Pouco depois, crescia no local uma touceira de juncos 
que, logo que atingiu certo tamanho, comeou a contar o caso em sussurro, e 
assim faz at hoje, todas as vezes que a brisa sopra sobre o local. 
A histria do Rei Midas tem sido contada por outros com algumas 
variantes. Dryden, em seu poema "Histria do Banho", atribui  rainha, esposa 
de Midas, a revelao do segredo: 
A ningum o segredo das orelhas 
Midas ousou confiar, seno  esposa. 
Midas era rei da Frgia e filho de Grdio, um pobre campons, que foi 
escolhido pelo povo para rei, em obedincia  profecia do orculo, segundo a 
qual o futuro rei chegaria numa carroa. Enquanto o povo estava deliberando, 
Grdio chegou  praa pblica numa carroa, com a mulher e o filho. 
Tornando-se rei, Grdio dedicou a carroa  divindade do orculo, 
amarrando-a com um n, o famoso n grdio, a propsito do qual se dizia que, 
quem fosse capaz de desat-lo, tornar-se-ia senhor de toda a sia. Muitos 
tentaram em vo, at que Alexandre Magno chegou  Frgia, com suas 
conquistas. Tentou tambm desatar o n, com o mesmo insucesso dos outros, at 
que, impacientando-se, arrancou da espada e cortou-o. Quando, depois, 
conseguiu subjugar toda a sia, comeou-se a pensar que ele cumprira os 
termos do orculo em sua verdadeira significao. 
BAUCIS E FILMON 
Numa certa montanha da Frgia h, lado a lado, uma tlia e um 
carvalho, rodeados por um muro baixo. No muito distante do local fica um 
pntano, outrora terra habitvel, mas agora cheia de lagos, e refgio das 
aves aquticas e corvos marinhos. Certa vez, Jpiter, sob forma humana, 
visitou a regio, em companhia de Mercrio (o do caduceu), sem suas asas. 
Apresentaram-se como viajantes fatigados, a muitas portas, procurando 





 abrigo e repouso, mas encontraram todas fechadas, pois era tarde, e os poucos 
hospitaleiros habitantes no se dispuseram a levantar-se para ir receb-los. 
Afinal, uma moradia humilde acolheu-os, uma pequena choupana, onde uma 
piedosa velha, Baucis, e seu marido, Filmon, unidos quando jovens, haviam 
envelhecido juntos. Sem se envergonhar de sua pobreza, eles a tornaram 
suportvel graas  moderao dos desejos e ao bom gnio. No havia 
necessidade ali de procurar senhor e servo; os dois constituam toda a casa, 
servos e senhores a um s tempo. Quando os hspedes celestiais transpuseram o 
umbral humilde e abaixaram a cabea para passar sob a porta muito baixa, o 
velho trouxe uma cadeira, sobre a qual Baucis, atenciosa e prestativa, estendeu 
um pano, pedindo-lhes que se assentassem. Em seguida, ela retirou as brasas do 
meio das cinzas e reavivou o fogo, alimentando-o com folhas e casco seco de 
madeira, e, com o pouco flego que lhe restava, soprou as chamas. Trouxe de 
um canto achas de madeira seca, quebrou-as e colocou-as sob a pequena 
chaleira. Seu marido colheu algumas ervas na horta e a velha preparou-as para a 
panela. Filmon tirou com um gancho um naco de toucinho que pendia da 
chamin, cortou um pedacinho e colocou-o na panela com as ervas, deixando o 
restante para outra ocasio. Encheram, em seguida, de gua quente uma gamela 
de faia, a fim de que os hspedes pudessem lavar-se. 
No banco destinado aos hspedes foi colocada uma almofada com recheio 
de alga, e uma toalha, que s aparecia nas grandes ocasies, foi colocada por 
cima. A velha, trazendo um avental, ps a mesa, com as mos trmulas. Uma 
perna da mesa era mais curta que as outras, mas uma pedra colocada embaixo 
restabelecera o equilbrio. Arrumada a mesa, Baucis passou sobre ela algumas 
ervas de cheiro agradvel, e foram colocadas algumas azeitonas da casta 
Minerva, algumas conservas em vinagre, e acrescentaram-se rabanetes e queijo, 
com ovos esquentados no borralho. O repasto foi servido em pratos de barro e 
uma bilha de barro, com copos de madeira, achava-se entre as travessas. Quando 
tudo ficou pronto, colocou-se na mesa a sopa fumegante. Ajuntou-se algum 
vinho, no do mais velho, e, por sobremesa, mas e mel silvestre. 
Ora, enquanto o repasto prosseguia, os velhos ficaram assombrados 
ao ver que o vinho,  medida que era servido, renovava-se no jarro. Tomados 





de terror, Baucis e Filmon reconheceram seus hspedes celestiais, caram de 
joelhos e imploraram perdo pela pobreza do acolhimento. Possuam um velho 
ganso, que conservavam como guardio de sua humilde choupana, e acharam 
que ele poderia ser sacrificado em honra dos hspedes. Mas o ganso, muito gil, 
correndo e batendo as asas, escapou  perseguio dos velhos e, afinal, refugiou-
se entre os prprios deuses. Estes no permitiram que ele fosse morto, e 
disseram: 
- Somos deuses. Esta aldeia inospitaleira sofrer a pena de sua 
impiedade. Somente vs escapareis ao castigo. Deixai esta casa e vinde conosco 
para o alto daquele monte. 
Os dois apressaram-se em obedecer e, apoiados em seus bastes, 
puseram-se a galgar a ngreme subida. Estavam  distncia de um tiro de seta do 
alto, quando, voltando os olhos para trs, avistaram toda a regio transformada 
num lago, estando de p apenas sua casa. Enquanto maravilhavam-se com esse 
espetculo e lamentavam o destino de seus vizinhos, sua velha casa 
transformou-se num templo. Colunas tomaram o lugar dos rudes postes, o colmo 
tornou-se amarelo e transformou-se num teto dourado, o cho cobriu-se de 
mrmore, as portas enriqueceram-se com baixos-relevos e ornamentos de ouro. 
Ento Jpiter falou, com benevolncia: 
- Excelente velho, e tu, mulher, digna de tal marido, dizei-me quais so 
os vossos desejos. Que favor quereis de ns? 
Filmon consultou Baucis, durante alguns momentos, depois manifestou 
aos deuses seus desejos comuns: 
- Queremos ser os sacerdotes e guardies deste vosso templo. E, como 
passamos toda a nossa vida com amor e concrdia, desejamos que a mesma hora 
exata nos tire a ambos a vida, e que eu no viva para ver o tmulo de Baucis, 
nem ela para ver o meu. 
Seu desejo foi satisfeito. Os dois foram os guardies do templo enquanto 
viveram. Quando se tinham tornado muito velhos e estavam um dia de p diante 
da escada do edifcio sagrado, contando a histria do lugar, Baucis viu Filmon 
comear a cobrir-se de folhas, e Filmon viu Baucis transformar-se da mesma 
maneira. Tufos de folhas j haviam crescido em suas cabeas e os dois 
continuavam a trocar palavras de despedida, enquanto podiam falar. 





- Adeus, querida esposa. Adeus, querido esposo - diziam juntos, at o 
momento em que a nodosa casca lhes fechou a boca. 
O pastor tianeano ainda mostra as duas rvores, uma ao lado da outra, 
metamorfoses de duas boas pessoas. 
A histria de Baucis e Filmon foi imitada por Swift, em estilo burlesco, 
sendo os autores da transformao dois santos errantes, e a casa sendo 
transformada em capela, da qual Filmon se tornou o vigrio. Eis um trecho da 
mesma: 
Mal se atrevem a falar, quando o telhado, 
Devagar, comeou a levantar-se. 
Ergue-se cada viga, cada caibro. 
As paredes pesadas se alteiam, 
A chamin alteia-se e alarga-se, 
Em alto campanrio se transforma. 
Sobe a chaleira, at bater no teto, 
Num barro te do teto fica presa, 
Invertida, porm, para mostrar 
A fora de atrao da gravidade, 
Que em vo se exerce, pois fora contrria 
Sua queda detm e ali suspensa 
A conserva, vencendo a gravidade. 
J no  mais chaleira, mas  sino. 
Um girador de espeto de madeira, 
Sem uso h tanto tempo que da arte 
De assar a carne, quase se esquecera, 
Transforma-se, de sbito e de todo, 
Um recheio de rodas adquire 
Para maior assombro e maravilha, 
Quanto mais rodas tem mais lerdo fica. 
Muito embora tivesse ps de chumbo, 
Antes girava velozmente, e agora 
Numa hora inteira, como que tolhido, 
Uma s polegada mal avana. 





O girador e a chamin, amigos 
Inseparveis, no se separaram: 
A chamin  torre e seu amigo 
Sem dela se afastar, sempre a seu lado, 
O relgio virou do campanrio, 
No esqueceu, contudo, os velhos dias, 
Dos cuidados caseiros, no descuida 
E ao meio-dia, dando horas, lembra 
 cozinheira que queimar no deixe 
A carne que ele prprio assar no pde. 
A pesada poltrona j comea 
Ao mesmo tempo, como enorme lesma, 
A deslizar ao longo da parede 
E, maravilha!, em plpito se torna. 
O leito pesado, de estilo antigo, 
E em banco de igreja transformado, 
Mas conservando a antiga natureza, 

Pois quem nele se senta sente sono.



 CAPTULO VII 
PROSRPINA - GLAUCO E SILA 
---


D 



epois de Jpiter e seus irmos terem derrotado os tits e os expulsado 
para o Trtaro, um novo inimigo ergueu-se contra os deuses. Eram os 
gigantes Tfon, Briareu, Enclado e outros. Alguns deles tinham cem 
braos, outros respiravam fogo. Afinal, foram vencidos e enterrados vivos no 
Monte Etna, onde alguns continuam a lutar para se libertar, sacudindo toda a 
ilha com os terremotos. Sua respirao sai atravs da montanha e  o que os 
homens chamam de erupo vulcnica. 
A queda desses monstros abalou a terra, o que alarmou Pluto, receoso de 
que seu reino pudesse ser aberto  luz do sol. Presa dessa apreenso, ele entrou 
em seu carro, puxado por cavalos negros, e viajou pela terra, para verificar a 
extenso dos danos. Enquanto se achava empenhado nesse mister, Vnus, que 
estava sentada no Monte Erix, brincando com seu filho Cupido, olhou-o e disse: 
- Meu filho, toma tuas setas, com que vences todos, mesmo Jove, e 
crava uma delas no peito daquele sombrio monarca, que governa o reino do 
Trtaro. Por que dever ele sozinho escapar? Aproveitar a oportunidade de 
ampliar o teu e o meu domnio. No vs que mesmo no cu alguns desprezam 
nosso poder? Minerva, a sbia, e Diana, a caadora, desafiamo-nos; e ali est a 
filha de Ceres, que ameaa seguir seu exemplo. 





Agora, se tens qualquer considerao por teus prprios interesses e pelos 
meus, junta aquelas duas pessoas em uma s. 
O menino abriu a aljava e escolheu a mais aguda e fiel seta; depois, 
firmando o arco no joelho, distendeu a corda e desfechou a seta de ponta aguda 
bem no corao de Pluto. 
H, no vale de Ena, um lago escondido no bosque, que o protege contra os 
ardentes raios do sol; o terreno mido  coberto de flores, e a Primavera reina ali 
perpetuamente. Prosrpina l se encontrava, brincando com suas companheiras, 
colhendo lrios e violetas, e enchendo com as flores seu cesto e seu avental, 
quando Pluto a viu, apaixonou-se por ela e raptou-a. Ela gritou, pedindo ajuda  
me e s companheiras; e quando, apavorada, largou os cantos do avental e 
deixou cair as flores, sentiu, infantilmente, sua perda como um acrscimo ao seu 
sofrimento. O raptor excitou os cavalos, chamando-os cada um por seu nome e 
soltando sobre suas cabeas e pescoos as rdeas cor-de-ferro. Quando chegou 
ao Rio Cano, e este se ops  sua passagem, Pluto feriu a margem do rio com 
seu tridente, a terra abriu-se e deu-lhe passagem para o Trtaro. 
Ceres procurou a filha por todo o mundo. Aurora, dos louros cabelos, ao 
sair pela manh, e Hespria, ao trazer as estrelas ao anoitecer, ainda a 
encontraram ocupada na procura. Tudo foi em vo, porm. Afinal, cansada e 
triste, ela se sentou numa pedra e ali continuou sentada, durante nove dias e 
nove noites, ao ar livre,  luz do sol e ao luar, e sob a chuva. Era onde ora se 
ergue a cidade de Elusis, ento morada de um velho chamado Celeus. Ele 
estava no campo, colhendo bolotas e amoras silvestres e gravetos para alimentar 
o fogo. Sua filhinha conduzia para casa duas cabras e, ao aproximar-se da deusa, 
que aparecia sob o disfarce de uma velha, disse-lhe: 
- Me (e o nome foi suave aos ouvidos de Ceres) por que est sentada a 
nessa rocha? 
O velho tambm parou, embora sua carga fosse pesada, e convidou Ceres 
a entrar em sua cabana. Ela recusou e ele insistiu. 
- Vai em paz - respondeu a deusa - e s feliz em companhia de tua 
filha. Eu perdi a minha. 



 

 
Ao falar, lgrimas - ou algo como lgrimas, pois os deuses no choram 
- escorreram-lhe pelo peito. O compassivo velho e a criana choraram com ela. 
Afinal, disse Celeus: 
- Vem conosco e no desprezes nosso teto humilde. Talvez tua filha te 
seja devolvida s e salva. 
- Vamos - disse Ceres -, no posso resistir a tal apelo! Levantou-se 
da pedra e seguiu com os dois. Enquanto caminhavam, 
Celeus contou que seu nico filho, um menino, estava doente, febril e sem 
sono. Ceres parou e colheu algumas papoulas. Ao entrarem na cabana, 
encontraram todos muito tristes, pois o estado do menino parecia desesperador. 
Metanira, sua me, recebeu atenciosamente a visitante, e a deusa, debruando-
se, beijou os lbios da criana enferma. Instantaneamente, a palidez abandonou-
lhe o rosto e o vigor da sade voltou-lhe ao corpo. Toda a famlia ficou deleitada 
- isto , o pai, a me e a menina, pois no tinham criados. Puseram a mesa, e 
serviram coalhada e creme, mas e mel. Enquanto comiam, Ceres misturou caldo 
de papoula no leite que o menino estava tomando. Quando veio a noite e tudo 
estava quieto, ela levantou-se e, pegando o menino adormecido, passou-lhe as 

Rapto de Prosrpina. 

Niccolo dell'Abbate 







Rapto de Prosrpina 

(detalhe) 

Niccolo dell'Abbate 



mos pelos lbios e murmurou trs vezes palavras de encantamento, depois foi 
coloc-lo nas cinzas. A me do menino, que estava observando o que a hspede 
fazia, levantou-se, com um grito, e tirou a criana do fogo. Ento Ceres assumiu 
sua prpria forma e um divino esplendor espalhou-se em torno. Diante do 
assombro de todos, disse: 
- Me, foste cruel no amor ao teu filho. Eu ia torn-lo imortal, mas 
frustraste meus esforos. No obstante, ele ser grande e til. Ensinar aos 
homens o uso do arado e as recompensas que o trabalho pode obter do solo 
cultivado. 
Assim dizendo, envolveu-se numa nuvem e, tomando seu carro, afastou-
se. 
Ceres continuou a procurar a filha, passando de terra em terra, e 
atravessando mares e rios, at voltar  Siclia, de onde partira, e ficou de p  
margem do Rio Ciano, onde Pluto abrira uma passagem para os seus domnios. 
A ninfa do rio teria contado  deusa tudo que testemunhara, se no fosse o medo 
de Pluto; assim, apenas se aventurou a pegar a guirlanda que Prosrpina 
deixara cair em sua fuga e faz-la descer pela correnteza do rio, at junto da 
deusa. Vendo-a, Ceres no teve mais dvida sobre a perda da filha, mas ainda 
no conhecia a causa e lanou a culpa sobre a terra inocente. 
- Ingrato solo, que tornei frtil e cobri de ervas e gros nutritivos, no 
mais gozars de meus favores! - exclamou. 
Ento, o gado morreu, o arado quebrou-se no sulco, as sementes no 
germinaram. Houve sol e chuva em demasia. As aves roubaram as sementes. 
Somente medravam os cardos e saras. Ao ver isto, a fonte Aretusa intercedeu 
pela terra: 
- No culpes a terra, deusa - exclamou. - Ela se abriu de m 
vontade para dar passagem  tua filha. Posso contar-te qual foi o seu 
destino, pois a vi. Esta no  minha terra natal; venho de Elis. Era uma ninfa 
dos bosques e comprazia-me na caa. Exaltavam minha beleza, mas eu no 
cuidava disso, e antes me vangloriava de minhas proezas venatrias. Certo 
dia, estava voltando do bosque, aquecida pelo exerccio, quando vi um 
regato que corria sem rudo, to claro que podiam contar-se as pedrinhas do 
fundo. Os salgueiros o sombreavam e as margens, cobertas de relva, 
desciam at  gua, numa rampa suave. Aproximei-me, toquei a gua com o 
p. Entrei at ficar com gua pelo joelho e, no contente com isto, deixei minhas 





vestes nos salgueiros e entrei no rio. Enquanto l estava, ouvi um murmrio 
indistinto, vindo do fundo do rio, e apressei-me em fugir para a margem mais 
prxima. 
- Por que foges, Aretusa? - disse a voz. - Sou Alfeu, o deus deste rio. 
Fugi e ele me perseguiu. No era mais rpido do que eu, mas era mais forte, e 
alcanou-me, quando minhas foras fraquejaram. Afinal, exausta, gritei pedindo 
a ajuda de Diana: 
- Ajuda-me, deusa! Ajuda tua devota! 
A deusa ouviu-me e envolveu-me logo em espessa nuvem. O rio-deus 
procurou-me, ora aqui, ora ali, e duas vezes aproximou-se de mim, mas no 
conseguiu encontrar-me. 
- Aretusa! Aretusa! - gritava. 
Oh, como eu tremia! Como o cordeirinho, que ouve o lobo uivando fora 
do redil. Um suor frio cobriu-me, meus cabelos caram como correntes de gua e 
onde estavam meus ps formou-se uma lagoa. Em resumo: em menos tempo do 
que levo para contar, tornei-me uma fonte. Mas ainda sob essa forma, Alfeu 
reconheceu-me e tentou misturar sua corrente com a minha. Diana abriu o solo e 
eu, tentando escapar  perseguio, mergulhei na caverna e, atravs das 
entranhas da terra, cheguei aqui  Siclia. Ao passar pelas camadas inferiores da 
terra, vi sua Prosrpina. Ela estava triste, mas j no refletia susto na fisionomia. 
Seu aspecto era o de uma rainha: a rainha do rebo; a poderosa esposa do 
monarca do reino dos mortos. 
Ao ouvir isto, Ceres ficou perplexa durante um momento, depois virou o 
seu carro para o cu e correu a apresentar-se diante do trono de Jove. Contou a 
histria de sua aflio e implorou a Jpiter que intercedesse, para conseguir a 
restituio de sua filha. Jpiter consentiu, com uma condio: a de que 
Prosrpina no tivesse tomado qualquer alimento, durante sua permanncia no 
mundo inferior; de outro modo, as Parcas proibiam a sua libertao. E, assim, 
Mercrio foi mandado, acompanhado de Primavera, para pedir Prosrpina a 
Pluto. O ardiloso monarca consentiu, mas, infelizmente, a donzela aceitara uma 
rom que Pluto lhe oferecera e sugara o doce suco de algumas sementes. Isso 
foi suficiente para impedir sua libertao completa. Fez-se um acordo, contudo, 
pelo qual Prosrpina passaria metade do tempo com sua me e o resto com seu 
marido Pluto. 






Ceres deu-se por satisfeita com esse arranjo e restituiu  terra seus 
favores. Lembrou-se, ento, de Celeus e de sua famlia, e da promessa feita ao 
menino Triptlemo. Quando o menino cresceu, ensinou-lhe o uso do arado e 
como semear. Levou-o em seu carro, puxado por drages alados, a todos os 
pases da terra, aquinhoando a humanidade com cereais valiosos e com o 
conhecimento da agricultura. Depois de seu regresso, Celeus construiu em 
Elusis um magnfico templo dedicado a Ceres e estabeleceu o culto da deusa, 
sob o nome de mistrios de Elusis, que, no esplendor e solenidade de sua 
observncia, ultrapassavam todas as demais celebraes religiosas entre os 
gregos. 
No pode haver dvida de que esta histria de Ceres e Prosrpina  uma 
alegoria. Prosrpina representa a semente do trigo, que, quando enterrada no 
cho, ali fica escondida, isto , levada pelo deus do mundo subterrneo. Depois 
reaparece, isto , Prosrpina  restituda a sua me. A primavera a faz voltar  
luz do dia. 
Milton faz referncia ao episdio de Prosrpina, no Livro IV do Paraso 
Perdido: 
No era, no, de Ena o lindo campo 
Onde colhendo flores, Prosrpina, 
Ela mesma uma flor, pelo sombrio 
Deus do reino dos mortos foi roubada, 
O que custou a Ceres tantas penas. 
Hood, em sua "Ode  Melancolia", recorre  mesma aluso, de maneira 
muito feliz: 
Perdoa, se com a dor futura, esqueo 
A presente iluso, 
Como perdeu as flores Prosrpina 
A vista de Pluto. 


O Rio Alfeu de fato desaparece embaixo da terra, durante uma parte de 
seu curso; correndo por canais subterrneos, at voltar  superfcie de novo. 



Dizia-se que a fonte siliciana de Aretusa era proveniente da mesma 
corrente, que, aps atravessar o mar, ressurgia na Siclia. Da a lenda de que uma 
taa atirada no Alfeu aparecia em Aretusa.  a essa fbula do curso subterrneo 
do Alfeu que Coleridge alude em seu poema "Kubla Khan": 
Soberba, Kubla Khan em Xanadu ergueu 
Imponente manso 
Onde corre, sereno, o Rio Sacro Alfeu 
Que sob o prprio mar, em grutas se escondeu, 
Bem no fundo do cho. 
Em um de seus poemas juvenis, Moore assim se refere ao mesmo fato, e 
ao hbito de atirar guirlandas e outros objetos leves s guas do rio, para serem 
levados pela corrente e reaparecerem depois: 
Que divina alegria, minha amada, 
A das almas irms quando se encontram, 
Como o rio sagrado cuja gua 
Corre atravs de grutas subterrneas, 
Carregando guirlandas e coroas 
Pelas virgens olmpicas lanadas 
Como tributo  ninfa de Aretusa. 
Que alegria, que jbilo seria 
O seu, de se encontrar com a fonte amada! 
GLAUCO E SILA 
Glauco era pescador. Certo dia, recolhendo as redes, verificou que 
apanhara muitos peixes, de vrias espcies. Esvaziou a rede e tratou de separar 
os peixes, na relva. O lugar em que se encontrava era uma bela ilha fluvial, 
desabitada e no usada mesmo para pastagem do gado, que jamais fora 
visitada por quem quer que fosse, a no ser pelo prprio Glauco. De sbito, os 
peixes que se encontravam na relva comearam a reviver e mover as 
barbatanas, como se estivessem na gua. E, enquanto o pescador contemplava 





 

o espetculo, atnito, todos os peixes moveram-se 
a um s tempo para a gua, nela mergulharam 
e se afastaram. Glauco ficou sem saber se 
fora algum deus que fizera aquilo, ou se havia 
algum poder secreto na erva. 

- Que erva tem tal poder? - 
exclamou. E, apanhando algumas folhas, 
provou-as. Mal o suco da planta atingiu-lhe o 
palato, ele se sentiu agitado por um violento 
desejo de penetrar na gua. No pde resistir 
por muito tempo e, dizendo adeus  terra, mergulhou 
na corrente. Os deuses da gua o receberam com benevolncia e acolheram-no 
em sua sociedade. Obtiveram, ainda, o consentimento de Oceano e Ttis, os 
soberanos do mar, para que fosse lavado de tudo o que ainda lhe restava de 
mortal. Cem rios despejaram suas guas sobre ele. Glauco perdeu, ento, toda a 
sensao de sua antiga natureza e toda a conscincia. Quando voltou a si, estava 
mudado em forma e em esprito. Os cabelos tornaram-se verdes como o mar e 
arrastavam-se atrs dele na gua; os ombros alargaram-se e as pernas assumiram 
a forma de uma cauda de peixe. Os deuses do mar cumprimentaram-no pela 
mudana de seu aspecto e ele se imaginou um personagem de bela aparncia. 
Um dia, Glauco viu a linda donzela Sila, favorita das ninfas da gua, 
caminhando ao longo da praia  procura de um ponto tranqilo, onde pudesse 
entrar no mar, como entrou. Ele se apaixonou pela jovem e, surgindo  
superfcie das guas, falou-lhe, dizendo-lhe as palavras que lhe pareceram as 
mais convenientes para faz-la ficar onde estava; ela, logo ao v-lo, ps-se a 
correr, at chegar a um rochedo que dominava o mar. Ali parou, para ver se 
tratava de um deus ou animal marinho, e observou com assombro a forma e a 
cor de Glauco. Este, emergindo em parte da gua e apoiando-se num rochedo, 
disse: 
- Donzela, no sou um monstro, no sou um animal marinho, mas um 
deus. E nem Trito nem Proteu esto colocados mais alto do que estou. Outrora 
fui mortal e ganhava minha vida no mar. Agora, porm, a ele perteno 
inteiramente. 

Contou, ento, a histria de sua metamorfose, e como fora elevado  sua 
atual dignidade, e acrescentou: 



- De que vale, porm, tudo isso, se no consigo mover teu corao? 
Continuava a falar no mesmo tom, mas Sila virou as costas e fugiu. Glauco, 
desesperado a princpio, teve, depois, a idia de consultar a feiticeira Circe. E, 
assim, dirigiu-se  sua ilha,  mesma onde mais tarde Ulisses desembarcou, 
como veremos em outro episdio. Depois das saudaes recprocas, disse 
Glauco: 
- Deusa, imploro tua piedade. Somente tu podes aliviar meu sofrimento. 
Conheo o poder das ervas melhor que ningum, pois a elas devo minha 
mudana de forma. Amo Sila. Envergonho-me de contar-te como a cortejei e lhe 
fiz promessas, e quo desdenhosamente ela me tratou. Peo-te que uses de teus 
encantamentos, ou ervas poderosas, se tm mais valor, no para curar-me do 
meu amor, pois no desejo tal coisa, e sim para fazer com que Sila o compartilhe 
e me retribua. 
Ao que Circe replicou, pois no era insensvel  atrao da verde 
divindade marinha: 
- Seria melhor que procurasses um objeto complacente ao teu amor. s 
digno de ser procurado, em vez de procurar em vo. No sejas tmido, conheces 
teu prprio valor. Afirmo-te que mesmo eu, deusa como sou, e conhecedora das 
virtudes das plantas e encantamentos, no saberia como resistir-te. Se ela te 
despreza, despreza-a tambm. Procura algum que te encontre a meio caminho e 
assim possam ambos ser satisfeitos a um s tempo. 
A estas palavras, Glauco retrucou: 
- Mais cedo crescero rvores no fundo do oceano e algas no alto das 
montanhas, do que deixarei de amar Sila, e somente ela. 

A deusa ficou indignada, mas no podia puni-lo, e nem desejava, 
pois o amava; e assim voltou toda a ira contra a rival, a pobre Sila. Tomou 
plantas de poderes venenosos e misturou-as, com feitiarias e encantaes. 
Depois passou atravs da multido de animais, vtimas de sua arte, e 
dirigiu-se  costa da Siclia, onde vivia Sila. Havia, no litoral, uma pequena 
baa, para onde Sila costumava ir, no calor do dia, a fim de respirar um ar 
mais fresco e banhar-se nas guas. Ali a deusa derramou a mistura 
venenosa e murmurou palavras mgicas de grande poder. Sila chegou, 
como de costume, e mergulhou na gua at a cintura. Qual foi o seu horror ao 



perceber uma ninhada de serpentes e de monstros em torno dela! A princpio, 
no pde imaginar que era uma parte dela prpria e tentou deles fugir; mas, ao 
fugir, levava-os consigo e, quando tentou apalpar as pernas, suas mos 
encontravam apenas as bocas escancaradas dos monstros. Sila ficou presa ao 
local. Seu gnio tornou-se to horrvel quanto sua forma, e ela se comprazia em 
devorar os inermes marinheiros que chegavam ao alcance de suas garras. Assim 
destruiu seis dos companheiros de Ulisses, e tentou destruir os navios de Enias, 
at que foi transformada em rochedo e, como tal, ainda continua a ser o terror 
dos marinheiros. 

Keats, no poema "Endimio", oferece-nos uma nova verso do fim do 
episdio de Glauco e Sila. Glauco curva-se aos encantos de Circe, at que, por 
acaso, presencia suas bruxarias com os animais.1 Desgostoso com a traio e 
crueldade da deusa, tenta fugir, mas  capturado e Circe o expulsa, condenando-
o a passar mil anos de decrepitude e sofrimento. Glauco volta ao mar e ali 
encontra o corpo de Sila, que a deusa no metamorfoseara, mas afogara. Glauco 
aprende que seu destino  este: se passar mil anos recolhendo os corpos dos 
amantes afogados, um jovem amado dos deuses surgir para ampar-lo. 
Endimio cumpre essa profecia, resumindo a Glauco a mocidade e a Sila e todos 
os amantes afogados, a vida. 
O trecho seguinte conta a impresso de Glauco depois da "metamorfose 
marinha": 


1 V. captulo XXIX 

Mergulhei, para a vida ou para a morte. 

O esforo de vencer o mar bem forte 

Seria certamente. Surpreendido 

Fiquei, ao me sentir, a vida ilesa, 

Cercado pelas guas. A surpresa 

No me abandonou, dia aps dia. 

Como a avezinha, que se inicia 

No vo, pouco a pouco, passo a passo, 

At cortar, voando, o alto espao, 

Eu, pouco a pouco, as amplides marinha 

Fui conhecendo e tendo-as como minhas. 

 



 CAPTULO VIII 
PIGMALIO - DROPE - 
VNUS E ADNIS - APOLO E JACINTO 
---


P 



igmalio via tantos defeitos nas mulheres que acabou por abomin-las, e 
resolveu viver solteiro. Era escultor e executou, com maravilhosa arte, 
uma esttua de marfim, to bela que nenhuma mulher de verdade com 
ela poderia comparar-se. Era, na verdade, de uma perfeita semelhana com uma 
jovem que estivesse viva e somente o recato impedisse de mover-se. A arte, por 
sua prpria perfeio, ocultava-se, e a obra parecia produzida pela prpria 
natureza. Pigmalio admirou sua obra e acabou apaixonando-se pela criao 
artificial. Muitas vezes, apalpava-a, como para se assegurar se era viva ou no, e 
no podia mesmo acreditar que se tratasse apenas de marfim. Acariciava-a e 
dava-lhe presentes como as jovens gostam: conchas brilhantes e pedras polidas, 
pssaros e flores de diversas espcies, contas de mbar. Colocou vestidos sobre 
seu corpo, anis em seus dedos e um colar no pescoo, brincos nas orelhas e 
cordes de prolas no peito. Vestiu-a e ela no pareceu menos encantadora do 
que nua. Deitou-a num leito recoberto de panos coloridos com prpura, chamou-
a de esposa e colocou-lhe a cabea num travesseiro de plumas macias, como se 
ela pudesse sentir a maciez. 

Estava prximo o festival de Vnus, celebrado com grande pompa 
em Chipre. Vtimas eram oferecidas, os altares fumegavam e o cheiro de 
incenso enchia o ar. Depois de ter executado sua parte nas solenidades, 



Pigmalio de p, diante do altar, disse, 
timidamente: 

- Deuses, vs que tudo podeis, 
dai-me por esposa... - no se atreveu 
a dizer "minha virgem de marfim", 
mas acrescentou: ... algum 
semelhante  minha virgem de 
marfim. 

Vnus, que estava presente 
ao festival, ouviu-o e compreendeu o 
pensamento que ele no se atrevera a 
formular, e, como augrio de sua 
benevolncia, fez a chama do altar erguer-
se trs vezes no ar. Ao voltar para casa, 
Pigmalio foi ver a esttua e, debruando-se sobre o 
leito, beijou-a na boca. Os lbios pareceram-lhe quentes. Beijou-a de novo e 
abraou-a; o marfim mostrava-se macio sob seus dedos, como a cera do Himeto. 
Atnito e alegre, embora duvidando, e receando que se tivesse enganado, de novo, 
muitas vezes, com o ardor de um amante, toca o objeto de suas esperanas. Estava 
realmente vivo! O corpo, quando apertado, cedia aos dedos, para recuperar, depois, 
a elasticidade. Afinal, o cultuador de Vnus encontrou palavras para agradecer  
deusa e apertou os lbios de encontro a lbios to reais como os seus prprios. A 
virgem sentiu os beijos e corou, e abrindo seus tmidos olhos  luz fixou-os, no 
mesmo momento, em seu amante. Vnus abenoou as npcias que propiciara, e 
dessa unio nasceu Pafos, de quem a cidade, consagrada a Vnus, recebeu o nome.2 
DROPE 
Drope e Iole eram irms. A primeira era esposa de Andrmon, 
amada pelo marido e feliz com o nascimento do primeiro filho. Certo dia, 
as irms caminhavam pela margem de um rio que descia suavemente at 
junto da gua, ao passo que a parte mais alta era recoberta de mirtos. As 
duas tencionavam colher flores, a fim de tecerem guirlandas para os altares 
das ninfas, e Drope trazia a criana no regao, e amamentava-a, enquanto 

Pigmalio e Galatia 

J.L.F. Lagrene 

INSTITUTO DE ARTES, 

DETROIT 

2 Como  sabido, a amante de Pigmalio chamava-se Gaiatia. Bulfinch no menciona o nome, seguindo as 
"Metamofoses" de Ovdio, de onde tirou o espisdio (Livro II, versos 243 a 297). 

 



caminhavam. Perto da gua, crescia um ltus, repleto de flores cor de prpura. 
Drope colheu algumas e ofereceu-as  criancinha, e Iole ia fazer o mesmo, 
quando percebeu sangue escorrendo nas hastes de onde sua irm colhera as 
flores. A planta no era outra seno a ninfa Ltis, que, fugindo de um vil 
perseguidor, fora metamorfoseada em planta. Foi o que as duas irms ficaram 
sabendo pelos habitantes da regio, quando j era demasiadamente tarde. 
Horrorizada, quando percebeu o que havia feito, Drope teria com prazer 
fugido do lugar, mas sentiu os ps enraizados ao solo. Tentou arranc-los, mas 
s pde mover os membros superiores. Aos poucos, a dureza da madeira foi 
subindo pelo seu corpo e ela, angustiada, tentou arrancar os cabelos, mas viu as 
mos cheias de folhas. A criana sentiu que o seio materno comeara a 
enrijecer-se e o leite cessava de correr. Iole contemplou o triste destino da irm, 
sem poder socorr-la. Abraou-se com o tronco que crescia, como se pudesse 
impedir a continuao da metamorfose, e teria de bom grado sido envolvida pelo 
duro crtex. Neste momento, surgiram o pai de Drope e seu marido, Andrmon, 
e, quando perguntaram por Drope, Iole apontou-lhes o ltus recm-formado. 
Abraaram-se com o tronco, ainda quente, e cobriram suas folhas de beijos. 
Nada mais restava de Drope, a no ser o rosto. As lgrimas continuavam 
a escorrer-lhe dos olhos, caindo sobre as folhas, e, enquanto podia, ela falou: 

- No sou culpada. No mereo este destino. No injuriei pessoa 
alguma. Se eu disse falsidades, possa minha folhagem perecer com a seca e meu 
tronco ser cortado e queimado. Tomai este menino e entregai-o a uma ama. 
Tragam-no sempre para ser nutrido sob meus ramos e brincar  minha sombra. E 
quando ele tiver crescido bastante para falar, ensinai-o a chamar-me de me e 
dizer, com tristeza: "Minha me est sob este crtex." Que ele seja cauteloso ao 
andar pelas margens dos rios e colher flores, lembrando-se de que cada moita de 
arbustos que v pode ser uma deusa disfarada. Adeus, querido esposo, irm e 
pai. Se ainda me tendes amor, no deixeis que o machado me fira, nem que os 
rebanhos mordam e dilacerem meus galhos. Como no posso aproximar-me de 
vs, subi e beijai-me; e, enquanto meus lbios continuarem a sentir, erguei meu 



filho, para que eu possa beij-lo. No posso mais falar, pois o crtex avana at 
o pescoo e em breve atingir meu rosto. No precisais fechar-me os olhos, o 
crtex os fechar sem vossa ajuda. 
Ento os lbios cessaram de mover-se, e a vida extinguiu-se; mas os 
ramos conservaram durante algum tempo mais o calor vital. 
VNUS E ADNIS 
Brincando, certo dia, com seu filho Cupido, Vnus feriu o peito em 
uma de suas setas. Afastou a criana, mas a ferida era mais profunda do 
que pensara. Antes de cur-la, Vnus viu Adnis, e apaixonou-se por ele. 
J no se interessava por seus lugares favoritos: Pafos, Cnidos e Amatos, 
ricos em metais. Afastava-se mesmo do cu, pois Adnis lhe era mais caro. 
Seguiu-o, fez-lhe companhia. Ela, que gostava de se reclinar  sombra, 
sem outras preocupaes a no ser a de cultivar seus encantos, anda pelos 
bosques e pelos montes, vestida como a caadora Diana; chama seus ces 
e caa lebres e cervos, ou outros animais fceis de caar, abstendo-se, 
Vnus e Adnis 
Peter Paul Rubens 

 METROPOLITAN, NOVA YORK 



porm, de perseguir os lobos e os ursos, rescendendo ao sangue dos rebanhos. 
Tambm recomenda a Adnis que tenha cuidado com to perigosos animais: 
- S bravo com os tmidos. A coragem contra os corajosos no  segura. 
Evita expor-te ao perigo e ameaar minha felicidade. No ataques os animais 
que a natureza armou. No aprecio tua glria ao ponto de consentir que a 
conquistes expondo-te assim. Tua juventude e a beleza que encanta Vnus no 
enternecero os coraes dos lees e dos rudes javalis. Pensa em suas terrveis 
garras e em sua fora prodigiosa! Odeio toda a raa deles. Queres saber por qu? 
E, ento, contou a histria de Atalanta e Hipmenes, que ela transformara 
em lees, para castigo da ingratido que lhe fizeram. 
Tendo feito essa advertncia, Vnus subiu ao seu carro, puxado por 
cisnes, e partiu, atravs dos ares. Adnis, porm, era demasiadamente altivo para 
seguir tais conselhos. Os ces haviam expulsado um javali de seu covil e o 
jovem lanou seu dardo, ferindo o animal de lado. A fera arrrancou o dardo com 
os dentes e investiu contra Adnis, que virou as costas e correu; o javali, porm, 
alcanou-o, cravou-lhe os dentes no flanco e deixou-o moribundo na plancie. 
Vnus, em seu carro puxado por cisnes, ainda no chegara a Chipre, 
quando ouviu, cortando o ar, os gemidos de seu amado, e fez voltar para a terra 
os corcis de brancas asas. Quando se aproximou e viu, do alto, o corpo sem 
vida de Adnis, coberto de sangue, desceu e, curvando-se sobre ele, esmurrou o 
peito e arrancou os cabelos. Acusando as Parcas, exclamou: 
- Sua ao, porm, constituiu um triunfo parcial. A memria de meu 
sofrimento perdurar, e o espetculo de tua morte e de tuas lamentaes, meu 
Adnis, ser anualmente renovado. Teu sangue ser mudado numa flor; este 
consolo ningum pode negar-me. 

Assim falando, espalhou nctar sobre o sangue e, ao se misturarem os dois 
lquidos, levantaram-se bolhas, como numa lagoa quando cai a chuva, e, no 
espao de uma hora, nasceu uma flor cor-de-sangue, como a da rom. Uma flor 
de vida curta, porm. Dizem que o vento lhe abre os botes e depois arranca e 
dispersa as ptalas; assim,  chamada de anmona, ou flor-do-vento, pois o 
vento  a causa tanto de seu nascimento como de sua morte.



Milton faz aluso ao episdio de Vnus e Adnis, em "Comus" 
Entre moitas de rosas e jacintos, 
Muitas vezes repousa o jovem Adnis 
Amortecida a dor, e a seu lado 
Jaz a triste rainha dos assrios... 
APOLO E JACINTO 
Apolo amava apaixonadamente um jovem chamado Jacinto. 
Acompanhava-o em suas diverses, levava a rede quando ele pescava, conduzia 
os ces quando ele caava, seguia-o em suas excurses pelas montanhas e 
esquecia, por sua causa, a lira e as setas. Certo dia, os dois divertiram-se com 
um jogo e Apolo, impulsionando o disco, com fora e agilidade, lanou-o muito 
alto no ar. Jacinto contemplou o disco e, excitado com o jogo, correu a apanh-
lo, ansioso por fazer a sua jogada, mas o disco saltou na terra e atingiu-o na 
testa. O jovem caiu desmaiado. O deus, plido como Jacinto, ergueu-o e tratou 
de aplicar toda a sua arte, para estancar o sangue e conservar a vida que se 
esvanecia, mas tudo em vo: o ferimento estava alm dos poderes da medicina. 
Como um lrio cuja haste quebrou-se num jardim, curva-se e volta para a terra 
suas flores, assim a cabea do jovem moribundo, como se tivesse se tornado 
muito pesada para o pescoo, pendeu sobre o ombro. 
- Morreste, Jacinto - exclamou Apolo -, roubado por mim de tua 
juventude. O sofrimento  teu, e meu o crime. Pudesse eu morrer por ti! Como, 
porm, isto  impossvel, vivers comigo, na memria e no canto. Minha lira h 
de celebrar-te, meu canto contar teu destino e tu te trans-formars numa flor 
gravada com minha saudade. 

Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o cho e 
manchara a erva, deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que 
a prpura tria nasceu, semelhante ao lrio, com a diferena de que  roxo, 
ao passo que o lrio  de uma brancura argntea.2 E isso no foi bastante 
para Febo. Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas 
ptalas, e nelas escreveu "Ai! Ai!", como at hoje se v. A flor tem o nome 

2 Evidentemente, no  o jacinto moderno que aqui se descreve. Trata-se, talvez de alguma espcie de ris ou 
possivelmente, da esporinha ou do amor-perfeito. 



de jacinto e sempre que a primavera volta, revive a memria do jovem e lembra 
o seu destino. 
Conta-se que Zfiro (o vento oeste), que tambm amava Jacinto e tinha 
cime da preferncia de Apolo, desviou o disco de seu rumo para faz-lo atingir 
o jovem. Keats faz aluso a isso no "Endimio", quando descreve os 
espectadores do jogo de argolas: 
Contemplam os jogadores dos dois lados 
Lembrando, ao mesmo tempo, 
A sorte de Jacinto, quando o sopro, 
De Zfiro o matou; 
De Zfiro que, agora, penitente, 
Quando Febo se eleva 
No cu, as ptalas da florzinha beija. 
Tambm no "Lycidas" de Milton h uma aluso ao jacinto: 
A roxa flor que traz a dor impressa. 


 



 

AA MMoorrttee ddee JJaacciinnttoo 

JJeeaann BBrroocc 

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 CAPTULO IX 
CEIX E ALCONE: AS ALCONES 
---


C 



eix era rei da Tesslia, onde reinava em paz, sem cometer violncia ou 
injustia. Era filho de Vsper, a Estrela-d'Alva, e o esplendor de sua 
beleza lembrava a do pai. Alcone, filha de olo, era sua esposa, 
amante e dedicada. Ora, Ceix sentia-se profundamente aflito pela morte do 
irmo, e os horrveis prodgios que se seguiram a essa morte davam-lhe a 
impresso de que os deuses lhe eram hostis. Resolveu, portanto, fazer uma 
viagem a Carlos, na Jnia, a fim de consultar o orculo de Apolo. Porm, logo 
que revelou sua inteno  esposa, Alcone, esta estremeceu e tornou-se 
mortalmente plida. 
- Que culpa minha, querido marido, afastou de mim o teu afeto? - 
perguntou ela. - Onde est aquele amor que dominava todos os nossos 
pensamentos? Aprendeste a te sentires bem, longe de Alcone? Preferias que eu 
me afastasse de ti? 
Tambm tentou desanim-lo, descrevendo a violncia dos ventos, que 
conhecera muito bem, quando vivia em casa de seu pai, pois olo  o rei dos 
ventos, e fez todo o possvel para dissuadi-lo. 

- Eles correm juntos - disse - com tanta fria que o fogo irrompe do 
conflito. Mas se vais, querido marido, deixa-me ir contigo, de outro modo 
sofrerei no apenas os males verdadeiros que encontrares como tambm aqueles 
que meu temor sugerir. 



Estas palavras afetaram profundamente o esprito do Rei Ceix, que no 
desejava menos que a esposa, lev-la consigo, mas no podia exp-la aos 
perigos do mar. Respondeu, portanto, consolando-a como podia, e terminou com 
estas palavras: 
- Prometo pelos raios de meu pai, a Estrela-d'Alva, que, se o destino 
permitir, voltarei antes de a Lua ter girado duas vezes sobre sua rbita. 
Tendo assim falado, ordenou que o navio fosse tirado do estaleiro e os 
remos e velas colocados a bordo. Ao ver esses preparativos, Alcone tremeu, 
como se tivesse pressentimento do mal. Com lgrimas e soluos, disse adeus ao 
marido e caiu sem sentidos no solo. 
Ceix, por seu gosto, teria retardado a partida, mas os jovens marinheiros 
tinham tomado os remos e avanavam vigorosamente entre as ondas, com 
pancadas longas e cadenciadas. Alcone ergueu os olhos lacrimosos e viu o 
marido de p no convs, acenando-lhe. Respondeu ao aceno, at que o navio se 
afastou tanto que ela j no podia distinguir o vulto de Ceix dos demais. Quando 
o prprio navio j no pde ser visto, a jovem rainha aplicou os olhos para 
avistar as velas num ltimo relance at que estas tambm desapareceram. 
Retirou-se, ento, para o seu quarto e lanou-se ao leito solitrio. 
Enquanto isso, os navegantes saam do porto e a brisa brincava no 
cordame. Os marinheiros manejavam os remos e alaram as velas. Quando mais 
ou menos metade do trajeto fora feito, o mar comeou a embranquecer com 
ondas e o vento leste a soprar como um furaco. O mestre ordenou que se 
recolhessem as velas, mas a tempestade impediu que a ordem fosse cumprida, 
pois os gritos de comando no eram ouvidos entre o rudo dos ventos e das 
ondas. Os marinheiros, espontaneamente, tratavam de recolher os remos e rizar 
as velas. Enquanto assim fazem o que a cada um parece o melhor, a tempestade 
aumenta. Os gritos dos homens, o rangido das enxrcias e o batido das vagas 
misturam-se com o estrondo do trovo. O mar furioso parece levantar-se at o 
cu, para espalhar entre as nuvens sua espuma, depois, baixando at o fundo, 
tomar a cor do carvo: um negrume do Estige. 

O navio acompanha todas essas mudanas. Parece um animal selvagem 
que corre sob as lanas dos caadores. A chuva cai em torrentes, como se 



o cu estivesse caindo para se unir com o mar. Quando os raios cessam, por um 
momento, a noite parece ajuntar sua prpria escurido  da tempestade; em 
seguida vem o relmpago, afastando as trevas e tudo iluminando com seu claro. 
A habilidade falha, a coragem desaparece e a morte parece vir em cada vaga. Os 
homens ficam estupidificados de terror. Vm-lhes  lembrana os pais e filhos, 
os parentes deixados em casa. Ceix pensa em Alcone. Apenas o seu nome est 
em seus lbios e, ao mesmo tempo que anseia por v-la, regozija-se com a sua 
ausncia. De sbito, o mastro  despedaado por um raio, o leme se quebra e a 
onda triunfante varre o tombadilho e sai em seguida, levando os destroos. 
Alguns dos marinheiros, petrificados pelo choque, afundam-se na gua e no 
mais se erguem; outros agarram-se aos restos do naufrgio. Ceix, com a mo 
que costumava segurar o cetro, agarra-se a uma tbua, gritando por socorro - 
em vo, por desgraa - ao seu pai e ao seu sogro. O nome de Alcone, porm, 
era o que mais vezes vinha aos seus lbios. Para ela voltam-se os seus 
pensamentos. Pede que as ondas possam levar seu corpo at Alcone e que seus 
funerais por ela sejam feitos. Finalmente, as guas o cobriram e ele se afunda. A 
Estrela-dAlva mostrou-se sombria naquela noite. Como no podia deixar o cu, 
escondeu nas nuvens a face. 
Enquanto isso, Alcone, ignorando todos esses horrores, conta os dias para 
o prometido regresso do marido. Ora prepara as vestes que ele envergar, ora as 
que ela prpria usar quando ele regressar. Oferece, freqentemente, incenso a 
todos os deuses, porm mais do que todos a Juno. Reza, incessantemente, pelo 
marido que j no vive: que ele esteja salvo; que regresse ao lar; que no veja, 
em sua ausncia, outra mulher que possa amar mais que a ela prpria. De todas 
essas splicas, porm, a ltima era a nica destinada a ser atendida. A deusa, 
afinal, no mais suportando ouvir preces por algum que era morto e ver 
estendidos em seus altares os braos que deveriam erguer-se nos ritos funerrios, 
chamou ris, ordenando: 
- ris, minha fiel mensageira, vai  casa letrgica do Sono e dize-lhe para 
enviar uma viso a Alcone, sob a forma de Ceix, a fim de que ela saiba o que 
aconteceu. 

ris envergou suas vestes de muitas cores e tingindo o espao com seu 
arco, procurou o palcio do Rei do Sono. Perto da regio cimeriana, numa 



caverna da montanha, fica a morada daquele deus sonolento. Ali Febo no ousa 
entrar, nem ao se levantar, nem ao meio-dia, nem quando se recolhe. Nuvens e 
sombras erguem-se do cho e a luz brilha fracamente. 
A ave da alvorada, de vermelha crista, jamais ali chama, em voz alta, 
Aurora, nem o vigilante co ou o solerte ganso perturbam o silncio. Nem 
animal selvagem, nem o gado, nem um ramo movido pelo vento, nem o rudo da 
conversa humana afetam a quietude. O silncio ali reina; do fundo do rochedo, 
contudo, corre o Rio Letes, e seu murmrio convida ao sono. 
Junto  entrada da caverna, crescem abundantemente papoulas e outras 
plantas, de cujo suco a Noite extrai o sono, que espalha sobre a terra escurecida. 
No h na manso porta que gema nos gonzos, nem qualquer vigia; mas, no 
centro, um leito de negro bano, adornado com plumas e cortinas negras. Ali o 
deus se recosta, com os membros relaxados pelo sono. Em torno dele, esto os 
sonhos, apresentando todos vrias formas, tantas quantas hastes tm os trigais, 
quantas folhas tem a floresta, ou quantos gros de areia tm as praias. 
Logo que a deusa entrou e afastou os sonhos que se reuniam em torno 
dela, seu claro iluminou a caverna. O deus, mal abrindo os olhos, e de vez em 
quando cabeceando e fazendo cair a comprida barba sobre o peito, afinal 
despertou e estendendo o brao indagou a que vinha ris, pois a conhecia. 
- Sono - disse ela -, tu o mais gentil dos deuses, que tranqilizas os 
espritos e curas os coraes amargurados, Juno ordena-te que envies um sonho 
a Alcone, na cidade de Traquine, representando seu finado marido e todos os 
acontecimentos do naufrgio. 

Tendo transmitido o recado, ris apressou-se em sair, pois no podia 
tolerar o ar estagnado, e, sentindo a sonolncia que a tomava, voltou, 
atravs de seu arco, ao caminho que trilhara antes. Ento, Sono chamou 
um de seus inmeros filhos, Morfeu, o mais hbil em simular formas e em 
imitar o andar, a fisionomia e a maneira de falar, mesmo os vesturios e 
os modos mais caractersticos de cada um. Ele, porm, apenas imitava os 
homens, deixando ao encargo de outro imitar aves, quadrpedes e 
serpentes. Este era chamado Icelo; e um terceiro, Fantasos, muda-se em 
rochedos, guas, bosques e outras coisas sem vida. Os dois servem a reis e



 grandes personagens, em suas horas de sono, ao passo que outros se movem 
entre a gente comum. De todos os irmos, Sono escolheu Morfeu para executar 
a ordem de ris. Depois, encostou a cabea no travesseiro e entregou-se ao grato 
repouso. 

Morfeu voou, sem fazer o menor rudo com as asas, e logo chegou  
cidade hemoniana, onde, deixando de lado as asas, assumiu a forma de 
Ceix. Sob esse aspecto, mas plido como um defunto, e nu, colocou-se em 
frente ao leito da desventurada esposa. Sua barba parecia encharcada e a 



gua lhe escorria pelos cabelos. Debruando-se sobre o leito, com lgrimas 
descendo dos olhos, disse: 
- Reconheces Ceix, desventurada esposa, ou a morte modificou em 
demasia as minhas feies? Olha-me, v-me, a sombra de teu marido, e no ele 
prprio. Tuas preces, Alcone, de nada me valeram. Estou morto. No te iludas 
mais com vs esperanas de meu regresso. Os ventos tempestuosos afundaram 
meu navio no Mar Egeu, a gua penetrou em minha boca enquanto eu dizia, em 
voz alta, o teu nome. No  um mensageiro incerto que te conta isto, no  um 
vago rumor que chega aos teus ouvidos. Venho em pessoa, eu um nufrago, 
contar-te meu destino. Levanta-te! D-me lgrimas, d-me lamentos, no me 
deixes descer ao Trtaro sem ser chorado. 
A estas palavras Morfeu ajuntou a voz que parecia ser a do marido de 
Alcone; vertia lgrimas iguais s de verdade, e suas mos copiavam os gestos 
de Ceix. 
Alcone, chorando, gemeu e estendeu os braos, ainda dormindo, 
procurando abraar o corpo, mas encontrando apenas o ar. 
- Fica! - exclamou. Por que foges? Partamos os dois juntos! 
Sua prpria voz despertou-a. Assustada, olhou em torno, para ver se o 
marido ainda estava presente, pois os criados, alarmados por seus gritos, haviam 
acorrido, trazendo uma luz. No encontrando o marido, Alcone esmurrou o 
peito e rasgou as vestes. No se preocupou em desatar os cabelos, mas arrancou-
os, selvagemente. Sua ama indaga qual a causa de seu sofrimento. 

- Alcone j no existe - responde. - Pereceu com seu Ceix. No 
digas palavras de consolo, ele naufragou e est morto. Eu o vi, reconheci-o. 
Estendi os braos para ret-lo. Sua sombra esvaneceu-se, mas era a 
verdadeira sombra de meu marido. No com as feies costumeiras, no 
com sua beleza, mas plido, nu e os cabelos molhados pela gua do mar, 
para fazer-me sofrer. Aqui, neste mesmo lugar, esteve a triste viso. - E 
Alcone olhou, procurando suas pegadas. - Era isto, era isto que meu 
esprito previa, quando lhe implorei que no me deixasse, que no se 
confiasse s guas. Oh, quanto desejaria, uma vez que foste, que me tivesses 
levado contigo! Quanto melhor teria sido! No teria, ento, um resto de vida 
para passar sem ti, nem de morrer uma morte separada. Se eu pudesse suportar a 



vida e lutar para toler-la, seria mais cruel para comigo mesma do que o 
mar tem sido. Mas no lutarei, no me separarei de ti, desventurado 
marido. Desta vez, pelo menos, far-te-ei companhia. Na morte, se um s 
tmulo no pode conter-nos, um s epitfio conter; se no posso 
misturar minhas cinzas com as tuas, meu nome, pelo menos, no ser 
separado do teu. 
O sofrimento impediu-a de dizer outras palavras, e as que dizia 
foram interrompidas por lgrimas e soluos. 
J era manh. Alcone dirigiu-se  praia e procurou o lugar onde 
vira o marido pela ltima vez, por ocasio de sua partida. 
- Enquanto ajustava os apetrechos do navio, ele me deu aqui o 
ltimo beijo. 
Revendo cada objeto, ela se esfora para relembrar todos os 
incidentes, contemplando o mar, e avista, ento, um objeto indistinto, 
flutuando na gua. A princpio, duvidou do que fosse, mas, pouco a 
pouco, as guas o foram trazendo mais para perto, e no havia dvida de 
que era o corpo de um homem. Embora sem saber de quem se tratava, 
como era o corpo de um nufrago, Alcone ficou profundamente 
comovida e derramou lgrimas copiosas, exclamando: 
- Ah, desventurado e desventurada esposa, se tens esposa! 
Empurrado pelas guas, o corpo aproximou-se. E, ao v-lo 
aproximar-se, Alcone tremia cada vez mais. Agora, aproxima-se mais da 
praia. Aparecem, agora, sinais que ela reconhece. E o marido... 
Estendendo para o corpo os trmulos braos, ela exclama: 
- Oh, adorado marido,  assim que voltas para junto de mim? 

Partindo da praia, fora construdo um molhe, destinado a conter a 
fria do mar. Alcone salta sobre esta barreira e (coisa maravilhosa que o 
pudesse fazer) voa e, cortando o ar com asas que haviam surgido naquele 
instante, aflorou a superfcie da gua, transformada numa ave desventurada. 
Enquanto voava, saam-lhe da garganta sons dolorosos, semelhantes  voz 
de algum que se lamenta. Ao tocar o corpo mudo e sem sangue com as 
asas recm-formadas, tentou beij-lo, com seu bico sseo. Se Ceix sentira 
o contato, ou se foi simplesmente ao das ondas, aqueles que 
contemplavam a cena no souberam dizer, mas o cadver pareceu levantar 
a cabea. Na verdade, porm, ele sentiu e, pela benevolncia dos deuses



ambos os esposos foram transformados em aves. Acasalaram-se e 
reproduziram-se. Durante sete plcidos dias, no inverno, Alcone choca os 
ovos no ninho, que flutua no mar. Ento, as rotas so seguras para os 
marinheiros. olo impede que os ventos sacudam as profundezas das 
guas. O mar fica entregue, durante esse tempo, aos seus netos. 
Os seguintes versos do poema "A Noiva de Abidos", de Byron, 
poderiam parecer emprestados  parte final desta descrio, se no se 
esclarecesse que o autor se inspirou na observao do movimento de um 
cadver flutuando nas guas: 
No leito movedio sacudida, 
Pende, ao sabor da vaga, a nvea face 
E move-se, na vaga, a mo sem vida 
Qual se de tanta dor e tantas mgoas 
Com um gesto de ameaa se vingasse, 
Mas logo rosto e mos somem nas guas. 
Milton, em seu "Hino  Natividade", assim alude  lenda Alcone: 
Bem tranqila era a noite em que o Prncipe 
Da luz sobre esta terra comeou 
Seu reinado de paz. Serena, a brisa 
De leve o mar beijava. O oceano 
Mal se movia. E as aves da bonana 
Em seu ninho vagavam sobre as ondas. 
Tambm Keats diz, no "Endimio": 
Maravilhoso sono! Benfazeja 
Ave que, no turbado mar da alma, 
Seu ninho faz, at que o mar esteja 

Tranqilo e manso, e a natureza calma 



 CAPTULO X 
VERTUNO E POMONA 
---


A 



s hamadrades eram ninfas dos bosques. Pomona era uma delas, 
e nenhuma a excedia no amor aos jardins e ao cultivo das 
rvores frutferas. No se preocupava com florestas e rios, mas 
amava as regies cultivadas e as rvores de onde pendem as maas 
deliciosas. Trazia como arma, na mo direita, no um dardo, mas um 
podo. Armada com ele, dedicava seu tempo ora a impedir que as plantas 
crescessem excessivamente e a cortar os ramos que saam de seus lugares, 
ora a abrir uma fenda para nela inserir um enxerto, fazendo o ramo adotar 
um broto que no era seu. Tambm velava para que suas plantas 
prediletas no ficassem secas e conduzia at junto dela os canais, a fim de 
que as razes sedentas pudessem beber. Essa ocupao era seu objetivo e 
sua paixo: e estava livre do que Vnus inspira. Receava os habitantes da 
regio e mantinha seu pomar fechado, sem permitir que homem algum ali 
entrasse. Os faunos e stiros dariam tudo de que dispunham para 
possu-la, e assim tambm o velho Silvano, que parece jovem para sua 
idade, e P, que usa uma guirlanda de folhas de pinheiro em torno da 
cabea. Vertuno, porm, a ama mais do que todos os outros; mas no 
tem mais sorte do que os outros. Quantas vezes, sob o disfarce de um 
segador, ele no levou a Pomona trigo num cesto, em tudo semelhante, 
de fato, a um ceifeiro! Com uma faixa de feno amarrada em torno do 
corpo, parecia, realmente, que acabara de ceifar os campos. Algumas 



 Ninfa adormecida surpreendida por stiros 
Nicolas Poussin 
NATIONAL GALLERY, LONDRES 


vezes, trazia consigo um aguilho e ningum duvidaria de que acabara de 
desatrelar os fatigados bois. Ora trazia um podo e personificava um vinhateiro; 
ora, carregando uma escada, dava a impresso de que ia colher mas. s vezes 
apresentava-se como um soldado licenciado, s vezes carregava um canio, 
como se fosse pescar. Desse modo, conseguia aproximar-se de Pomona 
freqentemente e alimentava a paixo com a sua presena. 



Certo dia, ele apareceu disfarado em velha, com os cabelos grisalhos 
cobertos por uma touca e tendo um basto na mo. Entrou no pomar e 
admirou os frutos. 
- Mereces louvor, minha filha - disse, e beijou Pomona, no 
exatamente como a beijaria uma velha. 
Sentou-se num banco e olhou para os ramos carregados de frutos que 
pendiam acima dela. Em frente, havia um olmo, por cujo tronco subia uma 
parreira, carregada de uva. Elogiou a rvore e a vinha a ela associada. 
- Mas - acrescentou - se a rvore ficasse s, sem a vinha lhe 
cingindo o tronco, nada teria para nos atrair ou nos oferecer, a no ser as 
folhas inteis. E, igualmente, a vinha, se no se enroscasse em torno do olmo, 
estaria prostrada no cho. Por que no aproveitas a lio da rvore e da vinha 
e concordas em unir-te a algum? Eu desejaria que assim o fizesses. A 
prpria Helena no teve tantos pretendentes, nem Penlope, a esposa do 
astucioso Ulisses. Apesar de desprez-los, eles te fazem a corte, divindades 
rurais e outros de diversas naturezas que andam por estas montanhas. Mas, se 
s prudente, e desejas fazer uma boa aliana, e deixares que te aconselhe uma 
velha que te ama mais do que supes, deixa de lado todos os outros e aceita 
Vertuno. E o meu conselho. Conheo-o to bem quanto ele se conhece. No  
uma divindade errante, mas pertence a estas montanhas. Nem se assemelha a 
muitos dos amantes de hoje em dia, que amam todas que tm ocasio de ver. 
Ele te ama, e somente a ti. Ajunta a isso que ele  jovem e belo e tem a arte 
de assumir qualquer aspecto que deseje, e pode transformar-se exatamente 
naquilo que desejes. Alm do mais, ele ama as mesmas coisas que amas, 
deleita-se com a jardinagem e admira tuas mas. Agora, porm, ele no se 
interessa por frutas e flores, nem outra coisa qualquer, a no ser por ti. Tem 
piedade dele e imagina-o falando agora por minha boca. Lembra-te de que os 
deuses castigam a crueldade e de que Vnus detesta os coraes duros e 
vingar-se- de tais ofensas, mais cedo ou mais tarde. Para provar isto, deixa-
me contar-te uma histria que  bem sabido em Chipre ser verdadeira. E 
espero que ela tenha como resultado tornar-te mais benevolente. 

"fis era um jovem de origem humilde, que se apaixonou por 
Anaxrete, nobre dama de uma antiga famlia de Tucria. Lutou muito tempo 



com sua paixo, mas, quando viu que no podia domin-la, procurou a 
casa da mulher amada, como suplicante. Primeiro contou sua paixo  
ama de Anaxrete e pediu-lhe que, se amasse a filha de criao, 
favorecesse sua causa. Depois, tentou arrastar os criados para o seu lado. 
As vezes, escrevia suas splicas em tabuinhas e, muitas vezes, pendurou, 
na porta, guirlandas que molhara com suas lgrimas. Estendia-se nos 
umbrais da morada da jovem e murmurava suas queixas s barras e 
fechaduras cruis que dela o separavam. Anaxrete mostrava-se mais 
surda que os vagalhes que se erguem nas tempestades de novembro; 
mais dura que o ao que vem das forjas germnicas ou que a pedra que 
ainda se prende ao seu rochedo nativo. Zombava e ria-se de Ifis, 
ajuntando palavras cruis ao seu rude tratamento, e no lhe dava a mais 
ligeira esperana. 
fis j no podia suportar os tormentos do amor desesperanado e, 
de p diante da porta da amada, disse estas ltimas palavras: 
- Venceste, Anaxrete, e j no ters de suportar minhas 
importunaes. Goza o teu triunfo! Canta canes de alegria e cinge tua 
cabea de louros. Venceste. Vou morrer. Corao de pedra, regozija-te! 
Isto ao menos posso oferecer-te e obrigar-te a elogiar-me. E assim 
provarei que o meu amor por ti s me abandonar juntamente com a vida. 
Nem deixarei ao cuidado de outros a notcia de minha morte. Irei eu 
mesmo e me vers morrer e hs de regalar teus olhos com o espetculo. 
Contudo,  deuses que baixais os olhos para os sofrimentos dos mortais, 
observai meu destino! S peo uma coisa: que eu seja lembrado nos 
tempos vindouros e que ajunteis  minha fama os anos que roubastes de 
minha vida. 
Assim ele disse e, voltando o rosto plido e os olhos lacrimosos 
para a manso da amada, amarrou uma corda ao portal onde muitas vezes 
prendera guirlandas e, metendo a cabea no lao, murmurou: 
- Pelo menos esta guirlanda h de agradar-te, jovem cruel! 

E caiu enforcado, suspenso  corda pelo pescoo quebrado. Ao cair, 
chocou-se contra a porta, e o rudo foi semelhante a um gemido. Os criados 
abriram a porta, encontraram-no morto, e, com exclamaes de piedade, 
retiraram o corpo e levaram-no para casa, entregando-o  sua me, pois 
seu pai j era morto. Ela recebeu o corpo sem vida do filho, apertou-o 
de encontro ao peito e disse as palavras dolorosas que as mes costumam 



dizer no sofrimento. O triste funeral atravessou a cidade e o plido cadver 
foi levado num caixo para o lugar da pira funerria. Por acaso, a casa da 
Anaxrete ficava na rua onde passava o desfile, e os lamentos das 
carpideiras chegaram aos ouvidos daquela a quem a divindade vingadora j 
marcara para o castigo. 
- Vamos ver este triste desfile - disse ela, e subiu a uma torre 
atravs de cuja janela aberta contemplou o funeral. 
Mal demoraram no vulto de fis estendido no caixo, seus olhos 
comearam a enrijecer e esfriou o quente sangue de seu corpo. Procurando 
recuar, a jovem percebeu que no podia mover os ps. Tentou virar o rosto, 
mas em vo. Pouco a pouco, todos os seus membros tornaram-se de pedra, 
como o corao. 
No podes duvidar do fato, pois a esttua ainda se encontra no 
templo de Vnus em Salamina, ostentando a forma exata da dama. E, 
agora, reflete sobre todas essas coisas, minha querida, e pe de lado o 
desdm e as protelaes e aceita um amante. Assim no possa o granizo 
hibernai crestar teus jovens frutos, nem os ventos furiosos dispersar tuas 
flores!" 
Tendo assim falado, Vertuno livrou-se do disfarce da velha e se 
mostrou tal como era, um belo jovem. Pomona teve a impresso de ver o 
sol irrompendo atravs de uma nuvem. Ele ia renovar seus apelos, mas no 
houve necessidade; seus argumentos e seu prprio aspecto triunfaram e a 
ninfa j no mais resistiu, correspondendo-lhe com o mesmo ardor. 






 CAPTULO XI 
CUPIDO E PSIQUE 
---


C 



ertos rei e rainha tinham trs filhas. A formosura das duas mais velhas 
era fora do comum, mas a beleza da mais moa era to maravilhosa que 
no existem palavras para express-la como merece. A fama de tal 
beleza foi to grande que estrangeiros de pases vizinhos iam, em 
multides, admir-la, assombrados, rendendo  jovem homenagens que s se 
devem  prpria Vnus. Na verdade, Vnus viu os seus altares desertos, 
enquanto os homens voltavam sua devoo  jovem virgem. Quando esta 
passava, as pessoas entoavam-lhe loas e semeavam seu caminho de coroas e 
flores. 
O desvirtuamento de uma homenagem devida apenas aos poderes 
imortais, para exaltao de uma simples mortal, ofendeu profundamente a 
Vnus. Sacudindo com indignao a linda cabeleira, ela exclamou: 
- Terei, ento, de ser eclipsada em minhas honras por uma jovem 
mortal? Em vo aquele pastor real, cujo julgamento foi aprovado pelo prprio 
Jove, concedeu-me a palma da beleza sobre minhas ilustres rivais, Palas e Juno. 
Ela no poder, contudo, usurpar minhas honras tranqilamente. Dar-lhe-ei 
motivo para se arrepender dessa beleza injustificada. 
Chama, ento, seu filho alado Cupido, bastante ardiloso por sua prpria 
natureza, e o exalta e provoca-o ainda mais por seus cumprimentos. Mostra-lhe 
Psique e diz: 




 

Eros torna-se 

Cupido 

- Castiga, meu filho, aquela audaciosa beleza; assegura  tua me uma 
vingana to doce quanto foram amargas as injrias recebidas. Infunde no peito 
daquela altiva donzela uma paixo por algum ser baixo, indigno, de sorte que ela 
possa colher uma mortificao to grande quanto o jbilo e o triunfo de agora. 



Cupido preparou-se para obedecer s ordens maternas. H duas fontes no 
jardim de Vnus, uma de gua doce, outra de gua amarga. Cupido encheu dois 
vasos de mbar, cada um com gua de uma das fontes, e suspendendo-os no alto 
de sua aljava, dirigiu-se ao quarto de Psique, que encontrou dormindo. 
Derramou, ento, algumas gotas de gua da fonte amarga sobre os lbios da 
jovem, embora ao v-la quase fosse tomado de piedade; depois, tocou-a de lado 
com a ponta de sua seta. Ao contato, Psique acordou e abriu os olhos diante de 
Cupido (ele prprio invisvel), que, perturbado, feriu-se com sua prpria seta. 
Descuidando-se do ferimento, o nico pensamento do deus consistia em 
desfazer o mal que fizera, e derramou as balsmicas gotas de alegria sobre os 
sedosos cabelos da jovem. 
Psique, da em diante desdenhada por Vnus, no tirou vantagem de todos 
os seus encantos.  bem certo que todos os olhos a contemplavam com 
admirao e todas as bocas a exaltavam; mas nenhum rei, prncipe ou plebeu 
apresentava-se para pedi-la em casamento. Suas duas irms mais velhas, muito 
menos belas, de h muito se haviam casado com dois prncipes herdeiros, 
enquanto Psique, em seus aposentos, deplorava a solido, irritada com uma 
beleza que, embora trazendo uma prodigalidade de louvores, no conseguira 
despertar amor. 
Seus pais, receosos de que, inadvertidamente, tivessem incorrido na ira 
dos deuses, consultaram o orculo de Apolo, que respondeu: 
- A virgem no se destina a ser esposa de um amante mortal. Seu futuro 
marido a espera no alto da montanha.  um monstro a quem nem os deuses nem 
os homens podem resistir. 
Essa terrvel predio do orculo encheu a todos de desnimo, e os pais da 
jovem entregaram-se ao desespero. Psique, porm, disse: 
- Por que me lamentais, queridos pais? Devereis antes ter sofrido quando 
todos me cumulavam de honras indevidas e a uma voz me chamavam de Vnus. 
Percebo agora que sou vtima daquele nome. Resigno-me. Levai-me quele 
rochedo a que me destinou meu desventurado destino. 

E, assim, tendo sido preparadas todas as coisas, a donzela real tomou seu 
lugar no cortejo, que mais parecia um funeral que um casamento e, com seus 
pais, entre as lamentaes do povo, subiu  montanha, no alto da qual deixaram-
na s, voltando para casa, com os coraes afogados em tristeza. 



Enquanto Psique estava de p no alto da montanha, tremendo de medo 
e com os olhos rasos de lgrimas, o gentil Zfiro a levantou acima da terra e a 
conduziu suavemente at um vale florido. Pouco a pouco, a jovem acalmou-
se e estendeu-se na relva, para dormir. Ao despertar, refeita pelo sono, olhou 
em torno e viu, bem perto, um lindo bosque de rvores altas e majestosas. 
Entrou no bosque e, no meio dele, encontrou uma fonte, de guas puras e 
cristalinas, e, mais adiante, um magnfico palcio, cuja augusta fachada dava 
a impresso de que no se tratava de obras de mortais, mas da venturosa 
morada de algum deus. Tomada de espanto e admirao, a moa aproximou-
se do palcio e aventurou-se a entrar. Cada objeto que viu a encheu de 
assombro. Colunas de ouro sustentavam o teto abobadado e as paredes eram 
ornadas de baixos-relevos e pinturas de animais selvagens e cenas rurais, 
representados de modo a deleitar os olhos do espectador. Continuando a 
avanar, Psique percebeu que, alm dos aposentos majestosos, havia outros 
repletos de tesouros e de todos os mais belos produtos da natureza e da arte. 
Enquanto admirava, uma voz se fez ouvir, embora a jovem no visse 
quem quer que fosse, dizendo estas palavras: 
- Soberana dama, tudo que vs  teu. Ns, cujas vozes ouves, somos 
teus servos e obedeceremos s tuas ordens com a maior ateno e diligncia. 
Retira-te, pois, para teu quarto e repousa em teu leito e, quando tiveres 
descansado, poders banhar-te. A ceia te espera no aposento adjacente, 
quando te aprouver ali te assentares. 
Psique atendeu s recomendaes dos servos invisveis; depois de 
repousar e banhar-se, sentou-se no aposento contguo, onde imediatamente 
surgiu uma mesa, sem qualquer servidor visvel, com os pratos e vinhos mais 
deliciosos. Tambm seus ouvidos foram deleitados com msica tocada por 
executantes invisveis; um dos quais cantava, outro, tocava alade, enquanto 
os demais completavam a maravilhosa harmonia de um coro perfeito. 
Psique ainda no vira o marido que lhe estava destinado. Ele vinha 
apenas nas horas de escurido e partia antes do amanhecer, mas suas 
expanses eram repletas de amor e inspirou nela uma paixo semelhante. 
Muitas vezes ela implorava ao amante que ficasse e a deixasse olh-lo, mas ele 





no consentia. Ao contrrio, recomendou-lhe que no fizesse qualquer 
tentativa para v-lo, pois ele tinha bons motivos para se esconder. 
- Por que queres me ver? - perguntava. - Podes duvidar de meu 
amor? Tens algum desejo que no foi satisfeito? Se me visses, talvez fosses 
temer-me, talvez adorar-me, mas a nica coisa que peo  que me ames. 
Prefiro que me ames como igual a que me adores como deus. 
Estes argumentos de certo modo aquietaram Psique, durante algum 
tempo, e, enquanto tudo foi novidade, ela se sentiu feliz. Finalmente, 
porm, a lembrana de seus pais, que ignoravam seu destino, e das irms, 
impedidas de compartilhar com ela as delcias de sua situao, dominou-
lhe o esprito, e ela comeou a considerar o palcio apenas como uma 
esplndida priso. Quando o marido apareceu certa noite, ela lhe contou 
seus sofrimentos e acabou, embora a custo, obtendo seu consentimento 
para que suas irms pudessem ir v-la. 
Assim, chamando Zfiro, ela lhe transmitiu as ordens do marido e 
ele, obedecendo prontamente, trouxe as irms de Psique, atravs da 
montanha, para o vale onde ficava o seu palcio. Elas a abraaram e a 
jovem retribuiu-lhes as carcias. 
- Vinde - disse Psique. - Entrai em minha casa e disponde do que 
vossa irm tem para vos oferecer. 
Ento, tomando-as pelas mos, levou-as a seu palcio de ouro e 
entregou-as aos cuidados dos criados invisveis, a fim de que se 
banhassem, fossem servidas  mesa e admirassem os numerosos tesouros. 
A vista daqueles dons celestiais fez com que a inveja penetrasse no corao 
das duas, vendo que sua irm mais moa possua tais riquezas e 
esplendores, muito superiores aos seus. 
Fizeram a Psique inmeras perguntas, entre outras, que espcie de 
pessoa era seu marido. Psique respondeu que era um belo jovem, que 
geralmente passava o dia caando nas montanhas. As irms, no satisfeitas 
com essa resposta, fizeram-na confessar que nunca o vira. Trataram, ento, 
de encher o corao da jovem de sombrias desconfianas. 
- Lembra-te - disseram - que o orculo pitiano anunciou que tu 
te casarias com um monstro horrvel e tremendo. Os habitantes deste vale 
dizem que teu marido  uma terrvel e monstruosa serpente, que te nutre, 





por enquanto, com alimentos deliciosos a fim de devorar-te depois. Ouve 
nosso conselho. Mune-te de uma lmpada e de uma faca afiada; esconde-as 
de maneira que teu marido no possa ach-las, e, quando ele estiver 
dormindo profundamente, sai do leito, traze a lmpada e v, com teus 
prprios olhos, se o que dizem  verdade ou no. Se , no hesites em 
cortar a cabea do monstro e recuperares tua liberdade. 
Psique resistiu a esses conselhos tanto quanto pde, mas eles no 
deixaram de impression-la e, depois que suas irms se retiraram, o efeito 
de suas palavras e a prpria curiosidade da jovem tornaram-se bastante 
fortes para que ela pudesse resistir. Assim, preparou a lmpada e uma faca 
afiada e escondeu-as do marido. Quando ele adormeceu, Psique levantou-
se sem fazer rudo e, trazendo a lmpada, divisou no um monstro 
horripilante, mas o mais belo e encantador dos deuses, com madeixas 
louras caindo sobre o pescoo cor-de-neve e as faces rseas, um par de 
asas nos ombros, mais brancas que a neve, de penas brilhantes como as 
flores da primavera. Ao abaixar a lmpada para ver o rosto do marido mais 
de perto, uma gota de leo ardente caiu no ombro do deus, que, assustado, 
abriu os olhos e encarou Psique. Depois, sem dizer uma palavra, abriu as 
brancas asas e voou atravs da janela. Psique, na v tentativa de segui-lo, 
caiu da janela ao solo. Cupido, vendo-a estendida no cho, parou o vo por 
um instante e disse: 
- Tola Psique,  assim que retribuis meu amor? Depois de haver 
desobedecido s ordens de minha me e te tornado minha esposa, tu me 
julgavas um monstro e estavas disposta a cortar-me a cabea? Vai. Volta 
para junto de tuas irms, cujos conselhos pareces preferir aos meus. No 
lhe imponho outro castigo, alm do de deixar-te para sempre. O amor no 
pode conviver com a desconfiana. 
Assim dizendo, ele continuou seu vo, deixando a pobre Psique 
estendida no cho e lamentando-se tristemente. 
Quando se recomps um pouco, olhou em torno, mas o palcio e os 
jardins haviam desaparecido, e ela se viu num campo aberto a pequena 
distncia da cidade onde moravam suas irms. Procurou-as e contou-lhes 
toda a histria do seu infortnio, com o que as desprezveis criaturas, 
fingindo pesar, na verdade se regozijavam. 





 

 
- Agora, talvez ele escolha uma de ns - disseram. 
Levadas por essa idia, e sem dizer uma palavra sobre suas intenes, 
cada uma delas levantou-se cedo na manha seguinte, dirigiu-se ao alto da 
montanha e convocou Zfiro, para receb-la e lev-la a seu senhor. Depois, 
atirou-se no ar e, no sendo sustentada por Zfiro, caiu no precipcio e se 
despedaou. 
Enquanto isto, Psique caminhava noite e dia, sem repouso nem 
alimentao,  procura do marido. Tendo avistado uma imponente montanha, 
em cujo cume havia um templo magnfico, disse consigo mesma, suspirando: 
- Talvez meu amor, meu senhor, habite ali. E, assim dizendo, dirigiu-se 
ao templo. 
Mal entrara, viu montes de trigo, quer em espigas, quer em feixes, 
misturados com espigas de cevada. Espalhados em torno, havia foices e 
ancinhos e todos os demais instrumentos da ceifa, em desordem, como que 
atirados descuidadamente pelas mos de ceifadores cansados, nas horas 
escaldantes do dia. 
A piedosa Psique ps fim quela confuso indizvel, separando e 
colocando cada coisa em seu lugar devido, convencida de que no deveria 
negligenciar o culto de nenhum deus, mas, ao contrrio, procurar, com sua 
diligncia, cultu-los todos. A santa Ceres, de quem era aquele templo, vendo a 
jovem to piedosamente ocupada, assim lhe falou: 

Oficina mgica no 

Olimpo (detalhe) 

Rafael 

-  Psique, em verdade digna de nossa piedade, embora eu no 
possa proteger-te contra a m vontade de Vnus, posso ensinar-te o melhor 
meio de evitar desagrad-la. Vai e voluntariamente rende-te  tua deusa e 



 Vnus venda o amor. 
Ticiano 
soberana e trata de conseguir-lhe o perdo pela modstia e submisso, e talvez 
ela te restitua o marido que perdeste. 
Psique obedeceu  ordem de Ceres e dirigiu-se ao templo de Vnus, 
tentando fortalecer o esprito e repetindo, em voz baixa, o que iria dizer e como 
tentaria apaziguar a divindade irritada, compreendendo que o caso era difcil e 
talvez fatal. 
Vnus recebeu-a com a ira estampada na fisionomia. 
- Tu, a mais ingrata e infiel das servas, lembraste, afinal que tens, 
realmente, uma senhora? - exclamou. - Ou talvez vieste para ver teu marido 
enfermo, ainda guardando o leito em conseqncia da ferida que lhe causou a 
amada esposa? s to pouco favorecida e to desagradvel, que o nico meio 
pelo qual podes merecer teu amante  a prova de indstria e diligncia. Farei 
uma experincia de tua capacidade como dona de casa. 
Ordenou, ento, a Psique que fosse ao celeiro de seu templo, onde havia 
grande quantidade de trigo, aveia, milhete, ervilhaas, feijes e lentilhas 
preparados para a alimentao dos pombos sagrados, e disse: 
- Separa todos estes cereais, colocando cada um de acordo com sua 
qualidade, e trata de fazer isso antes do anoitecer. 
Depois Vnus partiu, deixando a jovem. 
Psique, porm, quedou consternada, diante da imensidade do trabalho, 
estpida e calada, sem mover um dedo. 





Enquanto estava ali, desesperada, Cupido incitou a formiguinha, nativa 
dos campos, a ter pena dela. A chefe do formigueiro e toda a multido de suas 
sditas de seis pernas aproximaram-se do monto de cereais e com a maior 
diligncia, tomando gro por gro, separaram o monto, formando um monte de 
cada qualidade e, quando tudo terminou, desapareceram num momento. 
Ao aproximar-se do crepsculo, Vnus voltou do banquete dos deuses, 
rescendendo a perfumes e coroada de rosas. Vendo a tarefa executada, 
exclamou: 
- Isto no  obra tua, desgraada, mas daquele que conquistaste para seu 
infortnio e para o teu. 
Assim dizendo, deu  jovem um pedao de po preto para a ceia e partiu. 
Na manh seguinte, Vnus mandou chamar Psique e disse-lhe: 
- Olha para aquele bosque que se estende  margem do rio. Ali 
encontrars carneiros pastando sem um pastor, cobertos de l brilhante como 
ouro. Vai buscar-me uma amostra daquela l preciosa colhida de cada um dos 
velocinos. 
Documente, Psique dirigiu-se  margem do rio, disposta a fazer o que 
estivesse ao seu alcance para executar a ordem. O rio deus, porm, inspirou aos 
juncos harmoniosos murmrios, que pareciam dizer: 
- Oh! donzela duramente experimentada, no desafies a corrente 
perigosa, nem te aventures entre os formidveis carneiros da outra margem, 
pois, enquanto eles estiverem sob a influncia do sol nascente, so dominados 
por uma raiva cruel de destruir os mortais, com seus chifres aguados ou seus 
rudes dentes. Quando, porm, o sol do meio-dia tiver levado o rebanho para a 
sombra e o esprito sereno do rio o tiver acalentado para descansar, podes 
atravessar entre ele sem perigo e encontrars a l de ouro nas moitas de arbustos 
e nos troncos das rvores. 
Assim o bondoso rio deus ensinou  Psique o que deveria fazer para 
executar sua tarefa e, seguindo suas instrues, ela em breve voltou para junto 
de Vnus, com os braos cheios de l de ouro. No foi, contudo, recebida com 
benevolncia por sua implacvel senhora, que disse: 
- Sei muito bem que no foi por teu prprio esforo que foste bem-
sucedida nessa tarefa e ainda no estou convencida de que tenhas capacidade 





para executares sozinha uma tarefa til. Toma esta caixa, vai s sombras 
infernais e entrega-a a Prosrpina, dizendo: "Minha senhora Vnus quer que 
lhe mandes um pouco de tua beleza, pois, tratando de seu filho enfermo, ela 
perdeu alguma da sua prpria." No demores a executar o encargo, pois 
preciso disso para aparecer na reunio dos deuses e deusas esta noite. 
Psique ficou certa de que sua perda era, agora, inevitvel, obrigada a ir 
com seus prprios ps diretamente ao rebo. Assim, para no adiar o 
inevitvel, dirigiu-se ao alto de uma elevada torre, para de l se precipitar, 
de maneira a tornar mais curta a descida para as sombras. Uma voz vinda da 
torre, disse-lhe, porm: 
- Por que, desventurada jovem, pretendes pr fim aos teus dias de 
modo to horrvel? E que covardia faz desanimar diante deste ltimo perigo 
quem to milagrosamente venceu todos os outros? 
Em seguida, a voz lhe disse como, atravs de certa gruta, poderia 
alcanar o reino de Pluto e como evitar os perigos do caminho, passar por 
Crbero, o co de trs cabeas, e convencer Caronte, o barqueiro, a 
transport-la para a travessia do negro rio e traz-la de volta. 
- Quando Prosrpina te der a caixa com sua beleza - acrescentou, 
porm, a voz - tem cuidado, acima de todas as coisas, para de modo algum 
abrires a caixa e no permitir que tua curiosidade olhe o tesouro de beleza 
das deusas. 
Animada por estas palavras, Psique seguiu todas as recomendaes e 
chegou s e salva ao reino de Pluto. Foi admitida no palcio de Prosrpina 
e sem aceitar o delicioso banquete que lhe foi oferecido, contentando-se com 
po seco para alimentar-se, transmitiu o recado de Vnus. A caixa lhe foi 
devolvida sem demora, fechada e repleta de coisas preciosas. Psique voltou, 
ento, pelo mesmo caminho e bem feliz se sentiu quando viu de novo a luz 
do dia. 
Depois, porm, de vencer tantos perigos, foi dominada por intenso 
desejo de examinar o contedo da caixa. 

- Como? - exclamou. - Eu, transportando a beleza divina, no 
aproveitarei uma parte mnima dela para pr em minhas faces e parecer mais 
bela aos olhos de meu amado marido? 



Assim dizendo, abriu cuidadosamente a caixa, mas nada ali encontrou de 
beleza e sim o infernal e verdadeiro sono estgio, que, libertando-se da priso, 
tomou posse dela e f-la cair no meio do caminho, como um cadver sem senso 
de movimento. 
Cupido, porm, j restabelecido de seu ferimento, e j no suportando a 
ausncia de sua amada Psique, passando pela greta da janela de seu quarto, que 
fora deixada aberta, voou at o lugar onde estava a jovem e retirando o sono de 
seu corpo, fechou-o de novo na caixa e acordou Psique, com o ligeiro contato de 
uma de suas setas. 
- Mais uma vez - exclamou - quase morreste, devido  mesma 
curiosidade. Mas agora executa exatamente a tarefa que lhe foi imposta por 
minha me, e cuidarei do resto. 
Ento, Cupido, rpido como o relmpago, penetrando atravs das alturas 
do cu, apresentou-se diante de Jpiter, com sua splica. Jpiter ouviu-o com 
benevolncia e advogou com tanto empenho a causa dos amantes que conseguiu 
a concordncia de Vnus. Mandou, ento, Mercrio levar Psique  assemblia 
celestial, e, quando ela chegou, entregou-lhe uma taa de ambrosia, dizendo: 
- Bebe isto, Psique, e s imortal. Cupido no romper jamais o lao que 
atou, mas essas npcias sero perptuas. 
Assim, Psique ficou, finalmente, unida a Cupido e, mais tarde, tiveram 
uma filha, cujo nome foi Prazer. 
A lenda de Cupido e Psique , geralmente, considerada alegrica. 
Psique em grego significa tanto borboleta como alma. No h alegoria 
mais notvel e bela da imortalidade da alma como a borboleta, que, depois 
de estender as asas, do tmulo em que se achava, depois de uma vida 
mesquinha e rastejante como lagarta, flutua na brisa do dia e torna-se um 

O casamento de 

Cupido e Psique 

Edmund Dulac 





dos mais belos e delicados aspectos da primavera. Psique , portanto, a alma 
humana, purificada pelos sofrimentos e infortnios, e preparada, assim, para 
gozar a pura e verdadeira felicidade. 
Nas obras-de-arte, Psique  representada como uma donzela com asas 
de borboleta, juntamente com Cupido, nas diferentes situaes descritas pela 
alegoria. 
Milton alude  histria de Cupido e Psique, na concluso do seu 
"Comus": 
Seu filho, o deus Cupido, logo avana, 
A linda amada, em transe, conduzindo, 
Aps tantos labores enfrentar, 
Eis que, com a aprovao dos deuses todos, 
Em sua esposa eterna h-de torn-la. 
E, de tal himeneu, iro dois gmeos, 
Juventude e Alegria, venturosos, 
Muito em breve nascer; jurou-o Jove. 
A alegoria de Cupido e Psique  tambm apresentada nestes versos de 
T. K. Harvey: 
Quanta lenda to bela, outrora, nesse dia 
Longnquo em que a razo tomava a fantasia 
A asa multicor e, entre areias de ouro, 
O rio carregava um lquido tesouro! 
Quando a mulher sem par, beleza peregrina, 
Que de sofrer e amar e lutar teve a sina, 
A terra percorreu, exausta, noite e dia, 
Em procura do Amor, que s no cu vivia! 


A histria de Cupido e Psique apareceu pela primeira vez nas obras de 
Apuleio, escritor do segundo sculo da nossa era. E, portanto, uma lenda 
muito mais recente que a maioria das outras da Idade da Fbula. E a isso que 
Keats faz aluso, em sua "Ode a Psique": 



  mais bela viso!  derradeira imagem 
Da estirpe celestial, da olmpica linhagem! 
Mais bela que Diana livre de seu vu 
E que Vsper erguida entre os astros do cu! 
Que, no Olimpo, pudeste reluzir e ofuscar, 
Embora sem um templo, embora sem altar! 


 

Amor (detalhe) 

Parmigianino 





 CAPTULO XII 
CADMO - OS MIRMIDES 
---


D 



isfarado em touro, Jpiter raptara Europa, filha de Agenor, rei da 
Fencia. Agenor ordenou a seu filho Cadmo que sasse  procura da 
irm e no voltasse sem ela. Cadmo partiu e procurou a irm por 
muito tempo e por longnquas terras, mas no conseguiu encontr-la e, no se 
atrevendo a regressar sem cumprir a misso, consultou o orculo de Apolo, para 
saber em que pas deveria fixar-se. O orculo respondeu que ele encontraria uma 
vaca no campo e deveria segui-la, acompanhando-a aonde fosse e, onde a vaca 
parasse, ele deveria construir uma cidade e cham-la de Tebas. Mal sara da 
gruta de Castlia, onde o orculo se manifestava, Cadmo avistou uma novilha, 
caminhando vagarosamente diante dele. Seguiu-a de perto, dirigindo, ao mesmo 
tempo, preces a Febo. A vaca atravessou o raso canal de Cefiso e entrou na 
plancie de Panope. Ali ficou imvel, levantando a cabea para o cu e enchendo 
o ar com seus mugidos. Cadmo agradeceu ao deus e, parando, beijou o solo 
estrangeiro e depois, levantando os olhos, saudou as montanhas circunjacentes. 
Desejando oferecer um sacrifcio a Jpiter, mandou seus criados procurarem 
gua pura para a libao. Perto, estendia-se um velho bosque, que jamais 
fora profanado pelo machado, no meio do qual havia uma gruta, escondida 
pelo mato espesso, com o teto formando uma abbada baixa, da qual saa 
uma fonte de gua purssima. Na caverna dormia uma horrvel serpente,



de grande crista e escamas que brilhavam como ouro. Seus olhos flamejavam 
como fogo, o corpo era repleto de veneno e a boca tinha uma lngua trplice e 
trs fileiras de dentes. Mal haviam os trios mergulhado seus odres na fonte, 
provocando um rudo na gua, a brilhante serpente levantou a cabea fora da 
gruta e soltou um silvo horripilante. Os servos deixaram cair as vasilhas, o 
sangue lhes fugiu da face e eles se puseram a tremer da cabea aos ps. A 
serpente, contorcendo o corpo escamoso, levantou a cabea at as rvores mais 
altas e, como os trios, aterrorizados, no podiam fugir nem lutar, matou alguns 
com seus dentes, outros com seu abrao e outros com sua respirao venenosa. 
Tendo esperado at meio-dia pelo regresso de seus homens, Cadmo saiu  
sua procura. Vestia uma pele de leo e, alm do dardo, levava na mo uma lana 
e, no peito, trazia um corao valoroso, proteo melhor que qualquer das 
outras. Ao entrar no bosque, vendo os corpos sem vida de seus homens e o 
monstro com as maxilas ensangentadas, exclamou: 
- Oh, fiis amigos! Hei de vingar-vos ou compartilhar vossa morte. 
Assim dizendo, ergueu uma enorme pedra e atirou-a, com toda a fora, na 
serpente. O choque abalaria as muralhas de uma fortaleza, mas no afetou o 
monstro. Cadmo arremessou seu dardo, que conseguiu melhor resultado, pois 
penetrou entre as escamas da serpente, atingindo-lhe as entranhas. Furioso com 
a dor, o monstro virou a cabea para a ferida e tentou arrancar a arma com os 
dentes, mas quebrou-a, deixando a ponta de ferro cravada em sua carne. Seu 
pescoo intumesceu de raiva, uma espuma sangrenta lhe saiu da boca e a 
respirao de suas narinas empestou a atmosfera. Contorceu-se, formando um 
crculo, depois estendeu-se no cho, como o tronco de uma rvore cada. 
Enquanto avanou, Cadmo foi recuando, apontando a lana para a boca 
escancarada do monstro. A serpente investiu contra a arma e tentou morder sua 
ponta de ferro. Afinal, Cadmo, aproveitando a oportunidade, moveu a lana no 
momento em que a cabea do animal fora empurrada de encontro ao tronco de 
uma rvore e conseguiu, assim, prend-lo pelo flanco. O peso do animal curvou 
a rvore, ao mesmo tempo em que ele se debatia nas vascas da agonia. 
Enquanto Cadmo, de p, junto do inimigo vencido, contemplava 
seu enorme tamanho, ouviu sua voz (de onde vinha no sabia, mas 




 O Rapto de Europa 
Francesco di Giorgio 
MUSEU DO LOUVRE, PARIS 
ouviu-a distintamente) ordenando-lhe que tomasse os dentes da serpente e 
com eles semeasse a terra. Obedeceu. Abriu uma cova na terra e semeou 
os dentes, destinados a produzir uma colheita de homens. Mal o acabara 
de fazer, os torres de terra comearam a mover-se e as pontas de lanas 
apareceram acima da superfcie do solo, depois surgiram elmos com seus 
penachos, depois os ombros, o peito e os membros de homens armados, e, 
afinal, uma colheita de guerreiros. Cadmo, assustado, preparava-se para 
enfrentar um novo inimigo, quando um dos homens lhe disse: 
- No te intrometas em nossa guerra civil. 
Assim dizendo, atravessou com a espada um dos companheiros 
recm-surgidos e ele prprio caiu atravessado pela seta de um outro. Este 
ltimo caiu vtima de um quarto, e, dessa maneira, toda a multido lutava 
entre si, at que todos caram, mortos uns pelos outros, com exceo de 
cinco. Um destes ltimos atirou fora as armas e gritou: 
- Vivamos em paz, irmos! 

Estes cinco juntaram-se a Cadmo, para fundao da cidade a que 
deram o nome de Tebas. 



Cadmo casou-se com Harmonia, filha de Vnus. Os deuses deixaram o 
Olimpo para honrar o acontecimento com a sua presena, e Vulcano presenteou 
a noiva com um colar de grande beleza, obra dele prprio. A fatalidade, porm, 
pesava sobre a famlia de Cadmo, por ter ele matado a serpente consagrada a 
Marte. Suas filhas, Smele e Ino, e seus netos, Acton e Penteu, tiveram todos 
morte desventurosa e Cadmo e Harmonia saram de Tebas, que se lhes tornara 
odiosa, e emigraram para o pas dos enquelianos, que os receberam com honras 
e fizeram de Cadmo seu rei. O infortnio de seus filhos continuava, porm, a 
atormentar o casal, e, certo dia, Cadmo exclamou: 
- Se a vida de uma serpente  to cara aos deuses, eu preferia ser uma 
serpente. 
Mal pronunciara estas palavras, comeou a mudar de forma. Harmonia 
viu o que estava acontecendo e implorou aos deuses que a fizessem compartilhar 
do destino do marido. Ambos transformaram-se em serpentes. Viviam nos 
bosques, mas, ciosos de sua origem, no evitavam a presena do homem, nem 
faziam mal a quem quer que fosse. 
Segundo a tradio, Cadmo introduziu na Grcia as letras do alfabeto, 
inventadas pelos fencios. Byron alude a isso, quando, dirigindo-se aos gregos 
modernos, diz: 
Tendes as letras que Cadmo ofertou. 
Achais que era um presente para escravos? 
Milton, descrevendo a serpente que tentou Eva, relembra as serpentes das 
lendas clssicas e diz: 
Era belo e agradvel seu aspecto 
Mais belo que qualquer outra serpente, 
Mesmo aquelas em que se transformaram 
Hermone e Cadmo na Ibria 
E o deus de Epidauro. 


Quanto  ltima aluso, v. Captulo XXXIV. 



 OS MIRMIDES 
Os mirmides eram os soldados de Aquiles, na Guerra de Tria. At 
hoje, costuma-se dar esse nome a todos os seguidores fanticos e 
inescrupulosos de um chefe poltico. A origem dos mirmides, contudo, 
no d a idia de uma raa belicosa e sanguinria, mas antes de um povo 
laborioso e pacfico. 
Cfalo, rei de Atenas, chegara  Ilha de Egina, a fim de procurar 
ajuda de seu amigo e aliado, o Rei aco, em sua guerra com Minos, Rei 
de Creta. Cfalo foi cordialmente recebido e a desejada ajuda prometida 
sem demora. 
- Disponho de bastante gente para proteger-me e fornecer-te a 
fora que desejares - disse aco. 
- Regozijo-me com isto - replicou Cfalo - e confesso que 
fiquei maravilhado de encontrar tantos jovens quantos vejo em torno de 
mim, todos aparentemente da mesma idade. Por outro lado, h muitos 
indivduos que conheci anteriormente e que no vejo agora, por mais que 
procure. Que lhes aconteceu? 
aco deu um suspiro e respondeu, com tristeza: 

- Tencionava contar-te, e o farei agora, sem mais tardana, para 
que vejas como de um comeo doloroso s vezes surge um resultado 
benfico. Aqueles que conheceste antes so, agora, cinza e p! Uma praga 
enviada pela cruel Juno devastou a ilha. Ela a odiava porque a ilha tem o 
nome de uma das favoritas de seu marido. Enquanto a doena parecia 
derivar de causas naturais, ns a combatemos, da melhor maneira que 
podamos, com os remdios naturais. No tardamos a verificar, porm, 
que a peste era demasiadamente poderosa para nossos esforos, e nos 
rendemos. No comeo, o cu parecia ter baixado sobre a terra e espessas 
nuvens encerravam a atmosfera aquecida. Durante quatro meses inteiros, 
soprou um mortal vento sul. A desordem afetou os poos e os mananciais; 
milhares de serpentes arrastaram-se na terra e despejaram seus venenos 
nas fontes. A fora da molstia gastou-se, primeiramente, nos animais 
inferiores: ces, vacas, ovelhas e aves. O infeliz lavrador espantava-se ao 
ver os bois tombarem no meio de seu trabalho e ficarem inermes junto ao 
sulco inacabado. 



A l caa dos carneiros e seus corpos definhavam. O cavalo, outrora o 
mais veloz na corrida, j no disputava a palma, mas gemia em sua cocheira e 
morria de uma morte inglria. O javali esquecia sua fria, o cervo, sua rapidez, 
os ursos j no atacavam os rebanhos. Tudo enlanguescia; as carcaas jaziam 
nas estradas, nos campos e nos bosques, empestando a atmosfera. Digo-te uma 
coisa que  quase incrvel, mas nem os ces nem as aves, nem mesmo os lobos 
famintos as tocavam. A decomposio dessas carcaas espalhou a epidemia. A 
molstia atacou os camponeses, depois os habitantes da cidade. A princpio, as 
faces congestionavam-se e a respirao tornava-se difcil. A lngua inchava e 
endurecia e a boca ressequida abria-se com as veias alargadas, ofegante, em 
busca de ar. Os homens no toleravam o calor das roupas ou dos leitos, 
preferindo deitar-se no cho; e o cho no os refrescava, mas, ao contrrio, eles 
 que esquentavam o lugar onde ficavam. Os mdicos no podiam valer, pois a 
molstia os atacara tambm e o contato com os enfermos os infeccionava, de 
sorte que os mais dedicados foram as primeiras vtimas. Ento, os homens 
entregaram-se s suas inclinaes, sem cuidar de indagar o que era 
conveniente, pois nada havia conveniente. Pondo de lado toda restrio, 
ajuntaram-se em torno dos poos e das fontes e beberam at morrer, sem matar 
a sede. Muitos no tiveram foras para sair da gua e morreram no meio da 
correnteza, na qual os outros continuavam a beber. Tal era o horror que tinham 
de seus leitos de enfermos que alguns se arrastavam e, se no tinham foras 
suficientes para se sustentar, morriam no cho. Pareciam odiar os amigos e 
fugiam de seus lares, como se, no sabendo a causa de sua enfermidade, a 
atribussem  localizao de sua morada. Alguns foram vistos arrastando-se 
pelas estradas, enquanto conseguiam manter-se de p, ao passo que outros 
caam em terra e lanavam os olhos moribundos em torno, para contemplar o 
mundo pela ltima vez, depois os fechavam para sempre. 

Que nimo poderia ter eu, durante tudo isso, ou que poderia fazer, 
seno detestar a vida e desejar estar com meus sditos mortos? De todos 
os lados, estendia-se minha gente como mas cadas de maduras da 
rvore ou bolotas arrancadas, pela tempestade, dos carvalhos. Ests vendo 
aquele templo ali adiante, no alto?  consagrado a Jpiter. Quantos a 



ergueram preces, maridos por esposas, pais por filhos, e tombaram no prprio 
ato da splica! Quantas vezes, enquanto o sacerdote se preparava para o 
sacrifcio, a vtima caa, abatida pela molstia, sem esperar a pancada mortal! 
Finalmente, perdeu-se toda a reverncia pelas coisas sagradas. Deixavam-se os 
cadveres insepultos, faltava lenha para as piras funerrias, os homens brigavam 
disputando sua posse. No restou mais ningum para chorar os mortos; filhos e 
maridos, velhos e jovens pereceram sem serem lamentados. 
De p diante do altar, ergui os olhos para o cu. 
Oh Jpiter - disse. - Se s, de fato, meu pai e no te envergonhas de tua 
prole, devolve-me meu povo, ou leva-me tambm! 
A estas palavras, ouviu-se um trovo. 
- Aceito o augrio - gritei. - Possa ele ser indcio de benevolncia 
para comigo! 
Por acaso, havia, perto do lugar em que me encontrava, um frondoso 
carvalho consagrado a Jpiter. Observei uma multido de formigas ocupadas em 
seu trabalho, carregando diminutos gros na boca e caminhando uma atrs da 
outra no tronco da rvore. Notando seu nmero, com admirao, exclamei: 
- D-me, pai, cidados to numerosos quanto estas formigas, para encher 
a cidade vazia. 

A rvore agitou-se, produzindo um rudo farfalhante com os ramos, 
embora nenhum vento a sacudisse. Tremi da cabea aos ps, mas mesmo assim 
beijei a terra e a rvore. No confessava a mim mesmo que tinha esperana, mas 
esperava. A noite chegou e o sono tomou posse de meu corpo cansado de 
preocupaes. Em meus sonhos, vi a rvore diante de mim, com todos os seus 
ramos cobertos de criaturas vivas e moventes. Tive a impresso de que ela se 
agitava, atirando ao solo a multido daqueles laboriosos animais, que pareceram 
aumentar de tamanho, cada vez mais, e, pouco a pouco, ficar eretos, deixar de 
lado as pernas suprfluas e a cor negra e, finalmente, tomar a forma humana. 
Acordei, ento, e meu primeiro impulso foi censurar os deuses, que tinham me 
privado de uma agradvel viso, para me trazer de volta  realidade. Estando 
ainda no templo, chamou-me a ateno o rudo de muitas vozes do lado de fora, 



coisa com que, ultimamente, no estava acostumado. Pensei que ainda estivesse 
sonhando, mas meu filho Tlamon exclamou, abrindo as portas do templo: 
- Aproxima-te, meu pai, e v que as coisas esto ultrapassando mesmo 
tuas esperanas! 
Sa e vi uma multido de homens, tal como tinha visto em meu sonho, e 
que desfilavam da mesma maneira. Enquanto eu os contemplava admirado e 
satisfeito, eles se aproximaram e, ajoelhando-se, saudaram-me como seu rei. 
Rendi meus votos a Jove e tratei de entregar a cidade vaga  raa recm-nascida 
e de dividir entre seus membros os campos. Chamei-os mirmides, por terem 
procedido da formiga (myrmex). J viste esses homens; sua disposio parece 
idntica  que tinham em sua forma anterior.  uma raa diligente e laboriosa, 
vida de ganhar e perseverante na defesa do que ganha. Podes recrutar tuas 
foras entre eles. Eles te seguiro na guerra, de idade jovem e corao valente. 
A descrio da peste foi copiada por Ovdio da descrio que o historiador 
grego Trucdides fez da peste em Atenas. O historiador pintou a realidade, e 
todos os poetas e ficcionistas que tiveram ocasio de descrever uma cena 
semelhante nele se inspiraram. 


 

Mercrio, Jpiter, Juno e Apolo 

Vincenzo Pacetti 

VILA BORCHESE, ROMA 

 



 CAPTULO XIII 
NISO E SILA - Eco E NARCISO 
CLTIA, HERO E LEANDRO 
---


M 



inos, Rei de Creta, fazia guerra a Megara, cujo rei, Niso, tinha 
uma filha, a jovem Sila. O stio durava seis meses e a cidade 
ainda resistia, pois estava decretado pelo destino que ela no 
seria tomada, enquanto um certo cacho cor-de-prpura, que brilhava entre os 
cabelos do Rei Niso, continuasse em sua cabea. Havia, nas muralhas da 
cidade, uma torre que dominava a plancie onde Minos e seu exrcito 
estavam acampados, e Sila costumava ir a essa torre contemplar as tendas do 
exrcito inimigo. O stio durava tanto tempo que a moa j distinguia os 
chefes. Mitros, em particular, despertava sua admirao, com seu porte 
gentil, ostentando o elmo e o escudo; sua agilidade, combinada com a fora, 
em lanar o dardo; sua maneira de distender o arco, que o prprio Apolo no 
faria mais graciosamente. Quando, porm, ele deixava o elmo e, envergando 
as vestes de prpura, cavalgava o ginete branco ricamente ajaezado que 
mordia o freio com a boca espumejante, a filha de Niso mal conseguia 
conter-se; sentia por ele uma admirao frentica. Invejava as armas que ele 
segurava, as rdeas que sustentava. Tinha vontade de ir, se fosse possvel, 
procur-lo, atravs das fileiras inimigas; sentia o impulso de lanar-se da 
torre no meio do acampamento de Minos, ou de abrir-lhe as portas da 
cidade, ou de fazer qualquer coisa que lhe desse satisfao. Sentada na torre, 
assim falava consigo mesma: 



 - No sei se devo lamentar ou regozijar-me com esta triste guerra. 
Lamento que Minos seja nosso inimigo, mas regozijo-me com qualquer coisa 
que o traga  minha vista. Talvez ele esteja disposto a nos conceder a paz e 
tomar-me como refm. Eu voaria, se pudesse, para pousar em seu acampamento 
e dizer-lhe que nos entregamos  sua merc. Mas trair meu pai! No! Antes 
nunca mais tornar a ver Minos. No entanto, no h dvida de que  bem certo 
que, s vezes, no h coisa melhor para uma cidade que ser conquistada, quando 
o conquistador  clemente e generoso. Minos sem dvida est com a razo; acho 
que seremos vencidos, e, se tal deve ser o desfecho, por que no lhe abrir as 
portas da cidade, em vez de deixar que isso se faa pela guerra? 
Sila 
De um vaso grego 


Seria prefervel evitar a demora e a carnificina. E se algum matasse Minos? 
Ningum certamente teria coragem de mat-lo;  possvel, contudo, que algum 
o fizesse, por ignorncia, sem conhec-lo. Vou entregar-me a ele, tendo meu 
pas como dote e pr fim a esta guerra. Mas como? As portas esto guardadas e 
meu pai tem as chaves; somente ele se interpe no meu caminho. Oxal 
quisessem os deuses lev-lo! Mas por que pedir aos deuses para fazer tal coisa? 
Outra mulher, amando como amo, afastaria com suas prprias mos qualquer 
obstculo que se interpusesse no caminho de seu amor. E pode outra mulher



fazer mais do que eu? Desafiarei ferro e fogo para conquistar o que desejo. 
Mas no h necessidade de ferro e fogo. Preciso apenas da madeixa cor-de-
prpura de meu pai. Mais preciosa para mim do que o ouro, isso me dar tudo 
o que quero. 
Enquanto a jovem assim refletia, a noite chegou, e em breve todo o 
palcio estava mergulhado no sono. Sila entrou no aposento do pai e cortou a 
madeixa fatal; depois, saiu da cidade e entrou no acampamento inimigo. 
Pediu para ser levada  presena do rei, e assim a ele se dirigiu: 
- Sou Sila, filha de Niso. Entrego-te meu pas e a casa de meu pai. 
No te peo outra recompensa seno tu mesmo; foi por amor a ti que fiz isto. 
Aqui est a madeixa cor-de-prpura. Com isto, eu te entrego meu pai e seu 
reino. 
Estendeu o brao com o despojo fatal, mas Minos recuou e no quis 
toc-lo. 
- Os deuses te destruam, mulher infame! - exclamou. - Desgraa de 
nosso tempo! Que nem a terra nem o mar te dem um lugar de repouso! 
Minha Creta, onde o prprio Jove foi criado, no ser poluda com tal 
monstro! 
Dito isto, deu ordens para que fossem oferecidas condies razoveis  
cidade conquistada e que a frota partisse imediatamente da ilha. Sila ficou 
desesperada. 
- Homem ingrato! - exclamou. -  assim que me abandonas? Eu 
que te dei a vitria, que sacrifiquei por ti meu pai e minha ptria? Sou 
culpada, confesso, e mereo morrer, mas no por tuas mos! 
Quando os navios se afastaram do litoral, ela se atirou  gua e, 
agarrando-se ao leme do barco que transportava Minos, foi levada como 
companheira indesejvel de viagem. Uma guia marinha voando bem alto - 
era seu pai, que havia tomado aquela forma - vendo-a, lanou-se sobre ela e 
feriu-a com o bico e com as garras. Aterrorizada, ela largou o navio e teria se 
afogado no mar, se uma divindade piedosa no a tivesse transformado em 
uma ave. A guia do mar conservou a velha animosidade; e sempre que a 
avista em seu vo altaneiro lana-se sobre ela, atacando-a com o bico e as 
garras, para se vingar do antigo crime. 





 Eco E NARCISO 


 
Eco era uma bela ninfa, amante dos bosques e dos montes, onde se 
dedicava a distraes campestres. Era favorita de Diana e acompanhava-a em 
suas caadas. Tinha um defeito, porm: falava demais e, em qualquer conversa 
ou discusso, queria sempre dizer a ltima palavra. 
Certo dia, Juno saiu  procura do marido, de quem desconfiava, com 
razo, que estivesse se divertindo entre as ninfas. Eco, com sua conversa, 
conseguiu entreter a deusa, at as ninfas fugirem. Percebendo isto, Juno a 
condenou com estas palavras: 
- S conservars o uso dessa lngua com que me iludiste para uma coisa 
de que gostas tanto: responder. Continuars a dizer a ltima palavra, mas no 
poders falar em primeiro lugar. 
A ninfa viu Narciso, um belo jovem, que perseguia a caa na montanha. 
Apaixonou-se por ele e seguiu-lhe os passos. Quanto desejava dirigir-lhe a 
palavra, dizer-lhe frases gentis e conquistar-lhe o afeto! Isso estava fora de seu 
poder, contudo. Esperou, com impacincia, que ele falasse primeiro, a fim de 
que pudesse responder. Certo dia, o jovem, tendo se separado dos companheiros, 
gritou bem alto: 

Eco e Narciso 

Nicolas Poussin 

Museu do Louvre, Paris 





 - H algum aqui? 
- Aqui - respondeu Eco. 
Narciso olhou em torno e, no vendo ningum, gritou: 
- Vem! 
- Vem! - respondeu Eco. 
- Por que foges de mim? - perguntou Narciso. 
Eco respondeu com a mesma pergunta. 
- Vamos nos juntar - disse o jovem. 
A donzela repetiu, com todo o ardor, as mesmas palavras e correu para 
junto de Narciso, pronta a se lanar em seus braos. 
- Afasta-te! - exclamou o jovem recuando. - Prefiro morrer a te 
deixar possuir-me. 
- Possuir-me - disse Eco. 
Mas tudo foi em vo. Narciso fugiu e ela foi esconder sua vergonha no 
recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e entre 
os rochedos das montanhas. De pesar, seu corpo definhou, at que as carnes 
desapareceram inteiramente. Os ossos transformaram-se em rochedos e nada 
mais dela restou alm da voz. E, assim, ela ainda continua disposta a responder a 
quem quer que a chame e conserva o velho hbito de dizer a ltima palavra. 
A crueldade de Narciso nesse caso no constituiu uma exceo. Ele 
desprezou todas as ninfas, como havia desprezado a pobre Eco. Certo dia, uma 
donzela que tentara em vo atra-lo implorou aos deuses que ele viesse algum 
dia a saber o que  o amor e no ser correspondido. A deusa da vingana ouviu a 
prece e atendeu-a. 
Havia uma fonte clara, cuja gua parecia de prata,  qual os pastores 
jamais levavam rebanhos, nem as cabras monteses freqentavam, nem 
qualquer um dos animais da floresta. Tambm no era a gua enfeada por 
folhas ou galhos cados das rvores; a relva crescia viosa em torno dela, e 
os rochedos a abrigavam do sol. Ali chegou um dia Narciso, fatigado da 
caa, e sentindo muito calor e muita sede. Debruou-se para desalterar-se, 
viu a prpria imagem refletida na fonte e pensou que fosse algum belo 
esprito das guas que ali vivesse. Ficou olhando com admirao para os 
olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o rosto 





oval, o pescoo de marfim, os lbios entreabertos e o aspecto saudvel e 
animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lbios, para dar 
um beijo e mergulhou os braos na gua para abraar a bela imagem. Esta fugiu 
com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a fascinao. 
Narciso no pde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da idia de alimento ou 
repouso, enquanto se debruava sobre a fonte, para contemplar a prpria 
imagem. 
- Por que me desprezas, belo ser? - perguntou ao suposto esprito - 
Meu rosto no pode causar-te repugnncia. As ninfas me amam e tu mesmo no 
pareces olhar-me com indiferena. Quando estendendo os braos, fazes o 
mesmo, e sorris quando te sorrio, e respondes com acenos aos meus acenos. 
Suas lgrimas caram na gua, turbando a imagem. E, ao v-la partir, 
Narciso exclamou: 
- Fica, peo-te! Deixa-me, pelo menos, olhar-te, j que no posso tocar-
te. 
Com estas palavras, e muitas outras semelhantes, atiava a chama que o 
consumia, e, assim, pouco a pouco, foi perdendo as cores, o vigor e a beleza, 
que antes tanto encantara a ninfa Eco. Esta se mantinha perto dele, contudo, e, 
quando Narciso gritava: "Ai, ai", ela respondia com as mesmas palavras. O 
jovem, depauperado, morreu. E, quando sua sombra atravessou o rio Estige, 
debruou-se sobre o barco, para avistar-se na gua. 
As ninfas o choraram, especialmente as ninfas da gua. E, quando 
esmurravam o peito, Eco fazia o mesmo. Prepararam uma pira funerria, e 
teriam cremado o corpo, se o tivessem encontrado; em seu lugar, porm, s foi 
achada uma flor, roxa, rodeada de folhas brancas, que tem o nome e conserva a 
memria de Narciso. 
Milton faz aluso  histria de Eco e Narciso, na cano da Dama, do 
poema "Comus". A Dama, procurando os irmos na floresta, canta, para atrair-
lhes a ateno: 
O Eco, doce ninfa que, invisvel, 
Vives nas verdes margens do Meandro 




E no vale coberto de violetas, 
Onde ao luar o rouxinol te embala, 
Com seu canto nostlgico e suave, 
Dois jovens tu no viste, por acaso, 
Bem semelhantes, Eco, ao teu Narciso? 
Se, em alguma gruta os escondeste, 
Dize-me,  ninfa, onde essa gruta est 
E, em recompensa, subirs ao cu. 
E mais graa dars,  bela ninfa, 
A Celeste harmonia em seu conjunto! 
Alm disso, Milton imitou a histria de Narciso na descrio, que pe na 
boca de Eva, acerca de sua impresso, ao ver-se, pela primeira vez, refletida na 
fonte: 
Muitas vezes relembro aquele dia 
Em que fui despertada a vez primeira 
Do meu sono profundo. Sob as folhas 
E as flores, muitas vezes meditei: 
Quem eu era? Aonde ia? De onde vinha? 
No distante de mim, doce rudo 
De gua corrente vinha. De uma gruta 
Saa a linfa e logo se espalhava 
Em lquida plancie, to tranqila 
Que outro cu tranqilo parecia. 
Com o esprito incerto caminhei e fui 
Na verde margem repousar do lago 
E contemplar de perto as claras guas 
Que eram, aos meus olhos, novo firmamento. 
Ao debruar-me sobre o lago, um vulto 
Bem em frente de mim apareceu 
Curvado para olhar-me. Recuei 
E a imagem recuou, por sua vez. 
Deleitada, porm, com o que avistara, 





 Novamente eu olhei. 
Tambm a imagem 
Dentro das guas para mim olhou, 
To deleitada quanto eu, ao ver-me. 
Fascinada, prendi na imagem os olhos 
E, dominada por um vo desejo, 
Mais tempo ficaria, se uma voz 
No se fizesse ouvir, advertindo-me: 
"Es tu mesma que vs, linda criatura." 
Paraso Perdido, Livro IV 
Nenhuma das lendas da antigidade tem sido mais comentada que a de 
Narciso. Eis dois epigramas que a encaram sob dois aspectos diferentes. O 
primeiro  de Goldsmith: 
A PROPSITO DE UM JOVEM QUE FICOU CEGO 
EM CONSEQNCIA DE UM RAIO 
No por dio ou descuido a Providncia 
Isto te fez, mas por piedade e arte: 
Se cego te tornou, como Cupido, 
Da sorte de Narciso quis livrar-te. 
O outro  de Cooper: 
SOBRE UM MOO FEIO 
Evita, amigo, evita debruar-te 
Sobre o cristal de um cristalino veio, 
Seno, como Narciso, irs matar-te, 
No por te veres belo, mas to feio. 





CLTIA 


Cltia era uma ninfa aqutica, apaixonada por Apolo, que no lhe 
correspondia, o que a fez definhar. Deixava-se ficar durante todo o dia sentada 
no frio cho, com as tranas desatadas cadas sobre os ombros. Durante nove 
dias assim ficou, sem comer nem beber, alimentando-se apenas com as prprias 
lgrimas e com o glido orvalho. Contemplava o sol, desde que ele se erguia no 
nascente, at se esconder no poente, depois do seu curso dirio; no via outra 
coisa, seu rosto voltava-se constantemente para ele. Afinal, conta-se, seus ps 
enraizaram-se no cho, seu rosto transformou-se numa flor1 que se move 
constantemente em seu caule, de maneira a estar sempre voltada para o sol, em 
seu curso dirio, conservando, assim, o sentimento da ninfa que lhe deu origem. 
HERO E LEANDRO 
Leandro era um jovem de Abidos, cidade situada na margem asitica do 
estreito que separa a sia da Europa. Na margem oposta do estreito, na cidade 
de Sestos, vivia a donzela Hero, sacerdotisa de Vnus. Leandro a amava e 
costumava atravessar o estreito a nado, todas as noites, para gozar a companhia 
da amante, guiado por uma tocha, que ela acendia na torre, para esse fim. 
Mas, numa noite de tempestade, em que o mar estava muito agitado, o 
jovem perdeu as foras, e afogou-se. As ondas levaram o corpo  margem 
europia, onde Hero tomou conhecimento de sua morte e, desesperada, atirou-se 
da torre ao mar e pereceu. 
A histria de Leandro atravessando o Helesponto a nado era tida como 
lendria e considerada impossvel, at Lord Byron provar a sua possibilidade, 
realizando a faanha ele prprio. Na "Noiva de Abidos", diz ele: 
Estes membros que as ondas carregaram 


1 O girassol 
2 1.609 metros (N. do T.) 

A distncia na parte mais estreita do Helesponto  de quase uma 
milha2 e h uma corrente constante, no sentido do Mar de Mrmara para 

 



 o Arquiplago. Depois de Byron, a travessia tem sido realizada por outros. De 
qualquer maneira, porm, trata-se de uma proeza notvel, capaz de assegurar 
fama quele que a consiga realizar. 
No comeo do segundo canto do mesmo poema, Byron assim alude  
lenda: 
Sopram fortes os ventos no Helesponto, 
Como naquela noite tempestuosa 
Em que o prprio Amor que o enviara 
De salvar descuidou-se o bravo jovem, 
O belo jovem, nica esperana 
De Hero, filha de Sesto. Solitria, 
Na alta torre a fogueira crepitava, 
Desafiando o furaco e as ondas. 
As martimas aves, crocitando, 
Pareciam gritar-lhe que no fosse 
E a cor escura das pesadas nuvens 
Era outro nncio do perigo extremo. 
Nada, porm, ele escutava ou via 
Seno a luz do amor, a luz da estrela 
Que, nas trevas, brilhava, solitria, 
E a voz de Hero, a voz do amor, nas trevas, 

Abafando o fragor da tempestade. 



 CAPTULO XIV 
MINERVA - NOBE 
---


M 



inerva, a deusa da sabedoria, era filha de Jpiter. Contava-se que 
sara da cabea do deus, j adulta e revestida de armadura 
completa. Alm de padroeira das artes teis e ornamentais, tanto 
dos homens - como a agricultura e a navegao - quanto as das mulheres - 
como a fiao, tecelagem e os trabalhos de agulha -, era tambm uma 
divindade guerreira; s protegia, porm, a guerra defensiva e no simpatizava 
com o selvagem amor de Marte pela violncia e pelo derramamento de sangue. 
Atenas era seu santurio, sua cidade, que lhe fora oferecida como prmio de uma 
disputa com Netuno, que tambm aspirava a tal glria. A lenda diz que, no 
reinado de Ccrope, o primeiro rei de Atenas, as duas divindades disputaram a 
posse da cidade. Os deuses decidiram que o prmio seria dado quela que 
oferecesse aos mortais o presente mais til. Netuno ofereceu o cavalo e Minerva, 
a oliveira. Os deuses decidiram que a oliveira era mais til e concederam a 
cidade a Minerva, que lhe deu o nome, pois Minerva em grego  Atena. 
Houve uma outra competio, em que uma mortal se atreveu a 
concorrer com Minerva. Essa mortal foi Aracne, uma donzela que atingira 
tal perfeio nas artes de tecer e bordar, que as prprias ninfas costumavam 
deixar suas grutas e suas fontes para ir admirar seu trabalho, que era belo 
no somente depois de feito, mas belo tambm ao ser feito. Dir-se-ia que 


 



 Netuno e Palas Acena (Minerva) 
Garafolo 
DRESDEN GALLERY 

 



 Minerva e Centauro 
Sandro Botticelli 

GALERIA UFFIZI, FLORENA



fora a prpria Minerva a sua mestra, quando se a observava, pegando a l bruta 
para formar novelos, ou separando-a com os dedos e cardando-a at que ela se 
tornasse leve e macia como uma nuvem, ou tecer o pano, ou, depois de t-lo 
tecido, adorn-lo com os seus bordados. Ela negava, no entanto, no querendo 
ser discpula nem mesmo de uma deusa. 
- Que Minerva compare sua habilidade com a minha - disse ela. Se 
vencida, pagarei a penalidade. 
Minerva ouviu estas palavras e ficou indignada. Tomando a forma de uma 
velha, procurou Aracne e deu-lhe, benevolentemente, alguns conselhos. 
- Tenho muita experincia e espero que no desprezes os meus 
conselhos - disse. - Desafia os mortais como tu, mas no te atrevas a 
competir com uma deusa. Ao contrrio, aconselho-te a pedir-lhe perdo pelo que 
disseste, e, como a deusa  misericordiosa, talvez te perdoe. 
Aracne interrompeu seu trabalho de fiao e encarou a velha visivelmente 
irritada. 
- Trata de dar conselhos a tuas filhas e a tuas servas. Quanto a mim, sei 
o que dizer e o que fazer. No tenho medo da deusa. Que ela mostre sua 
habilidade, se se atrever. 
- Ela aqui est - disse Minerva, livrando-se do seu disfarce. 
As ninfas curvaram-se, reverentes, assim como todos os demais presentes. 
Apenas Aracne no se atemorizou. Na verdade, um rubor coloriu-lhe as faces, 
que, em seguida, tornaram-se muito plidas. A jovem, porm, manteve-se firme 
e, levada pela louca confiana em sua habilidade, enfrentou o destino. Minerva, 
esgotada a pacincia, j no deu novos conselhos. 

As duas iniciaram a competio. Cada uma toma sua posio e coloca o 
fio no tear. A esguia lanadeira  colocada entre os fios. O pente, com seus finos 
dentes, ataca a trama do tecido e a comprime. Ambas as competidoras trabalham 
com rapidez; suas geis mos movem-se cleres, e o ardor da disputa torna leve 
o labor. Os fios purpreos contrastam com os de outras cores, que confundem 
seus matizes de tal modo que os olhos no percebem onde se unem. Como o 
longo arco que colore o cu, formado pelos raios de sol refletidos na chuva1, no 
qual as cores combinadas onde se juntam parecem a mesma, mas a pequena 
distncia do ponto de contato so inteiramente diferentes. 

1 Esta correta descrio do arco-ris foi traduzida literalmente de Ovdio. 





Minerva bordou em seu tecido a cena de sua disputa com Netuno. Esto 
representados doze dos poderes celestes. Jpiter, com augusta gravidade, acha-
se sentado no meio. Netuno, senhor do mar, segura o tridente, e parece ter 
acabado de golpear a Terra, da qual saltou um cavalo. A prpria Minerva 
apresenta-se com o elmo na cabea, o peito protegido por gide. Assim era o 
crculo central; nos quatro cantos, estavam representados incidentes mostrando o 
descontentamento dos deuses com mortais presunosos que se atreviam a 
concorrer com eles. Eram advertncias de Minerva  sua rival, no sentido de 
desistir, antes que fosse demasiadamente tarde. 
Aracne escolheu especialmente para seus bordados assuntos destinados a 
provar os enganos e erros dos deuses. Uma cena representava Leda acariciando 
o cisne, sob cuja forma Jpiter se havia disfarado; outra, Dnae, na torre de 
bronze em que seu pai a havia aprisonado, mas onde o deus conseguiu penetrar, 
sob a forma de uma chuva de ouro. Outra, ainda, mostrava Europa, iludida por 
Jpiter, sob a forma de um touro. Encorajada pela mansido do animal, Europa 
aventurou-se a cavalg-lo e Jpiter, ento, entrou no mar e levou-a a nado para 
Creta. Tinha-se a impresso de que era um touro de verdade, com tal 
naturalidade e realismo estavam representados ele e a gua em que nadava. 
Europa parecia olhar com ansiedade para a praia de onde sara e pedir socorro s 
suas companheiras. Mostrava-se horrorizada com as ondas e encolhia os ps, 
para afast-los da gua. 
Aracne cobriu o pano de tais bordados maravilhosamente bem-feitos, mas 
deixando patentes sua presuno e impiedade. Minerva no pde deixar de 
admirar, mas sentiu-se indignada com o insulto. Investiu contra o tecido, com 
sua lanadeira, e f-lo em pedaos. Em seguida, encostou a mo na fronte de 
Aracne, fazendo-a sentir-se culpada e envergonhada, a tal ponto que, no 
podendo mais suportar, enforcou-se. Minerva compadeceu-se dela, ao v-la 
suspensa a uma corda. 
- Viva, mulher culpada! - exclamou. - E, para que seja conservada a 
lembrana desta lio, continuars pendente, tu e toda a tua descendncia, por 
todos os tempos futuros. 
Aspergiu-a com o suco do acnito, e imediatamente seus cabelos 
caram, e, do mesmo modo, desapareceram o nariz e as orelhas. Seu corpo 





encolheu-se e sua cabea tornou-se ainda menor; os dedos colaram-se aos seus 
flancos, transformando-se em patas. Todo o restante dela mudou-se no corpo, do 
qual ela tece seu fio, suspensa na mesma posio em que se encontrava quando 
Minerva a tocou e metamorfoseou-a em aranha. 
Spencer conta a histria de Aracne em seu poema "Muiopotmos", 
seguindo muito de perto seu mestre Ovdio, mas aperfeioando a concluso do 
episdio. As duas estrofes que seguem contam o que foi feito depois de a deusa 
bordar a cena representando a criao da oliveira: 
Por entre as verdes folhas da oliveira 
Colocou, com tal arte, uma falena 
Que bem viva e voando dir-se-ia. 

 

Minerva expulsa os Vcios 

do Jardim das Virtudes 

Mantegna 





 Tudo era vivo: o veludoso plo 
Que se estendia sobre as quatro asas, 
A sedosa penugem sobre o dorso, 
As compridas antenas, os brilhantes 
Olhos e as cores vrias e vistosas. 
Vendo Aracne a obra j completa, 
Com perfeio to rara extasiada, 
Imvel, dilatadas as pupilas, 
Quedou, sem que o silncio conseguisse 
Romper e nem os olhos afastar. 
A vitria era sua, mas a ira 
Que a deusa lhe causara foi to grande 
Que veneno mortal lhe trouxe ao sangue. 
Assim, a metamorfose foi causada pela prpria mortificao e vergonha 
de Aracne, e no por um ato direto da deusa. 
E eis, a propsito, um galanteio de Garrick no estilo da poca: 
A UMA DAMA, A RESPEITO DE UM BORDADO 
De sua arte, Aracne era ciosa 
A ponto tal, conta um poeta antigo, 
Que a mediu com Minerva, frente a frente, 
E da deusa sofreu atroz castigo. 
Tem cuidado, Clo, s cautelosa. 
Ah! no queira Minerva castigar-te, 
De despeito, por teres, certamente, 
Muito mais que Minerva, engenho e arte. 
NOBE 
O destino de Aracne tornou-se conhecido no pas, servindo de 
advertncia a todos os mortais presunosos, para no se compararem com 





os deuses. Uma matrona, contudo, no aprendeu a lio de humildade. Foi 
Nobe, rainha de Tebas. Na verdade, tinha muita coisa de que se orgulhar; o que 
a envaidecia, no entanto, no era a fama de seu marido, nem sua prpria beleza, 
nem a nobreza de sua ascendncia, nem o poderio de seu reino: eram seus filhos. 
E, realmente Nobe teria sido a mais feliz das mes, se no se tivesse 
proclamado tal. Foi por ocasio das celebraes anuais em honra da Latona e 
sua prole, Apolo e Diana - quando o povo de Tebas se reunia, com as frontes 
coroadas de louro, levando incenso aos altares, rendendo seus tributos e 
cumprindo seus votos - que Nobe apareceu entre a multido. Suas vestes eram 
esplndidas, enfeitadas de ouro e pedras preciosas e seu aspecto belo, tanto 
quanto pode ser uma bela mulher enraivecida. Parando, ela contemplou a 
multido, com ar altivo: 
- Que loucura  esta? - exclamou. - Preferir seres que nunca vistes 
queles que tendes diante dos olhos! Por que Latona deve ser cultuada, e eu 
no? Meu pai foi Tntalo, recebido como conviva na mesa dos deuses; minha 
me era deusa. Meu marido construiu e governa esta cidade, Tebas, e Frgia  
minha herana paterna. Seja para onde for que eu volte os olhos, contemplo os 
elementos do meu poder. E meu aspecto no  indigno de uma deusa. 
Acrescentai a tudo isso o fato de que tenho sete filhos e sete filhas e procuro 
genros e noras  altura de minha aliana. Faltam-me motivos para ter orgulho? 
Preferis a mim essa Latona, filha do Tit, com seus dois filhos? Tenho sete 
vezes mais. Em verdade, sou feliz e feliz hei de ser! Poder algum duvidar 
disso? A abundncia  minha garantia. Sinto-me demasiadamente forte para ser 
vencida pela Fortuna. Por mais que ela me tome, ainda me restar muito. Se eu 
perdesse alguns de meus filhos, dificilmente ficaria to pobre como Latona, com 
seus dois nicos. Suspendei esta solenidade... tirai o louro de vossas frontes... 
No prossigais este culto! 
O povo obedeceu, e no completou os servios sagrados. A deusa ficou 
indignada. No cume da montanha cinfiana, onde morava, assim se dirigiu a seu 
filho e a sua filha: 
- Meus filhos, eu que sinto tanto orgulho convosco, e que me 
acostumara a considerar-me como a primeira das deusas, depois de Juno, 
comeo agora a duvidar se sou realmente uma deusa. Deixarei de ser cultuada 
inteiramente, a no ser que me protejais. 

 



Continuava a falar no mesmo tom, mas foi interrompida por Apolo. 
- No digas mais nada - exclamou ele - As palavras apenas serviro 
para adiar o castigo. 
O mesmo disse Diana. 

Cortando o cu, escondidos nas nuvens, os dois desceram nas torres da 
cidade. Diante das portas, estendia-se uma plancie, onde os jovens da cidade 
entregavam-se a exerccios blicos. Os filhos de Nobe ali se encontravam com 
os demais, alguns cavalgando corcis ricamente ajaezados, outros guiando 
aparatosos carros. Ismenos, o mais velho, quando dirigia seus fogosos cavalos, 
ferido com uma seta partida do alto, apenas teve tempo de exclamar "Ai de 
mim!", antes de largar as rdeas e cair sem vida. Outro, ouvindo o sibilo do arco 
- como o marinheiro que v a tempestade aproximar-se e trata de virar as velas 
para o porto -, soltou as rdeas dos animais e tentou escapar. A inevitvel seta 
atingiu-o enquanto fugia. Dois outros, mais jovens, terminados seus exerccios, 
haviam ido ao campo de recreao para divertirem-se com uma luta. Enquanto 
se entretinham de p, peito contra peito, uma seta atravessou os dois. Deram um 
grito juntos, juntos olharam em torno surpresos e juntos exalaram o ltimo 
suspiro. Alfenor, um irmo mais velho, vendo-os cair, correu para junto deles, a 
fim de socorr-los, e caiu ferido enquanto cumpria seu dever fraternal. Restava 
apenas um, Ilioneus, que levantou os braos para o cu.2 
- Poupai-me, deuses! - gritou, dirigindo-se a todos, sem saber que no 
precisava implorar a todos. 
Apolo o teria poupado, se a seta j no tivesse partido e j no fosse 
demasiadamente tarde. 

2 O original ingls descreve apenas a morte de seis dos sete filhos de Nobe, mencionando os nomes de trs e 
omititndo de outros trs (Spilo, Fdimo e Tntalo). Deixa de mencionar o nome e de descrever a morte de um 
deles. Damaschton. (Ovdio, "Metamorfoses", Livro VI, versos 218a 266). 

O terror do povo e o pesar dos circunstantes logo fizeram Nobe tomar 
conhecimento do que ocorrera. Custou-lhe acreditar; sentia-se indignada vendo 
que os deuses se atreviam a tanto e tinham capacidade de fazer aquilo. Seu 
marido, Anfon, abalado com o golpe, suicidou-se. Ah! Quanto era diferente 
agora Nobe daquela que, to pouco tempo antes, afastara o povo dos rituais 
sagrados, e caminhava triunfalmente pela cidade, despertando inveja em seus 
amigos, quanto agora causava compaixo aos prprios inimigos! Ajoelhou-se 
junto aos corpos sem vida e beijou ora um, ora outro de seus amados filhos. 



 - Cruel Latona! - exclamou, erguendo os plidos braos para o cu. - 
Sacia todo o teu dio em minha angstia! Que teu duro corao se regozije, 
enquanto levo ao tmulo meus sete filhos. Mas onde est o teu triunfo? 
Despojada como estou, ainda assim sou mais rica que tu, que me venceste. 
Mal falara, o arco vibrou, espalhando o terror em todos os coraes, 
exceto no da prpria Nobe, tornada corajosa pelo excesso de dor. Suas filhas, 
em vestes de luto, choravam junto aos corpos dos irmos mortos. Uma delas, 
atingida por uma seta, caiu sobre o cadver que pranteava. Outra, procurando 
consolar sua me, calou-se, de sbito, tombando em terra sem vida. Uma 
terceira tentou escapar escondendo-se, a quarta pela fuga e outra deixou-se ficar 
de p, toda trmula, sem saber o que fazer. Seis j estavam mortas e restava 
apenas uma, que a me apertou nos braos, como que para proteg-la com seu 
corpo. 
- Poupai-me esta, a mais moa! - gritou. - Poupai-me uma, entre 
tantas! E, enquanto falava, a filha caiu morta. 
Desolada, ela sentou-se entre os filhos, filhas e marido, todos mortos, 
aptica com o sofrimento. A brisa no lhe agitava os cabelos, suas faces estavam 
inteiramente descoloridas, o olhar fixo e imvel. No havia nela sinal de vida. A 
prpria lngua prendeu-se ao cu da boca e as veias cessaram de transportar o 
fluido vital. O pescoo no se curvou, os braos no fizeram gesto algum, os ps 
no deram um s passo. Ela se transformara em pedra, por fora e por dentro. As 
lgrimas, no entanto, continuaram a correr. E, levada, por um redemoinho de 
vento, para sua montanha natal, ainda l continua: um bloco de rochedo, do qual 
escorre um estreito regato, tributo de uma dor sem fim. 
A histria de Nobe inspirou a Byron uma bela comparao com as tristes 
condies da Roma moderna: 
A Nobe das naes! 
Ei-la, indefesa, 
Sem filhos, sem coroa, sem ao menos 
Voz para lamentar as priscas glrias, 
Tendo nas mos inermes uma urna 

Vazia j. As cinzas sacrossantas 



 No p se dispersaram h longo tempo. 
Dos Cipies o tmulo jaz vazio. 
Cada prprio sepulcro abandonado 
Foi pelo morto ilustre, heri antigo. 
Hs de correr, resignado, agora, 
Num deserto de mrmore, velho Tibre? 
Sai de teu leito e, sob a gua, esconde 
A vergonha de Roma, velho Tibre! 
Childe Harold, IV, 79, 
H na galeria imperial de Florena, uma famosa esttua, inspirada no 
episdio, e que se acredita ter pertencido, originalmente, ao fronto de um 
templo. A figura da me, abraada pela filha horrorizada,  uma das mais 
admiradas da escultura antiga, colocando-se ao lado de Laocoonte e de Apolo, 
como uma obra-prima artstica. H um epigrama grego que se acredita referir-se 
a essa esttua e cuja traduo  a seguinte: 
Em pedra a transformaram os deuses, mas em vo: 
F-la viver de novo a arte do escultor. 
Por mais trgica que seja a histria de Nobe, no podemos deixar de 
sorrir diante da comparao que ela inspirou a Moore em seus Versos Escritos 
na Estrada ("Rhyme on the Road"): 
Em sua carruagem, o orgulho da poesia, 
Sir Richard Blackmore, seus versos escrevia. 
E se no lhe faltava engenho nem tinteiro, 
A morte e a epopia ocupavam-lhe o dia, 
Escrevia e matava, alegre, o dia inteiro. 
E, como Apolo, assim, em seu carro corria, 
Quer cantando, gentil, como deus da poesia, 

Quer matando de Nobe o filho derradeiro. 



Sir Richard Blackmore era mdico e, ao mesmo tempo, poeta muito 
fecundo e muito sem gosto, cujas obras esto hoje esquecidas, a no ser quando 
lembradas numa aluso irnica, como no caso de Moore. 
Nobe e sua filha 
GALERIA UFFIZI. 
FLORENA 





 CAPTULO XV 
As GREIAS E AS GRGONAS - PERSEU 
MEDUSA - ATLAS - ANDRMEDA 
---


A 



s Greias eram trs irms grisalhas desde o nascimento, e da o seu 
nome. As Grgonas eram mulheres monstruosas, com dentes enormes 
como os do javali, garras de bronze e cabelos de serpentes. Nenhuma 
dessas entidades representou papel destacado na mitologia, exceto a grgona 
Medusa, cuja histria veremos a seguir. Citamo-las principalmente para 
mencionarmos a engenhosa teoria de alguns escritores modernos, segundo a 
qual as grgonas e as greias eram personificaes dos terrores do oceano, as 
primeiras representando os grandes vagahes do mar alto e as outras, as ondas 
coroadas de espuma branca que se despedaam de encontro aos rochedos do 
litoral. Em grego, seus nomes confirmam essa etimologia. 
PERSEU E MEDUSA 


Perseu era filho de Jpiter e de Dnae. Seu av, Acrsio, assustado com a 
predio de um orculo, no sentido de que o filho de sua filha seria o 
instrumento de sua morte, determinou que a me e o filho fossem encerrados 
numa arca, e esta colocada no mar. A arca flutuou at Serifo, onde foi 
encontrada por um pescador, que levou a me e o filho a Polidectes, o rei do 
pas, que os tratou com bondade. Quando Perseu tornou-se homem, 
Polidectes mandou-o combater Medusa, monstro terrvel que devastava



o pas. Medusa fora outrora uma linda donzela, que se orgulhava principalmente 
de seus cabelos, mas se atreveu a competir em beleza com Minerva, e a deusa 
privou-a de seus encantos e transformou as lindas madeixas em hrridas 
serpentes. Medusa tornou-se um monstro cruel, de aspecto to horrvel, que 
nenhum ser vivo podia fit-la sem se transformar em pedra. Em torno da cavem; 
onde ela vivia, viam-se as figuras petrificadas de homens e de animais que 
tinham ousado contempl-la. Perseu, com Apolo de Minerva, que lhe enviou seu 
escudo, e de Mercrio, que lhe mandou suas sandlias aladas, aproximou-se de 
Medusa enquanto ela dormia e, tomando o cuidado de no olhar diretamente 
para o monstro, e sim guiado pela imagem refletida no brilhante escudo que 
trazia, cortou-lhe a cabea e ofereceu a Minerva, que passou a traz-la presa no 
meio da gide. 
Milton, em "Comus", assim se refere  gide: 
O que era aquela escudo, com a cabea 
Asquerosa de Grgona adornado, 
Que trazia Minerva, a impoluta 
Virgem, e petrificava os inimigos, 
Seno aquela santa austeridade, 
Essa expresso em face  qual se curva, 
Humilhada e vencida, a fora bruta? 


Medusa. 

Caravaggio 

GALERIA UFFIZI 

FLORENA 



 

Perseu com a cabea de 

Medusa. 

Benvenuto Cellini 

PLAZZA DELLA SIGNORIA, 

FLORENA 



PERSEU E ATLAS 
Depois de matar Medusa, Perseu, carregando a cabea da grgona, voou 
sobre a terra e sobre o mar. Ao anoitecer, atingiu o limite ocidental da Terra, 
onde o sol se pe. Sentir-se-ia feliz de ali descansar at o amanhecer. Era o reino 
de Atlas, cuja estatura ultrapassava a de todos os outros homens. Possua ele 
grande riqueza em rebanhos e no tinha vizinho ou rival que lhe disputasse os 
bens. Seu maior orgulho, porm, eram os seus jardins, onde frutos de ouro 
pendiam de galhos tambm de ouro, ocultos por folhas de ouro. 
- Vim como hspede - disse-lhe Perseu. - Se honrais uma origem 
ilustre, sabe que tenho Jpiter por pai. Se preferes feitos valorosos, sabe que 
venci a grgona. Procuro repouso e alimento. 
Atlas, porm, lembrou-se de que uma velha profecia o advertira de que 
um filho de Jove lhe roubaria, um dia, as mas de ouro. 
- Sai! - retrucou, portanto. - No sers protegido por tuas falsas 
pretenses de origem ilustre ou feitos gloriosos. 
Ao mesmo tempo, tratou de expuls-lo. Perseu, percebendo que o gigante 
era muito forte para ele, retrucou: 
- Uma vez que prezas to pouco minha amizade, digna-te de receber um 
presente. 
E, virando o rosto para o lado, levantou a cabea da grgona. O corpo 
enorme de Atlas transformou-se em pedra. Sua barba e seus cabelos tornaram-se 
florestas, os braos e ombros, rochedos, a cabea, um cume e os ossos, as 
rochas. Cada parte aumentou de volume at se tornar uma montanha e (assim 
quiseram os deuses) o cu, com todas as suas estrelas, se apia em seus ombros. 
O MONSTRO MARINHO 
Continuando seu vo, Perseu chegou ao pas dos etopes, cujo rei era 
Cefeu. A rainha Cassiopeia, orgulhosa de sua beleza, atrevera-se a comparar-
se com as ninfas marinhas, que, indignadas, mandaram um prodigioso 
monstro marinho devastar o litoral. A fim de apaziguar as divindades, 

 



 

 
Cefeu foi aconselhado, por um orculo, a expor sua filha Andrmeda, para ser 
devorada pelo monstro. Olhando do alto, em seu vo, Perseu avistou a virgem 
acorrentada a um rochedo e esperando que o drago se aproximasse. Estava to 
plida e imvel, que, se no fossem as lgrimas que escorriam e os cabelos que a 
brisa agitava, Perseu a teria tomado por uma esttua de mrmore. To surpreso 
ficou ele diante do que via, que quase se esqueceu de bater as asas. Adejando 
sobre Andrmeda, exclamou: 
- O virgem, que no mereces estas cadeias, mas antes aquelas que 
prendem os amantes, dize-me, peo-te, teu nome e o nome de teu pas, e por que 
ests presa desse modo. 
Ela, a princpio, manteve-se em silncio, levada pelo recato, e teria 
escondido o rosto nas mos, se o pudesse. Quando, porm, ele repetiu as 
perguntas, receosa de que lhe fosse atribuda a culpa de algum ato que no 
cometera, a virgem revelou seu nome e o de seu pas, e o orgulho de sua me 
com a prpria beleza. 
Antes que acabasse de falar, ouviu-se um rudo vindo da gua e apareceu 
o monstro marinho, com a cabea erguida sobre a superfcie, cortando as ondas 
com o enorme peito. A virgem estremeceu, e seus pais, que haviam chegado ao 
local, mostravam-se desesperados, principalmente a me, que, incapaz, contudo, 
de proteger a filha, limitava-se a lamentar e abraar a vtima. 

O Monstro Marinho 

- No h tempo para lgrimas - exclamou Perseu, ento. - S temos 
este momento para salv-la. Minha posio como filho de Jpiter e meu renome 
como matador da grgona torna-me aceitvel como pretendente. Tentarei, 
contudo, merec-la pelos servios prestados, se os deuses me forem propcios. 
Se ela for salva pelo meu valor, peo que seja a minha recompensa. 



Os pais consentiram (quem teria hesitado?) e prometeram, com a filha, um 
dote real. 
O monstro j se encontrava a uma distncia em que seria alcanado por 
uma pedrada de um hbil atirador, quando o jovem, num impulso sbito, 
ergueu-se no ar. Como uma guia, quando das alturas em que voa, avista uma 
serpente aquecendo-se ao sol, lana-se sobre ela e prende-a pelo pescoo, 
impedindo-a de virar a cabea e utilizar-se de seus dentes, assim o jovem 
investiu contra o dorso do monstro, mergulhando a espada em seus ombros. 
Furioso com o ferimento, o monstro ergueu-se no ar, depois mergulhou no mar 
e, em seguida, como o javali cercado por uma matilha de ces, voltou-se 
rapidamente de um lado para o outro enquanto o jovem livrava-se de seus 
ataques por meio das asas. Sempre que conseguia encontrar, entre as escamas, 
uma passagem para a espada, Perseu produzia um ferimento no monstro, 
atingindo ora o flanco, ora as proximidades da cauda. A fera lanava, pelas 
narinas, gua misturada com sangue. As asas do heri estavam molhadas e ele j 
no se atrevia a confiar nelas. Colocando-se num rochedo que se erguia acima 
das ondas, e erguendo um fragmento da rocha, desfechou com ele o golpe 
mortal. O povo, que se reunira na praia, ergueu um grito que ecoou pelos 
montes. Os pais, arrebatados de alegria, abraaram o futuro genro, proclamando-
o libertador e salvador de sua casa, e a virgem, causa e recompensa da luta, 
desceu do rochedo. 
Cassiopeia era etope e, portanto, negra, a despeito de sua proclamada 
beleza. Pelo menos  o que parece ter pensado Milton, que faz aluso 
ao episdio no "Penseroso", onde se refere  Melancolia como sendo 
... a deusa sbia e santa, 
Cujo rosto divino tem um brilho 
Forte demais para o olhar humano. 
E, assim, de negra cor, aos nossos olhos, 
Parece ser. De cor escura e bela 
Como a irm do Prncipe Mmnon 
Ou a estelar rainha da Etipia 
Punida ao atrever-se a comparar 

Com a das ninfas do mar sua beleza. 



Cassiopeia  chamada a "estelar rainha da Etipia", porque, depois de 
morta, foi colocada entre as estrelas, formando a constelao daquele nome. 
Embora tivesse alcanado essa honra, as ninfas do mar, suas velhas inimigas, 
conseguiram que ela fosse colocada na parte do cu prxima ao plo, onde, 
todas as noites, tem de passar metade do tempo com a cabea para baixo, 
recebendo uma lio de humildade. 
Mmnon era um prncipe etope a respeito do qual falaremos em outro 
captulo. 
A FESTA NUPCIAL 
Acompanhando Perseu e Andrmeda, os alegres pais voltaram ao palcio 
onde se realizou um banquete, e tudo era risos e alegria. De sbito, porm, 
ouviram-se gritos belicosos, e Frineu, o noivo da donzela, surgiu com um grupo 
de seus sequazes, exigindo a jovem, como sua. Em vo Cefeu retrucou-lhe: 
- Deverias t-la reclamado quando ela se encontrava acorrentada ao 
rochedo, vtima do monstro. A sentena dos deuses, voltando-a a tal destino, 
dissolveu todos os compromissos, como a morte o teria feito. 
Frineu, em vez de responder, lanou seu dardo contra Perseu, no o 
atingindo, porm, e ficando desarmado. Perseu teria replicado, lanando o 
prprio dardo, mas o covarde atacante fugiu e escondeu-se atrs do altar. Isso foi 
sinal para o ataque geral de seu bando contra os convivas de Cefeu. Estes 
defenderam-se seguindo-se um conflito geral, e o velho rei retirou-se da cena 
depois de infrutferos apelos, invocando o testemunho dos deuses de que no 
tinha culpa do ultraje aos deveres de hospitalidade. 
Perseu e seu amigos sustentaram, por algum tempo, a luta desigual, mas o 
nmero de atacantes era excessivo para eles e sua destruio parecia inevitvel, 
quando Perseu teve uma idia. 
"Farei minha inimiga defender-me." 
Depois exclamou, em voz alta: 

- Se tenho aqui algum amigo, que ele afaste os olhos! E levantou a 
cabea de Medusa. 



- No tentes amedrontar-nos com tuas imposturas! - exclamou 
Tesceleu. 
Ergueu o dardo, para lan-lo, e transformou-se em pedra nessa posio. 
Ampix ia cravar a espada no corpo de um inimigo prostrado, mas seu 
brao inteiriou-se, e ele no pde estend-lo, nem dobr-lo. Outro, no meio de 
um ruidoso desafio ficou com a boca aberta, sem emitir qualquer som. 
Aconteus, um dos amigos de Perseu, avistou a grgona e imobilizou-se como os 
outros. Astages atingiu-o com a espada, mas esta, em vez de feri-lo, retrocedeu, 
com um rudo spero. 
Frineu, contemplando o terrvel resultado de sua injusta agresso, ficou 
transtornado. Chamou os amigos, em voz alta, mas no obteve resposta; tocou-
os e viu que eram pedra. Caindo de joelhos e estendendo os braos para Perseu, 
mas com o rosto voltado para outro lado, implorou misericrdia. 
- Toma tudo, mas poupa-me a vida - exclamou. 
- Desprezvel covarde - retrucou Perseu -, conceder-te-ei isso. 
Nenhuma arma te tocar. Alm disso, sers conservado em minha casa, como 
lembrana destes acontecimentos. 

Assim dizendo, levantou a cabea da grgona na direo em que Frineu 
olhava e este transformou-se num bloco de pedra, na mesma posio em que se 
encontrava, de joelhos, com os braos estendidos e o rosto virado. 



 CAPTULO XVI 
Os MONSTROS: GIGANTES, A ESFINGE, 
PGASO E A QUIMERA, CENTAUROS, 
GRIFOS E PIGMEUS 
---


 

 

 

 

 

 

O 



s monstros, na linguagem da mitologia, eram seres de partes ou 
propores sobrenaturais, em via de regra encarados com horror, como 
possuindo imensa fora e ferocidade, que empregavam para perseguir e 
prejudicar os homens. Alguns deles, imaginava-se, combinavam os membros de 
diferentes animais, como a Esfinge e a Quimera. E a todos estes eram atribudas 
as terrveis qualidades dos animais ferozes, juntamente com a sagacidade e 
outras qualidades humanas. Outros, como os gigantes, diferiam dos homens 
principalmente quanto ao tamanho; e, nesse particular, devemos reconhecer que 
havia uma grande diferena entre eles. Os gigantes humanos, se assim podiam 
ser chamados, tais como os Ciclopes, Anteu, Orion e outros, no eram 
inteiramente desproporcionados com relao aos seres humanos, pois se 
misturavam com os homens, em seus amores e lutas. Por outro lado, os gigantes 
super-humanos, que guerreavam com os deuses, eram de propores muito mais 
vastas. Ttio, contava-se, quando se estendia na plancie cobria nove acres1 e 
para cobrir Enclado foi preciso todo o Monte Etna. 

1 O acre eqivale a 40,70 ares (N. doT.) 

J falamos da guerra que os gigantes travaram com os deuses e de seu 
desfecho. Enquanto durou essa guerra, os gigantes mostraram-se inimigos 
temveis. Alguns deles, como Briareu, tinham cem braos; outros, como 
Tfon, soltavam fogo pela boca e pelas narinas. Em certa ocasio, fizeram 



 Gigante. Goya. 
METROPOLITAN, NOVA YORK 


tanto medo aos deuses, que estes fugiram para o Egito e se esconderam sob 
vrias formas. Jpiter tomou a forma de um carneiro, pelo que depois foi 
cultuado no Egito como o deus Amon, com chifres recurvados. Apolo 
transformou-se em um corvo, Baco, em um bode, Diana, em uma gata, Juno, em 
uma vaca, Vnus, em um peixe, Mercrio, em uma ave. Em outra ocasio, os 
gigantes tentaram escalar o cu e, para esse fim, colocaram o Monte Ossa sobre 
o Plion.2 Afinal, foram vencidos pelos raios, que Minerva inventou e ensinou 
Vulcano e os Ciclopes a fazer para Jpiter. 

2 Imponere Pelio Ossam - Virglio. 



A ESFINGE 

 

Laio, rei de Tebas, foi advertido por um 
orculo de que haveria perigo para sua vida e seu 
trono se crescesse seu filho recm-nascido. Ele, 
ento, entregou a criana a um pastor, com ordem 
de que fosse morta. O pastor, porm, levado pela 
piedade, e, ao mesmo tempo, no se atrevendo a 
desobedecer inteiramente  ordem recebida, amarrou a criana 
pelos ps e deixou-a pendendo do ramo de uma rvore. O menino foi encontrado 
por um campons, que o levou aos seus patres. O casal adotou a criana, que 
recebeu o nome de dipo, ou Ps-Distendidos. 

dipo e a Esfinge 

Muitos anos depois, quando Laio se dirigia para Delfos, acompanhado apenas de 
um servo, encontrou-se, numa estrada muito estreita, com um jovem que 
tambm dirigia um carro. Como este se recusasse a obedecer  ordem de afastar-
se do caminho, o servo matou um de seus cavalos, e o estranho, furioso, matou 
Laio e seu servo. O jovem era dipo que, desse modo, se tornou o assassino 
involuntrio do prprio pai. 

Pouco depois desse fato, a cidade de 
Tebas viu-se afligida por um monstro, que 
assolava as estradas e era chamado de Esfinge. 
Tinha a parte inferior do corpo de leo e a parte 
superior de uma mulher e, agachada no alto de um 
rochedo, detinha todos os viajantes que passavam 
pelo caminho, propondo-lhes um enigma, com a 
condio de que passariam sos e salvos 
aqueles que o decifrassem, mas seriam mortos 
os que no conseguissem encontrar a soluo. 
Ningum conseguira decifrar o enigma, e todos 
haviam sido mortos. dipo, sem se deixar 
intimidar pelas assustadoras narrativas, aceitou, 
ousadamente, o desafio. 

- Qual  o animal que de manh anda com quatro ps,  
tarde com dois e  noite com trs? - perguntou a Esfinge. 

-  o homem, que engatinha na infncia, anda ereto 



na juventude e com ajuda de um basto na 
velhice - respondeu dipo. 

A Esfinge ficou to humilhada ao ver 
resolvido o enigma, que se atirou do alto do 
rochedo e morreu. 

A gratido do povo pela sua libertao 
foi to grande que fez de dipo seu rei, 
dando-lhe a rainha Jocasta em casamento. 
No conhecendo seus progenitores, dipo j 
se tornara assassino do prprio pai; casando-
se com a rainha, tornou-se marido da prpria 
me. Esses horrores ficaram desconhecidos, 
at que Tebas foi assolada pela peste e, sendo 
consultado o orculo, revelou-se o duplo 
crime de dipo. Jocasta ps fim  prpria 
vida e dipo, tendo enlouquecido, furou os 
olhos e fugiu de Tebas, temido e abandonado 
por todos, exceto pelas filhas, que fielmente 
o seguiram, at que, depois de dolorosa 
peregrinao, ele se libertou de sua 
desgraada vida. 
PGASO E A QUIMERA 
Quando Perseu cortou a cabea de Medusa, o sangue, caindo sobre a terra, 
transformou-se no cavalo alado Pgaso. Minerva pegou-o e amansou-o, dando-o 
de presente s musas. A fonte de Hipocreue, situada na montanha onde viviam 
as musas, Hlicon, foi aberta por um coice daquele cavalo. 
A Quimera era um monstro horripilante, que expelia fogo pela boca e 
pelas narinas. A parte anterior de seu corpo era uma combinao de leo e 
cabra e a parte posterior, a de um drago. Causava grandes estragos na 
Lcia, de sorte que o rei do pas, lobates, procurava um heri para destru-la. 
Naquela ocasio, chegou  sua corte um jovem e bravo guerreiro, chamado 
Belerofonte, que trazia carta de Proteu, genro de lobates, recomendando-o 

Belerofonte no Pgasus. 

Walter Crane. 



em termos calorosos como um heri invencvel, mas acrescentando, no fim, 
um pedido ao sogro para mandar mat-lo. O motivo disso  que Proteu tinha 
cime de Belerofonte, por desconfiar de que sua esposa, Antia, nutria 
demasiada admirao pelo jovem guerreiro. 
Ao ler as cartas, Iobates ficou hesitante, no querendo violar as regras 
da hospitalidade, mas desejoso de satisfazer a vontade do genro. Teve, 
ento, a idia de mandar Belerofonte lutar contra a Quimera. Belerofonte 
aceitou a proposta, mas antes de entrar em combate, consultou o vidente 
Polido, que o aconselhou a recorrer, se possvel, para a luta, ao cavalo 
Pgaso. Para esse fim, o jovem deveria passar a noite no templo de Minerva. 
Assim fez Belerofonte e, enquanto dormia, Minerva procurou-o e entregou-
lhe uma rdea de ouro, que se encontrava na mo do jovem quando ele 
despertou. Minerva mostrou-lhe, tambm, Pgaso bebendo gua no poo de 
Pirene, e, mal avistou a rdea dourada, o cavalo aproximou-se docilmente e 
se deixou cavalgar. Nele montado, Belerofonte elevou-se nos ares, no 
tardou a encontrar a Quimera e obteve uma fcil vitria sobre o monstro. 
Depois de vencer a Quimera, Belerofonte foi exposto a novos perigos 
e trabalhos por seu pouco amvel hospedeiro, mas, com a ajuda de Pgaso, 
triunfou em todas as provas, at que Iobates, vendo que o heri era 
particularmente favorecido pelos deuses, deu-lhe sua filha em casamento e 
tornou-o seu sucessor no trono. Afinal Belerofonte, por seu orgulho e 
presuno, incorreu na ira dos deuses; chegou, segundo se conta, a tentar 
voar at o cu em seu corcel alado, mas Jpiter mandou um moscardo 
atormentar Pgaso. O cavalo atirou ao cho o cavaleiro, que, em 
conseqncia, se tornou coxo e cego. Depois disso, Belerofonte vagou 
sozinho pelos campos aleanos, evitando o contato dos homens, e morreu 
miseravelmente. 
Milton faz aluso a Belerofonte no comeo do stimo livro do Paraso 
Perdido: 
Desce, Urnia, ao cu (se, realmente, 
Deves por este nome ser chamada), 

Tu, de cuja voz divina ao apelo,



Subi alm do Olimpo, alm dos cimos 
Que Pgaso alcanara com seu vo, 
E, assim, por ti levado ao cu supremo, 
Respirar atrevi o ar do Empreo 
(Teu elemento), eu, mortal humilde, 
Faze-me voltar, agora, to seguro 
Como quando parti, ao cho da terra. 
No permitas, Urnia, que, caindo 
Do fogoso corcel que ora cavalgo 
(Como Belerofonte, de uma altura 

Muito menos cado), abandonado 

Venha me ver nos campos aleanos, 

A Quimera 

Sem saber dirigir os prprios passos. 

 

 

 

 

Como cavalo das musas, Pgaso 
esteve sempre a servio dos poetas. Schiller conta-nos, a propsito, uma histria 
pitoresca, segundo a qual um poeta necessitado vendera o cavalo, que foi 
destinado a puxar a carroa e o arado. Pgaso no se adaptou a tal servio e seu 
rstico dono no viu serventia para o animal. Um jovem, contudo, pediu-lhe que 
o deixasse experimentar. E, mal o cavalgou, o animal, que a princpio se 
mostrava indomvel e depois aptico, ergueu-se majestosamente, como um 
esprito ou um deus, desdobrou o esplendor de suas asas e voou para o cu. 
Tambm Longfellow recorda uma aventura do famoso corcel em seu poema 
"Pgaso no Lago". 
Shakespeare faz aluso a Pgaso no "Henrique IV", onde Veron descreve 
o Prncipe Henrique: 
De elmo e armadura lhe cobrindo o corpo, 
O jovem Henrique vi do cho erguer-se, 
To destro quanto o algero Mercrio, 
E o corcel cavalgar, airosamente, 
Como se fosse um anjo que das nuvens 
Casse e um cavaleiro se fizesse, 

Para um fogoso Pgaso domar. 



Os CENTAUROS 
Estes monstros tinham do homem a cabea e o tronco e o restante do 
corpo do cavalo. Os antigos apreciavam muito o cavalo para considerar que sua 
unio com o homem constitusse uma forma degradante e, assim sendo, o 
centauro  o nico dos monstros mitolgicos da antigidade ao qual eram 
atribudas boas qualidades. Os centauros eram admitidos na companhia dos 
homens, e estavam entre os convidados, no casamento de Pritos com 
Hipodmia. Na festa, Eurtion, um dos centauros, tendo-se embriagado com 
vinho, tentou violentar a noiva; os outros centauros seguiram seu exemplo, 
provocando um terrvel conflito, no qual vrios deles foram mortos. E a clebre 
batalha dos lpites e centauros, assunto favorito dos escultores e poetas da 
antigidade. 
Nem todos os centauros, porm, eram semelhantes aos grosseiros 
convidados de Pritos. Quron recebeu lies de Apolo e Diana, tornando-
se famoso por sua habilidade na caa, medicina, msica e arte da profecia. 
Os mais notveis heris da Grcia foram seus discpulos, entre eles o 
menino Esculpio, que lhe foi confiado por seu pai Apolo. Quando o 
sbio voltou para casa levando a criana, sua filha Ocroe veio ao seu 
encontro e, vendo a criana, comeou a profetizar (pois era profetisa), 
prevendo a glria que ela iria conquistar. Esculpio, depois de adulto, 
tornou-se mdico famoso e, em um caso, chegou mesmo a restituir a vida 
a um morto. Pluto irritou-se com isso e, a seu pedido, Jpiter fulminou o 
Centauro e Lapita 

 



Batalha entre os lpites e os centauros (detalhe) 
Piero di Cosimo 
NATIONAL GALLERY, 
LONDRES 
ousado e atrevido medico com um raio, mas, depois de sua morte, recebeu-o 
entre os deuses. 
Quron foi o mais sbio e justo dos centauros e, quando morreu, Jpiter 
colocou-o entre as estrelas, como a constelao do Sagitrio. 
Os PIGMEUS 


Os pigmeus constituam uma nao de anes e seu nome deriva de uma 
palavra grega que significa uma medida correspondente a cerca de treze 
polegadas,3 que segundo se acreditava, era a altura daquela gente. Os pigmeus 
viviam perto das nascentes do Nilo, ou, de acordo com outros, na ndia. Homero 
conta que os grous costumavam emigrar, todos os invernos, para o pas dos 
pigmeus e seu aparecimento era o sinal de uma sangrenta guerra com os 
diminutos habitantes, que tinham de pegar em armas para defender os trigais 
contra os rapaces estrangeiros. Os pigmeus e seus inimigos, os grous, serviram 
de assunto a diversas obras-de-arte. 

3 A polegada equivale a 2,54 centmetros (N. doT.) 





Escritores mais modernos falam de um exrcito de pigmeus que, 
encontrando Hrcules adormecido, preparou-se para atac-lo, como se se 
tratasse do ataque a uma cidade. O heri, contudo, tendo despertado, riu dos 
minsculos guerreiros e, embrulhando alguns em sua pele de leo, levou-os para 
Eristeu. 
Milton utiliza-se dos pigmeus para uma comparao no Livro do Paraso 
Perdido: 
Os pigmeus que vivem alm da ndia 
Ou os Elfos gentis, cujos folguedos 
Os camponeses vem (ou sonham ver) 
Nas clareiras da mata e junto s fontes. 
O GRIFO 
O grifo era um monstro com corpo de leo, cabea e asas de guia e as 
costas cobertas de penas. Construa ninhos, como as aves, mas, em vez de um 
ovo, punha no ninho uma gata. Tinha garras de um tamanho tal que os 
habitantes da ndia, pas onde se acreditava viver o grifo, delas faziam taas. Os 
grifos encontravam ouro nas montanhas e com ele faziam seus ninhos, razo 
pela qual esses ninhos despertavam grande interesse entre os caadores e tinham 
de ser vigiados com ateno. O instinto levava os grifos a saber onde havia 
tesouros escondidos e eles tudo faziam para manter os saqueadores e ladres a 
distncia. Os arispianos, entre os quais viviam os grifos, eram um povo da Ctia, 
de um s olho. 
Milton faz uma comparao baseando-se nos grifos, no Livro II do 
Paraso Perdido: 
Como quando na selva um grifo alado 
Atravs de colinas e charnecas, 
Persegue o arispiano que seu ouro 
Se atreveu a juntar. 





 CAPTULO XVII 
O VELOCINO DE OURO - MEDIA 
O VELOCINO DE OURO 
H muitos e muitos anos, viviam na Tesslia, um rei e uma rainha, chamados 
Atamas e Nefele, que tinham dois filhos, um menino e uma menina. Depois de 
um certo tempo, Atamas enfarou da esposa, expulsou-a e casou-se com outra 
mulher. Nefele, receosa de que os filhos corressem perigo, em vista da 
influncia da madrasta, tratou de livr-los desse perigo. Mercrio ajudou-a e 
deu-lhe um carneiro com velocino de ouro, no qual Nefele colocou as duas 
crianas, certa de que o carneiro as levaria a um lugar seguro. O carneiro elevou-
se no ar com as duas crianas nas costas, tomando o rumo do nascente, at que, 
ao passar sobre o estreito que separa a Europa da sia, a menina, cujo nome era 
Heles, caiu no mar, que passou a ser chamado Helesponto, hoje Dardanelos. O 
carneiro continuou a viagem, at chegar ao reino da Clquida, na costa oriental 
do Mar Negro, onde depositou so e salvo o menino, Frixo, que foi 
hospitaleiramente recebido pelo rei do pas, Etes. Frixo sacrificou o carneiro a 
Jpiter e ofereceu a Etes o Velocino de Ouro, que foi posto numa gruta sagrada, 
sob a guarda de um drago que no dormia. 
Havia na Tesslia outro reino, perto do de Atamas, e governado por 
um parente seu. Cansado com os cuidados do governo, o Rei Eso passou a ---






coroa a seu irmo Plias, com a condio de que este a mantivesse apenas 
durante a menoridade de seu filho Jaso. Quando, chegando  idade 
conveniente, Jaso foi reclamar a coroa a seu tio, este fingiu-se disposto a 
entreg-la, mas, ao mesmo tempo, sugeriu ao jovem a gloriosa aventura de ir em 
busca do Velocino de Ouro, que se sabia estar no reino da Clquida e que, 
segundo afirmava Plias, era a legtima propriedade da famlia. Jaso acolheu a 
idia e tratou logo de fazer os preparativos para a expedio. Naquele tempo, a 
nica navegao conhecida pelos gregos era feita em pequenos botes ou canoas, 
feitos de troncos de rvores, de modo que, quando Jaso incumbiu Argos de 
construir uma embarcao capaz de transportar cinqenta homens, o 
empreendimento foi considerado como gigantesco. Foi realizado, contudo, e o 
barco tomou o nome de "Argo", em homenagem ao seu construtor. Jaso 
convidou a participarem da empresa todos os jovens gregos amantes de 
aventuras, muitos dos quais tornaram-se depois conhecidos entre os heris e 
semideuses da Grcia. Entre eles, encontravam-se Hrcules, Teseu, Orfeu e 
Nestor. Os expedicionrios foram chamados argonautas, do nome do barco. 
O "Argo", com sua tripulao de heris, deixou a costa da Tesslia e, 
depois de tocar na Ilha de Lemos, fez a travessia para a Msia e dali passou  
Trcia, onde os argonautas encontraram o sbio Frineu e dele receberam 
instrues sobre o futuro curso. A entrada do Ponto Euxino estava impedida por 
duas pequenas ilhas rochosas, que flutuavam na superfcie do mar e, sacudidas 
pelas vagas, ajuntavam-se, s vezes, esmagando completamente qualquer objeto 
que estivesse entre elas. Eram chamadas as Simplegades, ou Ilhas da Coliso. 
Frineu instruiu os argonautas sobre o modo de atravessar aquele estreito 
perigoso. Quando os expedicionrios chegaram s ilhas, soltaram uma pomba, 
que passou entre os rochedos s e salva, perdendo s algumas penas da cauda. 
Jaso e seus companheiros aproveitaram-se do momento favorvel em que as 
ilhas se afastavam uma da outra, remaram com vigor e passaram a salvo, 
enquanto as ilhas se colidiam de novo, atingindo a popa do barco. Remaram, 
ento, ao longo do litoral, at chegarem  extremidade oriental do mar, onde 
desembarcaram no reino da Clquida. 
Jaso transmitiu sua mensagem ao rei Etes, que concordou em desistir 
do Velocino de Ouro, se Jaso, por sua vez, concordasse em arar a terra 



 A Terra de Argo 
Parentino 
MUSEU Cvico, PDUA 
com dois touros de patas de bronze que soltavam fogo pela boca e pelas narinas, 
e semeasse os dentes do drago que Cadmo matara e dos quais sairia, segundo 
se sabia, uma safra de guerreiros, que voltariam suas armas contra o semeador. 
Jaso aceitou as condies e foi marcada a ocasio das provas. Antes, porm, ele 
conseguiu pleitear sua causa junto de Media, filha do rei, a quem prometeu 
casamento, invocando, por juramento, o testemunho de Hcate, quando se 
encontravam diante de seu altar. Media cedeu e, graas  sua ajuda, pois ela era 
uma poderosa feiticeira, Jaso conseguiu um encantamento, para se livrar da 
respirao de fogo dos touros e das armas dos guerreiros. 
Na ocasio marcada, o povo reuniu-se no Campo de Marte e o rei 
sentou-se no trono, enquanto a multido ocupava as elevaes prximas. 
Os touros de patas de bronze surgiram, respirando fogo e queimando as 
ervas, enquanto passavam, com as chamas que lhe saam das narinas. 
O rudo que faziam era semelhante ao de uma fornalha e a fumaa que 





desprendiam  provocada pela gua lanada sobre a cal viva. Jaso avanou, 
ousadamente, para enfrent-los. Seus amigos, os heris escolhidos da Grcia, 
tremeram ao contempl-lo. No obstante a respirao de fogo dos touros, ele 
lhes acalmou com a voz, afagou-os no pescoo e destramente colocou-lhes o 
jugo e obrigou-os a arar a terra. Os habitantes da Clquida ficaram assombrados; 
os gregos lanaram gritos de alegria. Logo surgiu a sementeira de homens 
armados e - maravilha das maravilhas! - mal tinham atingido a superfcie da 
terra, esses homens, brandindo suas armas, investiram contra Jaso. Os gregos 
tremeram de medo por seu heri, e mesmo aquela que lhe fornecera um meio de 
proteger-se e ensinara-lhe como us-lo, a prpria Media, empalideceu de temor. 
Jaso, durante algum tempo, manteve os atacantes a distncia, com a espada e o 
escudo, mas, vendo que seu nmero era esmagador, recorreu ao encantamento 
que Media lhe ensinara: pegou uma pedra e atirou-a no meio dos inimigos. 
Estes, imediatamente, voltaram as armas uns contra os outros e, dentro em 
pouco, no havia vivo um s da estirpe do drago. Os gregos abraaram seu 
heri, e Media tambm o teria abraado, se se atrevesse. 

Restava fazer adormecer o drago que guardava o velocino e isso foi 
conseguido lanando-se sobre ele algumas gotas de um preparado que Media 
fornecera. Sentindo-lhe o cheiro, o drago acalmou-se, ficou imvel, por um 
momento, depois fechou os grandes olhos redondos, que, segundo se sabia, 
nunca fechara antes e, virando-se de lado, adormeceu. Jaso apoderou-se do 
velocino e, acompanhado 
dos amigos e de Media, 
apressou-se em dirigir-se ao 
barco, antes que o rei Etes 
impedisse a partida, e voltou  
Tesslia, onde todos chegaram 
sos e salvos, e Jaso entregou o 
velocino a Plias e consagrou 
"Argo" a Netuno. No sabemos o 
que foi feito posteriormente do 
Velocino de Ouro, mas talvez se 
tenha verificado,  semelhana de 
muitos outros tesouros, que ele no valera 
o trabalho da conquista. 

Jaso pega o 

Velocino de Ouro 

Vaso Grego 

METROPOLITAN, NOVA YORK 



O episdio  uma dessas histrias mitolgicas, observa um escritor, em 
que h razo para acreditar na existncia de um substrato de verdade, embora 
perdida entre muita fico. Trata-se, provavelmente, da primeira expedio 
martima importante e, como se d com as tentativas dessa espcie em qualquer 
nao, ao que a histria nos ensina, deve ter tido, de certo modo, um carter de 
pirataria. Se foram colhidos ricos despojos, tal fato seria suficiente para fazer 
surgir a idia do velocino de ouro. 
Pope, em sua "Ode ao Dia de Sta Ceclia", assim celebra o lanamento ao 
mar do navio "Argo" e o poder da msica de Orfeu, a quem chama o Trcio: 
Quando a primeira nau, ousadamente, 
Desafiou o mar, em sua popa 
O Trcio as cordas dedilha da lira, 
Enquanto Argos contemplava as rvores, 
At h pouco suas companheiras, 
Descer do Plion para  praia virem. 
Os semideuses em silncio ouviram. 
E os homens em heris se transformaram. 
No poema de Dyer, "O Velocino", h uma descrio do "Argo" e sua 
tripulao, que d uma boa idia dessa aventura martima primitiva: 
Renem-se os heris vindos de todo 
O litoral do Egeu: Castor e Polux, 
Os ilustres irmos, e Orfeu, o bardo 
De lira pura e maviosa, e Zetas 
E Calais, to velozes quanto o vento, 
Hrcules e outros chefes renomados. 
Na branca praia de Iodes eles se apinham, 
Com as claras armaduras reluzindo. 
A corda de loureiro e a enorme pedra 
Ao convs so aladas. Zarpa a nave 
Cuja quilha perfeita mo de Argos 

Para a ousada aventura construda. 



Hrcules deixou a expedio em Msia, porque Hilas, um jovem amado 
por ele, tendo desembarcado para buscar gua, ficou detido pelas ninfas da 
fonte, fascinadas por sua beleza, Hrcules entrou numa discusso, por causa do 
jovem, e, durante sua ausncia, o "Argo" se fez ao mar, deixando-o. Em uma de 
suas canes, Moore faz uma bela aluso a esse incidente: 
Quando Hilas foi encher o seu cntaro  fonte 
Ia alegre, jovial, ao caminhar sozinho, 
E o cntaro, a vagar pelos prados e montes, 
Largou, para colher as flores do caminho. 
*** 
Desdenhei de beber, em minha juventude, 
Na fonte do saber da s filosofia. 
Com as flores me ocupei to s, enquanto pude, 
E a urna que levei deixei ficar vazia. 
MEDIA E ESO 
Entre o regozijo pela recuperao do Velocino de Ouro, Jaso achou que 
faltava alguma coisa: a presena de seu pai, Eso, impedido de participar das 
festividades por estar velho e enfermo. 
- Minha esposa - disse ele a Media -, poderiam tuas artes, cujo valor 
comprovei em meu proveito, prestar-me mais um servio, tirando alguns anos de 
minha vida para acrescentar  vida de meu pai? 
- Isso no ser feito a tal custo, mas, se minha arte ajudar-me, a vida de 
teu pai ser aumentada, sem que se abrevie a tua - replicou Media. 

Na primeira noite de lua cheia, ela saiu sozinha, enquanto todas as 
criaturas dormiam. Nem o melhor sopro de vento agitava as folhagens, e 
tudo estava quieto. Ela dirigiu seus encantamentos  lua e s estrelas; a 
Hcate,1 a deusa do mundo dos mortos, e a Tlus, deusa da terra, cujo 
poder  capaz de produzir as plantas eficazes para o encantamento. 
Invocou os deuses dos bosques e das cavernas, das montanhas e dos vales, 

1 Hcate era uma divindade misteriosa, s vezes identificada com Diana e, outras vezes, com Prosrpina. Como 
Diana representa o esplendor da noite de lua cheia, Hcate representa suas trevas e horrores. Era a deusa da 
bruxaria e do encantamento, e acreditava-se que vagava  noite pela terra, vista somente pelos ces, cujos latidos 
indicavam sua aproximao. 



 

Media 

Frederick Sandys 

MUSEU E GALERIA DE 

ARTE DE BIRMINGHAM 



dos lagos e dos rios, dos ventos e dos vapores. Enquanto falava, as estrelas 
brilhavam com mais intensidade e, de sbito, um carro desceu pelo espao, 
puxado por serpentes voadoras. Media nele subiu e, elevando-se, viajou para 
regies distantes, onde cresciam plantas eficazes, as quais sabia como escolher 
para o fim visado. Empregou nove noites nessa busca, e, durante esse tempo, 
no voltou ao interior de seu palcio, nem ficou sob qualquer teto e evitou todo 
contato com os mortais. 
Em seguida, ergueu dois altares, um para Hcate, outro para Hebe, a 
deusa da juventude, e sacrificou um carneiro negro, espalhando libaes de leite 
e de vinho. Implorou a Pluto e sua raptada esposa que no se apressassem em 
tirar a vida do velho. Em seguida, fez com que Eso fosse trazido at junto dela 
e, tendo-o feito dormir profundamente com seus encantamentos, deixou-o 
estendido num leito de ervas, como um morto. Jaso e os outros foram mantidos 
afastados do local, a fim de que olhos de profanos no pudessem contemplar os 
mistrios. Depois, com os cabelos soltos, fez trs vezes a volta dos altares, 
atirando ao sangue achas em chamas e deixou-as queimarem-se ali. Enquanto 
isso, colocava num caldeiro ervas mgicas, com sementes e flores de suco acre, 
pedras do longnquo Oriente e areia da praia do oceano que rodeia todas as 
terras; alva geada colhida ao luar, a cabea e as asas de uma coruja e as 
entranhas de um lobo. Ajuntou fragmentos do casco de tartarugas e fgado de 
veado - animais vivedouros - e a cabea e o bico de um corvo, que sobrevive 
nove geraes de homens. Tudo isso, com muitas outras coisas "sem nome", ela 
cozinhou, mexendo-as com um galho seco de oliveira. E, milagre!, quando 
retirado, o galho imediatamente tornou-se verde e, dentro em pouco, cobriu-se 
de folhas e de oliveiras novas. E, enquanto o lquido fervia e borbulhava, a relva, 
para onde, s vezes, escorria um pouco dele, adquiria um verdor semelhante ao 
da primavera. 

Vendo que tudo estava pronto, Media cortou o pescoo do velho, 
retirou todo o seu sangue, e despejou, pela boca e pelo ferimento, o 
contedo do caldeiro. Logo que esse contedo o embebeu completamente, 
os cabelos e a barba de Eso perderam sua brancura e retomaram o 
negrume da mocidade; a palidez e a magreza desapareceram; suas veias 
ficaram repletas de sangue e seus membros de vigor e robustez. O prprio 



Eso sente-se maravilhado, e lembra-se de que, tal como est agora, era 
em sua mocidade h quarenta anos. 
Nesse caso, Media usou suas artes para uma finalidade louvvel, mas no 
em outra circunstncia, em que as tornou instrumento da vingana. Plias, como 
os leitores devem se lembrar, tio de Jaso, usurpara o trono. Devia, no entanto, 
ter algumas boas qualidades, pois suas filhas o amavam e, quando viram o que 
Media fizera por Eso, quiseram que fizesse o mesmo para seu pai. Media 
fingiu concordar e preparou o caldeiro, como antes. A seu pedido, foi trazido 
um velho carneiro e mergulhado no caldeiro. Dentro em pouco, ouviu-se um 
balido dentro da vasilha e, quando sua tampa foi levantada, saltou de dentro um 
cordeiro, que se ps a correr pelo campo. As filhas de Plias assistiram 
deleitadas  experincia e marcaram uma ocasio para seu pai ser submetido ao 
mesmo tratamento. Media, contudo, preparara para ele o caldeiro de modo 
diferente, colocando apenas gua e algumas ervas comuns. De noite, ela, em 
companhia das irms, entrou no quarto do velho rei, que, juntamente com seus 
guardas, dormia profundamente, sob a influncia de um encantamento da 
prpria Media. As filhas ficaram junto do leito, com as armas desembainhadas, 
mas hesitando em us-las, at que Media censurou sua irresoluo. Ento, 
virando o rosto, e desferindo punhaladas ao acaso, as jovens feriram o pai. Este, 
acordando de sbito, gritou: 
- Minhas filhas, o que esto fazendo? Ides matar vosso pai? 
As filhas perderam a coragem e atiraram fora suas armas, mas Media 
desferiu-lhe o golpe de misericrdia, fazendo calar Plias. 

Em seguida, o velho foi colocado no caldeiro, e Media apressou-se em 
partir, em seu carro puxado por serpentes, antes que fosse descoberta sua 
traio, pois a vingana das filhas deveria ser terrvel. Conseguiu fugir, mas 
pouco gozou dos frutos de seu crime. Jaso, por quem tanto ela fizera, repudiou-
a, para casar-se com Crusa, princesa de Corinto. Furiosa com essa ingratido, 
Media invocou os deuses, pedindo vingana, mandou um vestido envenenado  
noiva como presente de casamento e, depois de ter matado os prprios filhos e 
incendiado o palcio, subiu ao carro puxado por serpentes e fugiu para Atenas, 
onde se casou com o Rei Egeu, pai de Teseu. Teremos de novo notcias dela, 
quando tratarmos das aventuras daquele heri. 



Os encantamentos de Media faro o leitor recordar-se das feiticeiras de 
Macbeth. Os versos seguintes so os que parecem relembrar mais vivamente o 
velho modelo: 
Em torno ao caldeiro rodai, rodai, 
Peonhentas entranhas atirai. 
Uma posta de carne de serpente 
Fervei, cozei, no caldeiro bem quente. 
Olho de salamandra e p de sapo, 
Lngua de co e plo de morcego, 
Dente de cobra venenosa e suja, 
P de lagarto e asa de coruja. 
MACBETH Ato IV Cena I 
E ainda: 
Macbeth - Que fazeis? 
Feiticeiras - Ao que no tem nome. 
H ainda outra verso sobre Media, revoltante demais mesmo para se 
referir a uma feiticeira, classe de gente a quem os poetas, tanto antigos como 
modernos, acostumaram-se a atribuir a maior malvadez. Em sua fuga da 
Clquida, ela havia levado consigo seu jovem irmo Absirto. Ao perceber que 
os navios de Etes que perseguiam os argonautas os estavam quase alcanando, 
Media mandou esquartejar o irmo e atirar seus membros ao mar. Etes, ao 
chegar ao local, encontrou os dolorosos restos do filho assassinado; mas, 
enquanto parava para recolh-los e dar-lhes um destino honroso, os argonautas 
puderam escapar. 






 CAPTULO XVIII 
MELEAGRO E ATALANTA 
---


U 



m dos heris da expedio dos argonautas foi Melagro, filho de 
Eneus e Altia, rei e rainha de Clidon. Quando seu filho nasceu, 
Altia viu as trs Parcas, que, enquanto teciam o fio fatal, previram 
que a vida da criana no duraria mais que uma acha de lenha que estava 
sendo queimada no fogo. Altia pegou a acha, apagou-a e conservou-a, 
cuidadosamente, durante anos, enquanto Melagro atravessava a infncia, a 
adolescncia e a virilidade. Ora, aconteceu, ento, que Eneus, ao oferecer 
sacrifcios aos deuses, esqueceu-se de prestar as honras devidas a Diana, e 
esta, indignada, mandou um enorme javali flagelar os campos de Clidon. 
Os olhos do animal lanavam chispas de fogo, suas cerdas pareciam chuos 
pontiagudos e seus dentes eram como as presas dos elefantes da ndia. O 
javali devastou os trigais, as vinhas e as oliveiras, e, com suas matanas, 
dispersou e confundiu os rebanhos. Todos os recursos comuns foram inteis, 
mas Melagro convocou os heris da Grcia para caarem, juntos, o 
malfazejo monstro. Teseu e seu amigo Pritos; Jaso, Peleu, que seria mais 
tarde pai de Aquiles; Tlamon, pai de Ajax; Nestor, ento jovem, mas que, 
depois de velho, lutaria ao lado de Aquiles e Ajax, na Guerra de Tria, 
estavam entre os muitos que participaram da expedio. Com eles 
encontrava-se Atalanta, filha de Isio, rei da Arcdia. Uma fivela de ouro 
polido prendia-lhe a veste, uma aljava de marfim pendia-lhe do ombro 



esquerdo e com a mo esquerda carregava o arco. Em seu rosto, a beleza 
feminina combinava-se com as graas da juventude marcial. Ao v-la, Melagro 
amou-a. 
Os jovens heris j se encontravam, porm, perto do covil do monstro. 
Estenderam redes de rvore em rvore, soltaram os ces e procuraram encontrar 
na relva as pegadas da fera. Havia um bosque que descia at um terreno 
pantanoso. Ali o javali, escondido entre os juncos, ouviu os gritos de seus 
perseguidores e investiu contra eles. Um ou outro foi derrubado e morto. Jaso 
lanou seu dardo, dirigindo uma prece a Diana, para ser bem-sucedido; a deusa 
permitiu que a arma tocasse o animal, mas no o matasse, afastando a ponta de 
ferro do dardo enquanto este cortava o ar. Nestor, atacado pela fera, procura e 
encontra salvao nos galhos de uma rvore. Tlamon investe, mas, tropeando 
numa raiz saliente, cai de bruos. Finalmente, porm, uma seta desfechada por 
Atalanta derrama, pela primeira vez, o sangue do monstro. E um ferimento leve, 
mas Melagro o v e o anuncia, alegremente. Anceu, invejoso do louvor feito 
a uma mulher, proclama em voz alta o prprio valor e desafia, ao mesmo 
Melagro e Atalanta 
Jacob Jordaens 






tempo, o javali e a deusa que o enviara; ao avanar, porm, a fera enfurecida 
derrubou-o, mortalmente ferido. Teseu atira sua lana, que  desviada, porm, 
por um galho de rvore. O dardo de Jaso erra o alvo e, em vez do javali, mata 
um de seus prprios ces. Melagro, contudo, depois de golpes infrutferos, 
crava a lana no flanco do monstro e o acaba matando, com repetidas cutiladas. 
Gritos de aclamao erguem-se em torno; todos congratulam-se com o 
autor da faanha, rodeando-o para cumpriment-lo. Ele, pondo o p sobre o 
javali, volta-se para Atalanta e oferece-lhe a cabea e a pele do animal, que eram 
os trofus do seu sucesso. A inveja, no entanto, levou o resto dos caadores  
luta. Plxipo e Toxeu, irmos da me de Melagro, alm dos demais, opem-se 
ao presente e arrebatam das mos da donzela o trofu que ela havia recebido. 
Melagro, furioso com o que lhe haviam feito, e mais ainda com a ofensa feita 
quela que amava, esquece-se dos deveres de parentesco e crava a espada no 
corao de ambos os ofensores. 
Quando Altia conduzia aos templos oferendas de agradecimento pela 
vitria do filho, v os corpos dos irmos assassinados. Tremendo, esmurra o 
peito e corre a mudar as vestes de regozijo pelas de luto. Vindo, porm, a saber 
quem foi o autor do feito, a dor cede lugar a um duro desejo de vingana contra 
o prprio filho. Pega a acha de lenha que outrora retirara das chamas, e  qual 
estava presa a vida de Melagro, e ordena que se acenda um fogo. Ento, por 
quatro vezes tenta colocar a acha na fogueira, e quatro vezes recua, 
estremecendo  idia de provocar a morte do prprio filho. Os sentimentos de 
me e de irm lutam dentro dela. Ora empalidece, com a idia do que poderia 
ocorrer, ora seu rosto se congestiona, enraivecida com o que fizera o filho. 
Como um barco empurrado numa direo pelo vento e noutra direo pelas 
ondas, o esprito de Altia  presa da dvida. Agora, porm, a irm prevalece 
sobre a me e ela exclama, segurando a acha fatal: 

Voltai-vos, Frias, deusas do castigo! Voltai-vos, para contemplardes 
o sacrifcio que fao! O crime clama por crime. Dever Eneus regozijar-se 
com seu filho vitorioso, enquanto a casa de Testius est desolada? Mas, ah! 
A que ao sou levada? Irmos, perdoai a fraqueza de uma me. Minhas 
mos traem-me. Ele merece a morte, mas no que eu o mate. Dever, 



contudo, viver, triunfar e reinar sobre Clidon, enquanto vs, meus irmos, 
vagareis entre as sombras, no vingados? No! Viveste graas a mim. Morre, 
agora, por teu prprio crime! 
Devolve a vida que duas vezes te dei, primeiro pelo nascimento, depois, 
quando retirei esta acha de lenha do fogo. Ah! Triste vitria  esta que 
conquistais, meus irmos, mas conquistai-a! 
E, virando o rosto, atirou a madeira fatal s chamas crepitantes. Estas 
deram, ou pareceram dar, um gemido profundo. 
Melagro, ausente, sem conhecer a causa, sentiu uma dor repentina. Sente 
queimar-se e apenas graas  sua coragem consegue vencer a dor que o destri. 
Lamenta apenas perecer de uma morte incruenta e sem honra. Com o ltimo 
suspiro, chama seu velho pai, seu irmo, suas queridas irms, sua amada 
Atalanta e sua me, a causa desconhecida de sua morte. As chamas aumentam e, 
com elas, o sofrimento do heri. Depois, ambos diminuem e desaparecem. A 
madeira transforma-se em cinzas e a vida de Melagro perde-se entre os ventos. 
Consumado o ato, Altia voltou contra si mesma as mos violentas. As 
irms de Melagro choraram o irmo desesperadamente, at que Diana, 
apiedando-se da casa a que levara tantos dissabores, transformou-as em aves. 
ATALANTA 
A causa inocente de tantos pesares era uma jovem cujo rosto poder-se-ia 
dizer, com segurana, que era muito masculino para uma mulher e, ao mesmo 
tempo, muito feminino para um homem. Seu destino fora revelado e era neste 
sentido: "No te cases, Atalanta; o casamento ser tua runa. Atemorizada com 
esse orculo, a jovem fugiu da companhia dos homens e dedicou-se aos 
exerccios corporais e  caa. A todos os pretendentes (pois tinha muitos) 
impunha uma condio que, em via de regra, a livrava da perseguio: 
- Darei o prmio quele que vencer-me numa corrida, mas a morte ser 
o castigo do que tentar e falhar. 

A despeito dessa sria condio, alguns se arriscaram. Hipmenes deveria 
ser o juiz da corrida. 



- Ser possvel que algum seja to louco a ponto de se arriscar desse 
modo para conquistar uma esposa? - disse ele. 
Mas, quando viu Atalanta tirar as vestes, para a corrida, mudou de 
opinio, e exclamou: 
- Perdoai-me, jovens. No sabia qual era o prmio que ireis disputar. E, 
ao contempl-los, desejava que todos fossem derrotados e enchia-se de inveja 
daqueles que pareciam capazes de vencer. Enquanto se entregava a tais 
pensamentos, a virgem comeou a correr e, correndo, era ainda mais bela do que 
sempre. A brisa parecia dar-lhe asas aos ps; os cabelos agitavam-se sobre os 
ombros e a vistosa fmbria de suas vestes flutuava atrs dela. Um rubor coloria-
lhe a alvura da ctis, como a sombra de uma cortina carmesim sobre uma parede 
de mrmore. 
Todos os concorrentes ficaram distanciados e foram mortos 
impiedosamente. Hipmenes, sem assustar-se com esse resultado, disse, fixando 
os olhos na virgem: 
- Por que te vanglorias de vencer esses lerdos? Ofereo-me para a 
disputa. Atalanta olhou-o com piedade, sem saber se deveria vencer a corrida ou 
no. 
"Que deus pode tentar um homem to jovem e to belo a se arriscar 
tanto?" - pensou. "Tenho pena dele, no por causa de sua beleza (embora ele 
seja belo), mas por causa de sua mocidade. Quisera que ele desistisse da corrida, 
ou, se for to louco para insistir, que me vencesse." 
Enquanto hesita, entregue a esses pensamentos, os espectadores se 
impacientam e seu pai a convida a preparar-se. Hipmenes, ento, dirige uma 
prece a Vnus: 
- Ajuda-me, Vnus, pois foste tu que me impeliste. Vnus ouviu a prece 
e mostrou-se benevolente. 

No jardim de seu templo, na ilha de Chipre, h uma rvore de folhas e 
ramos amarelos, e frutos de ouro. Ali ela colheu trs frutos e, sem ser vista por 
qualquer outra pessoa, entregou-os a Hipmenes e ensinou-lhe como us-los. O 
sinal foi dado. Os dois corredores partem, avanando sobre a areia. Avanavam 
com tanta leveza que dir-se-ia que corriam sobre a superfcie de um rio ou sobre 
as ondas, sem se afundarem. Os gritos dos espectadores animavam Hipmenes: 



- Sus, sus, nimo! Avana, avana! Tu a vencers! No descanses! Mais 
um esforo! 
No se podia saber se era o jovem ou a donzela que ouvia estas palavras 
com maior prazer. Hipmenes, contudo, comeou a respirar com dificuldade; 
sentia a garganta seca e a meta ainda estava longe. Naquele momento, ele largou 
uma das maas de ouro. A virgem, admirada, parou para apanh-la. Hipmenes 
ganhou a dianteira. Ouviram-se gritos de todos os lados. Atalanta redobrou os 
esforos e, dentro em pouco, alcanou o adversrio. De novo ele largou uma 
ma; a donzela tornou a parar, porm mais uma vez alcanou Hipmenes. A 
meta estava prxima; restava apenas uma oportunidade. 
- Faze frutificar tua ddiva,  deusa! - exclamou o jovem, atirando para 
um lado a ltima ma. 
Atalanta olhou indecisa; Vnus impeliu-a a olhar para o lado. Ela assim 
fez, e foi vencida. Hipmenes conquistou o prmio. 
Os amantes, contudo, ficaram to preocupados com a prpria felicidade 
que se esqueceram de render a Vnus as devidas homenagens, e a deusa irritou-
se com sua ingratido. Levou-os, ento, a ofender Cibele. Essa deusa poderosa 
no era ofendida impunemente. Tirou dos dois a forma humana, transformando-
os em animais de hbitos semelhantes aos seus prprios: a caadora-herona, que 
triunfava graas ao sangue de seus amantes, foi transformada em leoa, e seu 
amante transformado em leo, e ambos foram atrelados ao carro da deusa, onde 
ainda podem ser vistos em todas as suas representaes, na escultura e na 
pintura. 
Cibele era o nome latino da deusa chamada pelos gregos de Ria ou Ops. 
Era esposa de Cronos e me de Zeus. Nas obras-de-arte, apresenta um ar de 
matrona, que a distingue de Juno e Ceres. s vezes, apresenta-se coberta com 
um vu, sentada num trono, com lees ao seu lado, outras vezes guiando um 
carro puxado por lees. Usa uma coroa, cuja orla  recortada em forma de torres 
e ameias. Seus sacerdotes eram chamados coribantes. 

Descrevendo a cidade de Veneza, construda numa ilha rasa do Adritico, 
Byron faz uma comparao com Cibele: 



Qual Cibele marinha, do oceano 
Se ergue, pela tiara coroada 
Das torres majestosas, imponentes. 
Moore, referindo-se  paisagem alpina, faz aluso ao episdio de Atalanta 
e Hipmenes: 
Mesmo aqui, nesta cena portentosa 
Muito na frente da Verdade avana 
A Fantasia, ou bem, como Hipmenes, 
Esta aquela distrai, desorienta, 
Com as iluses douradas que alimenta. 


 



 CAPTULO XIX 
HRCULES - HEBE E GANIMEDES 
HRCULES 
---


Hrcules era filho de Jpiter e Alcmena. Como Juno era sempre hostil 
aos filhos de seu marido com mulheres mortais, declarou guerra a Hrcules 
desde o seu nascimento. Mandou duas serpentes mat-lo em seu bero, mas a 
precoce criana estrangulou-as com suas prprias mos. 
Pelas artes de Juno, contudo, ele ficou sujeito a 
Euristeus e obrigado a executar todas as suas ordens. 
Euristeus imps-lhe a realizao de faanhas 
perigosssimas, que ficaram conhecidas como 
"Os Doze Trabalhos de Hrcules". A primeira 
foi a luta contra o leo de Nemia. A fera 
causava devastaes no vale daquele nome 
e Euristeus ordenou a Hrcules que lhe 
trouxesse a pele do monstro. Depois de se 
utilizar, em vo, de sua clava e de setas 
contra o leo, Hrcules estrangulou-o com 
as prprias mos. Voltou levando nos 
ombros o leo morto, mas Euristeus ficou 
to amedrontado  vista daqueles despojos 
e da prova da fora prodigiosa do heri, que lhe 

 

 

 

Hrcules 

 



Hrcules e Anteu Tintoretto 

WADSWORTH ATHENEUM, HARTPORD 



 

Hrcules Drer 



ordenou que, dali em diante, prestasse conta de suas faanhas fora da cidade. 
O trabalho seguinte foi a matana da hidra de Lerna. Esse monstro 
devastava a regio de Argos e habitava um pntano perto do povo de Amione. 
Esse poo fora descoberto por Amione, quando a seca devastava a regio e 
Netuno, que a amava, deixara-a tocar na rocha com seu tridente e trs nascentes 
surgiram dali. A hidra escolheu para moradia aquele local e Hrcules foi 
mandado mat-la. O monstro tinha nove cabeas, sendo a do meio imortal. 
Hrcules esmagava essas cabeas com sua clava, mas, em lugar da cabea 
destruda, nasciam duas outras de cada vez. Afinal, com a ajuda de seu fiel servo 
Iolaus, o semideus queimou as cabeas da hidra e enterrou a nona, a imortal, sob 
um enorme rochedo. 
Outro trabalho de Hrcules foi a limpeza das cavalarias de Augias, rei da 
Elida, que possua um rebanho de trs mil bois, havendo trinta anos que no 
eram limpos os estbulos. Hrcules desviou os cursos dos rios Alfeu e Peneu, 
para atravess-los, fazendo a limpeza em um dia. 
O trabalho seguinte foi de natureza mais delicada. Admeta, filha de 
Euristeus, desejava ardentemente possuir o cinto da rainha das Amazonas e 
Euristeus ordenou a Hrcules que o fosse buscar. As amazonas constituam uma 
nao de mulheres muito belicosas, que possuam diversas cidades florescentes. 
Tinham o costume de criar apenas as crianas do sexo feminino; os meninos 
eram mandados para os pases vizinhos, ou mortos. Hrcules partiu 
acompanhado por um certo nmero de voluntrios e, depois de vrias aventuras, 
chegou ao Pas das Amazonas. Hiplita, a rainha, acolheu-o benevolentemente e 
concordou em entregar-lhe o cinto, mas Juno, tomando a forma de uma 
amazona, convenceu as demais que os estrangeiros estavam raptando sua rainha. 
Elas armaram-se imediatamente e atacaram o navio. Hrcules, julgando que 
Hiplita tivesse agido traioeiramente, matou-a e, levando o cinto, fez a viagem 
de volta. 

Outra tarefa de que Hrcules foi incumbido foi a de levar a Euristeus os 
bois de Gerio, monstro de trs corpos que vivia na Ilha de Eritia (a 
vermelha), assim chamada porque ficava situada a oeste, sob os raios do sol 
poente. Acredita-se que se tratava da Espanha. Gerio era o rei do pas. 
Depois de atravessar vrios pases, Hrcules chegou, afinal,  fronteira da 



Lbia e Europa, onde ergueu as duas montanhas de Calpe e bila, como 
lembrana de sua passagem, ou, de acordo com outra verso, abriu uma 
montanha pelo meio, formando entre elas o Estreito de Gibraltar. As duas 
montanhas foram denominadas Colunas de Hrcules. Os bois estavam 
guardados pelo gigante Eurtion e seu co de duas cabeas, mas Hrcules 
matou o gigante e o co, e levou os bois para Euristeus. 
O trabalho mais difcil foi o de colher os pomos de ouro das 
Hesprides, pois Hrcules no sabia onde encontr-los. Eram as mas que 
Juno recebera, por ocasio de seu casamento, das deusas da terra e que 
confiara  guarda das filhas de Hspero, ajudadas por um vigilante drago. 
Depois de vrias aventuras, Hrcules chegou aos Montes Atlas, na frica. 
Atlas era um dos tits que fizera guerra aos deuses e, depois da derrota, fora 
condenado a sustentar nos ombros o peso do cu. Era o pai das Hesprides, e 
Hrcules pensou que, se algum estava em condies de encontrar as mas, 
seria ele. Como poderia, porm, afast-lo de seu posto ou sustentar o peso do 
cu, durante sua ausncia? Hrcules sustentou o firmamento nos prprios 
ombros e mandou Atlas procurar as mas. O tit voltou com os frutos de 
ouro e, embora com alguma relutncia, reassumiu seu posto e deixou 
Hrcules voltar para fazer entrega dos pomos de ouro a Euristeus. 
Milton, no "Comus", refere-se s Hesprides como filhas de Hspero e 
sobrinhas de Atlas: 
... em meio dos jardins formosos 
De Hspero e suas trs formosas filhas, 
Que cantam junto  rvore de ouro. 
Os poetas, levados pela analogia do lindo aspecto do cu no oeste, ao 
sol poente, no crepsculo, imaginavam o Ocidente, como uma regio de 
brilho e beleza, ali colocando as Ilhas Afortunadas, a vermelha Ilha Eritia, 
na qual pastavam os bois de Gerio, e a Ilha das Hesprides. Supe-se que as 
mas douradas eram as laranjas da Espanha, sobre as quais os gregos teriam 
informaes incompletas. 

Uma celebrada faanha de Hrcules foi sua vitria sobre Anteu, filho 
da Terra, poderoso gigante e lutador, cuja fora era invencvel, enquanto 



 Hrcules e as Musas 
Allori 


estivesse em contato com a Terra, sua me. Anteu obrigava todos os estrangeiros 
que apareciam em seu pas a lutar com ele, com a condio de que, se fossem 
vencidos (como sempre eram), seriam mortos. Hrcules enfrentou-o e, 
verificando que no adiantava lan-lo ao solo, pois ele sempre se levantava 
com redobrado vigor, depois de cada queda, ergueu-o no ar e estrangulou-o. 



Caco era um enorme gigante, que habitava uma caverna do Monte Aventino e 
devastava a regio vizinha. Quando Hrcules levava de volta os bois de Gerio, 
Caco furtou uma parte do gado, enquanto o heri dormia. A fim de que as 
pegadas dos animais no pudessem revelar para onde eles haviam sido levados, 
Caco os arrastou pela cauda para sua caverna, de sorte que as pegadas davam a 
impresso de que os bois haviam seguido na direo oposta. Hrcules teria sido 
iludido por esse estratagema, se no tivesse passado, com o resto do rebanho, 
diante da caverna onde os animais furtados estavam escondidos. Os bois 
puseram-se a mugir e foram descobertos. Caco foi morto por Hrcules. 

A ltima faanha de Hrcules que mencionaremos1 foi a de ter trazido 
Crbero do mundo dos mortos para a terra. Hrcules desceu ao Hades, 
acompanhado de Mercrio e Minerva, e obteve licena de Pluto para levar 
Crbero ao mundo superior, contando que conseguisse faz-lo sem se valer de 
armas. A despeito da resistncia do monstro, Hrcules agarrou-o, subjugou-o e 
levou-o at Euristeus, conduzindo-o de volta em seguida. No Hades, obteve a 
libertao de Teseu, seu admirador e imitador, que fora aprisionado durante uma 
tentativa malsucedida de raptar Prosrpina. 
Num mpeto de loucura, Hrcules matou seu amigo fitus e foi condenado, 
por esse delito, a tornar-se escravo da Rainha Onfale, durante trs anos. Durante 
esse tempo, a natureza do heri modificou-se. Ele tornou-se efeminado, usando 
s vezes, vestes femininas e tecendo l com as servas de Onfale, enquanto a 
rainha usava sua pele de leo. Terminada a pena, Hrcules desposou Dejanira, 
com a qual viveu em paz durante trs anos. Numa certa ocasio em que viajava 
em companhia da esposa, os dois chegaram a um rio, atravs do qual o centauro 
Nssus transportava os viajantes, mediante pagamento. Hrcules vadeou o rio, 
mas encarregou Nssus de transportar Dejanira. O centauro tentou fugir com ela, 
mas Hrcules, ouvindo seus gritos, lanou uma seta no corao de Nssus. 
Moribundo, o centauro disse a Dejanira para recolher uma poro de seu sangue 
e guard-la, pois serviria de feitio para conservar o amor do marido. 

1 Os doze trabalhos realizados por Hrcules referem-se a: 1 - Leo de Nemia; 2 - Hidra de Lerna; 3 - Cora 
dos ps de bronze; 4 - Javali de Erimanto; 5 - Cavalarias de Augias; 6 - Aves do Lago Erimanto; 7 - 
Touro de Creta; 8 - Cavalos de Diomedes; 9 - Cinto de Hiplita; 10 - Bois de Gerio; 11 - Pomos das 
Hesprides; 12 - Crbero. 

Dejanira assim o fez e no passou muito tempo antes de ter idia de se 
utilizar e antes que se passasse muito tempo chegou uma ocasio de se utilizar 
do recurso. Em uma de suas expedies vitoriosas, Hrcules aprisionara 



uma linda donzela, chamada Iole, por quem parecia estar muito mais interessado 
do que Dejanira achava razovel. Quando ia oferecer sacrifcios aos deuses, em 
honra de sua vitria, Hrcules mandou pedir  esposa uma tnica branca, para 
usar na cerimnia. Dejanira, achando a ocasio oportuna para experimentar o 
feitio, embebeu a tnica no sangue de Nssus. Naturalmente, teve o cuidado de 
eliminar os sinais de sangue, mas o poder mgico permaneceu e, logo que a 
tnica se aqueceu ao contato de Hrcules, o veneno penetrou em seu corpo, 
provocando-lhe terrveis dores. Frentico, Hrcules agarrou Licas, que levara a 
tnica fatal, e atirou-o ao mar. Ao mesmo tempo, procurava arrancar do corpo a 
tnica envenenada, mas esta saa com pedaos de sua carne, em que se colara. 
Nesse estado, ele foi levado para casa num barco. Ao ver o que fizera 
involuntariamente, Dejanira enforcou-se. Preparando-se para morrer, Hrcules 
subiu ao Monte Eta, onde construiu uma pira funerria de rvores, deu o arco e 
as setas a Filoctetes e deitou-se na pira, apoiando a cabea na clava e cobrindo-
se com a pele do leo. Com a fisionomia to serena, como se estivesse  mesa de 
um festim, mandou que Filoctetes aplicasse a tocha  pira. As chamas 
espalharam-se e, em pouco, envolveram tudo. Milton assim alude ao desespero 
de Hrcules: 


Foi assim, quando Alcides2 vitorioso, 
Da venenosa tnica, no corpo, 
Os efeitos sentindo, desvairado, 
Os pinheiros tesslios arrancou 
Pelas razes e, do cume do Etna, 
Licas tirou para lan-lo ao mar. 
Os prprios deuses sentiram-se perturbados ao verem o fim do heri 
terrestre, mas Jpiter, com fisionomia jovial, assim se dirigiu a eles: 

2 Alcides, um dos nomes de Hrcules. 

- Sinto-me satisfeito ao ver vossas fisionomias, meus prncipes, e 
feliz ao perceber que sou rei de sditos leais e que meu filho goza de vossa 
simpatia. Se bem que vosso interesse por ele provenha de seus nobres feitos, 
isto no  menos grato para mim. Posso vos dizer, porm, que no h 
motivos para temor. Aquele que venceu tudo mais no ser vencido por 



aquelas chamas que vedes crepitar no Monte Eta. Apenas pode perecer sua parte 
materna; o que ele recebeu de mim  imortal. Eu o trarei morto para a terra, at 
s praias celestes, e peo-vos que o recebais com benevolncia. Se algum de vs 
se sente ofendido pelo fato de ele haver alcanado essa honra, ningum poder, 
porm, negar que ele a merece. 
Os deuses deram o seu consentimento. Juno ouviu com certa 
contrariedade as ltimas palavras, que lhe eram dirigidas em particular, mas no 
bastante para lamentar a resoluo do marido. Assim, quando as chamas 
consumiram a parte materna de Hrcules, a parte divina, em vez de ser afetada, 
pareceu receber maior vigor, assumir um porte mais altivo e maior dignidade. 
Jpiter envolveu-o numa nuvem e levou-o num carro puxado por quatro cavalos 
para morar entre as estrelas. E, quando Hrcules tomou seu lugar no cu, Atlas 
sentiu aumentar o peso do firmamento. 
Juno, reconciliada com ele, deu-lhe sua filha Hebe em casamento. 
Hrcules e o Touro de Crera 
MUSEU DO LOUVRE, PARIS 



 

HEBE E GANIMEDES 

 

Hebe, filha de Juno e deusa da juventude, 
era copeira dos deuses, a quem servia o nctar. De 
acordo com a verso mais comum, deixou tal 
servio quando se tornou esposa de Hrcules. H 
uma outra verso, contudo, seguida pelo escultor 
norte-americano Crawford, em seu grupo de Hebe 
e Ganimedes, de acordo com a qual Hebe foi 
afastada de suas funes em conseqncia de uma 
queda que deu um dia, quando servia aos deuses. 
Seu sucessor foi Ganimedes, jovem troiano, que 
Jpiter, sob o disfarce de uma guia, raptou 
enquanto se achava no meio de seus companheiros 
de folguedo, no Monte Ida, e levou ao cu, 
colocando-o no lugar vago. 

Tennyson, em seu "Palcio da Arte", 
descreve, entre as decoraes das paredes, um 
quadro representando essa lenda: 

 

De Ganimedes o rosado vulto, 

Pelas asas da guia mais oculto, 

Sobre o espao solitrio vinha, 

Qual estrela no cu clara e sozinha. 

 

E, no "Prometeu" de Shelley, Jpiter assim 
se dirige ao seu copeiro: 

 

Serve o vinho celeste, Ganimedes, 

E deixa-o encher as taas como o fogo. 


A Elevao de Ganimedes 

El Corrge 

MUSEU KUNSTHISTORISCHES, VIENA 

 



 CAPTULO XX 
TESEU - DDALO 
CASTOR E PLUX 
TESEU 
Teseu era filho de Egeu, rei de Atenas, e de Etra, filha do rei de Trzen, 
por quem foi criado. Depois de homem, foi mandado a Atenas e entregue a seu 
pai. Egeu, separando-se de Etra, antes do nascimento do filho, colocou a espada 
e as sandlias sob uma grande pedra e determinou  esposa que lhe mandasse o 
filho quando este fosse bastante forte para levantar a pedra. Chegada a ocasio, a 
me de Teseu executou a incumbncia e o jovem removeu a pedra com 
facilidade e se apoderou da espada e das sandlias. Como as estradas estavam 
infestadas de bandidos, o av de Teseu aconselhou-o a seguir o caminho mais 
seguro e mais curto para o pas de seu pai: por mar. O jovem, contudo, sentindo 
em si o esprito e a alma de um heri, e desejoso de se destacar como Hrcules, 
cuja fama corria, ento, por toda a Grcia, pelo fato de destruir os malfeitores e 
os monstros que flagelavam o pas, resolveu fazer a viagem mais perigosa e 
aventurosa por terra. ---


No primeiro dia de viagem, chegou a Epidauro, onde vivia um filho de 
Vulcano, Perifetes, selvagem feroz, sempre armado com uma clava de ferro, 
que atemorizava os viajantes, com seus atos de violncia. Ao ver 
aproximar-se Teseu, ele o atacou, mas foi logo vencido pelo jovem heri que 



 

se apoderou de sua clava e trouxe-a sempre consigo, 
depois disso, como lembrana de sua primeira 
vitria. 

Seguiram-se vrias lutas semelhantes 
contra tiranetes e bandidos e em todas Teseu saiu 
vitorioso. Um dos malfeitores chamava-se Procusto 
e tinha um leito de ferro, no qual costumava amarrar 
todos os viajantes que lhe caam nas mos. Se eram 
menores que o leito, ele lhes espichava as pernas e, se fossem maiores, cortava a 
parte que sobrava. Teseu castigou-o, fazendo com ele o que ele fazia com os 
outros. 
Tendo vencido todos os perigos da viagem, Teseu finalmente chegou a 
Atenas, onde novas ameaas o aguardavam. Media, a feiticeira, que fugira de 
Corinto, depois de separar-se de Jaso, tornara-se esposa de Egeu. pai de Teseu. 
Sabendo, graas s suas artes, quem ele era, e receando perder a influncia sobre 
o marido, se Teseu fosse reconhecido como seu filho, induziu mil suspeitas no 
esprito de Egeu e aconselhou-o a fazer o jovem estrangeiro beber uma taa de 
veneno. No entanto, quando Teseu avanava para receber a taa, seu pai, 
reconhecendo a espada que ele trazia, viu quem ele era e no deixou que 
tomasse o veneno. Media, desmascarada, fugiu mais uma vez ao merecido 
castigo indo para a sia, onde deu nome ao pas posteriormente chamado 
Mdia. Teseu foi reconhecido pelo pai e declarado seu sucessor. 
Os atenienses encontravam-se, naquela poca, em estado de grande 
aflio, devido ao tributo que eram obrigados a pagar a Minos, rei de Tebas. 
Esse tributo consistia em sete jovens e sete donzelas, que eram entregues todos 
os anos, a fim de serem devorados pelo Minotauro, monstro com corpo de 
homem e cabea de touro, forte e feroz, que era mantido num labirinto 
construdo por Ddalo, e to habilmente projetado que quem se visse ali 
encerrado no conseguiria sair, sem ajuda. 

Etra e Teseu 

Teseu resolveu livrar seus patrcios dessa calamidade, ou morrer na 
tentativa. Assim, quando chegou a ocasio de enviar o tributo e os jovens 
foram sorteados, de acordo com o costume, ele se ofereceu para ser uma das 
vtimas, a despeito dos rogos de seu pai. O navio partiu, como era de 
hbito, com velas negras, que Teseu prometeu ao pai mudar para brancas, 



no caso de regressar vitorioso. 
Chegando a Creta, os jovens e 
donzelas foram todos exibidos 
diante de Minos, e Ariadne, filha 
do rei, que estava presente, 
apaixonou-se por Teseu, e este 
amor foi correspondido. A jovem 
deu-lhe, ento, uma espada, para 
enfrentar o Minotauro, e um 
novelo de linha, graas ao qual 
poderia encontrar o caminho. 
Teseu foi bem-sucedido, matando 
o Minotauro e saindo do labirinto. 
Levando, ento, Ariadne, 
regressou a Atenas, juntamente 
com os companheiros salvos do 
monstro. Durante a viagem, 
pararam na Ilha de Naxos, onde 
Teseu abandonou Ariadne, 
deixando-a adormecida.1 A 
desculpa que deu para tratar com tanta ingratido sua benfeitora 
foi que Minerva lhe apareceu num sonho ordenando-lhe que assim 
o fizesse. Ao aproximar-se do litoral da Atica, Teseu esqueceu-se da 
combinao que fizera com o pai e no mandou alar as velas brancas. O velho 
rei, julgando que o filho tivesse morrido, suicidou-se. Teseu tornou-se, ento, rei 
de Atenas. 
Uma das mais clebres aventuras de Teseu foi a expedio contra as 
amazonas. Atacou-as antes que elas se tivessem refeito da derrota infligida por 
Hrcules, e aprisionou sua rainha, Antope. As amazonas, por sua vez, 
invadiram o reino de Atenas, penetrando na prpria cidade, onde se travou a 
batalha final, em que Teseu as derrotou. Essa batalha foi um dos assuntos 
favoritos dos escultores da antigidade e ainda existem vrias obras-de-arte que 
a representam. 

Teseu domina o Minotauro 

Vaso grego 

MUSEU DO PADRO, MADRI 

1 Uma das mais belas esculturas da Itlia, a Ariadne deitada do Vaticano, representa esse episdio. 

A amizade entre Teseu e Prito, embora ntima, originou-se em 
combate. Prito invadiu a plancie de Maratona e roubou os rebanhos do 
rei de Atenas. Teseu foi repelir os invasores. No momento em que o viu, 



Prito foi tomado de admirao; estendeu a mo, como sinal de paz e 
gritou: 

- S juiz tu mesmo. Que satisfao exiges? 

- Tua amizade - respondeu o ateniense. 

E os dois juraram inviolvel fidelidade. Suas faanhas 
correspondiam a seus votos e eles se mantiveram sempre verdadeiros 
irmos de armas. Ambos aspiravam desposar uma filha de Jpiter. 
Teseu escolheu Helena, ainda criana e mais tarde to clebre por causa 
da Guerra de Tria, e, com ajuda do amigo, raptou-a. Prito aspirava 
conquistar a esposa do monarca de Erebo, e Teseu, embora consciente 
do perigo, acompanhou o ambicioso amante, na descida ao mundo 
subterrneo. Pluto, porm, aprisionou-os e prendeu-os numa rocha 
encantada na porta de seu palcio, onde ficaram at que Hrcules 
chegou e libertou Teseu, deixando Prito entregue ao seu destino. 
Depois da morte de Antope, Teseu desposou Fedra, filha de Minos, rei de 
Tebas. Fedra viu em Hiplito, filho de Teseu, um jovem dotado de todas as 
qualidades e virtudes do pai, e de idade correspondendo  sua prpria. Amou-o, 
mas ele a repeliu e o amor transformou-se em dio. Fedra lanou mo do 
apaixonado marido, para torn-lo ciumento do filho e Teseu invocou contra ele a 
vingana de Netuno. Quando Hiplito, certo dia, dirigia seu carro junto  praia, 
um monstro marinho surgiu das guas e espantou os cavalos, que dispararam, 
despedaando o carro. Hiplito morreu, mas, com a ajuda de Esculpio, Diana 
ressuscitou-o e afastou-o do iludido pai e da traioeira madrasta, deixando-o na 
Itlia, sob a proteo da ninfa Egria. 
Finalmente, Teseu, privado da simpatia de seu povo, retirou-se para a 
corte de Licmedes, rei dos Ciros, que, a princpio, o tratou com bondade, 
porm, mais tarde, matou-o traioeiramente. Em poca posterior, o general 
ateniense Cmon descobriu o lugar onde jaziam seus restos, que foram traslados 
para Atenas e depositados num templo chamado Teseum, erguido em honra do 
heri. 
A rainha das Amazonas que Teseu desposou  chamada por alguns de 
Hiplita. Este  o nome que aparece no Sonho de Uma Noite de Vero de 
Shakespeare, cujo enredo so as festividades que precederam as npcias de 
Teseu e Hiplita. 

 



 

Teseu  um personagem semi-histrico, que unificou as diversas tribos 
que habitavam o territrio da tica, do qual Atenas se tornou a capital. 
Comemorando esse importante acontecimento, foi instituda a festividade 
chamada Panatenias, em honra de Minerva, padroeira de Atenas. Essa 
festividade diferenciava-se das outras festividades gregas, principalmente em 
duas coisas: era peculiar aos atenienses e sua caracterstica principal consistia 
numa procisso solene, em que o Pplus, ou tnica sagrada de Minerva, era 
levado para o Partenon e colocado diante da esttua da deusa. O Pplus era 
coberto de bordados, executados por virgens escolhidas entre as mais nobres 
famlias de Atenas. Da procisso participavam pessoas de todas as idades e de 
ambos os sexos. Os velhos traziam nas mos ramos de oliveira e os moos, 
armas, ao passo que as moas levavam na cabea cestos com os utenslios 
sagrados, bolos e tudo mais necessrio aos sacrifcios. Essa procisso constituiu 
o motivo dos baixos-relevos que ornamentavam a parte externa do Partenon, e 
grande parte dos quais encontra-se, atualmente, no Museu Britnico, sendo 
conhecida como "mrmores de Elgin".2 
As OLIMPADAS E OUTROS JOGOS 
No parece fora de propsito mencionar aqui os outros jogos nacionais 
que eram realizados na Grcia. Em primeiro lugar, havia os Jogos Olmpicos ou 
Olimpadas, estabelecidas, segundo a tradio, pelo prprio Jpiter, e se 
realizavam em Olmpia, na Elida. Acorriam inmeros espectadores, de todas as 
partes da Grcia, bem como da sia, frica e Siclia. Os jogos realizavam-se no 
vero, de cinco em cinco anos, e duravam cinco dias. As Olimpadas serviam, 
ainda, para marcar o tempo no calendrio. A primeira Olimpada realizou-se, 
segundo se acredita, no ano 776 a.C. 
Os Jogos Pticos eram realizados nas vizinhanas de Delfos; os Jogos 
stmicos, no Istmo de Corinto e os Nemeus em Nemia, cidade da Arglida. 

2 Lord Elgin (1766-1841), embaixdor da Inglatera junto  Corte do Sulto, senhor da Grcia na poca, obteve 
licena, em 1801, de retirar as esttuas do fronto do Partenon, e levou-as para Londres a fim de "proteg-las". 
Tambm parte do friso se encontra no Museu Britnico, atualmente. 

Havia cinco espcies de exerccios nesses jogos: corrida, saltos, 
luta, lanamento de disco e lanamento de dardo. Alm dos exerccios para 



mostrar agilidade e fora corporal havia concurso de msica, poesia e 
eloqncia. Desse modo, os jogos ofereciam aos poetas, msicos e escritores a 
melhor oportunidade de apresentar suas produes ao pblico, e a fama dos 
vencedores espalhava-se amplamente. 
DDALO 
O labirinto do qual Teseu escapou, graas ao fio de Ariadne, fora 
construdo por Ddalo, um artfice habilidosssimo. Era um edifcio com 
inmeros corredores tortuosos que davam uns para os outros e que pareciam no 
ter comeo nem fim, como o Rio Meandro, que volta sobre si mesmo e ora 
segue para adiante, ora para trs, em seu curso para o mar. Ddalo construiu o 
labirinto para Minos, mas, depois, caiu no desagrado do rei e foi aprisionado em 
uma torre. Conseguiu fugir da priso, mas no podia sair da ilha por mar, pois o 
rei mantinha severa vigilncia sobre todos os barcos que partiam e no permitia 
que nenhuma embarcao zarpasse antes de rigorosamente revistada. 
"Minos pode vigiar a terra e o mar, mas no o ar" - disse Ddalo. 
"Tentarei esse caminho". 
Ps-se, ento, a fabricar asas para si mesmo e para seu jovem filho, caro. 
Uniu as penas, comeando das menores e acrescentando as maiores, de modo a 
formar uma superfcie crescente. Prendeu as penas maiores com fios e as 
menores com cera e deu ao conjunto uma curvatura delicada, como as asas das 
aves. O menino caro, de p, ao seu lado, contemplava o trabalho, ora correndo 
para ir apanhar as penas que o vento levava, ora modelando a cera com os dedos 
e prejudicando, com seus folguedos, o trabalho do pai. Quando, afinal, o 
trabalho foi terminado, o artista, agitando as asas, viu-se flutuando e 
equilibrando-se no ar. Em seguida, equipou o filho da mesma maneira e 
ensinou-o a voar, como a ave ensina ao filhote, lanando-o ao ar, do elevado 
ninho. 

- caro, meu filho - disse, quando tudo ficou pronto para o vo -, 
recomendo-te que voes a uma altura moderada, pois, se voares muito baixo, a 
umidade emperrar tuas asas e, se voares muito alto, o calor as derreter. 
Conserva-te perto de mim e estars em segurana. 



 

Lamento por caro 

Herbert J. Draper 

TATE GALLERY, LONDRES 



Enquanto dava essas instrues e ajustava as asas aos ombros do filho, 
Ddalo tinha o rosto coberto de lgrimas e suas mos tremiam. Beijou o menino, 
sem saber que era pela ltima vez, depois, elevando-se em suas asas, voou, 
encorajando o filho a fazer o mesmo e olhando para trs, a fim de ver como o 
menino manejava as asas. Ao ver os dois voarem, o lavrador parava o trabalho 
para contempl-los e o pastor apoiava-se no cajado, voltando os olhos para o ar, 
atnitos ante o que viam, e julgando que eram deuses aqueles que conseguiam 
cortar o ar de tal modo. 
Os dois haviam deixado Samos e Delos  esquerda e Lebintos  direita, 
quando o rapazinho, exultante com o vo, comeou a abandonar a direo do 
companheiro e a elevar-se para alcanar o cu. A proximidade do ardente sol 
amoleceu a cera que prendia as penas e estas desprenderam-se. O jovem agitava 
os braos, mas j no havia penas para sustent-lo no ar. Lanando gritos 
dirigidos ao pai, mergulhou nas guas azuis do mar que, daquele dia em diante, 
recebeu o seu nome. 
- caro, caro, onde ests? - gritou o pai. 
Afinal, viu as penas flutuando na gua e, amargamente, lamentando a 
prpria arte, enterrou o corpo e denominou a regio Icria, em memria do filho. 
Ddalo chegou so e salvo  Siclia, onde ergueu um templo a Apolo, l 
depositando as asas, que ofereceu ao deus. 

Ddalo tinha tanta vaidade com suas realizaes, que no tolerava a idia 
de um rival. Sua irm entregou aos seus cuidados um filho, Prdix, a fim de 
aprender as artes mecnicas. O jovem era um bom aluno e deu provas de notvel 
habilidade. Caminhando, certa vez, na praia, encontrou uma espinha de peixe. 
Imitou-a com um pedao de ferro, que chanfrou na borda, inventando, assim, a 
serra. Uniu dois pedaos de ferro, prendendo-os na extremidade com um rebite e 
aguando as duas outras extremidades, e construiu um compasso. Ddalo teve 
tanta inveja das invenes do sobrinho que, quando os dois se encontravam 
juntos, certo dia, no alto de uma torre muito elevada, atirou-o para fora. 
Minerva, que protege a habilidade, viu-o cair e evitou sua morte, transformando-
o numa ave, que recebeu seu nome, a perdiz. Essa ave no constri seu ninho 
nas rvores nem voa alto, acomodando-se nas sebes e, lembrando-se da queda, 
evita os lugares elevados. 



 CASTOR E PLUX 
Castor e Plux eram filhos de Leda e do cisne sob cujo disfarce Jpiter se 
escondeu. Leda deu nascimento a um ovo, que produziu os dois gmeos. Helena, 
to famosa devido  Guerra de Tria, era sua irm. 
Quando Teseu e seu amigo Prito raptaram Helena, em Esparta, os jovens 
heris Castor e Plux saram, imediatamente, com seus sequazes para libert-la. 
Teseu no se encontrava na tica e os gmeos recuperaram a irm. 
Castor era famoso como domador de cavalos e cavaleiro e Plux, como 
lutador. Eram unidos por ardente afeio e inseparveis em todos os seus feitos. 
Acompanharam a expedio dos Argonautas. Durante a viagem, irrompeu uma 
tempestade e Orfeu invocou os deuses da Samotrcia, tocando sua harpa. 
A tempestade cessou, ento, e apareceram estrelas sobre a cabea dos 
gmeos. Devido a isso, Castor e Plux passaram depois a ser considerados as 
divindades protetoras dos marinheiros e viajantes, e as chamas que, conforme o 
estado da atmosfera, costumam aparecer em torno das velas e dos mastros das 
embarcaes receberam seus nomes. 
Depois da expedio dos Argonautas, encontramos Castor e Plux 
empenhados numa guerra com Idas e Linceus. Castor foi morto e Plux, 
inconsolvel com a perda do irmo, pediu a Jpiter que lhe permitisse oferecer a 
sua prpria vida pela do outro. Jpiter consentiu que os dois irmos vivessem 
alternadamente, passando um dia na terra e outro na morada celestial. Segundo 
outra verso, Jpiter recompensou a afeio dos irmos, colocando-os entre as 
estrelas, como Gemini, os Gmeos. 
Os dois receberam honras divinas sob o nome de Dioscuros (filhos de 
Jove). Acreditava-se que apareciam, s vezes mais tarde, participando de 
combates, de um ou outro lado, cavalgando magnficos cavalos brancos. Na 
histria dos primeiros tempos de Roma, por exemplo, dizia-se que eles ajudaram 
os romanos na batalha do Lago Regilo, e, depois da vitria, foi erguido um 
templo em sua honra, no local onde apareceram. 





Macaulay, em seus "Cantos da Roma Antiga", assim se refere  lenda: 
To semelhantes eram, que os mortais 
Um do outro jamais distinguiriam. 
Tinham armaduras brancas como a neve 
E brancos como a neve os seus corcis. 
Jamais forjas terrenas fabricaram 
To brilhante armadura, ou em terrena 
Fonte a sede matou corcel to belo. 
Volta em triunfo o chefe, que nas provas 
Incertas do combate sempre vira 
O calor dos irmos inseparveis. 
Volta o navio ao porto, em segurana, 
Desafiando o mar e as tempestades 
Que a bordo estavam os poderosos gmeos. 
Leda. 
Le Corrge. 
MUSEU DE BERLIM. 





 CAPTULO XXI 
BACO - ARIADNE 
---


 

BACO 

 

Baco era filho de Jpiter e Semeie. Querendo 
vingar-se de Semeie, Juno assumiu a forma da 
velha ama daquela, Broe, e insinuou-lhe dvidas 
no esprito, quanto ao fato de ser o prprio Jove o 
seu amante. Dando um suspiro, disse: 

- Espero que seja mesmo, mas no posso 
deixar de duvidar. Nem sempre as pessoas so 
quem dizem ser. Se ele , na verdade, Jove, 
faze-o dar uma prova disso. Pede-lhe para vir 
vestido com todo o seu esplendor, tal como 
anda no cu. Assim, acabar qualquer dvida. 

Semeie deixou-se persuadir. Pediu um 
favor a Jove, sem dizer qual era e o deus 
prometeu satisfaz-lo, jurando pelo Rio 
Estige, juramento que os prprios deuses 
jamais se atreveriam a violar. Semeie fez, 
ento, o pedido. O deus queria impedi-la de 
terminar, mas ela falava muito depressa. As 
palavras saram e Jpiter no poderia deixar de 
cumprir a promessa. Profundamente abatido, 
deixou Semeie e voltou s regies celestiais. 
Ali envergou as vestes esplendorosas, no 
aquelas que ostentavam todos os horrores 

Hermes (Mercrio) 

com o Dioniso (Baco) criana 

Praxiteles 

MUSEU OLYMPIA 



como as que usara para enfrentar os gigantes, mas as que so conhecidas entre 
os deuses por vestes menores. Assim vestido, entrou nos aposentos de Semeie. 
O corpo mortal da jovem no pde enfrentar os esplendores da radiao imortal. 
Ela transformou-se em cinzas. 
Jove entregou Baco s ninfas niseanas, que dele cuidaram durante a 
infncia e foram recompensadas pelo deus, que as colocou entre as estrelas 
como as Hades. Quando se tornou homem, Baco descobriu a cultura da vinha e 
o meio de extrair da fruta o precioso suco; Juno, porm, tornou-o louco e fez 
com que ele vagasse por vrias partes da Terra. Na Frgia, a deusa Ria curou-o 
e instruiu-o em seus ritos religiosos, e ele atravessou a sia, ensinando os povos 
a cultivar a vinha. O episdio mais famoso de suas viagens foi a expedio  
ndia, onde ficou durante vrios anos. Voltando triunfalmente, tratou de 
introduzir seu prprio culto na Grcia, mas contou com a oposio de alguns 
prncipes, receosos da desordem e loucura que o mesmo provocava. 
Ao aproximar-se de sua terra natal, Tebas, o Rei Penteu, que no 
respeitava o novo culto, proibiu a execuo de seus rituais. Quando se soube, 
porm, que Baco se aproximava, homens e mulheres, principalmente as ltimas, 
velhos e jovens, correram a receb-lo e participar da marcha triunfal. 
Em sua "Cano de Brinde", Longfellow assim descreve a marcha de 
Baco: 
Dos faunos o cortejo alegre e rude 
Rodeia Baco, cuja fronte a hera 
Cinge, como a Apolo, e a quem espera, 
Como a Apolo, a eterna juventude. 
Em torno ao jovem deus, lindas bacantes, 
Cmbalos, tirsos, plantas carregando, 
Da embriaguez se mostram presa, quando 
Bem alto entoam versos delirantes. 
Foi em vo que Penteu censurou, ordenou e ameaou. 
- Ide procurar o chefe dessa desordem, esse vagabundo, e trazei-o at 









 

aqui - ordenou ele a seus servos. 
- No hei de tardar a faz-lo 
confessar a falsidade de sua 
pretenso de ter origem divina e a 
obrig-lo a renunciar a seu falso 
culto. 

O Bacanal 

Ticiano 

MUSEU DO PRADO, MADRI 

Foi em vo que seus amigos 
mais ntimos e conselheiros mais 
sensatos procuraram impedi-lo de 
contrariar o deus. Suas censuras 
apenas serviram para torn-lo mais 
violento. 
J haviam voltado, porm, os servos que mandara aprisionar Baco. 
Haviam sido rechaados por seus companheiros, mas conseguido fazer 
prisioneiro um deles, que, com as mos amarradas atrs das costas, foi 
apresentado ao rei. 
- Sers morto sem demora, para que teu destino sina de advertncia aos 
outros! - exclamou Penteu, encarando-o furioso. - Embora me re-pugne adiar 
tua morte, porm, fala, dize-nos quem s e em que consistem esses novos ritos 
que pretendeis celebrar. 
- Chamo-me Acetes e sou natural de Menia - replicou o prisioneiro, 
sem se atemorizar. - Meus pais eram pobres, que no tinham terras ou 
rebanhos para deixar-me como herana, mas deixaram seus canios e redes e sua 
profisso de pescador. Trabalhei nela durante algum tempo, at que, enfadado de 
viver no mesmo lugar, aprendi a arte da pilotagem e como guiar o curso pelas 
estrelas. Aconteceu que, velejando para Delos, tocamos na Ilha de Dia, e l 
desembarcamos. Na manh seguinte, mandei os marinheiros buscarem gua de 
novo, enquanto eu subia ao morro, a fim de observar o vento. Ao regressarem, 
os marinheiros trouxeram um menino de aparncia delicada, que haviam 
encontrado adormecido. Julgaram-no um jovem nobre, talvez filho de um rei, e 
imaginaram que poderiam obter, por seu resgate, uma quantia aprecivel. 
Observei suas vestes, seu rosto, seu modo de andar e percebi que havia neles 
algo superior aos mortais. "No sei que deus est escondido sob estas formas, mas 



sem dvida  um deus" - disse eu a meus homens. "Perdoa-nos, gentil 
divindade, a violncia que lhe fizemos, e faze com que nossa empresa tenha 
xito." Dicto, um dos meus melhores marinheiros para subir aos mastros e 
descer pelas cordas; Melanto, meu timoneiro, e Epopeu, o chefe da tripulao, 
exclamaram ao mesmo tempo: "Guarda para ns tuas preces!" To cega  a sede 
de lucro! Quando quiseram levar o rapazinho para bordo, eu me opus. "Este 
navio no ser profanado por tal impiedade", disse eu. "Tenho nele maior parte 
que qualquer de vs." Mas Lcabas, um indivduo turbulento, agarrou-me pelo 
pescoo, tentando atirar-me fora do barco e mal consegui salvar-me subindo 
pelos cabos. O resto da tripulao aprovou a resoluo. 
Ento, Baco (pois era realmente ele), como que pondo de lado o torpor, 
exclamou: "O que estais fazendo comigo? Que quer dizer esta luta? Para onde 
me levais?" Um dos homens respondeu: "No receies coisa alguma; dize-nos 
onde queres ir e ns te conduziremos para l." "Naxos  minha terra natal - 
respondeu Baco. - Levai-me para l, e sereis bem recompensados." Os homens 
prometeram fazer isso e disseram-me para levar o barco rumo a Naxos. Naxos 
fica  direita e eu estava manobrando velas para tomarmos aquela direo, 
quando alguns dos homens por sinais e outros por palavras sussurradas deram-
me a entender que eu deveria tomar a direo oposta e levar o menino para o 
Egito, a fim de vend-lo como escravo. Irritado, exclamei: "Que o outro conduza 
o navio." E afastei-me, para no tomar parte naquele ato de baixeza. Os 
marinheiros insultaram-me, e um deles exclamou: "No te vanglories, pois 
dependes de ns para tua segurana." E, tomando o lugar de piloto, afastou-se de 
Naxos. 
Ento o deus, fingindo que acabara de tomar conhecimento da traio, 
olhou o mar e disse, com voz de choro: 
- Marinheiros, estas praias no so aquelas aonde prometestes levar-me; 
aquela ilha no  a minha ptria. Que fiz eu para merecer de vossa parte tal 
tratamento? Ser uma glria mesquinha essa que conquistareis, iludindo um 
pobre menino. 
Chorei ao ouvi-lo, mas os marinheiros riram-se de ns ambos e 
impeliram o navio sobre o mar. De repente (por mais estranho que possa 
parecer,  verdade), a nau parou no meio do mar como se tivesse ficado presa 





ao solo. Atnitos, os homens impeliram seus remos e soltaram mais as velas, 
tentando avanar com a ajuda de ambos, mas tudo em vo. Uma hera enroscou-
se nos remos, impedindo seu movimento, e agarrou-se s velas, com pesados 
cachos de suas frutas. Uma vinha, carregada de uvas, subiu pelo mastro e ao 
longo do casco do navio. Ouviu-se um som de flautas e o cheiro agradvel de 
vinho espalhou-se em torno. O prprio deus trazia  cabea uma coroa de folhas 
de parra e empunhava uma lana enfeitada de hera. Tigres deitavam-se aos seus 
ps e as formas geis de linces e panteras brincavam em torno dele. Os homens 
foram tomados de terror ou loucura; alguns se atiraram para fora do barco; 
outros, ao se prepararem para fazer o mesmo, viram os companheiros 
transformarem-se ao atingir a gua: seus corpos achatavam-se e terminavam 
numa cauda retorcida. 

- Que milagre  este? - exclamou um deles. 

E, enquanto falava, sua boca alargou-se, as narinas 
dilataram-se e escamas cobriram-lhe todo o corpo. 

Baco 

Michelangelo 

Outro, tentando empurrar o remo, sentiu as 
mos encolherem e tornarem-se, de sbito, 
nadadeiras. Um terceiro, ao erguer os braos para 
agarrar uma corda, percebeu que j no tinha braos 
e, recurvando o corpo mutilado, atirou-se ao mar. O 
que fora suas pernas transformou-se nas duas 
extremidades de uma cauda em forma de crescente. 

"Toda tripulao metamorfoseou-se em golfinhos e 
ficou nadando ao redor do navio, ora  superfcie, ora 
embaixo dele, atirando jatos de gua atravs das grandes 
narinas. Dos vinte homens, apenas eu restava, trmulo de 
medo. O deus animou-me: 

- Nada receies - disse. Navega em direo a 
Naxos. Obedeci e, quando ali cheguei, dirigi-me aos 
altares e celebrei os sagrados ritos de Baco." 

- J perdemos bastante tempo com esta histria tola! 
- exclamou Penteu, interrompendo a narrativa. - Levai-o e 
executai-o, sem demora. 

Acetes foi levado pelos servos e encerrado na 
priso. Quando, porm, eram preparados os 
instrumentos da execuo, as portas da priso 
abriram-se sozinhas, caram as cadeias que prendiam os membros 





de Acetes e, quando o procuraram, ele no mais foi encontrado em parte alguma. 
Penteu no se deu por vencido, mas, em vez de mandar outros, resolveu ir em 
pessoa  cena das solenidades. O Monte Citron estava repleto de adoradores do 
deus e os gritos da bacanal ressoavam por todos os lados. O rudo provocou a ira 
de Penteu como o som de uma trombeta torna fogoso um cavalo de guerra, um 
corcel de combate. Penetrando no bosque, o rei chegou a uma clareira, onde viu 
diante dos olhos a cena principal das orgias. As mulheres viram-no ao mesmo 
tempo, e destacava-se entre elas sua prpria me, Agave, cegada pelo deus e que 
gritou: 
- Ali est o javali, o maior monstro que anda por estes bosques! Vamos, 
irms! Serei a primeira a ferir o javali. 
O bando inteiro avanou contra Penteu e ele, mostrando-se menos 
arrogante, ora se desculpa, ora confessa o crime e implora perdo,  acossado e 
ferido. Em vo implora aos gritos s tias que o protejam contra sua me. 
Autnoe agarra-o por um brao, Ino pelo outro e, entre as duas, ele  
despedaado enquanto a me gritava: 
- Vitria! Vencemos, a glria  nossa! 
Assim foi estabelecido, na Grcia, o culto de Baco. 
H uma aluso ao episdio de Baco e dos marinheiros no poema "Comus" 
de Milton. A histria de Circe ser encontrada no Captulo XXIX. 
Baco, o primeiro das rubras bagas 
Soube extrair o sedutor veneno, 
Pelos nautas toscanos conduzido, 
De Circe  ilha foi levado (Circe 
Filha do sul, quem h que no conhea? 
Circe que transformava os que bebiam 
Por sua taa em porcos repelentes). 
ARIADNE 
Vimos, na histria de Teseu, como Ariadne, filha do Rei Mi nos, depois 
de ajudar o heri a fugir do labirinto, foi por ele levada  Ilha de Naxos e 



 ali abandonada, enquanto dormia, pelo ingrato Teseu que voltou  sua ptria sem 
ela. Despertando e vendo-se sozinha, Ariadne entregou-se ao desespero. Vnus, 
porm, apiedou-se dela e consolou-a com a promessa de que teria um amante 
imortal, em lugar do mortal que tivera. 
A ilha onde Ariadne fora deixada era a ilha favorita de Baco, a mesma 
para onde queria que os marinheiros tirrenos o levassem, quando to 
traioeiramente tentaram apoderar-se dele. Enquanto Ariadne lamentava seu 
destino, Baco encontrou-a, consolou-a e desposou-a. Como presente de 
casamento, deu-lhe uma coroa de ouro, cravejada de pedras preciosas que atirou 
ao cu quando Ariadne morreu. A medida que a coroa subia no espao, as 
pedras preciosas foram se tornando mais brilhantes at se transformarem em 
estrelas, e, conservando sua forma, a coroa Ariadne permaneceu fixada no cu 
como uma constelao, entre Hrcules ajoelhado e o homem que segura a 
serpente. 

Baco e Ariadne 

Ticiano 





 CAPTULO XXII 
AS DIVINDADES RURAIS E ERISCHTON 
RECO - AS DIVINDADES AQUTICAS 
AS CAMENAS - OS VENTOS 
As DIVINDADES RURAIS 
P, o deus dos bosques e dos campos, dos rebanhos e dos pastores, 
morava em grutas, vagava pelas montanhas e pelos vales e divertia-se caando 
ou dirigindo as danas das ninfas. Era amante da msica e, como vimos, o 
inventor da srinx, ou avena, e que tocava magistralmente. P, como os outros 
deuses que habitavam as florestas, era temido por aqueles cujas ocupaes os 
obrigavam a atravessar as matas durante a noite, pois as trevas e a solido que 
reinavam em tais lugares predispunham os espritos aos temores supersticiosos. 
Por isso, os pavores sbitos, desprovidos de qualquer causa aparente, eram 
atribudos a P e chamados de terror pnico ou simplesmente de pnico. 
Como o nome do deus significa tudo, P passou a ser considerado smbolo 
do universo e personificao da natureza, e mais tarde, enfim, foi olhado como 
representante de todos os deuses e do prprio paganismo. 
Silvano e Fauno eram divindades latinas, cujas caractersticas so a tal 
ponto semelhantes s de P, que podem ser consideradas como a mesma 
personagem, sob nomes diferentes. ---


As ninfas dos bosques, companheiras de P nas danas, constituam 
apenas uma das classes das ninfas. Havia, alm delas, as Niades, que 
governavam os regatos e as fontes; as Orades, ninfas das montanhas e grutas,

Afrodite (Vnus), Pan e Cupido 

MUSEU ARQUEOLGICO 

NACIONAL. ATENAS 





Afrodite (Vnus), Pan e Cupido 

Museu Arqueolgico 

Nacional, Atenas 



e as Nereidas, ninfas do mar. As trs ltimas eram imortais, mas as ninfas dos 
bosques, chamadas Drades ou Hamadrades, morriam, segundo se acreditava, 
com as rvores que lhes serviam de morada e juntamente com as quais nasciam. 
Constitua, portanto, uma impiedade destruir uma rvore e, em alguns casos 
graves, tal ato era severamente punido, como se deu no caso de Erischton, que 
relembraremos daqui a pouco. 
Milton, em sua bela descrio dos primrdios da criao, assim se refere a 
P, como personificao da natureza: 
... o P universal, 
Danando junto s Graas e s Horas, 
Comanda a sempiterna primavera. 
E descrevendo a morada de Eva: 
Em mais sombreado e protegido abrigo 
P ou Silvano no dormiram, e as ninfas 
E os faunos outro igual no visitaram. 
Paraso Perdido, Livro IV 
Um aspecto sedutor do paganismo era o de creditar  iniciativa de uma 
divindade cada fenmeno da natureza. A imaginao dos gregos povoava todas 
as regies da terra e do mar de divindades, a cuja diligncia atribuam os 
fenmenos que nossa filosofia considera como conseqncia das leis naturais. 
s vezes, em nossos momentos de poesia, sentimo-nos inclinados a lamentar a 
mudana ocorrida, e a achar que, com a substituio, o corao perdeu tanto 
quanto o crebro ganhou. O poeta Wordsworth manifesta, de maneira bem 
enrgica, tal sentimento. 
Oxal um pago ainda eu fosse, 
Por velhas iluses acalentado. 
A paisagem seria bem mais doce 
E o mundo muito menos desolado. 





Schiller, no poema "Die Gtter Griechenlands", manifesta seu pesar pelo 
desaparecimento da bela mitologia dos velhos tempos, o que provocou uma 
resposta da poetisa crist E. Barrett Browning, no poema "P  Morto", do qual 
fazem parte as duas seguintes estrofes: 
Pela tua beleza que se curva 
Ante maior Beleza que te vence, 
Pelo nosso valor adivinhando 
Entre tuas mentiras a Verdade, 
No te choramos! Dar-nos- o mundo, 
Depois do velho reino, outro reinado. 
P  morto! 
O mundo deixa alm as fantasias 
Que, em sua juventude, o embalaram 
E as fbulas mais belas e mais vivas 
Tolas parecem em face da verdade. 
De Febo o carro terminou o curso! 
Olhai de f ente o sol, olhai, poetas! 
E P, e P  morto. 
Estes versos baseiam-se numa velha tradio crist, segundo a qual, 
quando o anjo avisou os pastores de Belm do nascimento de Cristo, um gemido 
profundo, ouvido atravs de toda a Grcia, anunciou que o grande P morrera e 
toda a realeza do Olimpo fora destronada, passando as divindades a vagar no 
frio e nas trevas. E o que Milton conta no "Hino  Natividade": 
Pelas praias, alm, pelas montanhas, 
Triste como um gemido, ecoa um grito. 
Por vales verdejantes, entre as folhas, 
O gnio antigo suspirando foge, 
Choram as ninfas nos bosques desoladas. 





ERISCHTON 
Erischton era um homem grosseiro, que desprezava os deuses. Certa 
ocasio, resolveu profanar com o machado um bosque consagrado a Ceres. Ali 
erguia-se um venervel carvalho, to grande que ele sozinho dava a impresso 
de uma floresta inteira. Em seu velho tronco, que dominava as outras rvores, 
freqentemente eram colocadas guirlandas votivas e entalhadas inscries 
manifestando gratido  ninfa da rvore. Muitas vezes tinham as drades 
danado de mos dadas em torno do carvalho. Seu tronco media quinze cvados 
de circunferncia1 e sobrepujava as outras rvores como estas sobrepujavam os 
arbustos. Erischton, contudo, no viu motivos para poup-lo e ordenou a seus 
servos que o cortassem. Ao v-los hesitantes, arrebatou o machado das mos de 
um deles e exclamou, impiedosamente: 
- No quero saber se esta rvore  ou no amada pela deusa. Fosse ela 
prpria uma deusa e eu a abateria se se interpusesse em meu caminho. 
Assim dizendo, ergueu o machado e o carvalho pareceu estremecer e dar 
um gemido. Quando a primeira machadada o atingiu, o tronco comeou a deitar 
sangue pela ferida. Todos os circunstantes ficaram horrorizados e um deles 
aventurou-se a censurar e segurar o machado fatal. Com olhar de desprezo 
Erischton disse-lhe: 
- Recebe a recompensa de tua piedade! 
E voltou contra ele a arma que afastara da rvore, crivou-lhe o corpo de 
ferimentos e cortou-lhe a cabea. 
Do meio do carvalho, veio ento uma voz: 
- Eu que moro nesta rvore sou uma ninfa amada de Ceres e, morrendo 
por tuas mos, predigo que o castigo te aguarda. 
Erischton no desistiu de seu crime e afinal a rvore, atingida por 
repetidos golpes e puxada por cordas, caiu com estrondo e esmagou sob o seu 
peso grande parte do bosque. 
As drades, muito tristes com a morte de sua companheira e sentindo 
ultrajado o orgulho da floresta, dirigiram-se a Ceres, vestidas de luto e 
pediram que Erischton fosse castigado. A deusa acedeu ao pedido e, ao 
curvar a cabea, tambm se inclinaram todas as espigas maduras para a 





colheita. Imaginou um castigo to cruel que despertaria piedade, se acaso tal 
malvado merecesse piedade: entreg-lo  Fome. Como a prpria Ceres no 
podia aproximar-se da Fome, pois as Parcas haviam ordenado que essas duas 
deusas jamais se encontrassem, chamou uma Orade da montanha e assim lhe 
falou: 
- H, na parte mais longnqua da gelada Ctia, uma regio triste e 
estril, sem rvores e sem campos cultivados. Ali moram o Frio, o Medo, o 
Tremor e a Fome. Vai quela regio e dize  ltima para tomar posse das 
entranhas de Erischton. Que a abundncia no a vena, nem o poder de meus 
dons a afaste. No te assustes com a distncia - (pois a Fome mora muito 
longe de Ceres) -, mas toma meu carro; os drages esto atrelados e so 
obedientes, e levar-te-o atravs dos ares, em pouco tempo. 
Assim, a ninfa partiu e em breve atingiu a Ctia. Chegando ao Monte 
Cucaso, parou os drages e encontrou a Fome num campo pedregoso, 
arrancando a escassa erva com os dentes e as garras. Tinha os cabelos hirsutos, 
os olhos fundos, as faces plidas, os lbios descorados, a boca coberta de 
poeira e a pele distendida, mostrando todos os ossos. Olhando-a de longe (pois 
no se atrevia a aproximar-se), a Orade transmitiu as ordens de Ceres. E 
embora se tivesse detido o menor tempo possvel e se mantido  maior 
distncia que pde, comeou a sentir fome, e voltou  Tesslia. 
A Fome obedeceu s ordens de Ceres e, avanando velozmente pelos 
ares at  morada de Erischton, entrou no quarto do criminoso, que encontrou 
adormecido. Envolveu-o com suas asas e penetrou ela prpria pela sua 
respirao, destilando veneno por suas veias. Tendo executado sua misso, 
apressou-se em deixar a terra da fartura e voltou  sua costumeira desolao. 
Erischton ainda dormia, e em seus sonhos, ansiava por alimentos e movia a 
mandbula, como se estivesse comendo. Ao acordar, a fome o devorava. A 
todo momento queria ter diante de si iguarias de qualquer espcie que 
produzissem a terra, o mar ou o ar, e queixava-se de fome, mesmo enquanto 
comia. No lhe era suficiente o que teria sido bastante para uma cidade ou uma 
nao. Quanto mais comia, maior era sua fome. Era uma fome semelhante ao 




mar, que recebe todos os rios e, no entanto, no se enche, ou como o fogo que 
consome todo o combustvel que tem junto de si e continua pronto a destruir 
outros. Seus bens diminuram rapidamente em face das incessantes exigncias 
de seu apetite, mas a fome continuava insaciada. Afinal gastou tudo o que tinha 
e restou-lhe apenas uma filha, uma filha que merecia um pai melhor. Vendeu-a 
tambm. Desesperada de ser escrava do comprador, a jovem, de p junto ao mar, 
ergueu os braos, numa prece a Netuno. O deus ouviu suas splicas e embora 
seu novo senhor no estivesse longe e a visse um momento antes, Netuno 
mudou-lhe a forma e f-la assumir a de um pescador entregue  sua ocupao. 
Procurando-a, e vendo-a sob aquela nova forma, seu dono perguntou-lhe: 
- Bom pescador, aonde foi a donzela que vi agora mesmo, com os 
cabelos despenteados e pobremente vestida, de p junto deste lugar onde ests? 
Dize-me a verdade e tua sorte ser boa e nenhum peixe morder hoje a isca e 
fugir. 
A jovem percebeu que sua prece fora atendida e regozijou-se, 
intimamente, ao ver-se interrogada a respeito de si mesma. 
- Perdoa-me estrangeiro - respondeu -, mas estava to ocupado com 
meu canio e minha linha que nada vi. Possa eu contudo jamais pescar outro 
peixe se acredito que esteve por aqui, ainda h pouco, alguma mulher ou outra 
pessoa qualquer. 
O homem iludiu-se e continuou seu caminho, pensando que sua escrava 
fugira. Ela, ento, reassumiu a forma. Seu pai ficou satisfeitssimo ao v-la ainda 
consigo, juntamente com o dinheiro resultante de sua venda; e tratou de vend-la 
outra vez. A jovem, contudo, graas a Netuno, transformou-se tantas vezes 
quanto as que fora vendida; ora em um cavalo, ora em uma ave, ora em um boi, 
ora em um cervo. Assim, livrava-se dos compradores e voltava para casa. Por 
esse meio, o faminto pai conseguia alimento, mas no o suficiente para as suas 
necessidades, e, afinal, a fome o obrigou a devorar seus prprios membros e 
procurou destruir o corpo para alimentar esse mesmo corpo, at que a morte o 
libertou da vingana de Ceres. 





RECO 
As Hamadrades sabiam apreciar os servios que lhes eram prestados to 
bem quanto castigar as injrias. A histria de Reco  uma prova disto. Vendo 
um dia um carvalho que estava prestes a cair, Reco ordenou aos seus servos que 
o escorassem. A ninfa, que estava na iminncia de morrer com a rvore, 
apareceu a Reco, exprimindo sua gratido por ele ter lhe salvo a vida e pedindo-
lhe para dizer que recompensa desejava. Ousadamente, Reco pediu seu amor e a 
ninfa curvou-se ao seu desejo. Ao mesmo tempo aconselhou-o a ser fiel e lhe 
disse que lhe enviaria uma abelha como mensageira, sempre que o admitisse em 
sua companhia. Certa vez, a abelha foi procurar Reco quando este estava 
jogando dados e, descuidadamente, ele afugentou o inseto. A ninfa irritou-se 
tanto que nunca mais permitiu que ele a visse. 
DIVINDADES AQUTICAS 
Oceano e Ttis eram os tits que governavam os elementos lquidos. 
Quando Jove e seus irmos derrotaram os tits e assumiram seu poder, Netuno e 
Anfitrite sucederam-se a Oceano e Ttis no domnio das guas. 
NETUNO 
Netuno era a principal das divindades da gua. O smbolo do seu poder 
era o tridente, ou lana de trs pontas, que usava para abalar os rochedos, 
desencadear ou amainar as tempestades, sacudir as costas e outras coisas 
semelhantes. Criou o cavalo e era o padroeiro das corridas eqestres. Seus 
prprios cavalos tinham patas de bronze e crinas de ouro. Puxavam seu carro 
sobre o mar, que se acalmava diante do deus, enquanto os monstros das 
profundidades brincavam em seu caminho. 
ANFITRITE 
Anfitrite era esposa de Netuno, filha de Nereu e Dris e me de Trito. 
Para fazer a corte a Anfitrite, Netuno cavalgava um delfim, que foi colocado 
pelo deus entre as estrelas, quando conquistou o amor da deusa. 







Triunfo de Netuno e Anfitrite 

Mosaico Romano 



NEREU E DRIS 
Nereu e Dris eram os pais das Nereidas, as mais celebradas das quais 
foram Anfitrite, Ttis, me de Aquiles, e Galatia, que foi amada pelo ciclope 
Polifemo. Nereu distinguia-se por sua sabedoria e por seu amor pela verdade e 
pela justia, pelo que era chamado sbio. Tambm possua o dom da profecia. 
TRITO E PROTEU 
Trito era filho de Netuno e Anfitrite e os poetas o apresentavam como 
trombeteiro de seu pai. Tambm Proteu era filho de Netuno. Como Nereu, era 
considerado um sbio do mar por sua sabedoria e conhecimento dos 
acontecimentos futuros. Tinha o poder peculiar de mudar  vontade sua forma. 
TTIS 
Ttis, filha de Nereu e Dris, era to bela que o prprio Jpiter desejou 
despos-la; tendo porm sabido pelo tit Prometeu que Ttis teria um filho 
maior que seu pai, Jpiter desistiu da idia e determinou que Ttis fosse esposa 
de um mortal. Com a ajuda do centauro Quron, Peleu conseguiu desposar a 
deusa e seu filho foi o renomado Aquiles. No captulo em que tratarmos da 
Guerra de Tria veremos que Ttis foi me dedicada, ajudando o filho em todas 
as suas dificuldades e velando por todos os seus interesses. 
LEUCOTIA E PALMON 


Ino, filha de Cadmo e esposa de Atamas, fugindo de seu furioso 
marido, com o filhinho Melicertes nos braos, caiu de um rochedo no mar. 
Os deuses, compadecidos, transformaram-na numa deusa marinha, com o 
nome de Leucotia, e ao filho em um deus, com o nome de Palmon. 
Ambos tinham o poder de salvar os homens de naufrgios e eram invocados



pelos marinheiros. Palmon geralmente era representado cavalgando um 
golfinho. Os Jogos stmicos eram celebrados em sua honra. Era chamado 
Portuno pelos romanos, e acreditava-se que governava os portos e as costas. 
Milton faz aluso a essas divindades, na ltima cano do "Comuns": 
Atende, ninfa, o ardor que me consome. 
Escuta e surge, do Oceano em nome. 
Peo-te, ninfa, em nome de Nereu 
Taciturno e de Ttis majestosa 
E em nome das malcias de Proteu. 
De Tristo pela concha sinuosa, 
De Glauco pelas suas profecias, 
De Leucotia pelas mos macias etc. 
Armstrong, o poeta da "Arte de Conservar a Sade", sob a inspirao de 
Higia, deusa da Sade, assim celebra as niades: 
A caminho da fonte vinde, Niades! 
Donzelas venturosas! Vossas prendas 
Exaltar e cantar cumpre-me agora 
(Assim Pon ordena, assim ordenam 
Da sade os princpios poderosos) 
Exaltar vossas guas cristalinas, 
O regatos gentis! Em vosso seio 
Vida nova se bebe, quando matam 
A sede as mos em concha e os lbios secos. 
Pon  um nome pelo qual so chamados tanto Apolo como Esculpio. 
As CAMENAS 


Por este nome os latinos chamavam as Musas, mas incluindo, tambm, 
outras divindades, principalmente ninfas dos montes. Egria era uma delas,



e sua fonte e sua gruta ainda so mostradas at hoje. Conta-se que Numa, 
segundo Rei de Roma, era favorecido por essa ninfa com encontros secretos, 
durante os quais ela lhe dava lies de sabedoria e direito, que foram 
concretizadas nas instituies da jovem nao. Depois da morte de Numa, a 
ninfa definhou de pesar e transformou-se numa fonte. 
Os VENTOS 
Quando tantas foras menos ativas da natureza eram personificadas, no  
de se admirar que os ventos o fossem. Eram: o Breas ou Aquilo, o vento 
norte; Zfiro ou Favnio, o vento oeste; Ntus ou uster, o vento sul, e Euro, o 
vento leste. Os dois primeiros principalmente tm sido celebrados pelos poetas, 
o Aquilo pela sua rudeza e o Zfiro pela sua doura. Breas amava a ninfa 
Ortia, mas no conseguiu grande xito como amante. Era-lhe difcil respirar 
delicadamente e suspirar estava, para ele, fora de cogitao. Cansado de 
tentativas inteis, mostrou seu verdadeiro carter, raptando a donzela. Foram 
seus filhos Zetes e Calais, guerreiros alados, que acompanharam a expedio 
dos Argonautas e prestaram bons servios, no encontro com as aves 
monstruosas, as harpias. 
Zfiro era amante de Flora. Milton faz aluso aos dois no Paraso 
Perdido, quando descreve Ado, desperto, contemplando Eva, ainda 
adormecida: 
... Erguendo-se de lado, 
Inclinando-se um pouco, contemplou-a: 
Desperta ou adormecida, a companheira 
Pela sua beleza o dominava. 
E chamou-a, ento, com voz suave, 
Como a de Zfiro, quando Flora chama. 
Tocando-lhe de leve, diz: "Acorda, 
Minha esposa gentil, do Paraso 
Dom precioso, cada vez mais belo" 





 CAPTULO XXIII 
AQUELAU E HRCULES 
ADMETO E ALCESTES 
ANTGONA - PENLOPE 
---


O 



 rio-deus Aquelau contou a histria de Erischton a Teseu e seus 
companheiros, enquanto os retinha em sua margem hospitaleira, 
onde tiveram de aguardar que baixassem as guas. Ao terminar a 
narrao, acrescentou: 
- Por que, porm, contar-vos as transformaes de outras pessoas, 
quando eu prprio sou um exemplo da posse de tal poder? s vezes, 
transformo-me em serpente e outras vezes, em um touro, com chifres na 
cabea, ou melhor seria dizer que outrora podia fazer tal coisa; agora, s me 
resta um chifre, pois perdi o outro. 
E, nesse ponto, deu um gemido e calou-se. 
Teseu indagou-lhe a causa de seu pesar e como perdera o chifre, ao que 
o rio-deus respondeu da seguinte forma: 

- Quem se apraz em contar as prprias derrotas? No hesitarei, 
contudo, em relatar a minha, consolando-me com a grandeza do meu 
vencedor, que foi Hrcules. Talvez j tenhais ouvido falar em Dejanira, a 
mais linda das donzelas, a quem uma multido de pretendentes procurava 
conquistar. Eu e Hrcules estvamos entre eles, e os demais no se atreveram 
a competir conosco. Hrcules apresentava a seu favor o fato de descender 
de Jove e seus trabalhos, com os quais fora alm das exigncias de sua 
madrasta Juno. Eu, por meu lado, disse ao pai da donzela: "Olha-me, sou 



o rei das guas que correm atravs de tuas terras. No sou estrangeiro, vindo de 
um litoral distante, mas perteno ao Pas, fao parte de teu reino. A real Juno 
no me tem inimizade nem me castiga com trabalhos pesados. Quanto a esse 
homem que se proclama filho de Jove, ou  um impostor, ou desgraado dele se 
for verdade, por isso ser a vergonha para sua me." Hrcules encarou-me 
enfurecido e s com muita dificuldade se conteve. "Meu brao responder 
melhor que minha lngua", disse ele. "Concedo-te a vitria verbal, mas confio 
minha causa  prova dos fatos." Assim dizendo, investiu contra mim e, depois 
do que dissera, senti-me envergonhado de recuar. Despi minhas vestes verdes a 
apresentei-me para a luta. Hrcules tratou de atirar-me ao cho, atacando, ora 
minha cabea, ora meu corpo. Eu tinha em meu tamanho a proteo e seus 
ataques foram vos. Paramos durante algum tempo, depois voltamos  luta. 
Mantnhamos nossa posio, dispostos a no ceder, disputando passo a passo o 
terreno, eu curvado sobre ele, apertando sua mo nas minhas, com a testa quase 
encostada na sua. Por trs vezes Hrcules tentou atirar-me ao cho e, da quarta 
vez, conseguiu e cavalgou-me. Eu vos digo a verdade: era como se uma 
montanha tivesse cado sobre as minhas costas. Lutei para libertar os braos, 
respirando ofegante e coberto de suor. Hrcules no me deu oportunidade de 
livrar-me e agarrou-me o pescoo. Meus joelhos estavam em terra, minha boca 
no p. Compreendendo que no podia competir com ele na arte da guerra, 
recorri a outros meios e escapei, rastejando, sob a forma de uma serpente. 
Enrosquei o corpo e silvei, ameaando o adversrio com a lngua bipartida. Ele, 
vendo isso, sorriu, desdenhosamente, e exclamou: "Era trabalho de minha 
infncia, vencer serpentes." Assim dizendo, agarrou-me pelo pescoo. Vencido 
sob essa forma, tentei a nica sada que me restava e transformei-me em touro. 
Hrcules mais uma vez segurou-me pelo pescoo e, encostando minha cabea no 
cho, atirou-me  areia. E no se deu por satisfeito. Sua mo implacvel 
arrancou-me o chifre da cabea. As niades o recolheram, consagraram-no e 
encheram-no de flores olorosas. A Fartura tomou-o como seu e chamou-o 
"Cornucpia". 
Os antigos compraziam-se em encontrar um sentido oculto em 
suas lendas mitolgicas. Explicam esse combate de Aquelau com Hrcules 





dizendo que o Aquelau era um rio que transbordava de seu leito, na estao 
chuvosa e, quando a lenda diz que ele amava Dejanira e procurava a ela se unir, 
isso quer dizer que o rio, em seus meandros, corria atravs do reino de Dejanira. 
Dizia-se que tomava a forma de uma serpente por causa de seu curso sinuoso e 
de um touro pela sua violncia e fragor de suas guas. Nas cheias, o rio corria 
por outro canal. Assim, sua cabea tinha chifres. Hrcules impediu a ocorrncia 
dessas inundaes peridicas, por meio de barragens e canais, e foi dito, assim, 
que vencera o rio-deus e lhe arrancara um chifre. Finalmente, as terras sujeitas  
inundao tornaram-se, depois de protegidas, fertilssimas e isso  explicado 
pela cornucpia. 
H outra verso da origem da cornucpia. Quando nasceu, Jpiter foi 
entregue por sua me, Ria, aos cuidados das filhas de Melisseu, um rei 
cretense, que alimentaram o deus infante com o leite da cabra Amaltia. Jpiter 
quebrou um dos chifres dessa cabra e deu-o s suas amas, atribuindo-lhe o poder 
mgico de se encher com aquilo que desejasse seu dono. 
O nome de Amaltia tambm  atribudo por alguns autores  me de 
Baco. Assim foi usado por Milton, no Livro IV do Paraso Perdido: 
...Na ilha niseniana, 
Pelo Tristo cingida, o velho C, 
Dos gentios o Amon dos lbios Jove, 
Escondeu Amaltia e o jovem Baco, 
Seu filho, da madrasta intolerante. 
ADMETO E ALCESTES 


Esculpio, filho de Apolo, foi dotado por seu pai de tal habilidade 
na arte de curar que chegava at a restituir a vida aos mortos. Pluto 
alarmou-se com isso e conseguiu que Jpiter o fulminasse com um raio. 
Apolo, indignado com a morte do filho, tratou de vingar-se nos inocentes 
trabalhadores que haviam construdo o raio. Eram os ciclopes, que 
tinham sua oficina sob o Monte Eta, do qual esto constantemente saindo 
as chamas e a fumaa provindas daquela oficina. Apolo desfechou suas 
setas contra os ciclopes, o que irritou Jpiter a tal ponto que o condenou 



a tornar-se servo de um mortal, durante um ano. Assim, Apolo foi servir a 
Admeto, Rei da Tesslia, tomando conta de seus rebanhos, nas verdejantes 
margens do Rio Afrisos. 
Admeto era um dos pretendentes  mo de Alcestes, filha de Plias, que a 
prometera quele que a fosse procurar num carro puxado por lees e javalis. 
Admeto executou uma tarefa, com a ajuda de seu divino pastor, e foi premiado 
com Alcestes. Admeto, porm, adoeceu e, estando s portas da morte, Apolo 
conseguiu que as Parcas o poupassem, com a condio de que algum se 
dispusesse a morrer em seu lugar. Muito alegre com essa esperana, Admeto no 
se preocupou muito com o resgate, talvez se lembrando dos protestos de 
dedicao que ouvira muitas vezes da boca dos cortesos e dos servos. Pensou 
que seria muito fcil encontrar um substituto. Tal no se deu, porm. Guerreiros 
valentes, que, de boa vontade, arriscavam a vida por seu prncipe, recuavam ante 
a idia de morrer por ele num leito de enfermo, e os servos que lhe deviam 
benefcios e que se encontravam a servio de sua casa desde a infncia no se 
dispunham a sacrificar os poucos dias que lhes restavam para mostrar sua 
gratido. "Por que um de seus pais no se sacrifica?" perguntavam. "De acordo 
com as leis da natureza, eles no podero viver muito mais e quem estar mais 
indicado que eles para resgatar uma vida a que deram origem?" Os pais, 
contudo, por mais pesarosos que estivessem ante a iminncia de perder o filho, 
no atendiam ao apelo para salv-lo. Ento, Alcestes, com admirvel abnegao, 
ofereceu-se como substituta. Admeto, por mais amor que tivesse  vida, no 
desejava mant-la a tal custo, mas no havia remdio. A condio imposta pelas 
Parcas fora satisfeita e o decreto era irrevogvel. Alcestes adoeceu, ao passo que 
Admeto se restabelecia, e aproximava-se rapidamente da sepultura. 
Justamente nessa ocasio, Hrcules chegou ao Palcio de Admeto e 
encontrou todos os moradores pesarosssimos, ante a iminncia da morte da 
dedicada esposa e querida senhora. Hrcules, para quem no havia trabalho 
bastante rduo, resolveu tentar salvar a rainha. Ficou na porta do seu quarto e, 
quando a Morte chegou  procura de sua presa, agarrou-a e obrigou-a a desistir 
de sua vtima. Alcestes restabeleceu-se e foi restituda ao marido. 





Milton faz aluso a Alcestes em seu "Soneto sobre a esposa morta": 
Tive a impresso de ver minha esposa querida 
Voltando a consolar a minha desventura, 
Como Alcestes tambm roubada a sepultura 
Pelo filho de Jove, plida e abatida. 
ANTGONA 
O sexo feminino desempenha importante papel na mitologia grega, quer 
quanto ao nmero de personalidades interessantes, quer pelo valor dos atos 
praticados. Antgona foi um exemplo to belo de amor filial e fraternal quanto 
Alcestes de amor conjugai. Era filha de dipo e Jocasta, que, com todos os seus 
descendentes, foram vtimas de um destino inelutvel, que os condenou  
destruio. Em seus acessos de loucura, dipo arrancara os olhos e foi expulso 
de seu reino, Tebas, temido e abandonado por todos os homens, como objeto da 
vingana dos deuses. Antgona, sua filha, compartilhou sozinha de suas 
peregrinaes e ficou com ele at sua morte, regressando, ento, a Tebas. 
Seus irmos, Etocles e Polinice, haviam combinado dividir o reino entre 
si e reinarem alternadamente, cada um durante um ano. O primeiro ano coube a 
Etocles, que, quando expirou o prazo, negou-se a entregar o reino ao irmo. 
Polinice fugiu para junto de Adrastos, Rei de Argos, que lhe deu sua filha em 
casamento e ajudou-o, com um exrcito, a sustentar sua pretenso ao trono. Isso 
acarretou a famosa expedio dos "Sete Contra Tebas", que deu muito assunto 
aos poetas picos e trgicos da Grcia. 

Anfiarus, cunhado de Adrastos, ops-se  empresa, pois era vidente e 
sabia, graas  sua arte, que nenhum dos chefes, com exceo de Adrastos, 
voltaria vivo. Contudo, Anfiarus, quando se casara com Erifila, irm do rei, 
concordara que qualquer divergncia surgida entre ele e Adrastos seria 
resolvida por Erifila. Sabendo disso, Polinice deu a Erifila o colar de 
Harmonia, conquistando-a, desse modo, para a sua causa. Esse colar fora 
um presente que Vulcano oferecera a Harmonia, quando essa se casou com 
Cadmo, e Polinice levara-o consigo, ao fugir de Tebas. Erifila no pde



resistir  tentao do suborno e, graas  sua deciso, a guerra se tornou 
inevitvel e Anfiarus foi condenado a um destino fatal. Ele participou 
valentemente da luta, mas no pde evitar a fatalidade de seu destino. 
Perseguido pelo inimigo, fugia ao longo do rio quando um raio lanado por 
Jpiter abriu a terra e ele, seu carro e o cocheiro foram tragados. 
No haveria espao aqui para descrever todos os atos de herosmo ou 
atrocidade que assinalaram a luta; no devemos, contudo, omitir a fidelidade de 
Evadne, em contraste com a fraqueza de Erifila. Capaneu, marido de Evadne, no 
ardor do combate, afirmou que abriria caminho at a cidade, a despeito do 
prprio Jove. Encostou uma escada na muralha e subiu, mas Jpiter, ofendido 
com suas palavras impiedosas, fulminou-o com um raio. Quando seu funeral foi 
celebrado, Evadne atirou-se  pira e morreu. 
No comeo da luta, Etocles consultou o adivinho Tirsias sobre o seu 
desenrolar (Tirsias, em sua juventude, vira, por acaso, Minerva se banhando. 
Furiosa, a deusa privou-o da viso, porm mais tarde, abrandando-se, concedeu-
lhe, como compensao, o conhecimento dos acontecimentos futuros), que 
declarou que a vitria caberia a Tebas, se Menoceu, filho de Cron, se 
oferecesse como vtima voluntria. Ao saber disso, o herico jovem sacrificou a 
vida, no primeiro encontro. 
O stio continuou, com alternativas de vitrias e derrotas para os dois 
lados. Finalmente, concordou-se que os irmos decidissem a disputa em um 
combate singular. Os dois lutaram e ambos morreram. Os exrcitos, ento, 
reiniciaram a luta e afinal os invasores foram obrigados a ceder e fugiram, 
deixando seus mortos insepultos. Cron, tio dos dois prncipes mortos, tornou-se 
rei e mandou enterrar Etocles com todas as honras, mas deixou o corpo de 
Polinice onde cara, proibindo, sob pena de morte, que algum o enterrasse. 

Antgona, a irm de Polinice, ficou indignada, ao ter notcia do revoltante 
edito que entregara o corpo do irmo aos ces e aos abutres, privando-o dos ritos 
que eram considerados essenciais ao repouso dos mortos. Sem se deixar abalar 
pelos conselhos de uma irm afetuosa, mas tmida, resolveu desafiar a sorte e 
enterrar o corpo com suas prprias mos. Foi presa enquanto fazia isso e Cron 
deu ordens para que a enterrassem viva. 



por haver desobedecido deliberadamente um edito solene da cidade. Seu amante, 
Hmon, filho de Cron, incapaz de salv-la, no lhe sobreviveu, suicidando-se. 
Antgona  assunto de duas belas tragdias do poeta grego Sfocles. A 
Sra. Jameson, no livro Caracteres das Mulheres, compara seu carter ao de 
Cordlia, do Rei Lear, de Shakespeare. 
A seguinte passagem de Sfocles refere-se s lamentaes de Antgona, 
quando a morte afinal livra dipo de seus sofrimentos: 
Como haveria de querer a vida? 
O prprio sofrimento menos duro 
Era ao seu lado. O que era insuportvel 
Junto dele eu teria tolerado. 
Oh meu querido pai! Na sepultura 
Como ests e to velho como estavas, 
Quero-te ainda e hei de querer-te sempre. 
PENLOPE 
Penlope  outra dessas heronas mticas, cuja beleza  mais do carter e 
da conduta que do corpo. Era filha de Icrio, um prncipe espartano. Ulisses, Rei 
de Itaca, pediu-a em casamento e conquistou-a, entre todos os competidores. 
Quando chegou o momento em que a jovem esposa deveria deixar a casa 
paterna, Icrio, no tolerando a idia de separar-se da filha, tentou persuadi-la a 
permanecer ao seu lado e no acompanhar o marido a Itaca. Ulisses deixou a 
Penlope o critrio da escolha e ela, em vez de responder, baixou o vu sobre o 
rosto. Icrio no insistiu, mas, quando ela partiu, levantou uma esttua do Pudor 
no lugar onde se haviam separado. 
Ulisses e Penlope no haviam gozado sua unio por mais de um 
ano, quando tiveram de interromp-la, em virtude dos acontecimentos que 
levaram Ulisses  Guerra de Tria. Durante sua longa ausncia, e quando 
era duvidoso que ele ainda vivesse, e muito improvvel que regressasse, 
Penlope foi importunada por inmeros pretendentes, dos quais parecia 



no poder livrar-se seno escolhendo um deles para esposo. Penlope, contudo, 
lanou mo de todos os artifcios para ganhar tempo, ainda esperanosa no 
regresso de Ulisses. Um desses artifcios foi o de alegar que estava empenhada 
em tecer uma tela para o dossel funerrio de Laertes, pai de seu marido, 
comprometendo-se em fazer sua escolha entre os pretendentes quando a obra 
estivesse pronta. Durante o dia, trabalhava nela, mas,  noite, desfazia o trabalho 
feito. E a famosa tela de Penlope, que passou a ser uma expresso proverbial, 
para designar qualquer coisa que est sempre sendo feita mas no se acaba de 
fazer. O resto da histria de Penlope ser contado quando narrarmos as 
aventuras de seu marido. 
Penlope tecendo (detalhe) 
Stradono 





 CAPTULO XXIV 
ORFEU E EURDICE - ARSTEU 
ANFON - LINO - TMIRIS 
MRSIAS - MELMPUS 
ORFEU E EURDICE 
Orfeu, filho de Apolo e da musa Calope, recebeu de seu pai, como 
presente, uma lira e aprendeu a tocar com tal perfeio que nada podia 
resistir ao encanto de sua msica. No somente os mortais, seus 
semelhantes, mas os animais abrandavam-se aos seus acordes e reuniam-se 
em torno dele, em transe, perdendo sua ferocidade. As prprias rvores 
eram sensveis ao encanto, e at os rochedos. As rvores ajuntavam-se ao 
redor de Orfeu e as rochas perdiam algo de sua dureza, amaciadas pelas 
notas de sua lira. 
Himeneu foi convocado para abenoar com sua presena o casamento 
de Orfeu e Eurdice, mas, embora tivesse comparecido, no levou consigo 
augrios favorveis. Sua prpria tocha fumegou, fazendo lacrimejar os 
olhos dos noivos. Coincidindo com tais prognsticos, Eurdice, pouco 
depois do casamento, quando passeava com as ninfas, suas companheiras, 
foi vista pelo pastor Aristeu, que, fascinado por sua beleza, tentou 
conquist-la. Ela fugiu e, na fuga, pisou em uma cobra, foi mordida no p e 
morreu. Orfeu cantou o seu pesar para todos quantos respiram na atmosfera 
superior, deuses e homens, e, nada conseguindo, resolveu procurar a 
esposa na regio dos mortos. Desceu por uma gruta situada ao lado do ---








Orfeu, Eurdice e Mercrio 

Grego 

MUSEU NACIONAL, NPOLES 



promontrio de Tenaro e chegou ao reino do Estige. Passando atravs de 
multides de fantasmas, apresentou-se diante do trono de Pluto e Prosrpina e 
acompanhado pela lira, cantou: 
"O divindades do mundo inferior, para o qual todos ns que vivemos 
teremos que vir, ouvi minhas palavras, pois so verdadeiras. No venho para 
espionar os segredos do Trtaro, nem para tentar experimentar minha fora 
contra o co de trs cabeas que guarda a entrada. Venho  procura de minha 
esposa, a cuja mocidade o dente de uma venenosa vbora ps um fim prematuro. 
O Amor aqui me trouxe, o Amor, um deus todo-poderoso entre ns, que mora na 
Terra e, se as velhas tradies dizem a verdade, tambm mora aqui. Imploro-
vos: uni de novo os fios da vida de Eurdice. Ns todos somos destinados a vs, 
por essas abbadas cheias de terror, por estes reinos de silncio, e, mais cedo ou 
mais tarde, passaremos ao vosso domnio. Tambm ela, quando tiver cumprido o 
termo de sua vida, ser devidamente vossa. At ento, porm, deixai-a comigo, 
eu vos imploro. Se recusardes, no poderei voltar sozinho; triunfareis com a 
morte de ns dois. 
Enquanto cantava estas ternas palavras, os prprios fantasmas 
derramavam lgrimas. Tntalo, apesar da sede, parou, por um momento seus 
esforos para conseguir gua, a roda de xon ficou imvel, o abutre cessou de 
despedaar o fgado do gigante, as filhas de Danaus descansaram do trabalho de 
carregar gua em uma peneira e Ssifo sentou-se em seu rochedo para escutar. 
Ento, pela primeira vez, segundo se diz, as faces das Frias umedeceram-se de 
lgrimas. Prosrpina no pde resistir, e o prprio Pluto cedeu. Eurdice foi 
chamada, e saiu do meio dos fantasmas, recm-vindos, coxeando, devido  
ferida no p. Orfeu teve permisso de lev-la consigo, com uma condio: a de 
que no se voltaria para olh-la, enquanto no tivessem chegado  atmosfera 
superior. Nessas condies, os dois saram, Orfeu caminhando na frente e 
Eurdice, atrs, atravs de passagens escuras e ngremes, num silncio absoluto, 
at quase atingirem as risonhas regies do mundo superior, quando Orfeu, num 
momento de esquecimento, para certificar-se de que Eurdice o estava seguindo, 
olhou para trs, e Eurdice foi, ento, arrebatada. Estendendo os braos, para 
se abraarem, os dois apenas abraaram o ar! Morrendo pela segunda vez, 





Eurdice no podia recriminar o marido, pois como haveria de censurar 
sua impacincia em v-la? 
- Adeus! - exclamou. - Um ltimo adeus! 
E foi afastada, to depressa, que o som mal chegou aos ouvidos de Orfeu. 
Ele tentou segui-la, e procurou permisso para voltar e tentar outra vez 
libert-la, mas o rude barqueiro repeliu-o e recusou passagem. Orfeu deixou-se 
ficar  margem do lago durante sete dias, sem comer ou dormir; depois, 
amargamente acusando de crueldade as divindades do rebo, cantou seus 
lamentos aos rochedos e s montanhas, abrandando o corao dos tigres e 
afastando os carvalhos de seus lugares. Manteve-se alheio s outras mulheres, 
constantemente entregue  lembrana de seu infortnio. As donzelas trcias 
fizeram tudo para seduzi-lo, mas ele as repeliu. Elas o perseguiram enquanto 
puderam, mas, vendo-o insensvel, certo dia, excitada pelos ritos de Baco, uma 
delas exclamou: "Ali est aquele que nos despreza!" e lanou-lhe seu dardo. A 
arma, mal chegou ao alcance do som da lira de Orfeu, caiu inerme aos seus ps. 
O mesmo aconteceu com as pedras que lhe foram atiradas. As mulheres, porm, 
com sua gritaria, abafaram o som da msica, e Orfeu foi ento atingido e, dentro 
em pouco, os projteis estavam manchados de seu sangue. As furiosas mulheres 
despedaaram o vate e atiraram sua lira e sua cabea ao Rio Orfeu, pelo qual 
desceram ainda tocando e cantando a triste msica,  qual as margens do rio 
respondiam com plangente sinfonia. As Musas ajuntaram os fragmentos do 
corpo de Orfeu e os enterraram em Limetra, onde, segundo se diz, o rouxinol 
canta sobre seu tmulo mais suavemente que em qualquer outra parte da Grcia. 
A lira foi colocada por Jpiter entre as estrelas. A sombra do vate entrou, pela 
segunda vez, no Trtaro, onde procurou sua Eurdice e a tomou, freneticamente, 
nos braos. Os dois passearam pelos campos venturosos, juntos agora, indo ele, 
s vezes, na frente, s vezes ela, e Orfeu a contemplava tanto quanto queria, sem 
ser castigado por um olhar descuidado. 

Da histria de Orfeu, Pope tirou um exemplo do poder da msica, em sua 
"Ode ao Dia de Santa Ceclia". A estrofe seguinte relata a concluso da histria: 



Muito cedo, porm, volve os olhos 
Orfeu E de novo ela cai, e de novo morreu! 
Como conseguirs as trs Parcas domar? 
Crime no houve teu, se no  crime amar. 
E, agora, debruado sobre os montes, 
Junto  gua das fontes 
Ou onde o Hebro abre seu caminho 
Orfeu chora sozinho 
E, em luto e em pranto, invoca a alma querida, 
Para sempre perdida! 
Agora, todo em fogo, clama, ardente, 
Sobre a neve do Rdope imponente, 
E ei-lo, furioso como o vento, voa 
E, em torno, o ardor da bacanal ressoa. 
Est morrendo, vede, e a amada canta, 
Seu nome vem-lhe aos lbios,  garganta. 
"Eurdice", a palavra derradeira. 
"Euridice", dizem as matas, 
"Eurdice", as cascatas. 
Repete o nome a natureza inteira. 
ARISTEU, O APICULTOR 
O homem procura tirar proveito dos instintos dos animais inferiores. Da surgiu 
a apicultura, a arte de criao das abelhas. O mel deve ter sido conhecido 
primeiro como um produto silvestre, construindo as abelhas suas colmias no 
oco das rvores, em cavidades das rochas, ou lugares semelhantes. Assim, 
ocasionalmente, as carcaas dos animais mortos deveriam ser ocupadas pelas 
abelhas para tal fim. Foi, sem dvida, disso que surgiu a superstio de que as 
abelhas nasciam da carne dos animais em decomposio. E, na histria que 
narraremos a seguir, Virglio mostra como pode ser atribudo quele fato 
imaginrio a possibilidade de renovar-se a colmia perdida em conseqncia de 
doena ou acidente. 





Aristeu, o criador da apicultura, era filho da ninfa Cirene. Tendo morrido 
suas abelhas ele recorreu  ajuda de sua me. Chegando junto ao rio onde ela 
vivia, assim disse: 
- Oh me, o orgulho de minha vida me foi roubado! Perdi minhas 
preciosas abelhas. Meu cuidado e diligncia de nada valeram e tu, minha me, 
no me poupaste esse golpe do destino. 
Sua me ouviu essas queixas quando se encontrava sentada em seu 
palcio no fundo do rio, tendo em torno de si as ninfas suas servas, empenhadas 
nas ocupaes feminis, fiando e tecendo, enquanto uma delas contava histrias, 
para divertir as demais. A triste voz de Aristeu interrompeu sua ocupao. Uma 
das ninfas levantou a cabea acima da gua e, vendo Aristeu, foi comunicar o 
fato a Cirene, que ordenou que o filho fosse levado  sua presena. Cumprindo 
sua ordem, o rio se abriu e deixou passar o pastor, conservando-se ereto, como 
uma montanha, de ambos os lados. Aristeu desceu  regio onde ficam as fontes 
do grande rio. Viu os enormes receptculos e quase ensurdeceu com o barulho 
das guas, que corriam em vrias direes, para banhar a face da terra. 
Chegando aos aposentos de sua me, foi hospitaleiramente recebido por Cirene e 
suas ninfas, que serviram uma mesa com as iguarias mais finas. Em primeiro 
lugar, fizeram libaes a Netuno, depois deleitaram-se com os manjares e, 
finalmente, Cirene assim se dirigiu ao filho: 

- H um velho profeta chamado Proteu, que mora no mar e  favorito 
de Netuno, cujo rebanho de focas apascenta. Ns, as ninfas, dedicamos-lhe 
grande respeito, pois ele  um sbio, que conhece todas as coisas, passadas, 
presentes e futuras. Ele pode dizer-te, meu filho, a causa da mortalidade de 
todas abelhas e o meio de remedi-la. No o far, porm, voluntariamente, 
por mais que lhe implores. Deves obrig-lo a falar pela fora. Se te 
apoderares dele e o acorrentares, ele responder s tuas perguntas a fim de 
ser posto em liberdade, pois, apesar de todas as suas artes, no conseguir 
escapar, se o prenderes em cadeias apertadas. Levar-te-ei  sua gruta, onde 
ele chegar ao meio-dia, para repousar. Ser fcil, ento, para ti apoderar-se 
dele. Quando, porm, se vir aprisionado, recorrer ao poder que possui de 
mudar de forma. Transformar-se- em um javali, em um tigre feroz, em um 
drago coberto de escamas ou em um leo de amarela juba, ou produzir



um rudo semelhante ao crepitar do fogo ou  gua corrente para tentar fazer 
com que soltes a cadeia, quando ento, fugir. Bastar-te-, contudo, mant-lo 
preso e ele, quando perceber que todos os seus artifcios so inteis, voltar  
sua forma primitiva e obedecer s tuas ordens. 
Assim dizendo, aspergiu no filho o perfumado nctar, a bebida dos 
deuses, e, imediatamente, Aristeu sentiu no corpo um vigor desconhecido e no 
corao grande coragem, enquanto um perfume suave rescendia em torno. 
A ninfa levou o filho  gruta do profeta e escondeu-o entre os recessos dos 
rochedos, enquanto ela prpria se colocava atrs das nuvens. Ao meio-dia,  
hora em que os homens e os rebanhos fogem do sol ardente, para dormitar 
durante algum tempo, Proteu saiu da gua, seguido pelo seu rebanho de focas, 
que se espalharam pela praia. Proteu sentou-se no rochedo e contou o rebanho, 
depois estendeu-se no cho da gruta e adormeceu. Sem perder tempo, Aristeu 
acorrentou-o e deu um grito. Acordando e vendo-se acorrentado, Proteu 
imediatamente recorreu s suas artes, transformando-se primeiro numa fogueira, 
depois em gua, depois numa fera horrvel, em rpida sucesso. Verificando, 
porm, que de nada valia, recuperou sua prpria forma e dirigiu-se ao jovem, 
irritado: 
- Quem s tu, ousado jovem, que assim invades minha morada, e que 
queres de mim? 
- J sabes, Proteu, pois  intil tentar iludir-te - respondeu Aristeu. - 
E deves, tu tambm, cessar os esforos para iludir-me. Aqui vim com a ajuda 
divina, para saber a causa do meu infortnio e o meio de remedi-lo. 
A estas palavras, o profeta, fixando em Aristeu os olhos penetrantes, 
assim falou: 

- Recebes a merecida recompensa pelos teus atos, que fizeram 
Eurdice encontrar a morte, pois, fugindo de ti, ela pisou numa serpente, de 
cuja dentada morreu. Para vingar sua morte, as ninfas, suas companheiras, 
lanaram a destruio s tuas abelhas. Tens de apaziguar a ira das ninfas e, 
para isso, assim deves fazer: escolhe quatro touros, de perfeito formato e 
tamanho, e quatro vacas de igual beleza, constri quatro altares para as ninfas 
e sacrifica os animais, deixando suas carcaas no cho do bosque coberto de 
folhas. A Orfeu e Eurdice deveras render honras fnebres suficientes



para aplac-los. Voltando depois de nove dias, examinars as carcaas dos 
animais e vers o que aconteceu. 
Aristeu seguiu fielmente essas instrues. Sacrificou os animais, deixou 
suas carcaas no bosque, prestou as honras fnebres s sombras de Orfeu e 
Eurdice. Ento, voltando no nono dia, examinou as carcaas dos animais e - 
maravilha! - um enxame de abelhas tomara posse das carcaas e trabalhava 
como numa colmia. 
No poema "A Tarefa", Cowper faz aluso  histria de Aristeu, quando se 
refere ao palcio de gelo construdo pela imperatriz da Rssia, descrevendo as 
formas fantsticas que o gelo assume com relao a quedas d'gua etc: 
Novidade sem par por mo humana feita, 
Senhora imperial da Rssia poderosa 
Com obra cobssal e frgil a um s tempo, 
Maravilha do Norte. Uma floresta inteira 
Derrubada no foi, Senhora, quando a ergueste. 
Nem a pedra, tambm, revestiu-lhe as paredes. 
De gua congelada e pura era o seu mrmor. 
Foi em palcio assim que Aristeu procurou 
Cirene, e sua me de seus lbios ouviu 
A triste narrao das colmias perdidas. 
Tambm Milton parece que tinha em mente Cirene e sua cena domstica 
quando nos descreve Sabrina, a ninfa do Rio Severn, na cano do esprito 
guardio, no poema "Comus": 
Escuta, linda Sabrina, 
Escuta, de onde, contente, 
Tua beleza divina, 
Sob a gua transparente, 
Escondes, linda Sabrina, 
Escuta, onde tuas trancas 
Enfeitas de brancos lrios. 

Escuta, que as esperanas 



So preces e no delrios. 
So as preces que aqui trago, 
Os rumos da minha sina. 
Escuta, deusa do lago. 
Escuta e atende, Sabrina! 
ANFON 


Anfon era filho de Jpiter e Antope, rainha de Tebas. Com seu irmo 
gmeo Ztus, foi exposto ao nascer no Monte Citron, onde os dois cresceram 
entre os pastores, sem conhecer os pais. Mercrio ofereceu uma lira a Anfon e 
ensinou-lhe a tocar, enquanto seu irmo ocupava-se em caar e pastorear os 
rebanhos. Durante esse tempo, Antope, a me dos gmeos, que fora tratada com 
grande crueldade por Lcus, o rei usurpador de Tebas, e por sua esposa Dirce, 
conseguiu, afinal, informar os filhos de seus direitos e pedir-lhes ajuda. Com um 
bando dos pastores seus companheiros, os gmeos atacaram e mataram Lcus e 
amarraram Dirce pelos cabelos  cabea de um touro, deixando que o animal a 
arrastasse at mat-la.1 Anfon, tendo-se tornado rei de Tebas, fortificou a cidade 
com uma muralha. Dizia-se que quando tocava sua lira, as pedras se moviam por 
si mesmas e iam tomar seu lugar na muralha. 
LINO 
Lino era professor de msica de Hrcules, mas, tendo um dia repreendido 
o discpulo com bastante aspereza, provocou a ira de Hrcules, que lhe 
desfechou uma pancada com sua lira, matando-o. 
TMIRIS 


1 Castigo de Dirce  asunto de um clebre grupo escultural, atualmente no Museu de Npoles. 

Tmiris foi um antigo bardo da Trcia, que, muito presunoso, desafiou as 
Musas a medir com ele sua arte, e, tendo sido derrotado na competio, foi 
privado por elas da vista. Milton faz aluso a ele, juntamente com outros poetas 
cegos, ao referir-se  prpria cegueira, no verso 35 do Livro III do Paraso 
Perdido. 



 Apolo e Mrsias Perugino 
MRSIAS 
Minerva inventou a flauta e tocava o instrumento para deleite de todos os 
ouvintes celestiais. Tendo, porm, o irreverente menino Cupido se atrevido a rir 
da cara esquisita que a deusa fazia ao tocar, Minerva, furiosa, jogou fora o 
instrumento, que caiu na terra e foi encontrado por Mrsias. Este experimentou a 
flauta e dela tirou sons to maviosos que foi tentado a desafiar o prprio Apolo 
para uma competio musical. Naturalmente, o deus triunfou e castigou Mrsias, 
esfolando-o vivo. 





 

 

MELMPUS 

 

Melmpus foi o primeiro 
mortal dotado de poderes 
profticos. Diante de sua casa, havia 
um carvalho com um ninho de 
serpentes. As velhas serpentes 
foram mortas pelos criados, mas 
Melmpus tomou conta dos filhotes 
e alimentou-os cuidadosamente. 
Certo dia, quando ele estava dormindo 
 sombra do carvalho, as serpentes 
lamberam-lhe os ouvidos com suas 
lnguas. Ao acordar, Melmpus ficou atnito, 
percebendo que estava entendendo a linguagem 
das aves e dos animais que rastejam. Esse conhecimento assegurou-lhe o dom de 
prever os acontecimentos futuros, e ele se tornou um afamado adivinho. Certa 
ocasio, seus inimigos o aprisionaram e mantiveram-no em seu rigoroso 
cativeiro. Melmpus, na calada da noite, ouviu os vermes do madeiramento 
conversar, e descobriu, pelo que diziam, que a madeira estava quase comida e o 
teto iria desabar em breve. Melmpus advertiu seus carcereiros do perigo e 
pediu que fosse libertado. Eles aceitaram a advertncia, escapando, assim,  
morte e recompensaram Melmpus, atribuindo-lhe grandes honrarias. 
MUSEU 


Apolo e Mrsias 

Parmigianino 

BIBLIOTECA PIERPONT 

MORGAN, NOVA YORK 

Museu foi um personagem semimitolgico, que a tradio dizia ser filho 
de Orfeu. A ele so atribudos poemas sacros e orculos. 



 CAPTULO XXV 
RION - BICUS 
SIMNIDES - SAFO 
---


O 



s poetas de cujas aventuras trata este captulo foram personagens reais, 
algumas de suas obras ainda existem e sua influncia sobre os poetas 
que os sucederam  ainda mais importante que os remanescentes de 
suas obras poticas. As aventuras a eles atribudas nestas pginas baseiam-se nas 
mesmas autoridades em que se baseiam as demais narrativas deste livro, isto , 
os poetas que as contaram. As duas primeiras narrativas foram traduzidas do 
alemo, rion de Schlegel e bicus de Schiller. 
RION 
rion foi um famoso msico, que morava na corte de Periandro, Rei de 
Corinto, de quem era favorito. Havia uma competio musical na Siclia e rion 
desejava ardentemente disputar o prmio. Contou seu desejo a Periandro, que 
lhe implorou como a um irmo que desistisse da idia. 
- Fica comigo, peo-te e s feliz - disse o rei. Quem deseja vencer pode 
perder. 

- Uma vida errante convm melhor ao corao livre de um poeta - 
respondeu rion. O talento que um deus me concedeu deve servir de fonte de 
prazer aos outros. E se eu conquistar o prmio, quanto ser aumentado o prazer 
que ele me der pela conscincia de minha fama! 



rion partiu, conquistou o prmio e embarcou de volta, com seu tesouro, 
num navio corntio. Na manh do segundo dia, depois de terem zarpado, o vento 
soprava suave e favorvel. 
- O Periandro, pe de lado teus temores! - exclamou rion. Em breve 
h de esquec-los, quando eu te abraar. Com que prodigalidade mostraremos 
nossa gratido aos deuses e quanto ser alegre o banquete festivo! 
O vento e o mar continuaram propcios. Nem uma nuvem cobria o 
Armamento. No fora demais confiar no oceano - mas deveria rion ter 
desconfiado dos homens. Ouviu os marinheiros conversarem em voz baixa uns 
com os outros e descobriu que estavam planejando apoderar-se de seu tesouro. 
No tardaram a cerc-lo, aos gritos e ameaas, e disseram: 
- rion, deves morrer! Se queres um tmulo em terra, resigna-te a 
morrer onde estamos. Do contrrio, lana-te ao mar. 
- Nada vos satisfar a no ser minha vida? - disse rion. Tomai meu 
ouro e de boa vontade comprarei minha vida a tal preo. 
- No, no! No podemos poupar-te, tua vida seria muito perigosa para 
ns. Onde poderamos livrarmo-nos de Periandro se ele soubesse que te 
havamos roubado? Teu ouro nos seria de pouca valia se, voltando para nossa 
terra, jamais pudssemos nos ver livres do temor. 
- Concedei-me, ento - retrucou rion -, o ltimo pedido. Uma vez 
que nada salvar minha vida, que eu possa morrer como tenho vivido, como um 
bardo. Quando eu tenha entoado meu canto de morte e as cordas de minha harpa 
tenham cessado de vibrar, ento me despedirei da vida e me curvarei, sem 
queixar, ao meu destino. 
Este pedido, como os outros, no seria atendido - os marinheiros 
pensavam apenas nos despojos - se no fosse o desejo de ouvir um msico to 
famoso, que comovia seus rudes coraes. 
- Permiti-me - acrescentou rion - que componha minhas vestes. 
Apolo no me favorecer se eu no estiver devidamente envolto em minhas 
vestes de menestrel. 

Cobriu o bem proporcionado corpo de ouro e prpura agradveis  vista, a 
tnica caa em torno dele com dobras graciosas, pedras preciosas adornavam-lhe 
os braos, na testa tinha uma coroa de ouro e sobre o pescoo e os ombros 
flutuavam seus cabelos perfumados de essncia. 



Na mo esquerda tinha a lira e na direita a varinha de marfim com que 
feria suas cordas. Inspirado, pareceu beber o ar da manh e brilhar aos raios do 
sol matutino. Os marinheiros fitaram-no com admirao. rion avanou at o 
convs do barco e olhou para as profundidades do mar azul. Dirigindo-se  sua 
lira, cantou: 
"Companheira de minha voz, vem comigo ao reino das sombras. Por mais 
que Crbero rosne, conhecemos o poder do canto capaz de aplacar-lhe a ira. 
Vs, heris do Elsio que atravessastes as guas sombrias, vs, almas 
venturosas, em breve irei juntar-me ao vosso grupo. Podeis, contudo, aliviar 
minha dor? Ah! Deixo atrs de mim meu amigo. Tu, que encontraste tua 
Eurdice e a perdeste de novo to cedo a encontraste; quando ela se desvaneceu 
como um sonho, quanto odiaste a alegria da luz! Devo partir, mas partirei sem 
medo. Os deuses olham para ns. Vs que me matais sem motivo, quando eu 
aqui j no estiver, chegar vosso tempo de ter medo. Vs, Nereidas, recebei 
vosso hspede, que se entrega  vossa merc!" 
Assim dizendo, atirou-se s profundidades do mar. As ondas cobriram-no, 
e os marinheiros prosseguiram viagem, acreditando-se livres do perigo de serem 
descobertos. 
Os acordes da msica de rion, porm, tinham atrado os habitantes das 
profundezas marinhas, e os golfinhos acompanhavam o navio como se 
aprisionados pelo encantamento. Enquanto o bardo lutava contra as ondas, um 
golfinho ofereceu-lhe montaria e transportou-o so e salvo para a costa. No 
lugar em que ele chegou  terra foi erguido, mais tarde, um monumento de 
bronze sobre o rochedo, para relembrar o fato. 
Quando rion e o golfinho se separaram, cada um se dirigindo para o seu 
prprio elemento, o bardo assim manifestou sua gratido: 
- Adeus, peixe fiel e amigo! Quisera recompensar-te, mas no podes 
seguir comigo, nem eu contigo. No podemos ser companheiros. Possa Galatia, 
rainha das profundidades marinhas, conceder-te seus favores, e tu, orgulhoso do 
encargo, arrastar sua carruagem sobre o liso espelho do oceano. 

Afastando-se do litoral, rion em breve viu diante de si as torres de 
Corinto. Caminhava empunhando a harpa, cantando enquanto marchava,



cheio de amor e felicidade, esquecido dos prejuzos e atento apenas ao que lhe 
restava: seu amigo e sua lira. Entrou no hospitaleiro palcio e Periandro o 
recebeu entre os braos. 
- Volto para junto de ti, meu amigo - disse ele. O talento que um deus 
me concedeu tem constitudo o deleite de milhares de pessoas, porm 
malfeitores traioeiros privaram-me do meu bem-merecido tesouro. Conservo, 
contudo, a conscincia de minha fama. 
Contou, ento, a Periandro todos os fatos maravilhosos que lhe haviam 
acontecido e que foram ouvidos com assombro. 
- Ser possvel que tal perversidade triunfe? - exclamou o rei. Seria 
intil, ento, o poder que tenho nas mos. Para que possamos desmascarar os 
criminosos, deves ficar aqui escondido, de modo que eles aqui se apresentem 
sem desconfiana. 
Quando o navio chegou ao porto, Periandro convocou os marinheiros. 
- No tivestes notcia de rion? - perguntou. Espero ansiosamente o 
seu regresso. 
- Deixamo-lo bem e prspero, em Tarento - responderam. Enquanto 
diziam estas palavras, rion apareceu e encarou-os. Seu bem-proporcionado 
corpo estava coberto de ouro e prpura agradveis  vista, a tnica caa em torno 
dele com dobras graciosas, pedras preciosas adornavam-lhe os braos, na testa 
tinha uma coroa de ouro e sobre o pescoo e os ombros flutuavam os cabelos 
perfumados de essncia. Na mo esquerda tinha a lira e na direita, a varinha de 
marfim com que feria as cordas. Os marinheiros caram prostrados aos seus ps 
como se um raio os houvesse fulminado. 
- Quisemos assassin-lo e ele transformou-se em um deus! O terra, abre 
para receber-nos! 
Periandro falou, ento: 
- Ele vive, o mestre do canto! O cu misericordioso protege a vida do 
poeta. Quanto a vs, no invoco o esprito da vingana; rion no deseja vosso 
sangue. Vs, escravos da cobia, sa! Procurai alguma terra brbara e jamais a 
beleza deleite vossas almas! 

Spencer representa rion, montado no golfinho acompanhando o cortejo 
de Netuno e Anfitrite: 



Acordes celestiais ento se ouvem 
E, flutuando nas ondas, mansamente, 
Com o som de sua harpa rion cativa 
O ouvido e o corao de toda a gente. 
At mesmo o golfinho em cujo dorso 
Ele chegou, depois da travessia 
Do mar Egeu, fica imvel, quedo, 
Ouvindo a harpa, e o prprio mar a ouvindo 
Seu rugido cessou, paralisado. 
Byron, no Canto II do "Childe Harold", faz aluso  histria de rion, 
quando, descrevendo sua viagem, se refere a um dos marinheiros que tocava um 
instrumento musical, para divertir os demais. 
Brilha a lua no cu. 
Que noite linda! 
A luz prateia as ondas incansveis. 
Os amantes suspiram e as virgens crem. 
Tal nosso fado quando o mar deixamos! 
Entrementes, as cordas do instrumento 
Tange a mo de algum novo e rude rion 
E a marinhagem escuta, embevecida. 
BICUS 


Para se compreender a histria de bicus, que segue,  necessrio 
lembrar, primeiro, que os teatros da antigidade eram construes imensas, 
capazes de conter de dez a trinta mil espectadores e, como apenas eram 
usados em ocasies festivas e a entrada era gratuita para todos, geralmente 
ficavam repletos. Os teatros no tinham telhados e os espetculos 
realizavam-se durante o dia. Alm disso, devemos lembrar que a 
amedrontadora representao das Frias no constitui um exagero. E 
sabido que tendo o poeta trgico Esquilo, em certa ocasio, representado as 
Frias num coro de cinqenta executantes, foi to grande o terror dos 
espectadores, que muitos desmaiaram e foram tomados de convulses,



e os magistrados proibiram, de ento para diante, representaes semelhantes. 
O piedoso poeta bicus estava a caminho da corrida de carros e 
competies musicais realizadas no stmo de Corinto, que atraam todos os 
gregos. Apolo concedera-lhe o dom do canto, os lbios de mel do poeta, e ele 
prosseguia caminho com os passos leves, pleno do deus. J as torres de Corinto 
apareciam nas alturas e ele penetrara, reverentemente, no bosque sagrado de 
Netuno. Nenhum ser vivo se via a no ser um bando de grous, que voava na 
mesma direo que seguia o poeta, em sua migrao para o sul. 
- Felicidade para vs, esquadres amistosos, meus companheiros de 
alm-mar! - exclamou ele. Rebebo vossa companhia como um bom augrio. 
Viemos de longe  procura de hospitalidade. Possamos tanto eu quanto vs 
encontrar essa recepo amvel que protege contra o mal o hspede estrangeiro! 
Apressou os passos e, dentro em pouco, encontrava-se no meio do bosque. 
De sbito, em uma passagem estreita, surgiram dois ladres que lhe barraram o 
caminho. bicus tinha de render-se ou lutar, mas seus braos, acostumados  lira 
e no ao manejo das armas, caram impotentes. Gritou pedindo socorro aos 
homens e aos deuses, mas seus gritos no foram ouvidos por quem o defendesse. 
- Devo ento morrer aqui - disse ele - em uma terra estrangeira, sem 
que ningum me chore, roubado  vida pela mo de bandidos e sem ver algum 
que possa vingar-me! 
Malferido, caiu ao cho, quando os gritos roufenhos dos grous se fizeram 
ouvir no alto. 
- Tomai a minha causa, grous - exclamou -, j que nenhuma voz, 
alm da vossa, respondeu ao meu grito! 
Assim dizendo, fechou os olhos e morreu. 
O corpo, despojado e mutilado, foi descoberto, e embora desfigurado 
pelos ferimentos, bicus foi reconhecido pelo amigo de Corinto que o esperava 
como hspede. 

-  assim que te encontro a mim restitudo? - exclamou o amigo. Eu 
que esperava colocar em tua fronte a coroa de triunfo na competio do canto! 



Os convivas reunidos no festival ouviram com profunda dor a notcia. 
Toda a Grcia sentiu o golpe, todos os coraes compartilharam daquela perda. 
Reunidos em torno do tribunal dos magistrados, exigiram vingana contra os 
assassinos e a expiao por seu sangue. Que trao ou marco, porm, apontaria o 
criminoso no meio da vasta multido atrada pelo esplendor da festividade? 
Teria bicus sido vtima de bandidos ou teria algum inimigo particular o 
matado? Somente o sol, que tudo v, poderia dizer, pois nenhum outro olhar 
contemplara o crime. Era provvel, contudo, que o assassino agora mesmo 
andasse no meio da multido e gozasse o fruto de seu crime, enquanto a 
vingana o procura em vo. Talvez no prprio recinto do templo desafie os 
deuses, misturando-se, livremente,  multido que agora se comprime no 
anfiteatro. 
A multido, com efeito, rene-se agora, de arquibancada em 
arquibancada, ocupando todos os lugares at parecer que a prpria construo 
cederia sob seu peso. O murmrio de vozes assemelha-se ao rugido do mar, 
enquanto os crculos se alargam  medida que sobem, como se fossem atingir o 
cu. 
E, agora, a grande assemblia ouve a pavorosa voz do coro, 
personificando as Frias, que avana solenemente a passo cadenciado e se move 
em torno do circuito do teatro. Podem ser mulheres mortais as que compem 
esse horrvel grupo, e pode este vasto conjunto de formas silenciosas ser 
composto de seres humanos? 
Os componentes do coro, vestidos de preto, carregam nas mos 
descarnadas tochas em que flameja uma chama fumacenta. Tm as faces 
descoloridas e, em lugar dos cabelos, enroscam-se asquerosas serpentes em 
torno de suas frontes. Formando um crculo, esses horrveis seres cantam seus 
hinos, lendo no corao dos culpados e dominando todas as suas faculdades. 
Esses hinos elevam-se e ampliam-se, abafando o som dos instrumentos, 
roubando o raciocnio, dominando o corao, gelando o sangue. 

"Feliz o homem que conserva o corao puro de culpa e de crime! 
Nele, ns, vingadoras, no tocamos; ele marcha pelo caminho da vida livre 
de ns. Mas ai, ai daquele que cometeu um assassinato secreto! Ns, a 
pavorosa famlia da Noite, lanamo-nos sobre todo o seu ser. Pensa ele 
que, pela fuga, se livra de ns? Voamos ainda mais velozmente em sua 



perseguio, tranamos nossas serpentes em torno de seus ps e atiramo-lo ao 
cho. Incansveis, ns o perseguimos. A piedade no detm o nosso curso. 
Continuamente, at o fim da vida, no lhe damos paz nem descanso." 
Assim cantavam as Eumnides, e moviam-se em solene cadncia, 
enquanto uma imobilidade semelhante  imobilidade da morte dominava toda a 
assemblia, como se se estivesse em presena de seres sobre-humanos; e, 
depois, completando em solene marcha o circuito do teatro, o coro recolheu-se 
ao fundo do palco. Todos os coraes flutuavam entre a iluso e a realidade, e 
todos os peitos arquejavam com um terror indefinido, diante do pavoroso poder 
que presencia os crimes secretos e domina, invisvel, os meandros do destino. 
Nesse momento, um grito irrompeu de uma das arquibancadas superiores: 
- Olha, olha, camarada! Ali esto os grous de bicus! 
E, de sbito, apareceu atravessando o cu um objeto que um pouco de 
ateno revelava ser um bando de grous voando bem por cima do teatro. 
- De bicus! Foi isso que ele disse? 
O nome querido reviveu o pesar em todos os coraes. Como uma vaga 
segue outra vaga na face do mar, assim correram de boca em boca as palavras: 
"De bicus! Aquele que todos ns lamentamos, aquele que um assassino abateu! 
Que tm os grous a ver com ele?" E, cada vez mais forte, crescia o rudo das 
vozes enquanto, como um relmpago, este pensamento atravessava todos os 
coraes: "Vede o poder das Eumnides! O piedoso poeta ser vingado! O 
assassino deps contra si mesmo. Prendei o homem que deu aquele grito e o 
outro a quem se dirigiu!" 
O culpado teria de boa vontade engolido suas palavras, mas era 
demasiadamente tarde. Os rostos dos assassinos, plidos de terror, traram sua 
culpa. O povo levou-os ao juiz, eles confessaram o crime e sofreram o merecido 
castigo. 
SIMNIDES 


Simnides foi um dos mais fecundos dentre os primitivos poetas da 
Grcia, mas chegaram at ns apenas uns poucos fragmentos de suas obras. 
Escreveu hinos, odes triunfais e elegias, destacando-se particularmente 



nesta ltima espcie de poesia. Seu gnio inclinava-se ao pattico, e ningum 
sabia vibrar com efeito mais sincero as cordas do sentimento humano. A 
"Lamentao de Danae", o fragmento mais importante que resta de suas obras 
poticas, baseia-se na tradio segundo a qual Danae e seu filho, ainda criana, 
foram presos por ordem de seu pai, Acrsio, numa arca e lanados ao mar. A 
arca flutuou em direo  Ilha de Serifo, onde ambos os ocupantes foram salvos 
pelo pescador Dcdis e levados a Polidectes, rei do pas, que os recebeu e 
protegeu. A criana, Perseu, tornou-se, depois de adulto, um heri famoso, cujas 
aventuras foram relembradas em captulo anterior. 
Simnides passou grande parte da vida nas cortes de prncipes e, 
freqentemente, empregou seu talento em panegricos e odes festivas, recebendo 
sua recompensa daqueles cujas faanhas celebrava. Esse modo de agir no era 
humilhante, parecendo-se muito com o dos bardos primitivos, tal como 
Demdocus, descrito por Homero, ou como o prprio Homero, tal como  
relembrado pela tradio. Em certa ocasio, quando residia na corte de Escopas, 
rei da Tesslia, o prncipe quis que ele compusesse um poema celebrando suas 
faanhas, para ser recitado em um banquete. A fim de diversificar o tema, 
Simnides, que era conhecido por sua piedade, introduziu no poema as faanhas 
de Castor e Plux. Tais divagaes no eram raras no poeta, em semelhantes 
oportunidades, e seria de se supor que um mortal comum se sentisse feliz em 
compartilhar os louvores aos filhos de Leda. A vaidade, porm,  exigente e 
Escopas, sentado  mesa de banquete, entre seus cortesos e aduladores, 
resmungava insatisfeito ao ouvir qualquer verso que no fosse em seu prprio 
louvor. Quando Simnides se aproximou para receber a prometida recompensa, 
Escopas pagou-lhe apenas metade da quantia esperada, dizendo: 
- Aqui est o pagamento pela minha parte na tua obra. Castor e Plux, 
sem dvida, pagar-te-o pela parte que lhes diz respeito. 
Muito desconcertado, o poeta voltou ao seu lugar, no meio das 
gargalhadas que se seguiram  pilhria do rei. Dentro de pouco tempo, 
porm, recebeu um recado, dizendo que dois jovens a cavalo o estavam 
esperando do lado de fora e lhe desejavam falar com urgncia. Simnides 
saiu, mas procurou em vo pelos visitantes. Mal, contudo, sara do salo de 



banquetes, o teto desabou com estrondo, enterrando sob as runas Escopas e 
todos os seus convidados. Indagando sobre a aparncia dos jovens que o haviam 
procurado, Simnides se convenceu de que no eram outros seno os prprios 
Castor e Plux. 
SAFO 
Safo foi uma poetisa que floresceu em um perodo muito antigo da 
literatura grega. De suas obras, poucos fragmentos restam, mas so suficientes 
para assegurar-lhe um lugar entre os grandes gnios poticos da humanidade. 
Um caso a que freqentemente se faz aluso, com referncia a Safo,  o de que 
ela se apaixonou por um belo jovem chamado Faonte e, no sendo retribuda em 
seu afeto, atirou-se do promontrio de Leocdia ao mar, de acordo com uma 
superstio segundo a qual quem desse aquele "Pulo do Amante", se no 
morresse, ficaria curado de seu amor. 
Byron faz aluso a Safo, no Canto II do "Childe Harold": 

 

Velejou Childe Harold e a desolada 

Plaga de onde Penlope fitava, 

Saudosa, as ondas, visitou depois. 

E, mais adiante, contemplou o monte, 

Lembrando tmulo da cantora Lsbia. 

Sombria Safo! Os versos imortais 

De to mortal amor no te salvaram! 

 

Safo 

Ercolano 

Museu Nacional de Npoles 



 

Safo em Leucdia 

Antoine Jean Gros. 

MUSEU BARON-GERARD, BAYEUX 



 CAPTULO XXVI 
ENDIMIO - RION 
AURORA E TITONO 
CIS E GALATIA 
---


E 



ndimio era um belo jovem que apascentava seu rebanho no Monte 
Latmos. Numa noite calma e clara, Diana, a lua, olhou-o e viu-o 
dormindo. O frio corao da deusa virgem aqueceu-se ante aquela 
inexcedvel beleza e curvando-se sobre o jovem, ela o beijou e ficou 
contemplando-o enquanto dormia. 

Outra verso  a de que Jpiter concedeu a Endimio o 
dom da perptua juventude combinada com o sono perptuo. 
De uma pessoa to bem-dotada, no poderemos ter muitas 
aventuras a mencionar. Diana, contava-se, providenciou para 
que a fortuna do jovem no sofresse em conseqncia de sua 
vida inativa, pois fez seu rebanho aumentar, protegendo-o 
contra as feras. 

A histria de Endimio tem um encanto particular pela 
significao humana que deixa transparecer. Vemos nele o 
jovem poeta cuja fantasia e cujo corao procuram, inutilmente, 
algo que possa satisfaz-lo, encontrando sua hora favorita no 
tranqilo luar e alimentando ali, sob os raios da testemunha 
brilhante e silenciosa, a melancolia e o ardor que o consomem. A 
histria faz lembrar o amor potico e cheio de aspiraes, uma 
vida gasta mais em sonhos que na realidade e uma morte prematura e bem-
vinda. 
Young, no poema "Pensamentos Noturnos", assim alude a Endimio: 

Diana Chaseresse 

Escola de Fontainebleau 

MUSEU DO LOUVRE, PARIS 



 Selene (Diana) e Endimio (detalhe) 
Nicolas Poussin 
INSTITUTO DE ARTE DE DETROIT 
... Estes cismares 
So teus,  Noite! So como os suspiros. 
Escapam dos que amam, enquanto os outros 
Tranqilos dormem. Assim, contam os poetas, 
Cntia, velada pelas sombras, leve. 
Do cu descia e seu pastor fitava, 
O seu pastor que a amava menos, 
Bem menos que eu te amo. 
Fletcher, em "Pastora Fiel", diz: 
Como a plida Diana caadora, 
Ao ver Endimio a vez primeira, 
Sentiu no peito o fogo que no morre 
E levou-o, dormindo, para o cimo 
Do velho Latmos, onde, cada noite, 
Com a luz do seu irmo dourando os montes, 

Ia beij-lo. 



RION 
rion, filho de Netuno, era um belo gigante e poderoso caador. Seu pai 
deu-lhe o poder de andar pelas profundezas do mar ou, segundo outros dizem, 
de caminhar sobre sua superfcie. 
rion amava Mrope, filha de Eunpio, Rei de Quios, e pediu-a em 
casamento. Livrou a ilha de feras e levou os despojos da caa  sua amada. 
Como, porm, Eunpio adiava seu consentimento, rion tentou conquistar a 
posse da donzela pela violncia. O pai da jovem, irritado com essa conduta, 
depois de embebedar rion, privou-o da viso e expulsou-o. O heri cego 
acompanhou o rudo do martelo de um ciclope at chegar a Lemnos e encontrar 
a forja de Vulcano, que, compadecendo-se dele deu-lhe um de seus homens, 
Quedalio, para servir-lhe de guia at a morada do Sol. Colocando Quedalio 
em seus ombros, rion caminhou para o nascente e, encontrando o deus Sol, foi 
restabelecido da viso pelo seu raio. 
Depois disto, rion viveu, como caador, com Diana, de quem era 
favorito, chegando-se mesmo a dizer que ela quase se casou com ele. O irmo da 
deusa, muito desgostoso, censurava-a, freqentemente, mas em vo. Certo dia, 
observando rion que vadeava o mar apenas com a cabea acima d'gua, Apolo 
mostrou-o a sua irm, afirmando que ela no seria capaz de alvejar aquele objeto 
negro sobre o mar. A deusa caadora lanou um dardo, com pontaria fatal. As 
ondas empurraram para a terra o cadver de rion e, percebendo, com muitas 
lgrimas, seu erro, Diana colocou-o entre as estrelas, onde ele aparece como um 
gigante, com um cinto, a espada, a pele de leo e uma clava. Srius, seu co, o 
acompanha, e as Pliades fogem diante dele. 
As Pliades eram filhas de Atlas e ninfas do squito de Diana. Certo dia, 
rion as viu, enamorou-se e perseguiu-as. Aflitas, elas pediram aos deuses que 
mudassem sua forma, e Jpiter, compadecido, transformou-as em pombas e, 
mais tarde, em uma constelao no cu. Embora seu nmero seja de sete, apenas 
seis estrelas so visveis, pois uma delas, Electra, segundo a fama, deixou seu 
lugar por no poder suportar a viso das runas de Tria, cidade que fora 
fundada por seu filho Drdano. Aquela vista teve tal efeito tambm sobre suas 
irms, que elas ficaram plidas, desde ento. 





Longfellow tem um poema sobre a "Ocultao de rion", e os versos que 
citaremos a seguir fazem aluso quele episdio mtico. Convm lembrar que, 
no globo celeste, rion  representado vestindo uma pele de leo e segurando 
uma clava. No momento em que as estrelas da constelao, uma a uma, eram 
apagadas pelo luar, o poeta nos diz: 
A rubra pele de leo caiu-lhe 
Aos ps, dentro do rio. E a bruta clava 
A cabea do touro j no fere 
Voltado, como outrora, quando, junto 
Ao mar, cegou-o Eunpio e em sua forja, 
Procurou o ferreiro, e a rude encosta 
Galgou penosamente, a passos lentos, 
Fixando no sol o olhar vazio. 
Byron faz aluso  Pliade perdida: 
Como a Pliade perdida e no mais vista. 
AURORA E TITONO 
A deusa da Aurora, como sua irm, a Lua, s vezes era presa de amor 
pelos mortais. Seu maior favorito foi Titono, filho de Laomenonte, rei de Tria. 
Raptou-o e conseguiu que Jpiter lhe concedesse a imortalidade. Tendo, porm, 
se esquecido de acrescentar a juventude  graa concedida, comeou a notar, 
depois de algum tempo, muito pesarosa, que seu amante estava ficando velho. 
Quando os cabelos de Titono se tornaram inteiramente brancos, a deusa 
abandonou-o; ele, contudo, continuou a morar em seu palcio, a alimentar-se de 
ambrosia e a envergar trajos celestiais. Afinal, perdeu o movimento das pernas e 
dos braos, e Aurora trancou-o em seus aposentos, onde sua voz muito fraca 
podia, s vezes, ser ouvida. Finalmente, transformou-o em um gafanhoto. 

Mmnon, filho de Aurora e Titono, era rei da Etipia, vivendo no 
Extremo Oriente, no litoral do Oceano. Mmnon foi, com seus guerreiros, 



ajudar os parentes de seu pai, na Guerra de Tria. O rei Pramo recebeu-o com 
grandes honrarias e escutou, com admirao, a narrativa das maravilhas da costa 
do Oceano. 
Desde o dia seguinte ao de sua chegada, Mmnon, muito impaciente para 
lutar, levou suas tropas ao campo de batalha. Antloquo, o bravo filho de Nestor, 
caiu morto por ele, e os gregos foram postos em fuga, at que Aquiles apareceu 
e restabeleceu a ordem em suas fileiras. Travou-se uma luta prolongada e de 
resultado duvidoso, entre ele e o filho de Aurora. Finalmente, a vitria pendeu 
para Aquiles, Mmnon caiu e os troianos fugiram desanimados. 
Aurora que de seu lugar no cu olhava com apreenso os perigos que o 
filho corria, quando o viu cair mandou seus irmos, os Ventos, transportarem 
seu corpo para as margens do Rio Esepo, na Paflagnia. A noite, Aurora, em 
companhia das Horas e das Pliades, foi chorar o filho. A Noite, compadecendo-
se dela, cobriu o cu de nuvens; toda a natureza chorou o filho de Aurora. Os 
etopes ergueram seu tmulo  margem do rio, no bosque das Ninfas, e Jpiter 
permitiu que as fagulhas e cinzas de sua pira funerria se transformassem em 
aves, que se dividiram em dois bandos, sobrevoando a fogueira at carem nas 
chamas. Todos os anos, no aniversrio da morte de Mmnon, elas voltam, 
celebrando os funerais da mesma maneira. Aurora ficou inconsolvel com a 
perda do filho. At hoje, continua a derramar lgrimas, que podem ser vistas 
pela manh bem cedo, sob a forma de gotas de gua espalhadas na vegetao. 

Ao contrrio da maior parte das maravilhas da mitologia, ainda existem 
monumentos comemorativos desses fatos. Nas margens do Nilo, no Egito, h 
duas esttuas colossais, uma das quais, segundo se diz,  de Mmnon. 
Escritores antigos afirmavam que, quando o primeiro raio do sol nascente 
caa sobre a esttua, ouvia-se, partindo dela, um som comparvel ao acorde 
das cordas de uma harpa. H certa dvida quanto  identificao da esttua 
ora existente com aquela a que se referiam os antigos, e os sons misteriosos 
so ainda mais duvidosos. No faltam, contudo, alguns testemunhos 
modernos de que esses sons ainda so ouvidos. Aventou-se a hiptese de que 
o rudo  provocado pelo escapamento do ar retido nas fendas ou cavernas das 
rochas. Sir Gardner Wilkinson, viajante moderno e alta autoridade, examinou 
pessoalmente a esttua e descobriu que ela  oca e que, em sua borda, 



"h uma pedra que, recebendo uma pancada, emite um som metlico, suscetvel 
de ser utilizada para iludir um visitante predisposto a acreditar em seus poderes". 
CIS E GALATIA 
Sila era uma linda virgem da Siclia, favorita das ninfas do mar. Tinha 
muitos pretendentes, mas repelia-os todos e costumava ir  gruta de Galatia, 
contar-lhe como era perseguida. Certo dia, depois de ouvir a narrativa, enquanto 
Sila lhe penteava os cabelos, disse Galatia: 
- Contudo, donzela, teus perseguidores pertencem  raa de homens que 
podes repelir se quiseres, ao passo que eu, filha de Nereu e protegida por tantas 
de minhas irms, s posso fugir  paixo dos ciclopes nas profundezas do mar. 
Lgrimas lhe cortaram as palavras e a compadecida donzela depois de 
hav-las enxugado delicadamente e consolado a deusa, exclamou: 
- Dize-me, querida, a causa de tua dor. 

- cis era filho de Fauno e de uma Niade - respondeu Galatia. Seus 
pais amavam-no ternamente, mas seu amor no era igual ao meu, pois o belo 
jovem s a mim se prendia. Mal completara dezesseis anos e uma leve penugem 
comeava a escurecer-lhe as faces. Do mesmo modo que eu procurava sua 
companhia, os ciclopes procuravam a minha. E, se me perguntares qual era mais 
forte, meu amor por cis ou meu dio a Polifemo eu seria incapaz de responder: 
eram iguais.  Vnus, quo grande  teu poder! Aquele feroz gigante, terror dos 
bosques, ao qual nenhum estrangeiro desprotegido escapava ileso, que desafiava 
o prprio Jove, aprendeu a sentir o que era o amor e, dominado por uma fatal 
paixo por mim, esqueceu seus rebanhos e suas bem aprovisionadas cavernas. 
Ento, pela primeira vez, comeou a se preocupar com sua aparncia, 
procurando torn-la agradvel; alisou com um pente seus hirsutos cabelos e 
aparou a barba com uma foice, contemplava na gua suas grosseiras feies e 
procurava compor a fisionomia. J no o dominavam seu amor pela 
carnificina, sua ferocidade e sua sede de sangue, e os navios que tocavam na 
ilha partiam sem ser molestados. Polifemo caminhava pela praia abaixo 



de um lado para o outro, deixando na areia suas largas pegadas e, quando 
cansado, descansava tranqilamente em sua caverna. 
H um rochedo que se projeta pelo mar que o lava de dois lados. Para ali 
subiu, certo dia, o enorme ciclope e sentou-se, enquanto seus rebanhos se 
espalhavam pelas proximidades. Deixando no cho seu cajado, que teria servido 
de mastro para sustentar a vela de um navio, e pegando seu instrumento, 
formado por numerosos tubos, fez com que sua msica ecoasse pelos montes e 
pelas guas. Escondida sob um rochedo, junto de meu amado cis, escutei a 
cano distante, que era cheia de extravagantes louvores  minha beleza, de 
mistura com apaixonadas censuras  minha frieza e crueldade. 
Quando terminou, Polifemo levantou-se e, semelhante a um touro fogoso 
que no pode se manter quieto, penetrou no bosque. Eu e cis no mais nos 
preocupamos com ele, at que, de sbito, ele surgiu num lugar de onde nos 
podia ver. "Eu vos vejo e este ser vosso encontro amoroso", exclamou ele. Sua 
voz era um rugido como somente  capaz de produzir um ciclope enfurecido. O 
Eta tremeu ao ouvi-lo. Tomada de terror, mergulhei na gua. cis virou as 
costas e fugiu, gritando: "Salva-me, Galatia! Salvai-me, meus pais!" O ciclope 
perseguiu-o, e, arrancando um rochedo da encosta da montanha, atirou-o nele. 
Embora apenas um canto da pedra o tocasse, cis foi esmagado. 
Fiz por ele tudo que o destino deixara em meu poder. Conferi-lhe todas as 
honras de seu av, o rio-deus. O sangue vermelho escorria do rochedo, mas, 
pouco a pouco, foi tornando-se mais plido, assemelhando-se  corrente de um 
rio que as chuvas tornam turva e que vai, com o tempo, ficando mais clara. O 
rochedo abriu-se e a gua, ao correr pela fenda, produziu um agradvel 
murmrio. 
Assim, cis foi transformado num rio que conserva o seu nome. 
Dryden, no poema "Cimon e Ifignia", conta o caso de um rstico 
transformado em lorde, graas ao poder do amor, de um modo que faz lembrar a 
velha histria de Galatia e do ciclope: 
O que pai ou tutor no poderia 
Gravar-lhe a custo no grosseiro peito, 
F-lo, sem custo, o Amor, mestre perfeito. 
Na pgina ao lado: 








Galatia 

Gustave Moreau 

COLEO PARTICULAR 



 CAPTULO XXVII 
A GUERRA DE TRIA 
MENELAU 
---


Minerva era a deusa da sabedoria mas, certa vez, cometeu uma tolice: 
disputou um concurso de beleza com Juno e Vnus. O fato se passou da seguinte 
maneira: todos os deuses foram convidados para o casamento de Peleu e Ttis, 
com exceo de Eris, ou Discrdia. Furiosa com sua excluso, a deusa atirou 
entre os convivas um pomo de ouro com a inscrio "A mais bela". Juno, Vnus 
e Minerva reclamaram a ma ao mesmo tempo. Jpiter, no querendo decidir 
assunto to delicado, mandou as 
deusas ao Monte Ida, onde o 
belo pastor Paris apascentava 
seus rebanhos, e a ele foi 
confiada a deciso. As deusas 
compareceram ento diante 
dele. Juno prometeu-lhe poder 
e riqueza, Minerva, glria e 
fama na guerra e Vnus, a mais 
bela das mulheres para esposa, cada 
uma delas procurando influenciar a deciso 
a seu favor. Paris decidiu favoravelmente a 
Vnus e entregou-lhe o pomo de ouro, 
tornando, assim, suas inimigas as outras 
duas deusas. Sob a proteo de Vnus, 
Paris viajou para a Grcia e foi 
hospitaleiramente recebido por 
Menelau, rei de Esparta. Ora, Helena, 



esposa de Menelau, era, na realidade, a mulher que Vnus destinara a Paris, 
como a mais bela de seu sexo. Sua mo fora disputada por numerosos 
pretendentes, e, antes de se tornar conhecida sua deciso, todos esses 
pretendentes, por sugesto de Ulisses, que era um deles, prestaram juramento de 
que a defenderiam contra qualquer injria e lutariam por sua causa, se 
necessrio. Helena escolheu Menelau, e vivia feliz com ele, quando Paris se 
tornou hspede do casal. Com a ajuda de Vnus, Paris convenceu-a a fugir em 
sua companhia e levou-a para Tria, o que provocou a famosa guerra, assunto 
dos maiores poemas da antigidade, os de Homero e Virglio. 
Menelau apelou para seus irmos chefes da Grcia, para que cumprissem 
o prometido e ajudassem-no em seus esforos para recuperar a esposa. De um 
modo geral, todos atenderam ao apelo, mas Ulisses, que se casara com Penlope 
e se sentia muito feliz com a esposa e o filho, no se mostrou disposto a 
participar de aventura to incerta. Assim sendo, recuou e Palamedes foi 
mandado para lembrar-lhe seus compromissos. Quando Palamedes chegou a 
Itaca, Ulisses fingiu-se de doido e atrelando ao arado, juntos, um burro e um boi, 
ps-se a semear sal. Para experiment-lo, Palamedes colocou seu filhinho, 
Telmaco, em frente do arado, o que levou o pai a desviar-se, para no mat-lo, 
mostrando, assim, claramente, que no estava louco e que, portanto, no podia 
se negar a cumprir a promessa feita. 
Tendo sido conquistado  participao na empresa, Ulisses tratou de 
prestar ajuda para convencer outros chefes relutantes, especialmente 
Aquiles. Este heri era filho de Ttis, em cujo casamento o pomo da 
discrdia fora atirado entre as deusas. Ttis era ela prpria uma das 
imortais, uma ninfa do mar, e sabia que seu filho estava destinado a morrer 
diante de Tria se participasse da expedio, pelo que tratou de evitar que 
ele fosse. Mandou-o, ento, para a corte do rei Licomedes e convenceu-o a 
esconder-se entre as filhas do rei, disfarado de mulher. Sabendo que ele 
ali se encontrava, Ulisses, disfarado de mercador, foi ao palcio, 
oferecendo  venda ornamentos femininos, entre os quais colocou algumas 
armas. Enquanto as filhas do rei se deleitavam com os outros artigos 
apresentados pelo mercador, Aquiles manejava as armas e se traiu, assim, aos 



 O Sacrifcio de Ifignia 
Detalhe de uma pintura em parede em Pompia 
MUSEU NACIONAL DE NPOLES 
olhos atilados de Ulisses, que no teve grande dificuldade em persuadi-lo a 
desrespeitar os prudentes conselhos maternos e juntar-se a seus patrcios na 
guerra. 

O rei de Tria era Pramo, e Paris, o pastor que seduzira Helena, seu 
filho. Paris fora criado na obscuridade, porque havia certos augrios 
funestos a seu respeito, desde a infncia, segundo os quais ele seria a causa 
da runa do estado. Essas profecias pareciam afinal prestes a se realizar, 
pois o armamento grego ora em preparativo era o maior de que se tinha 
notcia at ento. Agamnon, rei de Miscenas e irmo do injuriado 
Menelau, foi escolhido para comandante-chefe. Aquiles era o mais ilustre 
guerreiro. Depois dele vinham: Ajax, de estatura gigantesca e grande 
coragem, mas pouco inteligente; Diomedes, superado apenas por Aquiles 
em suas qualidades de heri; Ulisses, famoso por sua sagacidade, e Nestor, 



o mais velho dos chefes gregos e procurado por todos como conselheiro. Tria, 
porm, no era um inimigo desprezvel. Pramo, o rei, estava velho, mas fora um 
prncipe esclarecido e fortalecera seu estado, graas a um bom governo e a 
numerosas alianas com os vizinhos. O principal esteio e Apolo do trono, 
contudo, era seu filho Heitor, um dos mais nobres caracteres pintados pela 
antigidade paga. Embora tivesse, desde o princpio, pressentido a queda de seu 
pas, Heitor perseverara em sua herica resistncia, sem querer justificar, ao 
mesmo tempo, o erro de que resultar o perigo para Tria. Estava unido pelo 
casamento a Andrmaca e, como marido e pai, seu carter no era menos 
admirvel do que como guerreiro. Alm de Heitor, os principais chefes do lado 
dos troianos eram Enias, Defobo, Glauco e Sarpdon. 
Aps dois anos de preparativos, a frota e o exrcito gregos reuniram-se no 
porto de ulis, na Becia. Ali, Agamnon, caando, matou um veado 
consagrado a Diana, que, em represlia, assolou o exrcito com a peste e 
provocou uma calmaria que impediu os navios de deixar o porto. O adivinho 
Cauchas anunciou, ento, que a ira da deusa virgem somente poderia ser 
aplacada pelo sacrifcio de uma virgem em seu altar e que somente seria 
aceitvel a filha do ofensor. Agamnon, embora relutante, deu seu 
consentimento e a donzela Ifignia foi mandada, sob o pretexto de que iria 
casar-se com Aquiles. Quando ia ser sacrificada, a deusa abrandou-se e 
arrebatou-a, deixando em seu lugar uma vitela, e Ifignia, envolta numa nuvem, 
foi levada a Turis, onde Diana f-la sacerdotisa do seu templo. 

No poema "Sonho das mulheres belas", Tennyson faz Ifignia 
assim descrever suas sensaes no momento do sacrifcio: 

 

A esperana perdi inteiramente, 

Nesse lugar maldito, cujo nome 

Nem como em pensamento ouso dizer. 

Meu pai estende a mo sobre meu rosto. 

As lgrimas me cegam e em vo me esforo 

Para falar. Tudo parece um sonho. 

Dos reis cruis que me rodeiam vejo 

 



As barbas negras e os lupinos olhos 
Que me fitam esperando minha morte. 
Os altos mastros dos navios tremem 
E o templo e a multido que me rodeia. 
Sinto o corte de lmina aguada, 
Devagar, devagar... e nada mais. 
O vento comeou a soprar favorvel e a frota zarpou e levou as tropas  
costa de Tria. Os troianos opuseram-se ao desembarque e, no primeiro 
encontro, Protesilau caiu pela mo de Heitor. Protesilau deixara em sua terra a 
esposa, Laodmia, que o amava com ternura. Quando chegou notcia de sua 
morte, ela implorou aos deuses que a deixassem conversar com o marido apenas 
durante trs horas. O pedido foi atendido. Mercrio levou Protesilau de volta ao 
mundo superior e, quando ele morreu pela segunda vez, Laodmia morreu com 
ele. H uma verso segundo a qual as ninfas plantaram em torno de seu tmulo 
ulmos que cresciam tanto que de cima deles se podia avistar Tria e, depois, 
murchavam, enquanto novos galhos nasciam das razes. 
Worsdworth aproveitou a histria de Protesilau e Laodmia para um 
poema. O orculo anunciara que a vitria caberia ao partido que perdesse a 
primeira vtima na guerra. O poeta apresenta Protesilau, durante seu breve 
regresso  Terra, assim descrevendo a Laodmia o que lhe sucedera: 
Soprou a virao; no mar silente 
O orculo consultei. Quis o destino 
Fosse o meu primeiro, entre mil barcos, 
Cuja proa tocou terra inimiga 
E o meu sangue o primeiro derramado 
Sobre o solo de Tria. Na verdade, 
Nada se comparava ao sofrimento 
De compreender, ento, o que perdera, 
Saber que te perdera, esposa amada! 






A ILADA 
A guerra prosseguiu, sem resultado decisivo, durante nove anos. Ocorreu, 
ento, um acontecimento que pareceu fatal  causa dos gregos e que foi a disputa 
entre Aquiles e Agamnon.  nesse ponto que se inicia o grande poema de 
Homero, "A Ilada". Os gregos, embora sem xito contra Tria, haviam tomado 
as cidades vizinhas e aliadas, e, na diviso dos despojos, uma cativa chamada 
Criseis, filha de Crises, sacerdote de Apolo, coubera a Agamnon. Criseis, 
levando os emblemas sagrados de seu cargo, fora implorar a libertao da filha, 
e Agamnon recusara. Crises, ento, rogou a Apolo que afligisse os gregos at 
que eles fossem forados a desistir de sua presa. Apolo atendeu  prece de seu 
sacerdote e mandou a peste ao acampamento helnico. Foi, ento, convocado 
um conselho para deliberar sobre a maneira de apaziguar a ira dos deuses e 
evitar a peste. Aquiles, atrevidamente, atribuiu a causa dos infortnios a 
Agamnon, por conservar Criseis cativa. Agamnon, enfurecido, concordou em 
libertar a cativa, mas exigiu que, em compensao, Aquiles lhe cedesse Briseis, 
uma donzela que lhe coubera como presa, na partilha. Aquiles resignou-se, mas 
declarou que dali em diante no participaria mais da guerra. Retirou suas foras 
do acampamento geral e proclamou abertamente sua inteno de retornar  
Grcia. 
Os deuses e deusas interessavam-se tanto por esta guerra famosa como as 
prprias partes. Sabiam muito bem que o destino decretara que Tria cairia, 
afinal, se seus inimigos perseverassem e no abandonassem a empresa 
voluntariamente. Havia, contudo, bastante oportunidade para o acaso, de 
maneira a excitar, alternativamente, as esperanas e os temores das divindades 
que se colocavam de um lado ou de outro. Juno e Minerva, em conseqncia do 
menosprezo manifestado por Paris para com sua beleza, eram hostis aos 
troianos; Vnus, pelo motivo contrrio, favorecia-os e arrastou para o mesmo 
lado seu admirador Marte, ao passo que Netuno era favorvel aos gregos. Apolo 
ficou neutro, tendendo s vezes para um lado, s vezes para outro, e o prprio 
Jove, embora amasse o bom Rei Pramo, demonstrou um certo grau de 
imparcialidade, no sem excees, contudo. 





A me de Aquiles, Ttis, sentiu profundamente a injria feita ao filho e 
dirigiu-se imediatamente ao palcio de Jove, a quem pediu que fizesse os gregos 
se arrependerem da injustia praticada contra seu filho, concedendo o sucesso s 
armas troianas. Jpiter acedeu ao pedido e, na batalha que se seguiu, os troianos 
saram vitoriosos e os gregos, expulsos do acampamento, tiveram de refugiar-se 
nos navios. 
Agamnon convocou, ento, um conselho dos chefes mais sbios e mais 
valentes. Nestor sugeriu que fosse enviada uma embaixada a Aquiles, para 
persuadi-lo a voltar ao acampamento e que Agamnon restitusse a donzela 
causadora da disputa, com grandes presentes, para corrigir o erro cometido. 
Agamnon concordou, e Ulisses, Ajax e Fnix foram encarregados de transmitir 
a Aquiles a mensagem de arrependimento. Os trs executaram a incumbncia, 
mas Aquiles mostrou-se surdo s suas palavras. Negava-se, peremptoriamente, a 
voltar ao acampamento e persistia em sua idia de embarcar sem demora para a 
Grcia. 

Os gregos construram um bastio em torno dos navios e, em vez de 
sitiarem Tria, tornaram-se, de certo modo, sitiados. No dia seguinte quele em 
que fora enviada a Aquiles a malsucedida embaixada travou-se uma 
batalha, e os troianos, favorecidos por Jove, conseguiram abrir 
passagem entre o bastio helnico e estavam na iminncia de 
incendiar os navios. Netuno, vendo os gregos em situao 
to crtica, foi em seu socorro. Apareceu sob a forma do 
profeta Cauchas, estimulou os guerreiros com seus gritos e 
apelou para cada um deles individualmente, at elevar o seu 
ardor a tal ponto que eles foraram os troianos a recuar. Ajax 
executou prodgios de valor e, finalmente, encontrou-se com 
Heitor, a quem gritou um desafio. Heitor replicou e atirou 
sua lana contra o gigantesco guerreiro. A mira foi bem 
feita e a arma atingiu Ajax onde as correias que sustentam 
a espada e o escudo se cruzam sobre o peito. Essa dupla 
proteo a impediu de penetrar, e a lana caiu ao cho, 
inofensiva. Ajax, ento, agarrou uma enorme pedra, uma 
das que serviam para imobilizar os navios, e atirou-a contra

Aquiles 

Detalhe de uma pintura 

em parede em Pompia 

 MUSEU NACIONAL DE NPOLES 



Heitor, atingindo-o no pescoo e atirando-o ao cho. Seus comandados 
imediatamente o apanharam e levaram-no atordoado e ferido. 
Enquanto Netuno ajudava, desse modo, os gregos e obrigava os troianos a 
recuar, Jpiter nada via do que se passava, pois sua ateno fora desviada do 
campo de batalha, pelas artimanhas de Juno. A deusa revestira-se de todas as 
suas graas, e, para completar, tomara emprestado de Vnus seu cinto, chamado 
"Cestus", que tinha o dom de aumentar a tal ponto os encantos de sua portadora 
que estes se tornavam irresistveis. Assim preparada, Juno foi-se juntar ao 
marido, que, sentado no Olimpo, assistia  batalha. Ao v-la, achou-a to 
encantadora que o velho ardor amoroso reviveu e, esquecendo-se dos exrcitos 
em choque e de todos os outros assuntos srios, pensou apenas nela e deixou a 
batalha de lado. 
Essa distrao, contudo, no continuou por muito tempo e quando, 
voltando os olhos para baixo, avistou Heitor estendido na plancie, quase sem 
vida, em conseqncia da dor e das contuses, despediu Juno, furioso, 
ordenando-lhe que lhe mandasse ris e Apolo. Quando ris chegou, enviou-a, 
levando uma enrgica mensagem a Netuno, a quem ordenou que se afastasse 
imediatamente do campo de batalha. Apolo foi mandado tratar dos ferimentos de 
Heitor e reanim-lo. Estas ordens foram cumpridas to rapidamente, que, 
enquanto o combate ainda prosseguia, Heitor voltou ao campo de batalha, e 
Netuno aos seus prprios domnios. 
Uma seta lanada pelo arco de Paris feriu Machaon, filho de Esculpio, 
que herdara do pai a arte de curar, e era, portanto, de grande valor para os gregos 
como cirurgio, alm de ser um dos guerreiros mais bravos. Nestor colocou 
Machaon em seu carro e levou-o para fora do campo de batalha. Ao passarem 
diante dos navios de Aquiles, este heri, olhando para o campo, viu o carro de 
Nestor e reconheceu o velho chefe, mas no pde distinguir quem era o 
guerreiro ferido. Assim, chamando Ptroclo, seu companheiro e mais querido 
amigo, mandou-o  tenda de Nestor a fim de indagar a respeito. 

Ali chegando, Ptroclo viu Machaon ferido e, tendo revelado a causa de 
sua vinda, quis regressar sem demora, mas Nestor o deteve, para contar-lhe a 
extenso das desgraas gregas. Lembrou-lhe, tambm, como, na ocasio 
em que partiram para Tria, ele e Aquiles haviam recebido conselhos



diferentes dos respectivos pais: Aquiles deveria aspirar aos pinculos da glria e 
Ptroclo, como o mais velho, deveria velar sobre o amigo e gui-lo em sua 
inexperincia. 
- Agora - disse Nestor - chegou a ocasio de exercer essa influncia. 
Se quiserem os deuses, conseguir reconquist-lo para a causa comum. Se, 
contudo, no o trouxerdes, pelo menos que ele mande seus soldados ao campo 
de batalha e que venhas tu, Ptroclo, envolto em tua armadura, e talvez baste 
isso para provocar a derrota dos troianos. 
Ptroclo ficou profundamente impressionado com esse apelo e voltou para 
junto de Aquiles refletindo sobre tudo que vira e ouvira. Contou ao prncipe a 
triste situao no acampamento de seus antigos companheiros: Diomedes, 
Ulisses, Agamnon, Machaon, todos feridos, o bastio rompido, o inimigo entre 
os navios, preparando-se para queim-los e impedir, assim, todos os meios de 
regressar  Grcia. Enquanto falavam, irromperam chamas em um dos navios. 
Vendo isso, Aquiles cedeu at o ponto de concordar com o pedido de Ptroclo, 
no sentido de permitir que ele levasse os mirmides (assim eram chamados os 
soldados de Aquiles) ao campo de batalha, e deix-lo usar sua armadura, a fim 
de provocar maior terror no esprito dos troianos. Sem demora os soldados 
foram reunidos. Ptroclo revestiu-se da brilhante armadura, subiu ao carro de 
Aquiles e assumiu o comando dos homens, pronto a entrar na batalha. Antes que 
ele partisse, porm, Aquiles recomendou-lhe, insistentemente, que se 
contentasse em repelir o inimigo. 
- No procures atacar os troianos sem a minha presena, para que no 
aumentes ainda mais o meu infortnio. 
Ento, exortando os soldados a combater com maior denodo despediu-os 
cheios de ardor para o combate. 
Ptroclo e seus mirmides mergulharam-se imediatamente na luta onde ela 
se travava mais feroz, e, vendo-os, os gregos gritavam de alegria e a 
aclamao ecoava nos navios. Ao avistarem a conhecida armadura, os 
troianos, tomados de terror, procuraram refgio por todos os lados. 
Primeiro, aqueles que haviam-se apoderado do navio e o incendiado 
permitiram que os gregos o retomassem e extinguissem as chamas. Depois, 
o resto dos troianos fugiu desanimado. Ajax, Menelau e os dois filhos de 



Nestor executaram prodgios de valor. Heitor foi forado a retirar-se do 
acampamento, deixando seus homens fugir como podiam. Ptroclo impeliu-os 
diante dele, ningum se atrevendo a resistir-lhe. 
Afinal, Sarpdon, filho de Jove, aventurou-se a enfrentar Ptroclo em 
combate. Jpiter baixou os olhos sobre ele e o teria livrado do destino que o 
aguardava, se Juno no lhe tivesse observado que, se assim fizesse, iria induzir 
todos os outros habitantes do cu a intervir de maneira semelhante, sempre que 
algum de seus filhos estivesse em perigo. Diante disso, Jove cedeu. Sarpdon 
atirou a lana, mas no atingiu Ptroclo, que lanou a sua, com mais sorte. A 
lana penetrou no peito de Sarpdon, que caiu e, gritando aos amigos que 
salvassem seu corpo do inimigo, expirou. Seguiu-se uma luta furiosa em disputa 
da posse do cadver. Os gregos triunfaram e arrancaram a armadura de 
Sarpdon. Jove, porm, no permitiu que os despojos de seu filho fossem 
desonrados e, por sua ordem, Apolo retirou do meio dos combatentes o corpo e 
entregou-o aos cuidados dos irmos gmeos Morte e Sono, que o levaram a 
Lcia, terra natal de Sarpdon, onde foram realizados os devidos ritos fnebres. 
At ento, Ptroclo fora bem-sucedido em seu desejo de repelir os 
troianos e aliviar seus patrcios, mas ocorreu, depois, uma mudana da fortuna. 
Heitor, em seu carro, enfrentou-o. Ptroclo atirou contra ele uma grande pedra, 
que errou o alvo, mas atingiu o cocheiro, Cebriones, lanando-o fora do carro. 
Heitor saltou do carro para socorrer o amigo e Ptroclo desceu tambm, para 
completar a vitria. Os dois heris encontraram-se, ento, frente a frente. Neste 
momento decisivo, o poeta, como se relutasse em atribuir a glria a Heitor, 
relembra que Febo participou da luta contra Ptroclo, arrancando-lhe o elmo da 
cabea e a lana da mo. No mesmo momento, um troiano obscuro feriu-o nas 
costas e Heitor, avanando, trespassou-o com a lana. Ele caiu mortalmente 
ferido. 

Travou-se, ento, uma luta feroz para disputa do corpo de Ptroclo, 
mas sua armadura caiu imediatamente em posse de Heitor, que, retirando-
se para pequena distncia, despiu a prpria armadura, vestiu a de Aquiles 
e voltou ao combate. Ajax e Menelau defenderam o corpo de Heitor e com 
seus mais valentes guerreiros lutaram para captur-lo. A batalha 
prosseguia indecisa, quando Jove envolveu em escura nuvem toda a face 



do cu. Relmpagos cortaram o espao, o trovo reboou, e Ajax, olhando em 
torno,  procura de algum que pudesse enviar a Aquiles para contar-lhe a morte 
do amigo e o iminente perigo que corriam seus restos de cair em poder dos 
troianos, no pde ver um mensageiro  altura. Foi ento que exclamou, 
conforme os versos tantas vezes citados: 
Pai da terra e do cu! 
Livrai, imploro, 
O cu e a terra desta treva espssa! 
Se quereis nos punir, ns nos curvamos 

Mas dexai-nos morrer  luz do dia.1 
Jpiter ouviu a prece e dispersou as nuvens. Ajax mandou, ento, por 
Antloquo, a Aquiles, a notcia da morte de Ptroclo e da luta que se travava pela 
disputa de seus restos. Os gregos conseguiram, afinal, levar o corpo para o 
navio, perseguidos de perto por Heitor, Enias e os demais troianos. 

1 No original ingls, os versos de Homero so apresentados em tradues de Cowper e Pope. 

Tamanho foi o sofrimento de Aquiles ao ouvir a notcia do que sucedera a 
seu amigo, que Antloquo receou, por um momento, que ele se matasse. Seus 
gemidos chegaram aos ouvidos de sua me, Ttis, nas profundezas do oceano, 
onde mora, e ela se apressou em procurar o filho para saber o motivo. 
Encontrou-o tomado de remorsos por haver levado to longe seu ressentimento e 
permitido que o amigo casse como vtima. Consolava-se, porm, com a 
expectativa da vingana e queria correr imediatamente  procura de Heitor, mas 
sua me lembrou-lhe que ele estava sem armadura e prometeu-lhe que, se 
esperasse at o dia seguinte, ela conseguiria para ele com Vulcano um jogo de 
armaduras melhor do que aquele que perdera. Aquiles concordou e Ttis dirigiu-
se, sem demora, ao palcio de Vulcano. Encontrou-o trabalhando em sua forja, 
na construo de trpodes destinadas ao seu prprio uso e to habilidosamente 
feitas que se moviam sozinhas, quando chamadas, e se retiravam, quando 
despedidas. Ouvindo o pedido de Ttis, Vulcano, imediatamente, deixou o 
seu trabalho e tratou de satisfazer o desejo da ninfa fabricando para Aquiles 
um esplndido jogo de armaduras: primeiro, um escudo caprichosamente 
adornado, depois, um elmo com crista de ouro, uma couraa e grevas de 
ao impenetrvel, tudo perfeitamente adaptado s normas do guerreiro e 



executado com consumada perfeio. Tudo foi feito numa noite e Ttis, 
depois de receb-lo, desceu com ele  Terra e colocou-o aos ps de Aquiles 
ao amanhecer o dia. 
Pela primeira vez, desde a morte de Ptroclo, Aquiles teve uma 
sensao de prazer, ao ver a armadura. E logo, revestido dela, correu ao 
acampamento, convocando os chefes para o conselho. Quando todos se 
reuniram, a eles se dirigiu. Pondo de lado o seu ressentimento contra 
Agamnon e lamentando amargamente os males que dele haviam resultado, 
apelou para os chefes no sentido de que se dirigissem imediatamente ao 
campo de batalha. Agamnon respondeu sem demora, lanando toda a culpa 
do ocorrido a Ate, a deusa da discrdia, e os dois heris reconciliaram-se 
plenamente. 
Aquiles, ento, lanou-se  batalha excitado pela ira e pela sede de 
vingana, que o tornavam irresistvel. Os mais bravos guerreiros fugiam dele 
ou caam sob sua lana. Heitor, advertido por Apolo, manteve-se afastado, 
mas o deus, tomando a forma de um dos filhos de Pramo, Licaonte, incitou 
Enias a enfrentar o terrvel guerreiro. Enias, embora se sentisse inferior, 
no fugiu ao combate. Arremessou a lana, com toda a fora, contra o escudo, 
obra de Vulcano. Era formado de cinco chapas metlicas, sendo duas de 
bronze, duas de estanho e uma de ouro. A lana atravessou duas camadas, 
mas foi detida na terceira. Aquiles arremessou a sua lana com melhor 
sucesso. Atravessou o escudo de Enias, mas resvalou perto do ombro e no 
causou ferimento. Enias, ento, levantou uma pedra, que dois homens dos 
tempos modernos mal poderiam erguer, e ia lan-la contra Aquiles, enquanto 
este, de espada desembainhada, estava prestes a investir contra ele, quando 
Netuno, que assistia ao combate, apiedando-se de Enias - que cairia 
vitimado, sem dvida alguma, se no fosse socorrido sem demora -, 
espalhou uma nuvem entre os combatentes e conduziu-o ao fundo do campo 
de batalha, sobre as cabeas dos guerreiros e dos corcis de guerra. Aquiles, 
quando a nuvem se dissipou, procurou em vo o adversrio, e, reconhecendo 
o prodgio, voltou suas armas contra outros campees. Ningum, contudo, se 
atrevia a enfrent-lo, e Pramo, olhando da cidade, viu todo o seu exrcito 
recuar para dentro das portas. Ordenou que estas fossem abertas, para receber 
os fugitivos, e fechadas to logo os troianos tivessem passado, a fim de que o 



inimigo tambm no entrasse. Aquiles, porm, perseguia o inimigo to de perto, 
que teria sido impossvel tal coisa, se Apolo no o tivesse enfrentado durante 
algum tempo, sob a forma de Agenor, filho de Pramo, depois fugido, afastando-
se da cidade. Aquiles investiu e teria perseguido sua suposta vtima at muito 
longe das muralhas, mas percebeu que fora iludido, quando Apolo se revelou, e 
desistiu da perseguio. 
Depois, porm, de todos terem fugido para dentro da cidade, Heitor 
permaneceu do lado de fora, disposto a combater. Seu velho pai chamou-o das 
muralhas, implorando-lhe que se retirasse, sem tentar o encontro. Tambm 
Hcuba, sua me, lhe fez igual apelo, mas tudo em vo. 
- Como poderei eu, sob cujo comando o povo saiu para travar o combate 
de hoje, onde tantos caram - disse ele a si mesmo -, procurar proteo contra 
um nico inimigo? Mas, e se eu oferecer-lhe a entrega de Helena e de todos os 
nossos tesouros? No!  demasiadamente tarde. Ele nem chegaria a ouvir-me: 
matar-me-ia enquanto eu estivesse falando. 
Enquanto assim murmurava, Aquiles aproximou-se, terrvel como Marte, 
com a armadura flamejando ao avanar. Vendo-o, o corao de Heitor fraquejou 
e ele fugiu. Aquiles o perseguiu velozmente. Os dois correram, conservando-se 
perto das muralhas, at terem feito trs vezes a volta da cidade. Sempre que 
Heitor se aproximava mais da muralha, Aquiles o interceptava, obrigando-o a 
ampliar o crculo. Apolo, porm, sustentou as foras de Heitor, no permitindo 
que ele fraquejasse. Palas, ento, tomando a forma de Defobo, o mais valente 
dos irmos de Heitor, apareceu, de sbito, ao lado deste. Heitor viu-o com 
satisfao e, assim fortalecido, deteve a fuga e virou-se para enfrentar Aquiles, 
atirando sua lana, que atingiu o escudo do adversrio e caiu. Heitor voltou-se, 
para receber outra lana das mos de Defobo, mas este j desaparecera. Heitor 
compreendeu, ento, e exclamou: 
- Ah! No resta dvida de que chegou a hora da minha morte! 
Pensei que Defobo estivesse ao meu lado, mas Palas me iludiu e ele est 
em Tria. No cairei sem glria, porm. 

Assim dizendo, desembainhou a espada e correu ao combate. Aquiles, 
protegido pelo escudo, esperou sua aproximao e, quando o viu ao 
alcance de sua lana, escolhendo com o olhar uma parte vulnervel, onde a 



 

 
armadura deixa o pescoo descoberto, visou-a. Heitor caiu mortalmente ferido, e 
disse, com a voz fraca: 
- Poupa meu corpo! Permite que meus pais o resgatem e que eu receba 
os ritos fnebres por parte dos filhos e filhas de Tria. 
Ao que Aquiles respondeu: 
- Co! No fales em resgate nem peas piedade a mim, a quem tanto 
fizeste sofrer. No! Podes estar certo de que coisa alguma livrar dos ces tua 
carcaa. Eu recusaria entreg-la, ainda que fossem oferecidos vinte resgates e 
teu peso em ouro. 
Assim dizendo, retirou a armadura do cadver e, amarrando-o pelos ps, 
com cordas, ao seu carro, arrastou-o, para c e para l, diante da cidade. 
Que palavras poderiam exprimir o pesar do Rei Pramo e da Rainha 
Hcuba ao verem tal coisa? Dificilmente contiveram o velho rei, que queria 
sair. Pramo atirou-se ao p e implorou a cada um, pelo nome, que o 
deixasse ir. A dor de Hcuba no foi menos violenta. Os cidados rodearam os 

O Rapto de Helena 

Benozzo Gozzoli 

NATIONAL GALLERY, LONDRES 





dois, chorando. As lamentaes chegaram aos ouvidos de Andrmaca, esposa de 
Heitor, que estava sentada, trabalhando no meio de suas servas, e ela, 
pressentindo a desgraa, correu  muralha. Ao ver o espetculo, quis atirar-se do 
alto das muralhas, mas desmaiou e caiu nos braos de suas servas. Voltando a si, 
lamentou seu destino, pintando para si mesma o quadro de seu pas arruinado, 
ela prpria cativa e seu filho dependendo, para comer o po, da caridade de 
estranhos. 
Depois de se terem vingado do matador de Ptroclo, Aquiles e os outros 
gregos trataram de prestar as devidas honras fnebres a seu amigo. Foi erguida 
uma fogueira e o corpo queimado com toda a solenidade. Seguiram-se 
competies de fora e destreza, corridas de carro, lutas e provas de arco e 
flecha. Depois disso os chefes reuniram-se no banquete fnebre, antes de irem 
repousar. Aquiles, porm, no compartilhou do banquete nem do sono. A 
lembrana do amigo que perdera o mantinha acordado, recordando os labores e 
perigos compartilhados, na batalha e no mar. Antes de amanhecer, deixou sua 
tenda e, atrelando ao carro os velozes corcis, amarrou, atrs do carro, o corpo 
de Heitor, que arrastou, fazendo-o dar duas voltas em torno do tmulo de 
Ptroclo e deixando-o, afinal, estendido no p. Apolo, porm, no permitiu que 
o corpo fosse dilacerado ou desfigurado, apesar de tudo isso, e conservou-o livre 
de decomposio. 

Enquanto Aquiles aplacava sua raiva ultrajando a tal ponto o valente 
Heitor, Jpiter, compadecido, chamou Ttis  sua presena e disse-lhe para 
procurar o filho e conseguir que ele entregasse o corpo de Heitor a seus amigos. 
Em seguida, Jpiter enviou ris ao rei Pramo, a fim de anim-lo a procurar 
Aquiles e implorar a entrega do corpo de seu filho. ris transmitiu a mensagem e 
Pramo disps-se imediatamente a obedecer. Abriu seu tesouro e retirou ricos 
ornamentos e vesturios, com dez talentos em ouro, dois esplndidos trips e 
uma taa de ouro de acabamento impecvel. Em seguida, chamando os filhos, 
encarregou-os de preparar sua liteira e nela colocar os diversos artigos que 
seriam entregues a Aquiles para o resgate. Quando tudo ficou pronto, o velho rei 
com um nico companheiro to idoso quanto ele prprio, o arauto Ideu, saiu das 
portas, ali deixando sua esposa Hcuba e seus amigos, que o lamentavam, pois 
tinham como certa a sua morte. 



Jpiter, porm, contemplando compadecidamente o venervel rei, enviou 
Mercrio para servir-lhe de guia e protetor. Mercrio, tomando a forma de um 
jovem guerreiro, apresentou-se aos dois velhos e, enquanto, ao v-lo, os dois 
hesitavam, sem saber se deveriam fugir ou ficar, o deus aproximou-se e, 
segurando a mo de Pramo, ofereceu-se para servir-lhe de guia at a tenda de 
Aquiles. Pramo aceitou prazerosamente e, subindo  carruagem, Mercrio 
pegou as rdeas e levou-os  tenda de Aquiles. Com sua varinha encantada, o 
deus fez adormecer todos os guardas e, sem dificuldade, levou Pramo para 
dentro da tenda onde Aquiles se achava sentado, ao lado de dois de seus 
guerreiros. O velho rei atirou-se aos seus ps e beijou aquelas terrveis mos que 
haviam matado tantos de seus filhos. 
- Pensa,  Aquiles - exclamou -, em teu prprio pai, j velho como eu 
e trmulo pelos muitos anos que viveu. Talvez agora mesmo algum dos chefes 
vizinhos o persiga e no h ningum que possa socorr-lo em sua aflio. No 
entanto, sem dvida, sabendo que Aquiles ainda vive, ele se regozija, 
esperanoso de que um dia contemplar de novo o seu rosto. Nenhum consolo, 
contudo, posso esperar, eis que os mais valentes de meus filhos, a flor de lion, 
todos caram. Ainda me restava um todavia, um mais do que os outros a 
proteo da minha velhice e que, combatendo por sua ptria, foi morto por ti. 
Venho para resgatar seu corpo, trazendo comigo uma soma de valor inestimvel. 
Aquiles! Reverencia os deuses! Lembra-te de teu pai! Em seu nome, mostra 
compaixo por mim! 
Estas palavras comoveram Aquiles, que chorou, lembrando-se tanto do 
pai ausente como do amigo perdido. Apiedado  vista da barba e dos cabelos 
brancos de Pramo, levantou-o do cho e assim falou: 
- Pramo, sei que aqui chegaste conduzido por algum deus, pois, sem 
ajuda divina, nenhum mortal, mesmo no ardor de sua juventude, ter-se-ia 
atrevido a tentar. Atendo ao teu pedido, levado a isso pelo evidente desejo de 
Jove. 

Assim dizendo, levantou-se, saiu acompanhado pelos dois amigos e 
descarregou a liteira, deixando dois mantos e uma tnica para cobrir o 
cadver, que colocaram na liteira, cobrindo-o com os panos, para que no 
voltasse descoberto a Tria. Depois, Aquiles mandou de volta o velho rei 



acompanhado de seus servidores, tendo, primeiro, se comprometido a 
estabelecer uma trgua de doze dias para os funerais. 
Quando a liteira se aproximou da cidade e foi vista das muralhas, o povo 
acorreu para contemplar mais uma vez o rosto de seu heri. Destacando-se entre 
todos, vieram a me e a esposa de Heitor, que reiniciaram seus lamentos,  vista 
do corpo sem vida. Todo o povo chorou com elas e, at esconder-se o sol, no 
houve pausa nem diminuio em sua dor. 
No dia seguinte, foram feitos os preparativos para os solenes funerais. 
Durante nove dias, o povo ajuntou lenha e ergueu a fogueira, e no dcimo dia ali 
foi colocado o corpo e ateado fogo, enquanto Tria inteira rodeava a pira 
funerria. Quando o corpo se consumiu inteiramente, as cinzas foram regadas de 
vinho, os ossos recolhidos e colocados numa urna de ouro, que foi enterrada no 
cho, tendo por cima uma pilha de pedras. 
Ao seu heri Tria rendeu tais honras 

E tranqila dormiu de Heitor a sombra.2 

2 Versos de Homero, apresentados pelo original ingls em verso de Pope. 





 CAPTULO XXVIII 
A QUEDA DE TRIA 
REGRESSO DOS GREGOS 
AGAMNON, ORESTES E ELECTRA 
A QUEDA DE TRIA 
A "Ilada" termina com a morte de Heitor e  na "Odissia" e em poemas 
posteriores que ficamos sabendo o destino dos outros heris. Tria no caiu 
imediatamente  morte de Heitor, mas, recebendo ajuda de novos aliados, ainda 
continuou sua resistncia. Um desses aliados foi Mmnon, o prncipe etope cuja 
histria j contamos. Outra aliada foi Pentensilia, rainha das Amazonas, que 
chegou  frente de um bando de guerreiras. Todas as autoridades afirmam sua 
bravura e o terrvel efeito do seu grito de guerra. Pentensilia matou muitos dos 
mais bravos guerreiros, mas afinal foi morta por Aquiles. Quando, porm, o 
heri se debruou sobre o cadver da inimiga cada e contemplou sua beleza e 
mocidade, lamentou amargamente a vitria. Tersites, um fanfarro insolente, 
ridicularizou seu pesar e foi por isso morto pelo heri. 
Por acaso, Aquiles viu Polixena, filha do rei Pramo, talvez por 
ocasio da trgua que concedera aos troianos para os funerais de Heitor. 
Ficou cativado por seu encanto e disps-se a usar sua influncia com os 
gregos para concesso da paz a Tria, a fim de despos-la. Enquanto estava 
no templo de Apolo, negociando o casamento, Pris lanou contra ele uma 
seta envenenada, que, guiada por Apolo, feriu-o no calcanhar, o nico ---






lugar vulnervel de seu corpo, pois sua me, Ttis, o mergulhara, quando 
criana, no Rio Estige, que o tornara invulnervel, exceto no calcanhar, por onde 
a me o segurava.1 


1 A referncia  invulnerabilidade de Aquiles no se encontra em Homero e est em desacordo com a verso do 
poeta, pois, se fosse invulnervel, Aquiles no precisaria da armadura celestial. 

O corpo de Aquiles, to traioeiramente morto, foi recuperado por Ajax e 
Ulisses. Ttis aconselhou os gregos a entregarem a armadura do heri quele de 
todos os sobreviventes que fosse julgado mais digno de us-la. Os nicos 
pretendentes foram Ajax e Ulisses. Foi escolhido um grupo seleto de outros 
chefes para decidir. A armadura foi oferecida a Ulisses, ficando a sabedoria, 
assim, colocada acima da bravura, o que levou Ajax ao suicdio. No lugar onde 
seu sangue molhou a terra, nasceu uma flor, chamada jacinto, que traz nas folhas 
as duas primeiras letras do nome de Ajax, em grego, AI, e que significam um 
lamento. Assim, Ajax, juntamente com o jovem Jacinto,  
pretendente  honra de ter dado origem 
quela flor. H uma espcie de 
esporinha que representa o jacinto 
dos poetas, conservando a 
lembrana do acontecimento, o 
Delphinium Ajacis. 

Tinha-se descoberto, ento, 
que Tria s poderia ser tomada 
com a ajuda das setas de 
Hrcules que estavam em 
poder de Filoctetes, o amigo 
que estivera por ltimo com 
Hrcules e que acendera a pira 
funerria. Filoctetes juntara-se  
expedio grega contra Tria, 
mas ferira acidentalmente o p 
com uma das setas envenenadas e o 
cheiro desprendido pela ferida era to 
desagradvel que seus companheiros o 
levaram para a Ilha de Lemnos e l o 
deixaram. Diomedes foi mandado para 
convenc-lo a voltar ao exrcito e foi bem-
sucedido. Filoctetes foi curado de sua ferida por 
Machaon, e Paris foi a primeira vtima das 
setas fatais. Em sua desgraa, Pris lembrou-
se de algum de que se esquecera nas pocas 
venturosas. Era a ninfa Enone, com quem se casara 

Aquiles assassinando Pentensilia 

Vaso grego 

MUSEU BRITNICO, 

LONDRES 



quando jovem e a quem abandonara pela beleza fatal de Helena. Enone, 
lembrando-se dos ultrajes que sofrer, negou-se a tratar do ferimento e Paris 
voltou a Tria, e morreu. Enone arrependera-se logo e apressou-se em seguir 
Paris, com os remdios, mas chegou demasiadamente tarde, e enforcou-se de 
pesar. 
Havia em Tria uma celebrada imagem de Minerva, chamada o Paldio, 
que se dizia ter cado do cu, acreditando-se que a cidade no seria tomada 
enquanto essa imagem permanecesse dentro dela. Ulisses e Diomedes entraram 
na cidade disfarados e apoderaram-se do Paldio, levando-o para o 
acampamento grego. 
Tria, contudo, ainda resistia, e os gregos comearam a desanimar de 
conquist-la pela fora e, a conselho de Ulisses, resolveram recorrer a um 
estratagema. Fingiram estar fazendo preparativos para abandonar o stio, e uma 
parte dos navios foi retirada e escondida atrs de uma ilha vizinha. Os gregos 
construram, ento, um imenso cavalo de pau, que fingiram ser um sacrifcio 
oferecido a Minerva, mas que de fato estava cheio de homens armados. O 
restante dos gregos embarcou, ento, em seus navios, que zarparam, como se 
estivessem partindo definitivamente. Os troianos, vendo que o acampamento 
fora levantado e a frota partira, chegaram  concluso de que o inimigo 
abandonara o stio. As portas foram abertas e toda populao saiu para gozar a 
liberdade h muito negada de passear  vontade no local onde estivera o 
acampamento. O grande cavalo foi o principal objeto de curiosidade. Todos 
queriam saber qual seria a sua finalidade. Alguns sugeriam que ele fosse levado 
para dentro da cidade, como trofu, ao passo que outros se mostravam receosos 
dele. 
Enquanto hesitavam, Laocoonte, o sacerdote de Netuno, exclamou: 

- Que loucura  esta, cidados? No aprendestes bastante a respeito da 
solrcia grega para vos prevenirdes contra ela? Quanto a mim, temo os gregos, 
mesmo quando oferecem presentes.2 
Assim dizendo, atira ao flanco do cavalo sua lana, que o atingiu, e um 
som cavo ressoou como um gemido. O povo talvez tivesse seguido, ento, 
o seu conselho e destrudo o fatal cavalo e o que ele continha, se, justamente 
nesse momento, no tivesse surgido um grupo de pessoas, arrastando 
um homem que parecia ser um prisioneiro grego. Estupefato de terror, 

2 Timeos Danaos et dona ferentes - Virglio. 

 



 

 


Laocoonte El Greco 

NATIONAL GALLERY, 

WASHINGTON 

esse homem foi levado perante os chefes, que o tranqilizaram, prometendo 
poupar sua vida, com a condio de que ele falasse a verdade, ao responder s 
perguntas que lhe fossem feitas. O prisioneiro informou que era grego, que se 
chamava Snon e que, em conseqncia da malcia de Ulisses, fora 
abandonado pelos companheiros. Com referncia ao cavalo de pau, disse que 
se tratava de uma oferta a Minerva e que seu tamanho descomunal tinha 
expressamente a finalidade de impedir que fosse levado dentro da cidade, 
pois o profeta Cauchas predissera que, se os troianos se apoderassem dele, 
teriam assegurado seu triunfo sobre os gregos. Estas palavras fizeram mudar 
o rumo da opinio do povo, que se pusera a imaginar quais seriam os 
melhores meios para assegurar a posse do monstruoso cavalo e dos augrios 
favorveis com ele relacionados, quando ocorreu um prodgio que no deixou 
mais lugar a dvida alguma. Apareceram, avanando sobre o mar, duas 
imensas serpentes, que chegaram  terra, fazendo a multido fugir em todas 
as direes. As serpentes avanaram, ento, diretamente para o lugar onde 



se achava Laocoonte com seus dois filhos. A primeira atacou as crianas, 
enroscando-se em torno de seus corpos e exalando em suas faces a respirao 
mortfera. Tentando salv-las, o pai foi, logo em seguida, apanhado e envolto 
pelas dobras das serpentes. Lutou para desvencilhar-se, mas elas venceram todos 
os seus esforos, estrangulando-o e as crianas, em suas dobras peonhentas. 
Esse acontecimento foi considerado como clara indicao do desprazer dos 
deuses ante a maneira irreverente com que Laocoonte se referira ao cavalo de 
madeira, que ningum mais hesitava em considerar um objeto sagrado, 
preparando-se todos para conduzi-lo  cidade, solenemente como competia. Isso 
foi feito ao som de cantos e aclamaes triunfais, e o dia terminou festivamente. 
 noite, os homens armados que se encontravam dentro do cavalo, tendo sido 
libertados pelo traioeiro Snon, abriram as portas da cidade aos seus amigos, 
que haviam voltado sob a proteo da noite. A cidade foi incendiada; a 
populao, entregue ao festim e ao sono, passada a fio de espada e Tria 
completamente vencida. 
Um dos mais clebres grupos esculturais existentes  o que representa 
Laocoonte e seus filhos esmagados pelas serpentes e cujo original se encontra no 
Vaticano. Os versos seguintes so do "Childe Harold" de Byron: 
Voltando ao Vaticano, pode ver 
A tortura cruel de Laocoonte 
Que o sofrimento humano significa. 
Amor paterno e as dores dos mortais 
Com a coragem de deuses recebida. 
Intil lutai Intil resistncia! 
As duras roscas da cruel serpente 
O velho esmaga. 
Imobiliza os membros. 
Tira-lhe o ar o peonhento elo. 
Os poetas cmicos tambm costumam lanar mo de exemplos clssicos. 
Os versos seguintes so do poema "Descrio de um temporal na cidade", de 
Swift: 





Em poltrona espaosa acomodado, 
Ouve a chuva bater sobre o telhado 
E mau grado, por vezes a vaidade, 
Treme por dentro ouvindo a tempestade. 
Foi assim quando, em Tria, Laocoonte 
O cavalo de pau feriu de fronte, 
Os dez heris da Grcia, muito aflitos, 
Ao rudo do ferro, deram gritos. 


O rei Pramo viveu bastante para ver a queda do seu reino e foi morto no 
fim daquela noite fatal em que os gregos conquistaram a cidade. Ele se armou e 
estava prestes a se misturar com os combatentes, mas foi impedido por Hcuba, 
a velha rainha, que o convenceu a refugiar-se, com ela e suas filhas, no altar de 
Jpiter. Enquanto ali estavam, seu filho mais moo Polites, perseguido por Pirro, 
filho de Aquiles, entrou correndo, ferido e expirou aos ps de seu pai. Pramo, 
indignado, atirou, com as mos dbeis, sua lana contra Pirro3 e foi morto por 
este. 
A rainha Hcuba e sua filha Cassandra foram levadas como cativas para a 
Grcia. Cassandra fora amada por Apolo, que lhe dera o dom da profecia. 
Depois, porm, irritando-se com ela, tornara intil aquele dom, determinando 
que ningum acreditaria em suas previses. Polixena, outra filha, que tinha sido 
amada por Aquiles, foi exigida pela alma do guerreiro e sacrificada pelos gregos 
sobre o seu tmulo. 
MENELAU E HELENA 


3 A exclamao de Pirro "No  essa a ajuda, nem tais defensores que a ocasio requer", tornou-se proverbial. 
Non tali auxilio nec defensoribus istis. Tempus eget - Virglio. 

Os leitores devem estar interessados em saber o destino de Helena, a bela, 
mas causadora de tantos morticnios. Com a queda de Tria, Menelau recuperou a 
esposa, que no deixara de am-lo, embora tivesse se curvado ao poder de Vnus 
e o abandonado por outro. Depois da morte de Pris, ela ajudara os gregos, 
secretamente, em diversas ocasies, em particular quando Ulisses e Diomedes 
entraram na cidade disfarados para roubar o Paldio. Helena vira e reconhecera 



Ulisses mas mantivera segredo e ajudara os gregos a se apoderarem da 
imagem. Desse modo, reconciliou-se com o marido, e os dois foram os 
primeiros a deixar as praias de Tria, para voltar  terra natal. Tendo, porm, 
incorrido no desprazer dos deuses, foram arrastados por tempestades de costa 
em costa do Mediterrneo, visitando Chipre, a Fencia e o Egito. No Egito, 
foram hospitaleiramente acolhidos e receberam ricos presentes, cabendo a 
Helena uma roca de ouro e um cesto com rodas, destinado a guardar a l e os 
carretis para os trabalhos de fiao da rainha. 
Deyer, em seu poema "Velocino", faz a seguinte aluso ao episdio: 
Muitas se apegam ainda  velha roca 
E mesmo a caminhar o fuso movem. 
......................................................... 
Veio de antigos, gloriosos dias, 
A arte de fiar, quando do Egito 
O prncipe ofereceu  bela Helena 
Uma roca de ouro. 
Milton, tambm, faz aluso a uma famosa receita para uma bebida 
revigorante, chamada Nepente, que a rainha egpcia ofereceu a Helena: 
No aquele Nepente que, no Egito, 
De Tone a esposa ofereceu a Helena, 
Que alegra os tristes e apazigua a sede. 
Do "Comus" 


Finalmente, Menelau e Helena chegaram sos e salvos a Esparta, 
reassumiram sua dignidade real e viveram e reinaram com esplendor. Quando 
Telmaco, o filho de Ulisses, chegou a Esparta, procurando seu pai, encontrou 
Menelau e Helena celebrando o casamento de sua filha Hermone com 
Neoptolemus, filho de Aquiles. 



AGAMNON, ORESTES E ELECTRA 
Agamnon, o comandante-chefe dos gregos, irmo de Menelau, e que fora 
arrastado  guerra para vingar o infortnio de seu irmo, e no o prprio, no foi 
to feliz. Durante sua ausncia, sua esposa, Clitenestra, no lhe fora fiel e, 
quando seu regresso foi anunciado, ela e seu amante, Egisto, tramaram um plano 
para elimin-lo, e o assassinaram durante o banquete realizado para comemorar 
o seu regresso. 
Os conspiradores pretendiam matar tambm o filho de Agamnon, 
Orestes, ainda muito criana para causar apreenso, mas que poderia, depois de 
adulto, tornar-se perigoso. Electra, sua irm, salvou-lhe a vida, mandando-o, 
secretamente, para junto de seu tio Estrfius, rei da Fcida. No palcio de 
Estrfius, Orestes foi criado com o filho do rei, Plades, com o qual se uniu por 
uma amizade to forte que se tornou proverbial. Electra, freqentemente, 
relembrava ao irmo, por meio de mensagens, o dever de vingar a morte do pai e 
quando se tornou homem, Orestes consultou o orculo de Delfos, que fortaleceu 
sua inteno nesse sentido. Ele se dirigiu, ento, disfarado, a Argos, fingindo 
ser um mensageiro de Estrfius, encarregado de anunciar a morte de Orestes e 
de conduzir as cinzas do morto numa urna funerria. Depois de visitar o tmulo 
do pai e nele sacrificar, de acordo com os ritos dos antigos, deu-se a conhecer a 
sua irm Electra e, pouco depois, matou tanto Egisto como Clitenestra. 

Esse ato revoltante, o assassinato da me pelo prprio filho, embora 
atenuado pela culpabilidade da vtima e pela determinao expressa dos 
deuses, no deixou de provocar entre os antigos a mesma revolta que nos 
causaria. As Eumnides, divindades da vingana, apossaram-se de Orestes 
e o levaram, sem descanso, de terra em terra. Plades acompanhou-o em 
suas peregrinaes, velando por ele. Finalmente, respondendo a uma 
segunda consulta, o orculo o mandou a Turis, na Ctia, para dali trazer 
uma imagem de Diana, que se acreditava ter cado do cu. Orestes e 
Plades dirigiram-se, portanto, para Turis, cujos brbaros habitantes 
tinham o costume de sacrificar  deusa todos os estrangeiros que lhes 
caam nas mos. Os dois amigos foram aprisionados e levados para o templo, 
a fim de serem sacrificados. A sacerdotisa de Diana, porm, no era outra 



seno Ifignia, a irm de Orestes, que, como devem se lembrar os nossos 
leitores, fora arrebatada por Diana, no momento em que ia ser sacrificada. 
Sabendo, pelos prisioneiros, quem eram eles, Ifignia deu-se a conhecer e os trs 
fugiram com a imagem da deusa, e voltaram a Micena. 
Orestes, contudo, no se livrou da vingana das Ernias. Finalmente, 
refugiou-se em Atenas, buscando a proteo de Minerva, que a concedeu e 
designou o tribunal do Arepago para decidir seu destino. As Ernias fizeram a 
acusao, e Orestes invocou como justificativa a ordem do orculo de Delfos. 
Tendo os votos do tribunal se dividido igualmente, Orestes foi absolvido pelo 
voto de Minerva. 
No Canto IV do "Childe Harold", Byron faz aluso  histria de Orestes: 
Tu que, jamais, jamais, erros humanos 
O Nmesis, poupaste do castigo, 
Tu que invocaste as Frias nos abismos 
E atormentaste Orestes, sem piedade, 
Em teu antigo reino, hoje te invoco, 
Levanta-te do p em que tu dormes! 
Uma das cenas mais patticas da tragdia clssica  aquela em que 
Sfocles representa o encontro de Orestes e Electra, quando ele regressa da 
Fcida. Orestes, tomando Electra por uma das servas, e, querendo manter em 
segredo sua chegada, at  hora da vingana, apresenta a urna em que, 
supostamente, se encontravam seus restos mortais. Electra, acreditando que ele 
estivesse realmente morto, recebe a urna, aperta-a nos braos e lamenta-se, com 
palavras repassadas de ternura e desespero. 
Milton diz, em um dos seus sonetos: 
Do poeta de Electra a triste ria 
Teve o dom de salvar da morte certa 
De Atenas a muralha milenria. 


Essa aluso se refere ao fato de que, em certa ocasio, a cidade de Atenas 
esteve  merc de seus inimigos espartanos e foi proposta sua destruio,



mas a idia foi rejeitada, graas  citao acidental, feita por algum, de um coro 
de Eurpedes. 
TRIA 
Depois de tantas referncias a Tria e aos seus heris, talvez o leitor fique 
surpreendido ao saber que a localizao exata da famosa cidade , at agora, 
objeto de controvrsia. H alguns vestgios de tmulos na plancie que mais de 
perto corresponde  descrio feita por Homero e pelos gegrafos antigos, mas 
no existe nenhuma outra prova da existncia da grande cidade. 
Byron assim descreve o aspecto atual da regio: 
O vento sopra forte, e o mar irado 
Ruge na escurido. 
A noite cobre o solo j regado 
Por tanto sangue em vo. 
Da luz de Tria, a Pramo to cara, 
Um raio sequer brilha. 
De tudo resta s o que cantara 
O vale cego da rochosa ilha. 


Da "Noiva de Abidos". 



 CAPTULO XXIX 
O REGRESSO DE ULISSES 
---


V 



oltaremos, agora, a ateno para o romntico poema da Odissia, que 
narra as peregrinaes de Ulisses (Odysseus, em grego), em seu 
regresso de Tria ao seu reino de taca. 
Partindo de Tria, os navios tocaram primeiro em Ismarus, cidade dos 
ciconianos, onde, numa escaramua com os habitantes, Ulisses perdeu seis 
homens de cada navio. Partindo dali, a frota foi castigada por uma tempestade, 
que a manteve nove dias no mar, at que foi alcanado o Pas dos Comedores de 
Ltus, onde Ulisses, depois de fazer aguada, mandou trs de seus homens 
descobrir quem eram os habitantes. Estes acolheram os marinheiros 
hospitaleiramente e ofereceram-lhes seu prprio alimento, o ltus. O efeito desse 
alimento era tal que aquele que o ingeria se esquecia inteiramente de sua prpria 
terra e desejava permanecer para sempre naquele pas. Somente pela fora, 
Ulisses conseguiu levar os marinheiros e teve, mesmo, de amarr-los nos navios. 
Tennyson, no poema "Comedores de Ltus", exprimiu, de maneira 
encantadora, a impresso de sonho e embriaguez que, segundo se diz, o ltus 
provoca: 
Quanto era doce, ali, de olhos semicerrados, 

Ficar quase sonhando, e inda quase acordados! 



O murmrio sutil dos regatos velozes 
Ouvir, muito de leve, e o eco de outras vozes 
Ouvir discretamente, ouvir quase sonhando. 
O ltus ingerindo, o ltus mastigando, 
Da praia contemplar a curva sinuosa 
Onde a espuma do mar se estende, vagarosa, 
Votar o corao e a alma, inteiramente, 
A uma melancolia doce e complacente. 
Reviver, na memria, tantas antigas vidas. 
Da infncia recordar as figuras queridas, 
Que to vivas parecem, embora sejam s 
Numa urna de bronze um punhado de p. 
Chegaram, em seguida, ao Pas dos Ciclopes, gigantes que habitavam 
uma ilha de que eram os nicos possuidores. "Ciclope" quer dizer "olho 
redondo" e aqueles gigantes eram assim chamados porque tinham um s olho, 
colocado no meio da testa. Moravam em cavernas e alimentavam-se com o que 
a ilha produzia e com os produtos de seus rebanhos, pois eram pastores. 
Ulisses deixou ancorados os navios, com exceo de um, em que foi explorar a 
Ilha dos Ciclopes,  procura de provises. Desembarcou com os companheiros, 
levando uma jarra de vinho para oferecer de presente e, encontrando uma 
grande caverna, l entrou. A caverna estava vazia, e Ulisses e seus 
companheiros examinaram-na, verificando que estava repleta de produtos 
pastoris: grande quantidade de leite, jarros e terrinas de leite, cordeirinhos e 
cabritos, tudo em muita ordem. Logo depois, chegou o dono da caverna, 
Polifemo, carregando um imenso feixe de lenha, que atirou diante da entrada 
da gruta. Em seguida, tocou para dentro da caverna as ovelhas e cabras que 
seriam ordenhadas e fechou a entrada da gruta com uma pedra enorme, que 
vinte bois no conseguiriam arrastar. Sentou-se, depois, e ordenhou as ovelhas, 
preparando uma parte do leite para ser transformada em queijo e deixando a 
outra parte em estado natural, para ser utilizada como bebida. Voltando, ento, 
o grande olho, viu os estrangeiros e perguntou-lhes, com maus modos, quem 
eram e de onde haviam vindo. Ulisses respondeu, com muita humildade, que 

 



 

Ulisses e Circe 

(detalhe) 

P. Tibaldi 



eram gregos, da grande expedio que, recentemente, tanta glria alcanara na 
conquista de Tria, e que se encontravam agora de volta  ptria; terminou 
implorando hospitalidade, em nome dos deuses. Polifemo no se dignou de 
responder, mas, estendendo o brao, agarrou dois dos gregos, que atirou contra a 
parede da caverna, esmagando-lhes a cabea. Tratou, ento, de devor-los, com 
grande deleite, e, aps a lauta refeio, estendeu-se no cho da gruta para 
dormir. Ulisses teve tentao de aproveitar a oportunidade para cravar a espada 
no gigante enquanto dormia, mas refletiu que isso equivaleria  destruio 
inevitvel dele prprio e de seus companheiros, pois a pedra com que o gigante 
havia fechado a entrada da caverna no poderia ser removida por eles que, 
assim, ficariam irremediavelmente presos. 
Na manh seguinte, o gigante apanhou mais dois gregos e devorou-os da 
mesma maneira que a seus companheiros, saboreando toda a carne at nada mais 
restar. Em seguida, retirou a pedra da entrada, saiu conduzindo seus rebanhos e 
tornou a colocar a pedra cuidadosamente. Ulisses tratou, ento, de planejar como 
se vingaria da morte dos amigos e conseguiria fugir com os companheiros 
sobreviventes. Fez seus homens prepararem uma pesada haste de madeira 
cortada pelo ciclope para servir de cajado e que eles haviam encontrado na 
caverna. Aguaram a extremidade dessa haste e a temperaram no fogo, 
escondendo-a depois sob a palha que cobria o cho da gruta. Foram escolhidos, 
ento, quatro dos homens mais audaciosos, aos quais se juntou Ulisses para 
formar um grupo de cinco. O ciclope voltou  noitinha, retirou a pedra da 
entrada e recolheu o rebanho, como de costume. Depois de ordenhar as ovelhas 
e fazer seus preparativos, como anteriormente, agarrou mais dois companheiros 
de Ulisses, esmagou-lhes o crnio e fez sua refeio, como das outras vezes. 
Depois que ceara, Ulisses aproximou-se dele e ofereceu-lhe o jarro de vinho, 
dizendo: 
- Ciclope, isto  vinho. Prova e bebe depois de tua refeio de carne 
humana. 
Polifemo pegou a vasilha e bebeu, e, tendo gostado imensamente, pediu 
mais. Ulisses deu-lhe mais bebida, com o que o gigante ficou to satisfeito que 
prometeu que ele seria o ltimo a ser devorado, e perguntou-lhe o nome, ao que 
Ulisses respondeu: 





- Meu nome  Ningum. 
Depois da ceia, o gigante deitou-se para descansar e no tardou a 
adormecer. Ento, Ulisses, com seus quatro companheiros escolhidos, colocou 
no fogo a extremidade do espeto que haviam feito, at que esta se transformou 
num carvo em brasa, e, depois, colocando a haste bem exatamente sobre o 
nico olho do gigante, enterraram-na profundamente e a giraram, como um 
carpinteiro faz com uma pua. Os gritos do monstro ecoaram pela caverna, e 
Ulisses com seus companheiros mal tiveram tempo de afastar-se de seu caminho 
e esconderem-se na gruta. Aos gritos, Polifemo chamou todos os ciclopes que 
moravam nas cavernas em torno, longe e perto. Os ciclopes acorreram e 
perguntaram que sofrimento horrvel provocara tanto barulho e interrompera seu 
sono. 
- Amigo - respondeu Polifemo -, estou morrendo e Ningum me 
feriu. 
- Se ningum te feriu - responderam os outros ciclopes - foste ferido 
por Jove. Tens de resignar-te. 
Assim dizendo, retiraram-se, deixando Polifemo entregue  sua dor. 
Na manh seguinte, o ciclope afastou a pedra da entrada, a fim de deixar 
que o gado sasse para pastar, mas colocou-se junto da entrada, disposto a 
impedir que Ulisses e seus companheiros escapassem no meio do rebanho. 
Ulisses, porm, mandou seus homens disporem os carneiros em fila de trs, 
arreando-os com vime que haviam encontrado no cho da caverna, e fazendo 
com que os gregos se suspendessem sob os carneiros que iam no meio, de 
maneira a ficarem protegidos pelos animais que iam dos lados. Enquanto 
passavam, o gigante apalpava as costas e os lados dos carneiros, mas no se 
lembrou de apalpar-lhes a barriga. Quando se afastaram alguns passos da 
caverna, Ulisses e seus amigos livraram-se dos carneiros e levaram uma boa 
parte do rebanho at a praia, para seu barco. Embarcaram os animais 
apressadamente, depois afastaram-se da praia e, quando j se encontravam a 
uma distncia suficiente para evitar o perigo, Ulisses gritou: 
- Ciclope, os deuses castigaram bem tuas atrocidades. Fica sabendo que 
 a Ulisses que deves a vergonhosa perda de tua vista. 

Ouvindo isto, o ciclope agarrou um rochedo que se projetava da 
encosta da montanha, e, arrancando-o, atirou com toda a fora na direo da 



 

Ulisses e as Ninfas 

Herbert J. Draper 

FERRENS ART GALLERY, 

HULL 

voz. A enorme pedra quase roou a popa do barco e sacudiu as guas do 
oceano, que levantaram o navio em direo  terra, quase o fazendo ser 
tragado pelas ondas. Quando, com grande dificuldade, os gregos 
conseguiram afastar-se da costa, Ulisses disps-se a chamar de novo o 
gigante, mas foi obstado pelos amigos. Ele no se absteve, no entanto, de 
fazer com que o gigante soubesse que havia errado o projtil, mas esperou at 
que tivessem chegado a uma distncia mais segura que a anterior. O gigante 



respondeu com pragas, mas Ulisses e seus amigos remaram vigorosamente e, em 
breve, se juntaram aos companheiros. 
A escala seguinte de Ulisses foi a Ilha de olo, monarca a quem Jpiter 
confiara o governo dos ventos, que ele desencadeava ou retinha  vontade. olo 
acolheu Ulisses hospitaleiramente e, por ocasio de sua partida, ofereceu-lhe, 
dentro de um saco de couro com fechadura de prata, os ventos que poderiam ser 
prejudiciais ou perigosos, ordenando que ventos favorveis levassem os barcos 
rumo  ptria de Ulisses. Por nove dias, os navios velejaram  frente do vento e, 
durante todo esse tempo, Ulisses esteve no leme, sem dormir. Afinal, 
inteiramente exausto, adormeceu. Enquanto dormia, a tripulao discutiu a 
respeito do misterioso saco de couro e chegou  concluso, que ele devia conter 
tesouros oferecidos pelo hospitaleiro rei olo a seu comandante. Levados pela 
tentao de garantir uma parte desses tesouros para eles prprios, os marinheiros 
abriram o saco de couro e, imediatamente, os ventos escaparam. Os navios 
foram afastados de sua direo e voltaram  Ilha de onde haviam partido pouco 
antes. olo ficou to indignado com a insensatez dos marinheiros, que se negou 
a ajud-los de novo e, assim, eles foram obrigados a contar apenas consigo 
mesmos, seguindo viagem pela fora dos remos. 
A aventura seguinte deu-se com a brbara tribo dos Lestrigonianos. Os 
barcos entraram todos no porto, atrados por sua aparncia de segurana, cercado 
de terra por todos os lados; apenas Ulisses ancorou seu navio fora do porto. 
Logo que os lestrigonianos viram os navios inteiramente  sua merc, atacaram-
nos, atirando enormes pedras, que despedaaram os barcos e os fizeram 
naufragar, e, em seguida, com suas lanas, mataram os marinheiros que 
bracejavam na gua. Foram destrudos, com suas tripulaes, todos os navios, 
exceto o de Ulisses, que havia ficado fora do porto, e que, no encontrando 
salvao a no ser na fuga, exortou seus homens a remar vigorosamente, e assim 
puderam escapar. 

Pesarosos com a morte dos companheiros e, ao mesmo tempo, 
alegres por terem escapado, prosseguiram viagem e chegaram  Ilha Eana, 
onde vivia Circe, a filha do Sol. Desembarcando ali, Ulisses subiu a um 
morro e, olhando em torno no viu sinais de habitao, a no ser em um 
ponto no centro da ilha, onde avistou um palcio rodeado de rvores. Mandou 



metade da tripulao, sob a chefia de Eurloco, verificar com que hospitalidade 
poderiam contar. Ao se aproximarem do palcio, os gregos viram-se rodeados 
de lees, tigres e lobos, no ferozes mas domados pela arte de Circe, que era 
uma poderosa feiticeira. Todos esses animais tinham sido homens e haviam sido 
transformados em feras pelos seus encantamentos. Do lado de dentro do palcio 
vinham os sons de uma msica suave e de uma bela voz de mulher que cantava. 
Eurloco chamou em voz alta, e a deusa apareceu e convidou os recm-chegados 
a entrar, o que todos fizeram, de boa vontade, exceto Eurloco, que desconfiou 
do perigo. A deusa fez seus convivas se assentarem e serviu-lhes vinho e 
iguarias. Quando se haviam divertido  farta, ela lhes tocou com sua varinha de 
condo e eles imediatamente se transformaram em porcos, com "a cabea, o 
corpo, a voz e as cerdas" de porco, embora conservando a inteligncia de 
homem. Circe prendeu-os em suas pocilgas, dando-lhes para comer bolotas e 
outros alimentos apreciados pelos sunos. 
Eurloco apressou-se em voltar ao navio e contar o que vira. Ulisses, 
ento, resolveu ir ele prprio tentar a libertao dos companheiros. Enquanto se 
encaminhava para o palcio, encontrou-se com um jovem que a ele se dirigiu 
familiarmente, mostrando estar a par de suas aventuras. Revelou que era 
Mercrio e informou Ulisses acerca das artes de Circe e do perigo de aproximar-
se dela. Como Ulisses no desistisse de seu intento, Mercrio deu-lhe um broto 
da planta chamada "Moli", dotada de enorme poder para resistir s bruxarias, e 
ensinou-lhe o que deveria fazer. Ulisses prosseguiu o caminho e, chegando ao 
palcio, foi cortesmente recebido por Circe, que o obsequiou como fizera a seus 
companheiros, e, depois que ele havia comido e bebido, tocou-lhe com sua 
varinha de condo, dizendo: 
- Ei! procura teu chiqueiro e vai espojar com teus amigos. 
Em vez de obedecer, porm, Ulisses desembainhou a espada e investiu 
furioso contra a deusa, que caiu de joelhos, implorando clemncia. 

Ulisses ditou-lhe uma frmula de juramento solene de que libertaria 
seus companheiros e no cometeria novas atrocidades contra eles ou contra 
o prprio Ulisses. Circe repetiu o juramento, prometendo, ao mesmo tempo, 
deixar que todos partissem sos e salvos, depois de os haver entretido



hospitaleiramente. Cumpriu a palavra. Os homens readquiriram suas formas, o 
resto da tripulao foi chamado da praia e todos magnificamente tratados 
durante tantos dias, que Ulisses pareceu haver-se esquecido da ptria e ter-se 
resignado quela inglria vida de cio e prazer. 
Afinal, seus companheiros apelaram para os seus sentimentos mais 
nobres, e ele recebeu de boa vontade a censura. Circe ajudou nos preparativos 
para a partida e ensinou aos marinheiros o que deveriam fazer para passar sos e 
salvos pela costa da Ilha das Sereias. As sereias eram ninfas marinhas que 
tinham o poder de enfeitiar com o seu canto todos quantos as ouvissem, de 
modo que os infortunados marinheiros sentiam-se irresistivelmente impelidos a 
se atirar ao mar onde encontravam a morte. Circe aconselhou Ulisses a tampar 
com cera os ouvidos de seus marinheiros, de modo que eles no pudessem ouvir 
o canto, e a amarrar-se a si mesmo no mastro dando instrues a seus homens 
para no libert-lo, fosse o que fosse que ele dissesse ou fizesse, at terem 
passado pela Ilha das Sereias. Ulisses seguiu estas instrues. Tampou com cera 
os ouvidos de seus homens e fez com que estes o amarrassem solidamente ao 
mastro. Ao se aproximarem da Ilha das Sereias, o mar estava calmo e sobre as 
guas vinham as notas de uma msica to bela e sedutora que Ulisses lutou para 
se libertar e implorou aos seus homens, por gritos e sinais, que o desamarrassem. 
Eles, porm, obedecendo s ordens anteriores trataram de apertar os laos ainda 
mais. 
A imaginao de um poeta moderno, Keats, revela-nos os pensamentos 
que passaram pelos crebros das vtimas de Circe, depois de sua transformao. 
No poema "Endimio", apresenta um deles, um monarca transformado em 
elefante, assim se dirigindo em linguagem humana,  feiticeira: 
No lamento a coroa que perdi, 
A falange que outrora comandei 
E a esposa, ora viva, que deixei. 
No lamento, saudoso, minha vida. 
Filhos e filhas, na manso querida, 
Tudo isto esqueci, as alegrias 

Terrenas olvidei dos velhos dias. 



Outro desejo vem, muito mais forte. 
S aspiro, s peo a prpria morte. 
Livrai-me desse corpo abominvel. 
Libertai-me da vida miservel. 
Piedade, Circe! Morrer e to-somente! 
Sede, deusa gentil, sede clemente! 
SiLA E CARBDIS 
Ulisses fora advertido por Circe para tomar cuidado com os dois monstros 
Sila e Carbdis. J travamos conhecimento com Sila, na histria de Glauco, e 
sabemos que fora uma linda donzela transformada por Circe num monstro cheio 
de serpentes. Morava numa caverna no alto rochedo de onde costumava lanar 
seus longos pescoos (pois tinha seis cabeas) e abocanhar, com cada uma de 
suas bocas, um marinheiro da tripulao de todos os navios que passavam ao seu 
alcance. O outro motivo de terror, Carbdis, era um sorvedouro quase ao nvel da 
gua. Trs vezes por dia, a gua penetrava numa apavorante tenda e trs vezes 
por dia era descarregada por ali. Qualquer barco que se aproximasse do 
sorvedouro com a mar montante tinha, inevitavelmente, de ser tragado; nem o 
prprio Netuno poderia evit-lo. 
Aproximando-se dos terrveis monstros, Ulisses manteve-se atento para 
descobri-los. O rudo das guas quando Carbdis a sorvia, anunciava o perigo a 
distncia, mas no havia meios de distinguir Sila. Enquanto contemplavam 
ansiosos o terrvel sorvedouro, Ulisses e seus homens no se podiam manter, ao 
mesmo tempo, to vigilantes contra o ataque de Sila, e o monstro, lanando para 
adiante suas cabeas cobertas de serpentes, apanhou seis de seus homens e os 
levou rugindo, para seu esconderijo. Foi o espetculo mais triste a que Ulisses j 
assistira: ver seus amigos assim sacrificados e ouvir seus gritos, impossibilitado 
de lhes prestar qualquer ajuda. 

Circe o havia advertido de outro perigo. Depois de passar por Sila e 
Carbdis, a primeira terra a ser tocada seria Trinquio, uma ilha onde era 
apascentado o gado de Hiprion, o Sol, por suas Lamptia e Faetusa. 
Aqueles rebanhos no poderiam ser tocados, fossem quais fossem as 



necessidades dos viajantes. Se fosse transgredida essa regra, os culpados seriam 
fatalmente destrudos. 
Ulisses teria de muito boa vontade passado pela Ilha do Sol sem se deter, 
mas seus companheiros insistiram tanto na necessidade de ancorar para um 
descanso e abastecimento, passando a noite em terra, que ele acabou cedendo. 
F-los, contudo, jurar que no tocariam em um s animal dos rebanhos sagrados, 
contentando-se com a proviso que lhes restava daquela que Circe pusera a 
bordo. Enquanto essas provises duraram, os marinheiros foram fiis ao 
juramento, mas ventos contrrios os detiveram na ilha durante um ms e, depois 
de consumir toda a proviso, eles tiveram de contar apenas com as aves e com 
os peixes que conseguiam apanhar. A fome os atormentava e, afinal, certo dia, 
na ausncia de Ulisses, eles mataram alguns animais do rebanho, procurando, 
em vo, se inocentar com a oferta de uma parte deles s divindades ofendidas. 
Voltando  praia, e vendo o que acontecera, Ulisses ficou horrorizado e mais 
ainda ao ver os prodgios que se seguiram. As peles dos animais rastejaram pelo 
cho e a carne caminhava nos espetos enquanto era assada. 
Tendo comeado a soprar vento favorvel, os gregos partiram da ilha. No 
haviam ido muito longe, quando o tempo mudou, caindo uma tempestade com 
raios e troves. Um raio derrubou o mastro que, ao cair, matou o piloto. Afinal, 
o prprio navio foi despedaado. Com a quilha e o mastro flutuando lado a lado, 
Ulisses formou uma jangada,  qual se agarrou e, tendo o vento mudado, as 
ondas o levaram  Ilha de Calipso. 
No poema "Comus", de Milton, h a seguinte aluso aos fatos a que 
acabamos de nos referir: 
Vi, muitas vezes, Circe, minha me, 
Entre as niades gentis, com as sereias, 
Escolher, entre as ervas poderosas, 
As que ao Elsio a aprisionada alma Levariam. 
Contendo suas vagas, 
Sila chorava, enquanto, murmurante 
A discreta Carbdis sorria. 





Sila e Carbdis tornaram-se proverbiais para indicar perigos opostos, no 
caminho de algum.1 
CALIPSO 
Calipso era uma ninfa do mar, expresso que abrange numerosa classe de 
divindades femininas de categoria inferior, mas que, ao mesmo tempo, 
compartilhavam muitos dos atributos dos deuses. Calipso acolheu Ulisses 
hospitaleiramente, entreteve-o com magnificncia, apaixonou-se por ele e 
procurou ret-lo para sempre, conferindo-lhe a imortalidade. Ele, porm, 
manteve sua disposio de regressar  ptria, para junto da esposa e do filho. 
Calipso, afinal, recebeu ordens de Jove para deix-lo partir. A mensagem foi 
levada por Mercrio, que a encontrou em sua gruta, assim descrita por Homero: 
Verdejante, viosa trepadeira 
Forrava os muros da espaosa gruta. 
Em torno, quatro fontes cristalinas 
Derramavam na terra a pura linfa, 
Que corria em regatos sinuosos, 
Entre a verdura tenra, que violetas 
Purpreas enfeitavam. Era um cenrio 
Que qualquer deus veria com deleite. 


1 Incidit in Scyllam, cupiens, Vitare Charybdim. Correu para Sila, querendo evitar Carbdis. 

Embora com muita relutncia, Calipso disps-se a obedecer s ordens de 
Jpiter. Forneceu a Ulisses os recursos para a construo de uma jangada, 
aprovisionou-o bem e assegurou-lhe um vento favorvel. Ulisses viajou 
satisfatoriamente durante muitos dias, at que, afinal, quando j estava  vista da 
terra, desencadeou-se uma tempestade, que derrubou o mastro e ameaou fazer 
soobrar a embarcao. Nessa situao crtica, ele foi visto por uma ninfa do 
mar que, compadecida, pousou na jangada, sob a forma de um corvo marinho, e 
ofereceu-lhe um cinto, aconselhando-o a coloc-lo, pois, se fosse obrigado a se 
lanar  gua, esse cinto o faria flutuar, permitindo-lhe alcanar a terra a nado. 



Em seu romance Telmaco, Fnelon conta-nos as aventuras do filho de 
Ulisses, quando  procura do pai. Entre outros lugares aonde chegou o jovem, 
seguindo as pegadas paternas, estava a Ilha de Calipso e, como no caso anterior, 
a deusa tentou todos os artifcios para conserv-lo consigo e ofereceu-se para 
compartilhar com ele a imortalidade. Minerva, porm, que acompanhava o 
jovem, sob a forma de Mentor, e dirigia todos os seus movimentos, o fez repelir 
as tentaes da deusa e, quando nenhum outro meio foi encontrado para escapar, 
os dois amigos lanaram-se de um rochedo ao mar e nadaram at um navio que 
se encontrava ao largo. 
Byron faz aluso ao pulo de Telmaco e Mentor nos seguintes versos: 
Surge no mar a ilha de Calipso 
Onde sorri um porto, embora a deusa 
Formosa de chorar cessara h muito, 
Como cessou de olhar sobre o rochedo 
Aquele que escolheu mortal esposa. 
Aqui tambm seu filho ao mar, ousado, 
Se atirou, a conselho de Mentor, 
Deixando suspirosa a linda deusa. 






 CAPTULO XXX 
Os FECIOS - DESTINO DOS 
PRETENDENTES 
Os FECIOS 
Ulisses manteve-se na jangada enquanto esta no se desintegrou e, quando 
a embarcao no pde mais suport-lo, nadou com o cinto em torno do corpo. 
Minerva abrandou as ondas diante dele e enviou uma virao que o empurrou 
para a terra. As vagas quebravam-se com fora de encontro aos rochedos e 
pareciam impedir a aproximao. Finalmente, porm, encontrando guas mais 
calmas, na foz de um rio, Ulisses atingiu a terra, exausto, ofegante, incapaz de 
falar e quase morto. Depois de algum tempo, refazendo-se, beijou a terra, sem 
saber ainda, contudo, que direo tomar. A pequena distncia, avistou um 
bosque, para o qual se dirigiu. Ali, tendo encontrado um abrigo, tanto contra o 
sol como contra a chuva, formado pelos ramos entrelaados das rvores, fez uma 
cama, ajuntando folhas, e nela se estendeu, cobrindo-se tambm com folhas, e 
no tardando a adormecer. 
A terra aonde fora atirado pelo mar era a Esquria, pas dos Fecios. 
Esse povo morava primitivamente perto dos ciclopes, mas, sendo 
perseguido por aquela raa de selvagens emigrara para a Ilha de Esquria, 
sob a chefia de seu rei, Nausitous. Os fecios eram, diz o poeta, afins dos 
deuses que apareciam em pessoa entre eles quando ofereciam sacrifcios e ---






no se escondiam dos pedestres solitrios quando os encontravam. Os 
fecios dispunham de riquezas abundantes e gozavam a vida livre das 
ameaas de guerras, pois, como moravam longe dos homens cobiosos, 
nenhum inimigo jamais se aproximara de suas praias, e eles nem ao menos 
precisavam usar o arco e a aljava. Sua indstria principal era a navegao. 
Seus navios, que viajavam com a velocidade das aves, eram dotados de 
inteligncia, conhecendo todos os portos e no necessitando de piloto. O 
rei atual era Alcinous, filho de Nausitous, soberano sbio e justo, amado 
por seu povo. 
Ora, aconteceu que, na mesma noite em que Ulisses desembarcou na 
ilha dos fecios, enquanto ele ainda dormia em seu leito de folhas, a filha 
do rei, Nausica, teve um sonho mandado por Minerva, lembrando-lhe 
que o dia do seu casamento no estava distante e que seria aconselhvel, 
como preparativo daquele acontecimento, lavar toda a roupa da famlia. 
No se tratava de assunto sem importncia, pois as fontes ficavam bem 




Ulisses na Ilha 

dos Fecios 



distantes e a roupa deveria ser levada para l. Ao despertar, a princesa foi, sem 
demora, procurar os pais, a fim de lhes dizer o que tinha em mente, sem falar no 
prximo casamento, mas encontrando outros motivos igualmente aceitveis. Seu 
pai concordou logo e ordenou aos seus palafreneiros que entregassem  filha 
uma carroa. As roupas foram ali postas e a rainha me tambm l colocou 
abundante proviso de vveres e vinho. A princesa sentou-se na carroa, e 
incitou os animais, partindo, acompanhada a p pelas virgens suas 
companheiras. Chegando  margem do rio, soltaram as mulas para pastar e 
descarregar a carroa, levando a roupa para a gua. Trabalhando com alegria e 
disposio, dentro em pouco terminaram o servio. Depois de terem espalhado 
as roupas na margem do rio para secar e de terem tambm se banhado, sentaram-
se para fazer a refeio, aps o que se levantaram e divertiram-se jogando bola, 
enquanto a princesa cantava. Mas, quando j haviam recolhido a roupa e 
estavam prestes a voltar para a cidade, Minerva fez com que a bola lanada pela 
princesa casse na gua, provocando uma gritaria, que acordou Ulisses. 

Agora devemos imaginar Ulisses, um nufrago, que escapara das ondas 
havia pouco e se achava inteiramente sem roupa, despertando e descobrindo 
que apenas alguns arbustos se interpunham entre ele e um grupo de jovens 
donzelas que, por sua atitude e por suas vestes, ele percebeu que no eram 
simples camponeses, mas pertenciam a uma classe mais elevada. Embora 
precisadssimo de ajuda, como poderia aventurar-se nu como estava, a aparecer 
e revelar suas necessidades? No havia dvida de que se tratava de um caso 
digno da interveno da sua protetora Minerva, que jamais o abandonara nos 
momentos crticos. Quebrando um ramo de rvore cheio de folhas, colocou-o 
diante de si e saiu do bosque. Ao v-lo, as donzelas correram em todas as 
direes, exceto Nausica, pois Minerva a amparara e a dotara de coragem e 
discernimento. Ulisses, mantendo-se respeitosamente afastado, exps sua triste 
situao e implorou  bela criatura (se era rainha ou deusa, confessou no saber) 
alimento e vesturio. A princesa respondeu cortesmente, prometendo ajuda 
imediata e a hospitalidade de seu pai, quando este fosse posto a par dos fatos. A 
princesa chamou de novo para junto de si as assustadas donzelas, censurando-
as delicadamente pelo medo que haviam tido e lembrando-lhes que os fecios 



no tinham inimigos a temer. Aquele homem, explicou, era um infeliz 
peregrino, que tinham por obrigao acolher, pois os pobres e os estrangeiros 
vm de Jove. Pediu-lhes que trouxessem alimento e vesturio, pois havia na 
carroa algumas roupas de seus irmos. Quando isso foi feito, e Ulisses, 
retirando-se para um lugar escondido, lavou do corpo a espuma do mar, vestiu-
se e retemperou as foras com o alimento, Palas dilatou suas formas, e espalhou 
a graa sobre seu amplo peito e seu rosto viril. 
Ao v-lo, a princesa foi tomada de admirao e no teve escrpulo em 
dizer s suas damas que desejaria que os deuses lhe tivessem mandado um 
marido assim. A Ulisses, recomendou que fosse  cidade, seguindo-a e ao seu 
squito, enquanto estivessem nos campos; quando, porm, se aproximassem da 
cidade, queria que ele no mais fosse visto em sua companhia, pois receava as 
observaes que as pessoas rudes e vulgares pudessem fazer, ao v-la voltar 
acompanhada de to garboso estranho. Para isso, ela o mandou parar num 
bosque vizinho  cidade, no qual havia uma quinta pertencente ao rei. Depois de 
dar o tempo suficiente  princesa e s suas companheiras de chegar  cidade, 
Ulisses prosseguiria seu caminho para l, e, facilmente qualquer pessoa que 
encontrasse lhe indicaria o meio de chegar ao palcio real. 

Ulisses seguiu as instrues e, oportunamente, dirigiu-se  cidade, em cujas 
proximidades encontrou uma jovem carregando um pote de gua. Era Minerva, 
que tomara aquela forma. Ulisses dirigiu-se a ela, pedindo-lhe que lhe ensinasse o 
caminho do palcio do Rei Alcinous. A jovem respondeu respeitosamente, 
oferecendo-se para servir-lhe de guia, pois, explicou, o palcio ficava prximo  
casa de seu pai. Guiado pela deusa, e envolto, graas a ela, em uma nuvem que 
no o deixava ser observado, Ulisses atravessou a multido e observou, 
maravilhado, o porto, os navios, o frum (a praa dos heris) e os edifcios, at 
chegarem ao palcio, onde a deusa o deixou, depois de lhe haver prestado 
algumas informaes sobre o pas, o rei e o povo. Antes de entrar no ptio do 
palcio, Ulisses contemplou a cena. Seu esplendor espantou-o. Muros de bronze 
estendiam-se da entrada at o edifcio interior, cujos portais eram de ouro, as 
portas de prata, dintis de prata ornamentados de ouro. Em ambos os lados 
ficavam figuras de mastins em ouro e prata, como se estivessem guardando 



 

 
a entrada da casa. Ao longo das paredes, estavam colocados bancos cobertos em 
toda a sua extenso de panos do mais fino lavor, trabalho das donzelas fecias. 
Nesses bancos sentavam-se os prncipes, enquanto esttuas de ouro de graciosos 
jovens traziam nas mos tochas acesas que iluminavam a cena. Cinqenta 
mulheres trabalhavam na casa, algumas empregadas para moer o trigo, outras, 
para tecer a prpura ou fiar, pois as mulheres fecias superavam todas as outras 
mulheres nas artes caseiras, do mesmo modo que os marinheiros do pas 
superavam os do resto do mundo no manejo dos navios. Fora do ptio havia um 
espaoso pomar de quatro acres de extenso, onde cresciam muitas rvores fron- 

O Retorno de Ulisses 

Honor Daumier 

COOPER UNION MUSEUM, NOVA YORK 

 



dosas, romzeiras, pereiras, macieiras, figueiras e oliveiras. Nem o frio do 
inverno nem a seca do vero detinham seu crescimento, mas todas floresciam 
em sucesso constante, algumas brotando enquanto em outras as frutas 
amadureciam. O parreiral era igualmente fecundo, podiam-se ver as vinhas, 
algumas florescendo, outras carregadas de uvas maduras e, mais adiante, 
observar os vinhateiros esmagando as frutas para fazer o vinho. Em torno do 
pomar, vicejavam, durante o ano inteiro, flores das mais variadas cores dispostas 
com uma arte perfeita. No meio, duas fontes lanavam suas guas, uma 
correndo, atravs do canais artificiais, por todo o pomar e o jardim e a outra 
atravessando o ptio do palcio, onde todos os cidados podiam dela se utilizar. 
Ulisses deixou-se ficar imvel, contemplando tudo com admirao, sem 
ser ele mesmo observado, pois a nuvem que Minerva espalhara em torno dele 
continuava a proteg-lo. Afinal, depois de haver contemplado a cena por 
bastante tempo, Ulisses entrou, com passos rpidos, no salo onde se achavam 
reunidos os chefes e senadores, fazendo libaes a Mercrio, cujo culto seguia-
se  ceia. Justamente nesse momento, Minerva dissolveu a nuvem e Ulisses 
apareceu diante da assemblia dos chefes. Avanando at o lugar onde estava 
assentada a rainha, ele ajoelhou-se e implorou-lhe favor e assistncia, que 
permitissem seu regresso  terra natal, depois do que, se retirou, sentando-se, 
segundo o costume dos suplicantes, ao lado da lareira. 
Durante algum tempo, todos se mantiveram em silncio. Afinal, um idoso 
conselheiro disse, dirigindo-se ao rei: 
- No convm que um estrangeiro que vem pedir hospitalidade seja 
deixado  espera, como um suplicante, sem que ningum o sade. Deixemo-lo, 
portanto, assentar-se entre ns e receber alimento e vinho. 
A estas palavras, o rei, levantando-se, ofereceu a mo a Ulisses e 
conduziu-o a um assento de onde tirou o prprio filho, para ceder lugar ao 
estrangeiro. Foram colocados diante dele iguarias e vinho, e Ulisses comeu e 
bebeu. 

O rei dispensou, ento, seus convidados, avisando-lhes de que os 
convocaria para conselho, no dia seguinte, a fim de se resolver que deciso 
tomar acerca do estrangeiro. 



Depois que os convidados saram e Ulisses ficou a ss com o rei e a 
rainha, esta perguntou-lhe quem ele era e de onde vinha e (reconhecendo as 
vestes que ele trazia, pois fora ela prpria, com suas damas, que as fizera) de 
quem recebera aqueles vesturios. Ulisses narrou sua estada na Ilha de Calipso e 
sua partida de l; o naufrgio da jangada, como conseguira salvar-se a nado e o 
socorro que lhe prestara a princesa. O rei e a rainha escutaram com ar de 
aprovao, e o rei prometeu fornecer um navio para seu hspede regressar  
terra natal. 
No dia seguinte, a assemblia dos chefes confirmou a promessa do rei. Foi 
preparado um barco e escolhida uma tripulao de robustos remadores e todos se 
reuniram no palcio, onde foi servido lauto repasto. Depois da festa, o rei 
sugeriu que os jovens mostrassem ao hspede sua eficincia em muitos 
exerccios atlticos e todos se dirigiram  arena, para a realizao de provas de 
corrida, luta e outros exerccios. Depois de todos terem-se exibido, da melhor 
maneira possvel, Ulisses, convidado a mostrar suas habilidades, recusou-se, a 
princpio, mas, sendo escarnecido pelos jovens, pegou um disco, muito mais 
pesado do que qualquer um dos que haviam sido lanados pelos fecios, e atirou 
muito mais longe do que aqueles haviam lanado os seus. Todos ficaram 
atnitos e passaram a encarar seu hspede com redobrado respeito. 
Depois dos jogos, todos voltaram ao salo, e o arauto introduziu 
Demdoco, o bardo cego. 
Querido pelas musas, que, contudo, 
Tanto ao mal quanto ao bem o destinaram, 
Dando-lhe voz divina e no a vista. 


O bardo escolheu para tema de sua cano "O Cavalo de Pau", graas 
ao qual os gregos haviam conseguido entrar em Tria. Apolo inspirou-o 
e ele cantou com tanto sentimento os terrores e as faanhas daquela 
poca aventurosa, que todos se deleitaram, mas Ulisses se comoveu at 
as lgrimas. Observando isso, quando a cano terminou, Alcinous 
indagou-lhe por que motivo ele se comovia quando Tria era mencionada. 
Perdera ali o pai, um irmo ou um amigo querido? Ulisses respondeu 



revelando seu verdadeiro nome e, a pedido de todos, contou as aventuras por 
que passara desde que partira de Tria. Essa narrativa elevou ao mais alto grau a 
admirao e simpatia, por parte dos fecios, pelo seu hspede. O rei props que 
todos os chefes lhe oferecessem um presente, dando ele prprio o exemplo. Os 
chefes obedeceram e cada qual quis destacar-se sobre os outros, oferecendo 
valiosos presentes ao ilustre estrangeiro. 
No dia seguinte, Ulisses partiu no navio dos fecios e, dentro de pouco 
tempo, chegou so e salvo  Ilha de Itaca, sua ptria. Quando o navio chegou  
terra, ele estava dormindo. Os marinheiros, sem acord-lo, levaram-no para a 
praia, desembarcaram uma arca contendo os presentes que lhe haviam sido 
oferecidos, depois partiram. 
Netuno irritou-se tanto com a conduta dos fecios, retirando Ulisses de 
seu poder, que, quando o navio voltou, transformou-o num rochedo, situado bem 
em frente  entrada do porto. 
A descrio feita por Homero dos navios dos fecios d a idia de uma 
previso das maravilhas da moderna navegao a vapor. Alcinous diz a Ulisses: 
Dize de que cidade, de que terra, 
E quais so, dessa terra, os habitantes 
E quele reino hs de chegar asinha 
Em milagroso barco que a si mesmo 
Move, sem precisar de timoneiro, 
E, como se de engenho humano fosse 
Dotado, os litorais todos conhece. 
Odissia, Livro VIII 
Lord Carlisle, em seu Dirio das guas Turcas e Gregas, assim se refere 
a Corfu, que acredita ser a antiga ilha dos fecios: 

"Sua situao explica a Odissia. O templo do deus do mar no 
poderia ser melhor localizado, sobre uma verde plataforma de macia relva, no 
alto de um penedo que domina o porto, o canal e o oceano. Justamente 
na entrada do porto interior, h um pitoresco rochedo sobre o qual se 



ergue um pequeno convento, e que, de acordo com a lenda,  o barco de Ulisses 
que assim se transformou. 
"Um dos poucos rios da ilha fica justamente  distncia adequada do local 
onde provavelmente se encontravam a cidade e o palcio do rei, justificando a 
necessidade da Princesa Nausica precisar de uma carroa e de almoar fora, 
quando foi lavar a roupa, com as donzelas da corte." 
DESTINO DOS PRETENDENTES 
Ulisses estava longe de Itaca h vinte anos e, quando acordou, no 
reconheceu a terra natal. Minerva apareceu-lhe, sob a forma de um jovem pastor, 
revelou-lhe onde estava e contou-lhe como corriam as coisas em seu palcio. 
Mais de cem nobres de Itaca e das ilhas vizinhas vinham h anos pretendendo a 
mo de Penlope, sua esposa, julgando-o morto e se imiscuindo em seu palcio 
com sua gente, como se fossem donos de ambos. Era necessrio que ele no 
fosse reconhecido, para poder vingar-se daquela gente. Assim, Minerva o 
metamorfoseou em um feio mendigo e, como tal, ele foi bondosamente recebido 
por Eumeu, o porqueiro, fiel servidor de sua casa. 

Seu filho Telmaco achava-se ausente  procura do pai. Partira para as 
cortes dos outros reis que haviam regressado da expedio contra Tria. 
Enquanto procurava, recebeu o aviso de Minerva de que deveria regressar  sua 
terra. Chegando, procurou Eumeu a fim de saber como corriam as coisas no 
palcio, antes de se apresentar diante dos pretendentes. Encontrando um 
estrangeiro com Eumeu, tratou-o cortesmente, embora fosse um mendigo, e 
prometeu-lhe ajuda. Eumeu foi enviado secretamente ao palcio, a fim de 
anunciar a Penlope a chegada do filho, pois era necessrio tomar precaues 
com referncia aos pretendentes, que, segundo Telmaco soubera, pretendiam 
intercept-lo e mat-lo. Depois que Eumeu partiu, Minerva apresentou-se a 
Ulisses e deu-lhe ordens para se dar a conhecer ao filho. Ao mesmo tempo, 
tocou-lhe, livrando-o imediatamente de sua aparncia de velhice e penria e 
dando-lhe o aspecto que era realmente o seu, de um homem no vigor da idade. 
Telmaco encarou-o com espanto e, a princpio, achou que ele no deveria ser um 



simples mortal. Ulisses, porm, apresentou-se como seu pai e explicou a 
mudana de aparncia revelando que era devido a Minerva. 
...Telmaco, 
Chorando, aperta o pai de encontro ao peito 
E imperioso anseio de lamento 
Ambos domina. 
O pai e o filho discutiram o que deveriam fazer para se livrarem dos 
pretendentes e castig-los pelos ultrajes cometidos, tendo ficado combinado que 
Telmaco fosse para o palcio e se misturasse com os pretendentes, como 
anteriormente, ao passo que Ulisses se apresentaria como mendigo, personagem 
que, nos rudes tempos da antigidade, gozava de privilgios diferentes dos que 
hoje lhe concedemos. Como viajante e narrador de histrias, o mendigo era 
admitido no salo dos chefes e, freqentemente, tratado como conviva, embora 
algumas vezes, tambm, sem dvida, com rudeza. Ulisses recomendou ao filho 
que no demonstrasse, por qualquer excessivo interesse por ele, saber que ele 
no era quem parecia e que, mesmo se o visse injuriado ou espancado, no 
deveria intervir seno como o faria em defesa de um estranho. No palcio, 
encontraram as cenas habituais de orgia e tumulto. Os pretendentes fingiram 
receber Telmaco com alegria pelo seu regresso, embora intimamente 
mortificados por terem falhado seus planos para tirar-lhe a vida. O velho 
mendigo teve permisso de entrar e deram-lhe o que comer. Um tocante 
incidente ocorreu, quando Ulisses entrou no ptio do palcio. Ali se achava 
deitado um velho co, j quase morto pela idade, que, ao ver entrar um estranho, 
levantou a cabea, com as orelhas eretas. Era Argos, o prprio co de Ulisses, 
que o levara, outrora, muitas vezes,  caa. 
Ao ver to perto Ulisses, que h to longo 
Tempo partira, as orelhas murcham 
E a cauda abana, jubiloso, alegre, 
Mas no se move, que a velhice o tolhe. 

Ao v-lo, Ulisses, sem que o vejam os outros, 



Rpido enxuga inoportuna lgrima. 
....................................................... 
E o fado libertou, ento, o velho 
Argos, que vinte anos esperara 
Para rever o dono. 
Enquanto Ulisses comia no salo o que lhe haviam dado, os pretendentes 
puseram-se a trat-lo com insolncia. Como ele protestasse, delicadamente, um 
deles levantou um tamborete e com este desfechou-lhe uma pancada. Telmaco 
a custo conteve a indignao, ao ver o pai tratado de tal modo em seu prprio 
palcio, mas, lembrando-se das recomendaes paternas nada mais disse do que 
lhe competia como dono da casa, embora jovem, e protetor de seus hspedes. 
Penlope adiara tanto uma deciso favorvel a qualquer um dos 
pretendentes, que estes j no se mostravam dispostos a nova protelao. A 
continuada ausncia de seu marido parecia provar que o regresso deste no mais 
deveria ser esperado. Enquanto isso, seu filho havia crescido e j estava em 
condies de dirigir seus prprios negcios. Ela, portanto, consentiu em 
submeter a escolha a uma prova de habilidade entre seus pretendentes. A prova 
consistia em verificar a habilidade no manejo do arco. Colocaram-se em fila 
doze argolas, e aquele cuja seta atravessasse todas as doze teria a mo da rainha 
como prmio. Foi trazido um arco oferecido outrora a Ulisses por um dos heris, 
seus companheiros e, com ele, uma aljava cheia de setas foi trazida para o salo. 
Telmaco providenciara para que todas as outras armas fossem removidas, sob o 
pretexto de que, no ardor da competio, havia o perigo de tais armas serem 
usadas indevidamente, num momento de raiva. 

Feitos todos os preparativos para a prova, a primeira coisa a fazer 
consistia em curvar-se o arco a fim de prender a corda. Telmaco tentou fazer 
tal coisa, mas verificou que todos os seus esforos eram infrutferos e, 
confessando modestamente que tentara executar uma tarefa acima de suas 
foras, passou o arco a outro. Este tentou sem maior sucesso e desistiu, no 
meio das gargalhadas e zombarias dos companheiros. Outro experimentou, 
e mais outro; untaram o arco com breu, mas de nada adiantou: no 



se curvava. Ento, Ulisses falou, humildemente, pedindo licena para 
experimentar. 
- Embora mendigo, j fui soldado, e ainda resta alguma fora nestes 
meus velhos braos - disse ele. 
Os pretendentes vaiaram-no com desprezo e deram ordens para que ele 
fosse expulso do palcio, por sua insolncia. Telmaco, porm, falou em seu 
favor: meramente para satisfazer o velho, deixasse-o tentar. Ulisses pegou o arco 
e dobrou-o com mo de mestre. Com toda facilidade, colocou a corda e depois, 
pegando uma seta, lanou-a destramente entre as argolas. 
- Agora, outro alvo! - exclamou ele, visando o mais insolente dos 
pretendentes, que caiu, com o pescoo atravessado pela seta. 
Telmaco, Eumeu e outros fiis servidores, bem armados, j se 
encontravam ao lado de Ulisses. Confusos, os pretendentes procuraram armas 
em torno de si, mas no encontraram nenhuma e nem tiveram meios de escapar 
pois Eumeu havia fechado a porta. Ulisses no os deixou por mais tempo na 
incerteza: apresentou-se como o rei h tanto tempo ausente cuja casa eles 
haviam invadido, cujos bens haviam dilapidado e cuja esposa e filho tinham 
perseguido durante tantos anos. Anunciou-lhes, ento, que pretendia vingar-se 
plenamente. Todos foram mortos e Ulisses ficou senhor do palcio e possuidor 
do seu reino e de sua esposa. 
No poema "Ulisses", Tenyson apresenta o velho heri, depois de passados 
os perigos que atravessara, e nada mais lhe restando que ficar em casa e ser feliz, 
como cansado da inrcia e disposto a partir em busca de novas aventuras: 
Vinde a meu lado, amigos. 
No  tarde 
Para buscar, bem longe, um novo mundo, 
Cortando as ondas e vencendo os mares. 
Quero alm do poente navegar, 
Alm dos astros que no oeste brilham, 
At que a morte venha procurar-me. 
Pode bem ser que o mar nos purifique, 
Pode bem ser que  Ilha Afortunada 
Consigamos chegar e ainda vejamos 
Aquiles, que to bem ns conhecemos. 



 CAPTULO XXXI 
AVENTURAS DE ENIAS - As HARPIAS 
DIDO - PALINURO 
AVENTURAS DE ENIAS 
---


Acompanhamos um dos heris gregos, Ulisses, em suas peregrinaes 
quando regressava  sua ptria, vindo de Tria, e agora nos propomos a 
compartilhar das aventuras do remanescente do povo vencido, sob a chefia 
de Enias, em busca de uma nova ptria, aps a destruio da sua cidade. Na 
noite fatal em que o cavalo de pau vomitou seu contedo de homens 
armados, dando como resultado a captura e destruio da cidade, Enias 
conseguiu fugir de Tria, com seu pai, sua esposa e seu filhinho. O pai, 
Anquises, estava muito velho para caminhar com a rapidez necessria e 
Enias o levou nos ombros.1 Carregando esse peso, conduzindo o filho e 
seguido pela esposa, Enias conseguiu sair da cidade em chamas, mas, na 
confuso, sua esposa extraviou-se e desapareceu. 

1 Seguitur patrem, nom passibus aequis - Virglio. Segue o pai com passos desiguais. 

Chegando ao lugar de encontro, inmeros fugitivos de ambos os sexos 
se reuniram e se puseram sob as ordens de Enias. Foram gastos alguns 
meses nos preparativos e, finalmente, embarcaram. O primeiro desembarque 
foi na costa da Trcia e os troianos estavam se preparando para construir 
uma cidade, mas Enias desistiu da idia em face de um prodgio. Ao 
preparar-se para oferecer o sacrifcio, arrancou alguns raminhos das rvores e,



 

Enias ferido 

Detalhe de pintura 

em parede em Pompia 



horrorizado, viu que da parte cortada escorria sangue. Tendo repetido o que 
fizera, ouviu uma voz vinda do cho que lhe gritava: 
- Poupa-me, Enias. Sou teu parente, Polidoro, aqui assassinado com 
muitas setas, e aqui nasceu esta moita de arbustos, regada com meu sangue. 
Estas palavras recordaram a Enias que Polidoro fora um jovem prncipe 
de Tria, enviado por seu pai, com grandes tesouros, ao vizinho pas, a Trcia, 
para ali ser criado, longe dos horrores da guerra. O rei a quem ele fora confiado 
o havia assassinado e se apossado de seus tesouros. Enias e seus companheiros, 
considerando que aquela terra estava maldita, manchada por tal crime, 
apressaram-se em partir. 
Aportaram  Ilha de Delos, que havia sido uma ilha flutuante at que 
Jpiter a prendeu com fortssimas correntes ao fundo do mar. Apolo e Diana 
haviam ali nascido e a ilha era consagrada a Apolo, cujo orculo Enias 
consultou, recebendo uma resposta ambgua, como de costume: "Procura tua 
antiga me; ali a raa de Enias viver e reduzir todas as outras naes ao seu 
jugo." Os troianos ouviram com alegria estas palavras e imediatamente puseram-
se a perguntar uns aos outros: "Onde ser a terra a que o orculo se referiu?" 
Anquises lembrou-se de que, segundo uma tradio, seus antepassados tinham 
vindo de Creta, e para ali os troianos resolveram seguir. Chegaram a Creta e 
comearam a construir a cidade, mas a doena os flagelou e as plantaes que 
haviam feito nada produziram. Nessa situao sombria, Enias foi advertido, 
num sonho, a deixar o pas e procurar uma regio ocidental, chamada Hespria, 
de onde havia emigrado Drdano, o verdadeiro fundador de Tria. Assim, eles 
se dirigiram a Hespria, agora chamada Itlia, e somente ali chegaram depois de 
muitas aventuras e de decorrido um lapso de tempo suficiente a um navegador 
moderno para dar vrias vezes a volta ao mundo. 
As HARPIAS 


O primeiro desembarque foi na Ilha das Harpias, aves repelentes, com 
cabea de mulher, garras aguadas e o rosto plido de fome, que tinham 
sido mandadas pelos deuses para atormentar um certo Fineu, que Jpiter 
privara da vista em castigo por sua crueldade. Sempre que era colocado 



 diante dele um alimento, as harpias desciam do alto e o levavam. As aves tinham 
sido expulsas pelos argonautas e haviam-se refugiado na ilha onde Enias as 
encontrou. 
Ao entrarem no porto, os troianos viram rebanhos de gado pastando na 
plancie. Mataram tantas reses quanto quiseram e prepararam-se para um 
banquete. Logo, porm, que haviam sentado  mesa, ouviram-se do alto gritos 
horrveis e um bando das odiosas harpias desceu, retirando a carne das travessas 
e fugindo com ela. Enias e seus companheiros desembainharam as espadas e 
desfecharam vigorosos golpes contra os monstros, sem resultado, porm, pois 
estes eram muito destros e suas penas eram como armaduras impenetrveis ao 
ao. Uma delas, pousando num rochedo prximo, gritou: 
-  assim, troianos, que nos tratais, aves inocentes, primeiro matando 
nosso gado e agora atacando a ns prprias? 
Predisse, ento, cruis sofrimentos aos troianos em sua futura viagem, e 
voou, depois de saciada a sua ira. 

Enias aporta na Itlia 

(detalhe) 

Buttoni 

Os viajantes trataram de deixar logo a regio e dentro em pouco 
costeavam o litoral do Epiro. Ali desembarcaram e souberam, com espanto, 



que alguns exilados troianos, que para l haviam sido levados como prisioneiros, 
tinham-se transformado em governantes do pas. Andrmaca, viva de Heitor, 
tornara-se esposa de um dos chefes gregos vitoriosos, a quem dera um filho. 
Tendo morrido seu marido, ela se tornara regente do pas, como tutora do filho, 
e casara-se com um companheiro de cativeiro, Heleno, da famlia real de Tria. 
Heleno e Andrmaca trataram os exilados com a maior hospitalidade e 
despediram-nos carregados de presentes. 

Dali, Enias costeou o litoral da Siclia e passou pelo pas dos ciclopes, 
onde foram recebidos por um ser miservel cujas vestes indicavam que se 
tratava de um grego. Ele contou que era um dos companheiros de Ulisses, 
deixado ali por seu chefe, quando este partira apressadamente. Relatou a 
aventura de Ulisses com Polifemo e pediu aos troianos que o levassem consigo, 
pois no tinha meios de se sustentar ali onde no havia mais nada alm de 
amoras silvestres e razes, e vivia sob o temor constante dos ciclopes. Enquanto 
ele falava, apareceu Polifemo, "um monstro horrvel e informe, cujo nico olho 
fora arrancado".2 O ciclope caminhava cautelosamente, sondando o caminho 
com um basto, e chegou at a praia para lavar nas ondas o globo ocular vazio. 
Chegando  gua, nela entrou, pois sua altura imensa lhe permitia caminhar pelo 
mar adentro at grande extenso, de sorte que os troianos, horrorizados, 
correram aos seus remos, para se afastar do caminho do monstro. Ouvindo o 
barulho dos remos, Polifemo gritou e sua voz reboou pela costa, fazendo os 
outros ciclopes sarem das cavernas e dos bosques e se estenderem na praia, 
como uma fila de pinheiros altssimos. Os troianos curvaram-se sobre os remos 
e, dentro em pouco, perderam os ciclopes de vista. 
Enias fora advertido por Heleno que evitasse o estreito guardado pelos 
monstros Sila e Carbdis. Como o leitor deve lembrar-se Ulisses perdera ali seis 
de seus homens, agarrados por Sila, enquanto os navegadores estavam atentos 
unicamente em evitar Carbdis. Seguindo o conselho de Heleno, Enias deixou 
de lado a perigosa passagem e costeou a ilha da Siclia. 

2 Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumem ademptum - Virglio. 
3 Tantaene animis coelestibtis irae?- Virglio. 

Juno, vendo os troianos aproximarem-se do seu destino, sentiu 
reviver o velho dio contra eles, pois no podia esquecer-se da injria que 
lhe infligira Paris, conferindo a outra o prmio da beleza. "Tanta ira pode 
morar nos espritos celestes?" 3 Assim, procurou olo, o rei dos ventos, o 



mesmo que assegurara a Ulisses ventos favorveis, dando-lhe os ventos 
contrrios metidos num saco de couro. olo obedeceu  deusa e mandou seus 
filhos, Breas, Tfon e outros, encapelar o oceano. Irrompeu uma terrvel 
tempestade, e os navios troianos foram desviados de seu curso para a costa da 
frica. 
Nessa situao crtica, Netuno, ouvindo o rumor da tempestade e sabendo 
que no dera ordem para que fosse desencadeado um temporal, levantou a 
cabea acima das ondas e viu a frota de Enias impelida pela ventania. 
Conhecendo a hostilidade de Juno, no lhe foi difcil deduzir a origem daquilo, 
mas nem por isso foi menor sua irritao, diante da interferncia em seus 
domnios. Chamou os ventos e despediu-os com severa reprimenda. Em seguida, 
apaziguou as ondas e afastou as nuvens que se encontravam diante da face do 
sol. Desvencilhou com seu tridente alguns dos navios que haviam encalhado nos 
rochedos, enquanto Trito e as ninfas do mar, carregando outros sobre os 
ombros, puseram-nos a flutuar novamente. Quando o mar se acalmou, os 
troianos procuraram o litoral mais prximo, que era a costa de Cartago, onde 
Enias teve a sorte de verificar que todos os navios ali chegaram a salvo, embora 
seriamente avariados. 
Waller, em seu "Panegrico do Lorde Protetor" (Cromwell), faz aluso a 
essa atitude de Netuno, amainando a tempestade: 
Ergue Netuno a face sobre o mar 
E ordena aos rudes ventos amainar, 
Da estirpe dos troianos em defesa. 
Assim, bem alto erguido, os furaces 
Que sobre ns sopraram as ambies 
Silencia, com um gesto, Vossa Alteza. 
DIDO 


Cartago, onde os exilados haviam chegado, era uma regio da costa 
africana em frente  Siclia, onde, na ocasio uma colnia tria, dirigida 
pela rainha Dido, estavam sendo lanadas as bases de um Estado que se 



destinava a tornar-se, mais tarde, o rival da prpria Roma. Dido era filha de 
Belo, rei de Tiro, e irm de Pigmalio, que sucedera seu pai no trono. Era casada 
com Sicheus, homem riqussimo, mas Pigmalio, que lhe cobiava a riqueza, 
mandou matar. Dido, com numeroso grupo de amigos e partidrios, dos dois 
sexos, conseguiu escapar de Tiro, em diversos barcos, levando os tesouros de 
Sicheus. Chegando ao lugar que haviam escolhido para sede de sua futura ptria, 
os trios pediram aos nativos que lhes concedessem apenas uma extenso de 
terra que ficasse abrangida pelo couro de um boi. Tendo sido aceita 
imediatamente essa condio, Dido mandou cortar um couro de boi em tiras 
muito estreitas e com ele cercou uma extenso onde construiu uma cidade a que 
chamou Birsa (couro). Em torno desse forte, ergueu-se a cidade de Cartago, que 
logo se tornou prspera e florescente. 

Tal era a situao quando Enias ali chegou com seus troianos. Dido 
recebeu amistosa e hospitaleiramente os ilustres exilados. "Estando eu mesma 
familiarizada com o sofrimento, aprendi a socorrer os infortunados" 4 disse ela. 
A hospitalidade da rainha manifestou-se em festas, nas quais foram executadas 
provas de fora e habilidade. Os estrangeiros disputaram, em igualdade de 
condies, as palmas com os sditos da rainha, que declarou que fosse o 
vencedor grego ou troiano, para ela no faria diferena.5 No festim que se seguiu 
aos jogos, Enias, a pedido da rainha, descreveu os ltimos acontecimentos da 
histria troiana e suas prprias aventuras depois da queda da cidade. Dido ficou 
encantada com a narrativa e cheia de admirao pelas faanhas de Enias. 
Apaixonou-se ardentemente por ele, que, de seu lado, parecia bem disposto a 
aceitar a feliz oportunidade que lhe era oferecida de terminar, de uma vez e 
venturosa-mente, suas peregrinaes, encontrando um lar, um reinado e uma 
esposa. Passaram-se meses, gastos em agradvel convvio, e parecia que 
estavam esquecidos a Itlia e o Imprio destinado a ser fundado em suas terras. 
Vendo isso, Jpiter mandou Mercrio levar uma mensagem a Enias, 
relembrando-lhe a responsabilidade de seu alto destino e ordenando-lhe que 
reiniciasse a viagem. 
Enias separou-se de Dido, embora ela lanasse mo de todas as 
tentaes e argumentos para ret-lo. O golpe foi rude demais para o afeto e 

4 Haud ignara mali, miseris succurrere disco - Virglio. 
5 Tros, Tyriusve, mihi nullo discrimine agetur - Virglio. 

 



 o orgulho da rainha, que, quando viu que Enias partira realmente, subiu a uma 
pira funerria que mandara erguer e, apunhalando-se, foi consumida pelo fogo. 
As chamas, levantando-se sobre a cidade, foram avistadas pelos troianos que 
partiam e, embora sua causa fosse desconhecida, trouxeram a Enias o 
pressentimento da desgraa. Sobre Dido, h o seguinte epigrama latino: 
Com teus esposos, Dido, certamente, 
Foi bem desventurada a tua sorte, 
Pois um, morrendo, te levou  fuga 
E o outro, fugindo, te levou  morte. 
PALINURO 
Depois de tocar na Ilha da Siclia, onde reinava Acestes, prncipe de 
origem troiana que lhes ofereceu hospitaleira recepo, Enias e seus 
companheiros reembarcaram e seguiram caminho para a Itlia. Vnus 
intercedeu, ento, junto a Netuno para permitir que seu filho chegasse afinal 
ao destino e ficasse livre dos perigos do mar. Netuno consentiu, estipulando 

A Morte de Dido 

Guercino 



apenas uma vtima como resgate para os restantes. A vtima foi Palinuro, o 
piloto. Enquanto ele contemplava as estrelas, segurando o leme, o deus Sono, 
enviado por Netuno, aproximou-se sob o disfarce de Forbas, e disse: 
- Palinuro, o vento  favorvel, o mar est calmo e o navio segue direito 
para o seu destino. Deita por algum tempo e goza o merecido descanso. Tomarei 
conta do leme, em teu lugar. 
- No me fales em mar brando ou ventos favorveis, a mim acostumado 
com tantas traies - respondeu Palinuro. Deverei confiar Enias ao acaso do 
tempo e dos ventos? 
E continuou a segurar o leme, com os olhos fixos nas estrelas. Sono, 
porm, sacudiu sobre ele um ramo umedecido com gua do Letes e seus olhos se 
fecharam, apesar de todos os esforos. Ento, Sono o empurrou para fora do 
navio e ele caiu, mas, no largando o leme, levou-o consigo. Netuno foi fiel  
sua promessa e manteve o navio no rumo certo, sem leme e sem piloto, at que 
Enias descobriu a perda e, profundamente pesaroso com a morte de seu fiel 
timoneiro, assumiu ele prprio a direo do barco. 

Os navios chegaram, afinal, ao litoral da Itlia e alegremente os 
aventureiros desembarcaram. Enquanto sua gente tratava de construir um 
acampamento, Enias procurou a morada da Sibila, que era uma caverna 
ligada a um templo e a um bosque, consagrados a Apolo e Diana. Enias 
estava contemplando a cena, quando a Sibila aproximou-se dele. Mostrou 
estar a par das peregrinaes do troiano e, sob a influncia da divindade do 
lugar, comeou a fazer profecias, apresentando previses sombrias sobre os 
trabalhos e perigos que Enias ainda teria de atravessar para afinal alcanar o 
sucesso. Terminou com estas palavras animadoras, que se tornaram 
proverbiais: "No te curves aos infortnios, mas avana com maior 
coragem."6 Enias respondeu que estava disposto a enfrentar o que tivesse 
pela frente. Tinha apenas um pedido a fazer. Como fora instrudo, num sonho, 
a procurar a morada dos mortos, a fim de conversar com seu pai, Anquises, 
para dele receber uma revelao sobre o futuro seu e de sua raa, pedia 
ajuda da Sibila para que tivesse possibilidade de executar a tarefa. "A 
descida para o Averno  fcil", respondeu a Sibila. "A porta de Pluto

6 Tu ne cede malis, sed contra audentior ito - Virglio 



 

Cabea de Afrodite (Vnus) 

Grego 

MUSEU DE BELAS ARTES, BOSTON 

fica aberta noite e dia. Mas voltar e retornar  atmosfera superior, a est o 
trabalho, a a dificuldade."7 Aconselhou, em seguida, a Enias a procurar na 
floresta uma rvore em que havia um galho de ouro. Este galho deveria ser 
arrancado e oferecido como presente a Prosrpina. Se o destino fosse propcio, 
ele ficaria na mo de Enias, deixando o tronco da rvore; do contrrio, 
nenhuma fora seria capaz de arranc-lo. Se arrancado, outro sucederia.8 

7 Facilis descensus Averni; Noctes atque dies patet atri janua Ditis: Sed revocare gradum superas que evadere 
ad auras, Hoc opus, hic labor est. - Virglio. 
8 Uno avulso, non dficit alter - Virglio. Arrancando um, no falta outro. 

Enias seguiu as instrues da Sibila. Vnus, sua me, mandou duas de 
suas pombas voar diante dele, para ensinar-lhe o caminho e, graas a elas, ele 
encontrou a rvore, arrancou o galho e com ele voltou para junto da Sibila. 



 CAPTULO XXXII 
As REGIES INFERNAIS - A SIBILA 
As REGIES INFERNAIS 
---


No comeo deste livro, apresentamos a verso pag da criao do mundo 
e, aproximando-se do seu fim, apresentamos uma descrio das regies dos 
mortos, exposta por um de seus mais ilustres poetas, que baseou suas doutrinas 
nos mais estimados filsofos. A regio onde Virglio localiza a entrada dessa 
morada dos mortos talvez seja, realmente, a mais adequada para dar a idia do 
terrfico e do sobrenatural em qualquer ponto da superfcie terrestre.  a regio 
vulcnica perto do Vesvio, toda cortada de fendas, das quais se levantam 
chamas sulfreas, enquanto o solo  sacudido pelo desprendimento de vapores, 
e rudos misteriosos saem das entranhas da terra. Supe-se que o Lago Averno 
ocupa a cratera de um vulco extinto. Tem a forma de um crculo, com meia 
milha de largura,  muito profundo, e suas margens, muito elevadas, eram 
cobertas, na poca de Virglio, por densa floresta. Vapores mefticos 
levantavam-se de suas guas, de modo que no havia vida em suas margens e 
nenhuma ave as sobrevoava. Ali, segundo o poeta, encontrava-se a gruta que 
dava acesso s regies infernais e ali Enias ofereceu sacrifcios s divindades 
infernais, Prosrpina, Hcate e as Frias. Logo em seguida, ouviu-se um rugido 
vindo das profundidades da terra, os bosques que cobriam os morros 



 

AA BBaaaa ddee BBaaiiaaee,, ccoomm AAppoolloo ee aa SSiibbiillaa 

JJ.. MM.. WW TTuurrnneerr 

TTAATTEE GGAALLLLEERRYY,, LLOONNDDRREESS 



foram sacudidos e o ladrido de ces anunciaram a aproximao das divindades. 
- Agora - disse a Sibila - arma-te de toda a tua coragem, pois dela 
vais precisar. 
Desceu  caverna e Enias acompanhou-a. Antes do limiar do inferno, 
passaram por um grupo de seres, que a Sibila revelou serem os Pesares, as 
vingativas Ansiedades, as plidas Enfermidades, a melanclica Velhice, o Medo 
e a Fome que induzem ao crime, o Cansao, a Misria e a Morte, formas 
horrveis de serem vistas. As Frias ali estendiam seus leitos, e, do mesmo 
modo, a Discrdia, cujos cabelos eram formados de serpentes, presas entre si 
por uma fita sangrenta. Tambm ali se achavam os monstros: Briareu, de cem 
braos, as Hidras, que silvavam, e Quimeras deitando fogo pela boca e pelas 
narinas. Enias estremeceu ao ver aquilo, desembainhou a espada e teria 
atacado, se a Sibila no o impedisse. Dirigiram-se, ento, ao negro rio, o Ccito, 
onde encontraram o barqueiro Caronte, velho e esqulido, mas forte e vigoroso, 
que recebia em seu barco passageiros de todas as espcies, heris magnnimos, 
jovens e virgens, to numerosos quanto as folhas no outono ou os bandos de 
aves que voam para o sul quando se aproxima o inverno. Todos se aglomeravam 
para passar, ansiosos por chegarem  margem oposta. O severo barqueiro, 
contudo, somente levava aqueles que escolhia, empurrando os restantes para 
trs. Espantado com o que via, Enias perguntou  Sibila: 
- Qual  o motivo dessa discriminao? 
- Aqueles que so acolhidos a bordo do barco so as almas dos que 
receberam os devidos ritos fnebres; os espritos dos outros, que ficaram 
insepultos, no podem passar o rio, mas vagueiam cem anos abaixo e acima de 
sua margem, at que finalmente sejam levados. 

Enias entristeceu-se, lembrando-se dos prprios companheiros que 
haviam perecido na tempestade. Naquele momento, avistou seu piloto 
Palinuro, que cara ao mar e morrera afogado. Ele implorou a Enias, com 
veemncia, que lhe estendesse a mo e o levasse, em sua companhia, para 
a margem oposta. A Sibila, porm, o repeliu, pois isso seria transgredir as 
leis de Pluto, mas consolou-o, revelando-lhe que os habitantes da costa 
para onde seu corpo fora levado pelas vagas seriam induzidos, por meio 



de prodgios, a lhe fazer os funerais devidos, e que o promontrio tomaria o 
nome de Cabo Palinuro, que tem at hoje. Deixando Palinuro consolado com 
essas palavras, os dois aproximaram-se do barco. Caronte, encarando fixamente, 
com severidade, o guerreiro que se aproximava, perguntou-lhe com que direito 
ele ali vinha, vivo e armado. A Sibila respondeu que eles no cometeriam 
qualquer violncia, que o nico objetivo de Enias era ver seu pai, e, finalmente, 
apresentou o galho de ouro, a cuja vista a ira de Caronte desfez-se, apressando-
se ele a encostar o barco e receber a bordo os dois. A embarcao, acostumada 
apenas com a carga muito leve dos espritos incorpreos, gemeu sob o peso do 
heri, que, juntamente com a Sibila, foi logo transportado para a outra margem. 
Ali, encontraram o co de trs cabeas Crbero, com pescoos eriados de 
serpentes. O co latiu por suas trs gargantas, at que a Sibila lhe atirou um bolo 
especialmente preparado por ela, que o animal devorou vorazmente, indo depois 
estender-se em seu canil, adormecendo profundamente. Enias e a Sibila 
desembarcaram. O primeiro som que lhes chegou aos ouvidos foi o choro de 
criancinhas, mortas no limiar da vida, e perto das quais estavam aqueles que 
haviam perecido em conseqncia de falsas acusaes. Minos os ouvia como 
juiz, e examinava as aes de cada um. A categoria seguinte era a dos que 
haviam morrido por suas prprias mos, odiando a vida e procurando refgio na 
morte. Com que boa vontade eles agora suportariam a misria, o trabalho e 
outras aflies, se pudessem retornar  vida! Vinham, em seguida, regies da 
tristeza, divididas em alias isoladas, que atravessavam os espessos bosques de 
mirto. Por ali vagueavam aqueles que haviam cado vtimas de um amor 
insatisfeito e que a prpria morte no libertara do sofrimento. Entre estes, Enias 
julgou reconhecer o vulto de Dido, com ferimento ainda recente. A luz difusa 
manteve-o na incerteza por um momento, mas, ao aproximar-se, percebeu que 
na verdade era ela. Lgrimas caram-lhe dos olhos e a ela se dirigiu, com 
palavras repassadas de amor: 

- Infeliz Dido! Era ento verdadeiro o rumor de que havias morrido? E, 
ah! fui eu a causa? Invocou o testemunho dos deuses de que me afastei de ti com 
relutncia e em obedincia s ordens de Jpiter. E no poderia acreditar que a 
minha ausncia te custasse tanto. Pra, imploro-te, e no me negues o ltimo 
adeus. 



Ela se deteve por um momento, virando o rosto e com os olhos fixados no 
cho, depois, silenciosamente, passou to insensvel  splica como um rochedo. 
Enias seguiu-a por algum tempo; depois, com o corao pesado, juntou-se de 
novo  sua companheira e reiniciou a caminhada. 
Entraram, em seguida, nos campos por onde vagueiam os heris cados na 
batalha. Ali viram muitas sombras de guerreiros gregos e troianos. Os troianos 
rodearam Enias e no se satisfaziam em v-lo. Indagavam a causa de sua vinda 
e faziam-lhe numerosas perguntas. Os gregos, porm,  vista de sua armadura, 
brilhando naquela atmosfera tenebrosa, reconheciam o heri e, tomados de 
terror, viravam as costas e fugiam, como costumavam fazer nas plancies de 
Tria. 
De boa vontade Enias teria demorado com os amigos troianos, mas a 
Sibila o incitou a apressar-se. Chegaram a um lugar onde a estrada se dividia, 
uma levando ao Elsio, outra, s regies dos condenados. Enias viu de um lado 
as muralhas de uma grande cidade, em torno da qual o Flgeton rola suas guas 
furiosas. Diante dele estava a porta de bronze, que nem os deuses nem os 
homens conseguiriam arrombar. Junto  porta, erguia-se uma torre de ferro, 
onde mantinha guarda Tisfone, a Fria vingativa. Da cidade vinham gemidos e 
ranger de dentes, o rudo de ferros e arrastar de correntes. Enias, horrorizado, 
perguntou  sua guia que crimes eram aqueles cujos castigos produziam os 
rudos que ele ouvia. 
- Aqui  o pao de julgamento de Radamanto, que desvenda os crimes 
praticados em vida e que o criminoso pensou esconder, em vo - respondeu a 
Sibila. Tisfone aplica seu chicote de escorpies e entrega o criminoso s suas 
irms, as Frias. 
Naquele momento, as portas de bronze abriram-se com pavoroso rudo e 
Enias viu, no interior, uma hidra com cinqenta cabeas guardando a entrada. 

A Sibila explicou-lhe que o abismo de Trtaro  to profundo que 
seus recessos estavam to abaixo de seus ps quanto o cu estava acima de 
suas cabeas. No fundo desse poo, jaz prostrada a raa dos Tits, que fez 
guerra aos deuses. Tambm Salmoneu, que quis competir com Jpiter, e 
construiu uma ponte de bronze, sobre a qual dirigiu seu carro, cujo rudo 
parecia o do trovo, atirando ao seu povo tochas ardentes imitando os raios, 



at que Jpiter o atingiu com um raio de verdade e ensinou-lhe a diferena entre 
as armas mortais e as divinas. L tambm se encontra o gigante Ttio, cujo corpo 
 to imenso que, estendido, ocupa mais de nove acres, enquanto o abutre lhe 
come o fgado, que, mal  devorado, cresce de novo, de modo que o castigo no 
ter fim. 
Enias viu grupos sentados a mesas cobertas de iguarias, tendo peno uma 
Fria, que lhes arrancava o alimento dos lbios, mal se preparavam pra sabore-
los. Outros sustentavam sobre a cabea enormes rochedos que ameaavam cair, 
mantendo-os, assim, num estado de constante alarme. Estes eram os que haviam 
odiado seus irmos, ultrajado seus pais, iludido os amigos que neles confiavam 
ou que, tendo-se enriquecido, guardavam o dinheiro apenas para si, sem permitir 
que outros dele compartilhassem; estes ltimos constituam o grupo mais 
numeroso. Ali tambm estavam os que violaram o voto matrimonial, lutaram 
por uma causa m ou se mostraram infiis para com seus patres. Havia um que 
vendera seu pas a troco de ouro, outro que pervertera as leis, fazendo-as dizer 
uma coisa hoje e outra coisa amanh. 
xion l estava, preso a uma roda que girava incessantemente, e Ssifo, 
cuja tarefa consistia em rolar uma enorme pedra at o alto de um morro, mas 
quando j se encontrava bem avanado na encosta, a pedra, impelida por uma 
fora repentina, rolava de novo para a plancie. Ssifo a empurrava de novo 
morro acima, coberto de suor, mas em vo. Tntalo, de p dentro de uma lagoa, 
com o queixo ao nvel da gua, sentia, no entanto, uma sede devoradora, e no 
encontrava meios de saci-la, pois, quando abaixava a cabea, a gua fugia, 
deixando o terreno sob os seus ps inteiramente seco. Frondosas rvores 
carregadas de frutos, peras, roms, mas e apetitosos figos abaixavam seus 
galhos, mas, quando ele tentava agarr-los, o vento empurrava os galhos para 
fora de seu alcance. 

A Sibila advertiu Enias de que era tempo de deixarem aquelas 
regies melanclicas e procurarem a cidade dos eleitos. Atravessaram uma 
estrada coberta de trevas e chegaram aos Campos Elsios, onde moram os 
felizes. Respiraram um ar mais puro e viram todos os objetos envoltos numa 
luz avermelhada. A regio tinha um sol e estrelas prprios. Os habitantes 
distraam-se de vrias maneiras, alguns praticando exerccios de fora e 
agilidade sobre a relva macia, outros danando e cantando. Orfeu feria as 



cordas de sua lira, produzindo sons arrebatadores. Ali viu Enias os fundadores 
do Estado troiano, heris magnnimos, que haviam vivido em pocas mais 
felizes. Contemplou, com admirao, os carros de guerra e as armas reluzentes, 
agora descansando sem uso. As lanas estavam cravadas no solo e os cavalos, 
desarreados, vagueavam pela plancie. O mesmo orgulho pelas esplndidas 
armaduras e pelos fogosos corcis que os antigos heris sentiam em vida os 
acompanhava ali. Enias viu outro grupo jovialmente escutando os acordes da 
msica. Estava num bosque de loureiros, onde o grande rio P tem sua origem. 
Ali moravam os que haviam morrido em conseqncia de ferimentos recebidos 
pela causa de sua ptria e tambm os santos sacerdotes e os poetas que 
apresentaram pensamentos dignos de Apolo e outros que contriburam para 
alegrar e adornar a vida com suas descobertas nas artes teis e tornaram sua 
memria abenoada, prestando servios  humanidade. Traziam em torno da 
testa fitas brancas como a neve. 
A Sibila dirigiu-se a esse grupo, indagando onde Anquises poderia ser 
encontrado. Foram encaminhados para onde deveriam procur-lo e, dentro em 
pouco, o encontraram num vale verdejante, onde ele contemplava a multido de 
seus descendentes, seus destinos e os fatos notveis que iriam praticar nos 
tempos vindouros. Ao reconhecer Enias, avanou, de braos estendidos, 
enquanto as lgrimas lhe escorriam pelas faces. 
- Vieste afinal - exclamou - h tanto esperado, e eu te contemplo 
depois de tantos perigos? O meu filho, quanto tremi por ti, enquanto observava 
teus passos! 
-  meu pai! - replicou Enias. - Tua imagem esteve sempre diante 
de mim para guiar-me e proteger-me. 
Tentou, ento, apertar seu pai entre os braos, mas apenas encontrou uma 
imagem incorprea. 
Enias avistou depois, diante de si, um amplo vale, com rvores que a 
brisa sacudia de leve, uma paisagem tranqila, por onde corria o Rio Letes. Em 
suas margens, andava uma incontvel multido, numerosa como insetos num dia 
estivai. Surpreso, Enias indagou quem eram aqueles e Anquises respondeu: 
- So as almas que devem receber os corpos em tempo oportuno. 

 



Enquanto isso, vivem  margem do Letes e bebem o esquecimento de sua vida 
anterior. 
- O pai! - exclamou Enias. - E possvel que algum tenha tanto amor 
 vida a ponto de querer deixar estas tranqilas regies pelo mundo superior? 
Anquises respondeu explicando o plano da criao. O Criador, disse ele, 
fez originalmente o material do qual se compem as almas com os quatro 
elementos, o fogo, o ar, a terra, e a gua, que, quando unidos, tomam a forma da 
parte mais excelente, o fogo, e se transformam em chama. Esse material 
espalhara-se como a semente, entre os corpos celestes, o sol, a lua e as estrelas. 
Dessa semente, os deuses inferiores criaram o homem e todos os outros animais, 
misturando-a, em vrias propores, com a terra, que temperava e reduzia a sua 
pureza. Quanto mais a terra predomina na composio, menos puro  o 
indivduo, e vemos homens e mulheres com os corpos plenamente 
desenvolvidos sem a pureza da infncia. Desse modo, a impureza contrada pela 
parte espiritual est em proporo com o tempo de unio do corpo com a alma. 
Essa impureza pode ser purgada aps a morte, o que  feito ventilando as almas 
na corrente atmosfrica, ou imergindo-as na gua, ou queimando suas impurezas 
no fogo. Alguns poucos, dos quais Anquises d a entender de que faz parte, so 
admitidos imediatamente ao Elsio, para ali ficar. Os restantes, porm, depois de 
purgados das impurezas da terra, so devolvidos  vida, dotados de novos 
corpos, com a lembrana de sua antiga vida inteiramente apagada, graas  
lavagem com as guas do Letes. Existem ainda, contudo, alguns to 
profundamente corrompidos que no podem receber corpos humanos e so 
transformados em animais, lees, tigres, gatos, ces, macacos etc. Isso  o que 
os antigos chamavam de metempsicose, ou transmigrao de almas, doutrina 
ainda sustentada pelos naturais da ndia, que tm escrpulo em destruir a vida 
dos mais insignificantes animais, por no saber se contm alguma pessoa de seu 
conhecimento, sob uma forma alterada. 





Aps todas essas explicaes, Anquises passou a mostrar a Enias os 
indivduos de sua raa, que ainda iriam nascer, e a relatar-lhe as empresas que 
eles deveriam executar no mundo. Depois, voltou ao presente e contou ao 
filho os acontecimentos que o esperavam antes que ele e seus companheiros



se estabelecessem definitivamente na Itlia. Seriam travadas guerras, disputadas 
batalhas, uma esposa seria conquistada e, como resultado, fundado um Estado 
troiano, do qual surgiria o poder humano, que acabaria soberano no mundo. 
Enias e a Sibila despediram-se, ento, de Anquises e regressaram, por 
algum atalho que o poeta no explica qual foi, ao mundo superior. 
CAMPOS ELSIOS 
Como vimos, Virglio coloca os Campos Elsios embaixo da terra, 
atribuindo-lhe papel de morada dos espritos dos eleitos. Em Homero, porm, o 
Elsio no faz parte do reino dos mortos, sendo colocado na parte ocidental da 
terra, perto do Oceano, e  descrito como uma terra venturosa, sem neve, sem 
frio, sem chuva e sempre ventilada pela deliciosa brisa de Zfiro. Para ali iam os 
heris, sem morrer, e viviam felizes, sob o governo de Radamanto. O Elsio de 
Hesodo e Pndaro fica nas Ilhas dos Eleitos ou Ilhas Afortunadas, no Oceano 
Ocidental, donde surgiu a lenda da ditosa Ilha da Atlntida. Essa regio 
abenoada pode ter sido inteiramente imaginria, mas tambm  possvel que 
tenha tido origem nas narrativas de alguns marinheiros que, arrastados pelas 
tempestades, avistaram a costa da Amrica. 
J. R. Lowell, em um de seus poemas, reclama para o nosso tempo alguns 
dos privilgios da poca afortunada. Dirigindo-se ao Passado, assim diz: 
Qualquer que fosse a vida que trazias, 
Ela corre, ainda hoje, como sangue, 
No organismo viril de nossa idade. 
...................................................... 
Em meio do oceano encapelado 
Dos esforos, flutuam as verdes 
"Ilhas Afortunadas", onde o esprito 
De teus heris conosco compartilha 
As nsias, os labores e os martrios. 

Do presente o progresso  resultado 



Da bravura, do bem e da beleza 

Que to grandes fizeram os velhos tempos. 

 

Milton tambm faz aluso  
mesma lenda, no Livro III de O 
Paraso Perdido: 

 

Como os jardins da Hespria do passado, 

Campos risonhos e floridos vales, 

Trs vezes venturosos. 

 

E, no Livro II, ele caracteriza os 
rios do Erebo de acordo com a 
significao de seus nomes em grego: 

 

Detestvel Estige, de odiosas 

E mortais guas; Aqueronte triste 

AA SSiibbiillaa ddee DDeellffooss 

MMiiqquueellnnggeelloo 

MMUUSSEEUU DDOO VVAATTIICCAANNOO,, CCAAPPEELLAA SSIISSTTIINNAA,, 
RROOMMAA 

De profundez inspita e sombria; 

Ccito, que o nome toma dos lamentos 

Das vtimas, cruel; feroz Flgeton 

De corrente de fogo que o dio inflama. 
Bem longe deles rola, vagaroso 
E em silncio mortal, Letes, o rio 
Do esquecimento. Quem beber da gua 
Que por seu fluido labirinto corre 
No mais se lembra do que fora antes, 
O mal e o bem e a dor e o riso esquece. 
A SIBILA 
- Sejas tu uma deusa ou mortal amada dos deuses, por mim sers sempre 
reverenciada - disse Enias  Sibila, enquanto voltavam  terra. - Quando 
chegar  atmosfera superior, mandarei erguer um templo em tua honra e eu 
mesmo oferecerei os sacrifcios. 

- No sou deusa - disse a Sibila -, no reclamo sacrifcios nem 
oferendas. Sou mortal. No entanto, se tivesse aceito o amor de Apolo, poderia 



ter sido imortal. Ele prometeu-me satisfazer minha vontade, se eu tivesse 
concordado em ser sua. Tomei um punhado de areia e estendendo o brao que o 
segurava disse: "Concede-me ver tantos aniversrios quantos gros de areia h 
em minha mo." Infelizmente, esqueci-me de pedir a juventude perene. Tambm 
isso ele me teria concedido, se eu tivesse aceito o seu amor, mas, ofendido com 
a minha recusa, ele deixou que eu envelhecesse. Minha juventude e a fora da 
juventude de h muito passaram. Vivi setecentos anos e, para igualar o nmero 
de gros de areia, terei ainda de ver trezentas primaveras e trezentos outonos. 
Meu corpo enfeza-se  medida que os anos passam e, com o tempo, perderei a 
vista, mas minha voz permanecer e as idades futuras respeitaro minha palavra. 
Estas ltimas afirmaes da Sibila constituem uma aluso aos seus 
poderes profticos. Em sua caverna, ela costumava escrever, em folhas 
apanhadas das rvores, os nomes e destinos dos indivduos. As folhas assim 
escritas eram arranjadas em ordem dentro da caverna e podiam ser consultadas 
pelos devotos, mas, se ao abrir a porta, o vento entrava e dispersava as folhas, a 
Sibila no podia restaur-las de novo, e o orculo ficava irreparavelmente 
perdido. 
A lenda da Sibila que vamos narrar em seguida  atribuda a uma poca 
posterior. Durante o reinado de um dos Tarqunios, uma mulher procurou o rei e 
ofereceu-lhe nove livros para venda. O rei negou-se a compr-los, e a mulher 
retirou-se e queimou trs dos livros, voltando, depois, para oferecer os livros 
restantes pelo mesmo preo que pedira pelos nove. O rei rejeitou de novo; mas, 
quando a mulher, depois de queimar mais trs livros, voltou e pediu pelos trs 
restantes o mesmo preo que antes pedira pelos nove, sua curiosidade foi tanta 
que o rei comprou os livros. Verificou-se que eles narravam os destinos do 
Estado romano. Foram guardados no templo de Jpiter Capitolino, conservados 
numa arca de pedra, onde s podiam ser examinados por funcionrios 
especialmente nomeados para aquele fim, que nas grandes ocasies os 
consultavam e interpretavam seus orculos para o povo. 

Houve vrias Sibilas, mas a mais clebre foi a de Cumas, mencionada por 
Ovdio e Virglio. A histria que Ovdio apresenta de sua vida, abrangendo mil 
anos, pode ter a inteno de representar as diversas Sibilas como sendo apenas o 
reaparecimento da mesma pessoa. 



 CAPTULO XXXIII 
ENIAS NA ITLIA 
CAMILA - EVANDRO 
NISO E EURALO 
MEZNCIO - TURNO 
Depois de separar-se da Sibila e voltar para sua frota, Enias com ela 
costeou o litoral da Itlia e ancorou na foz do Tibre. Tendo levado seu heri at 
aquele lugar, onde deveriam terminar suas peregrinaes, o poeta invoca sua 
Musa para contar o estado de coisas naquela memorvel ocasio. Governava o 
pas Latino, da terceira gerao descendente de Saturno. Estava velho e sem 
filho varo, mas tinha uma linda filha, Lavnia, cuja mo era pretendida por 
muitos chefes vizinhos, um dos quais, Turno, rei dos Rtulos, era o favorito de 
seus pais. Latino, contudo, foi advertido, num sonho, por seu pai, Fauno, que o 
marido destinado a Lavnia deveria vir de uma terra estrangeira e que da sua 
unio nasceria uma raa destinada a dominar o mundo. ---


Nossos leitores devero lembrar-se de que, no conflito com as harpias, 
uma daquelas aves semi-humanas ameaara os troianos de duros sofrimentos. 
Predissera, em particular, que antes de cessarem suas peregrinaes, eles seriam 
levados, pela fome, a devorar suas prprias mesas. Esse portento tornou-se ento 
verdade. Fazendo sua frugalssima refeio sentados sobre a grama, os homens 
colocaram sobre os joelhos as duras bolachas e sobre as mesmas tudo que 
haviam conseguido colher no bosque. Tendo devorado estes ltimos alimentos, 
trataram de comer as bolachas e, ao ver isto, Iulo observou, jovialmente: 



Enias fere Turno 
Niccol dell'Abate 
- Vede: estamos comendo nossas mesas. Enias concordou com o 
augrio. 
- Salve terra prometida! - exclamou. Este  o nosso lar, esta, a nossa 
ptria. 

Tratou, ento, de descobrir quem eram os habitantes do pas e quem os 
governava. Cem homens escolhidos foram enviados  aldeia de Latino, 
levando presentes e solicitando amizade e aliana. Foram amistosamente 
acolhidos. Latino concluiu imediatamente que o heri troiano no era 



outro seno o prometido genro, anunciado pelo orculo. De boa vontade 
concordou com a aliana e enviou os mensageiros de volta cavalgando corcis 
de suas estrebarias e levando presentes e mensagens amistosas. 
Juno, vendo as coisas to favorveis aos troianos, sentiu reviver sua velha 
animosidade. Convocou Alecto do Erebo e mandou-a espalhar a discrdia. Em 
primeiro lugar, a Fria apossou-se da rainha, Amata, e levou-a a se opor, por 
todos os meios,  nova aliana. Em seguida, Alecto correu  cidade de Turno e, 
tomando a forma de uma velha sacerdotisa, anunciou-lhe a chegada dos 
estrangeiros e as tentativas de seu prncipe para roubar-lhe a noiva. Finalmente, 
dirigiu sua ateno para o acampamento dos troianos. Ali viu o jovem Iulo e 
seus companheiros divertindo-se em caar. Aguou, ento, o faro dos ces e 
levou-os a descobrir no bosque um cervo manso, muito querido de Slvia, filha 
de Tirreu, o pastor do rei. Um dardo atirado por Iulo feriu o animal, que s teve 
fora para correr at a casa e morrer aos ps de sua dona. Os gritos e lgrimas 
desta comoveram seus irmos e os pastores, e eles, pegando todas as armas que 
encontraram  mo, atacaram furiosamente o grupo de caadores. Estes foram 
protegidos por seus amigos e os pastores foram afinal repelidos, depois de terem 
perdido dois dos seus. 
Estes fatos eram suficientes para provocar a guerra, e a rainha, Turno e os 
camponeses, todos, insistiram com o rei para que expulsasse os estrangeiros do 
pas. Ele resistiu o mais que pde, mas, verificando ser intil sua oposio, 
desistiu afinal e afastou-se para ura retiro. 
ABERTURA DAS PORTAS DO TEMPLO DE JUNO 


Era costume do pas, quando se tratava uma guerra, que o chefe dos 
magistrados, trajando vestes adequadas, abrisse, solenemente, as portas do 
templo de Juno, que eram conservadas fechadas enquanto durava a paz. O povo 
exigiu que o velho rei executasse essa solenidade, mas ele se recusou a faz-lo. 
Enquanto discutiam, a prpria Juno, descendo do cu, bateu nas portas, com 
fora irresistvel, e as abriu. Imediatamente, as chamas da guerra cobriram o 
pas. O povo acorreu de todos os lados, no pensando em outra coisa seno na 
luta. 



Turno foi reconhecido por todos como chefe; outros se juntaram s foras 
como aliados, o principal dos quais foi Mezncio, soldado bravo e capaz, mas de 
crueldade execrvel. Fora chefe de uma das cidades vizinhas, mas seu povo o 
expulsara. Com ele, estava seu filho Lauso, jovem generoso, merecedor de um 
chefe melhor. 
CAMILA 
Camila, favorita de Diana, caadora e guerreira,  feio das amazonas, 
chegou com seu bando de cavaleiros e alguns soldados do seu prprio sexo, para 
se colocar ao lado de Turno. Essa donzela no acostumara as mos ao manejo da 
roca, mas aprendera a enfrentar os trabalhos da guerra e, em rapidez, 
ultrapassava o vento. Dava a impresso de que passava sobre os trigais sem 
esmag-los ou sobre a superfcie da gua sem afundar. A histria de Camila foi 
singular desde o comeo. Seu pai, Metbus, expulso de sua cidade pela guerra 
civil, levou com ele, em sua fuga, a filha ainda criana. Fugindo atravs dos 
bosques, perseguido de perto pelos inimigos, chegou  margem do rio 
Amazenos, que, muito engrossado pelas chuvas, impedia a passagem. Metbus 
parou por um momento e, depois, decidiu o que fazer. Amarrou a criana em sua 
lana, com tiras de casca de rvore, e, erguendo a arma no brao estendido, 
assim se dirigiu a Diana: 
- Deusa dos bosques! Consagro a ti esta donzela. 

Em seguida, lanou a arma com sua carga  outra margem do rio. A lana 
voou sobre as guas rugidoras. Os perseguidores de Metbus j o haviam 
alcanado, mas ele mergulhou no rio e o atravessou a nado, encontrando, na 
outra margem, a lana com a criana s e salva. Dali para diante, ele viveu entre 
os pastores e ensinou  filha as artes rurais. Desde criana, ela aprendeu a 
manejar o arco e a lanar o dardo. Com sua funda, era capaz de abater o grou ou 
o cisne selvagem. Seu vestido era uma pele de tigre. Muitas mes a desejavam 
para nora, mas ela continuava fiel a Diana e repelia a idia de casamento. 



EVANDRO 
Tais eram os formidveis aliados que se juntaram contra Enias. Era noite, 
e ele dormia ao ar livre, na margem do rio. Pareceu-lhe, ento, que o deus 
daquelas guas, o Pai Tibre, levantava a cabea acima das ondas e exclamava: 
- O filho de deusa, destinado a possuir os reinos latinos, esta  a terra 
prometida, aqui ser tua ptria, aqui terminar a hostilidade das divindades 
celestes, se tu persevere fielmente. H amigos no muito distantes. Prepara teus 
braos e sobe o meu curso; eu te levarei a Evandro, o chefe rcade. Ele vem de 
h muito lutando contra Turno e os rudos, e est disposto a tornar-se teu aliado. 
Levanta! Faze teus votos a Juno e apazigua sua ira. Quando tiveres alcanado 
tua vitria, pensa, ento, em mim. 
Enias acordou e, imediatamente, obedeceu  viso amigvel. Sacrificou a 
Juno e invocou o deus do rio e todas as fontes tributrias para que o ajudassem. 
Ento, pela primeira vez uma embarcao conduzindo guerreiros armados 
flutuou na corrente do Tibre. O rio aplacou suas ondas e fez suas guas 
deslizarem de leve, enquanto, impelidos pelos rigorosos movimentos dos 
remadores, o barco subia rapidamente o seu curso. 
Cerca de meio-dia, os troianos avistaram as casas dispersas da cidade 
nascente, onde em tempos posteriores surgiu a orgulhosa cidade de Roma, cuja 
glria atingiu o cu. Por acaso, o velho rei Evandro estava naquele dia 
celebrando as solenidades anuais em honra de Hrcules e de todos os deuses. 
Com ele se encontravam seu filho Palas e todos os chefes da pequena 
comunidade. Ao verem o alto navio deslizando perto do bosque, assustaram-se e 
levantaram-se das mesas. Palas, porm, impediu que a solenidade fosse 
interrompida e, pegando uma urna encaminhou-se para a margem do rio, onde 
gritou, perguntando aos recm-vindos quem eram e qual era o seu objetivo. 
Segurando um ramo de oliveira, Enias retrucou: 
- Somos troianos, amigos vossos e inimigos dos rtulos. Procuramos 
Evandro e oferecemo-nos para juntar nossas armas s vossas. 

Palas, espantado ao ouvir to grande nome, convidou-os a 
desembarcar e, quando Enias chegou  terra, apertou-lhe calorosamente a 
mo, por muito tempo. Atravessando o bosque, os troianos foram at onde 



estavam o rei e sua gente, sendo acolhidos da maneira mais amistosa. Sentaram-
se em torno da mesa e o repasto prosseguiu. 
ROMA INFANTE 
Terminadas as solenidades, todos se dirigiram  cidade. O rei, j curvo de 
velhice, caminhava entre seu filho e Enias, apoiando-se no brao de um ou de 
outro, e conversando sobre vrios assuntos, o que parecia tornar mais curta a 
caminhada. Enias via e ouvia deleitado, observando todas as belezas do cenrio 
e aprendendo muita coisa sobre os renomados heris dos velhos tempos. 
- Estes extensos bosques foram outrora habitados por faunos e ninfas e 
uma rude raa de homens que nasceram das prprias rvores e no tinham leis 
nem cultura social. No sabiam como arar a terra com a ajuda de uma junta de 
bois, nem fazer as colheitas, nem tirar partido da abundncia presente para suprir 
a escassez futura. Viviam como animais sob as rvores e alimentavam-se 
vorazmente das presas caadas. Tais eram, quando Saturno, expulso do Olimpo 
por seus filhos, apareceu entre eles e, agrupando aqueles selvagens, formou uma 
sociedade, e deu-lhes leis. Seguiu-se uma poca de tanta paz e fartura que, desde 
ento, os homens chamaram de idade do ouro o reinado de Saturno. Pouco a 
pouco, as coisas se mudaram e prevaleceram a sede de ouro e a sede de sangue. 
A terra foi presa de sucessivos tiranos, at que a fortuna e o irresistvel destino 
aqui me trouxeram, exilado de minha terra natal, a Arcdia. 
Depois de assim falar, mostrou a Enias a rocha Tarpia e o selvagem 
lugar ento coberto de mato onde, mais tarde, se ergueria o Capitlio, com toda 
a sua magnificncia. Apontou, em seguida, para algumas muralhas 
desmanteladas, explicando: 
- Ali ficava o Janculo, construdo por Jano, e ali Satrnia, a cidade de 
Saturno. 

Assim falando, chegaram  cabana do pobre Evandro e de l avistaram 
rebanhos pastando na plancie onde hoje se ergue o orgulhoso e imponente 
Frum. Entraram e dentro havia uma cama feita para Enias, bem recheada de 
folhas, e coberta com a pele de um urso lbio. 



Na manh seguinte, acordado pelo amanhecer e pelo canto dos pssaros 
sob o telhado da casa, o velho Evandro levantou-se. Vestido de uma tnica, com 
uma pele de pantera sobre os ombros, sandlias nos ps e a espada suspensa ao 
lado, foi procurar seu hspede. Seguiam-no dois mastins, seu nico squito e 
guarda-costas. Encontrou o heri em companhia de seu fiel Acates e, tendo 
Palas logo se juntado a eles, o velho rei assim falou: 
- Ilustre troiano, pouca coisa podemos fazer para to grande causa. 
Nosso Estado  fraco, apertado de um lado pelo rio e do outro pelos rtulos. 
Proponho-me, porm, aliar contigo um povo numeroso e rico, para o qual o 
destino te trouxe no momento propcio. Os etruscos ocupam a regio que fica 
alm do rio. Seu rei era Mezncio, um monstro de crueldade, que inventava 
tormentos indizveis para satisfazer suas vinganas. Prendia os mortos aos vivos, 
com as mos nas mos e os rostos nos rostos, e deixava as desgraadas vtimas 
morrer naquele horrvel amplexo. Afinal, o povo expulsou-o e a sua casa, 
incendiando-lhe o palcio e matando seus amigos. Ele escapou e refugiou-se 
junto de Turno, que o protege com suas armas. Os etruscos exigem que ele 
receba o merecido castigo e esto dispostos a sustentar pela fora sua exigncia; 
os sacerdotes, no entanto, os retm, dizendo-lhes que  vontade do cu que 
nenhum natural desta terra os leve  vitria e que o chefe que lhes  destinado 
deve vir pelo mar. Eles me ofereceram a coroa, mas estou muito velho para 
assumir to srios compromissos e meu filho aqui nasceu, o que impede que ele 
seja escolhido. Tu, tanto pelo nascimento como pela idade e pela fama como 
guerreiro, apontado pelos deuses, ters apenas que aparecer para ser saudado 
como seu chefe. Contigo juntarei Palas, meu filho, minha nica esperana e 
consolo. Sob tua direo, ele aprender a arte da guerra e se esforar para 
imitar os seus grandes feitos. 

O rei ordenou, ento, que fossem fornecidos cavalos aos troianos, e 
Enias, com um grupo escolhido de seguidores e acompanhado de Palas, 
montou a cavalo e dirigiu-se  cidade etrusca1 tendo deixado o resto de seus 
homens nos navios. Chegou com seu grupo so e salvo ao acampamento etrusco 
e foram recebidos de braos abertos do Tarchon e seus concidados. 

1 Virglio coloca neste ponto um famoso verso que, segundo se acredita, destina-se a imitar o rudo do galope de 
cavalos e que pode assim ser traduzido: Ento, feriram o cho os cascos dos corcis, com um rudo de quatro 
patas." Quadrupedante putrem sonitu quatiti ungula campum - Virglio. 

 



NISO E EURALO 
Neste meio-tempo, Turno reunira seus bandos e fizera todos os 
preparativos necessrios  guerra. Juno mandou-lhe, por intermdio de ris, uma 
mensagem incitando-o a tirar proveito da ausncia de Enias e surpreender o 
acampamento troiano. Assim foi feito, mas os troianos estavam precavidos e 
tinham recebido severas ordens de Enias de no combater em sua ausncia; 
mantiveram-se, portanto, em suas trincheiras e resistiram a todos os esforos dos 
rtulos para os lanar ao campo. Chegando a noite, o exrcito de Turno, com o 
moral muito elevado pela suposta superioridade, festejou e divertiu-se e, afinal, 
os soldados estenderam-se no campo e dormiram confiantes. 
No acampamento dos troianos, a situao era muito diferente. Todos 
mostravam-se vigilantes, ansiosos e impacientes pelo regresso de Enias. Niso 
montava guarda na entrada do acampamento e estava em sua companhia 
Euralo, um jovem que se destacara acima de todos no exrcito por sua simpatia 
pessoal e altas qualidades. Os dois eram amigos e irmos de armas. 
- Notaste a confiana e o descuido que revela o inimigo? - perguntou 
Niso ao seu amigo. Seus fogos so poucos e fracos e os soldados parecem todos 
dominados pelo vinho ou pelo sono. Sabes com quanta ansiedade desejam 
nossos chefes se comunicar com Enias a fim de receberem suas ordens. Ora, 
estou muito inclinado a atravessar o acampamento inimigo, para ir procurar o 
nosso chefe. Se for bem-sucedido, a glria do feito me ser recompensa 
suficiente e, se julgarem que o servio prestado merece mais alguma coisa, que 
te paguem. 
Euralo, inflamado pelo amor  aventura, replicou: 
- Irias tu, Niso, recusar que eu compartilhasse contigo de tua faanha? E 
poderei eu deixar-te enfrentar sozinho tal perigo? No foi para isso que meu 
valente pai me criou nem pretendi tal coisa para mim, quando me juntei ao 
estandarte de Enias, disposto a fazer pouco da vida, quando comparada com a 
honra. 

- No duvido disso, meu amigo - replicou Niso. - Sabes, porm, 
quanto  duvidoso o xito de tal empreendimento e, seja o que for que me 
acontecer, desejo que fiques e nada te acontea. s mais moo do que eu 



e tens mais que esperar na vida. No posso ser a causa de tal dor para tua me, 
que preferiu ficar contigo, aqui no acampamento, a viver em paz com as outras 
mulheres, na cidade de Acesta.2 
- No digas mais nada - retrucou Euralo. - Em vo procurars 
argumentos para me dissuadir. J tomei a resoluo de ir contigo. No percamos 
tempo. 
Chamaram a guarda e, entregando-lhe o posto de sentinela, dirigiram-se  
tenda do general. Encontraram em conferncia os chefes principais, que 
deliberavam sobre a maneira de comunicar a situao a Enias. O oferecimento 
dos dois amigos foi recebido prazerosamente e ambos foram cobertos de 
louvores e lhes foram prometidas as mais liberais recompensas em caso de 
sucesso. Iulo, em particular, dirigiu-se a Euralo afirmando-lhe sua 
inquebrantvel amizade. 
- Tenho apenas uma coisa a pedir - replicou Euralo. - Minha velha 
me est comigo no acampamento. Por mim ela deixou a terra troiana e no quis 
ficar com as outras matronas na cidade de Acesta. Vou partir sem me despedir 
dela. No poderia suportar as suas lgrimas nem repelir seus pedidos. Tu, 
porm, peo-te, consola-a em seu sofrimento. Promete-me isso e enfrentarei 
audaciosamente quaisquer perigos que possa encontrar. 
Iulo e os outros chefes comoveram-se at as lgrimas e prometeram fazer 
tudo que ele pedira. 
- Tua me ser a minha - disse Iulo - e tudo que te prometi lhe ser 
entregue se no voltares para receb-lo. 

2 Aconselhado pela sombra de Anquises, Enias fundara, na Siclia, a cidade de Acesta, onde deixara os velhos e 
as mulheres. (Virglio, "Eneida", Livro V, versos 700 a 778). 

Os dois amigos saram do acampamento e entraram logo no meio dos 
inimigos. No encontraram vigias nem sentinelas, mas, por toda a parte, 
soldados dormindo estendidos na relva e entre as carroas. As leis da 
guerra naquele tempo no proibiam um homem valente de matar o inimigo 
adormecido, e os dois troianos mataram, ao passar, tantos inimigos quanto 
puderam, sem provocar alarme. Euralo retirou de uma tenda um brilhante 
elmo de ouro e plumas. Os dois haviam passado atravs das linhas 
inimigas sem serem descobertos, quando, de sbito, apareceu diante deles 
uma tropa que, sob o comando de Volceno, se aproximava do 
acampamento. O brilhante elmo de Euralo chamou a ateno de Volceno, que 



saudou os dois jovens e perguntou-lhes quem eram e de onde vinham. Em vez 
de responder, os dois correram para o bosque. Os cavaleiros espalharam-se em 
todas as direes para interceptar-lhes a fuga. Niso iludiu os perseguidores e 
livrou-se do perigo, mas, tendo Euralo se extraviado, voltou para procur-lo. 
Entrou de novo no bosque e logo ouviu algumas vozes. Olhando atravs das 
rvores viu todo o bando que cercava Euralo, interrogando-o ruidosamente. Que 
fazer? Como livrar o jovem, ou seria melhor morrer com ele? 
Levantando os olhos para a lua, que brilhava muito clara, exclamou: 
- Favorece-me, deusa! 
Assim dizendo, lanou o dardo contra um dos chefes do grupo, atingindo-
o nas costas e atirando-o ao cho mortalmente ferido. No meio do espanto que 
se seguiu, outra arma partiu e outro guerreiro caiu morto. O chefe, Volceno, no 
sabendo de onde haviam partido os dardos, avanou contra Euralo, de espada 
desembainhada. 
- Pagars por ambos! - exclamou, e ia mergulhar a espada em seu peito 
quando Niso, percebendo de seu esconderijo o perigo que corria o amigo, 
avanou gritando: 
- Fui eu, fui eu! Voltai contra mim vossas espadas, rtulos. Fui eu que 
fiz isso. Ele apenas me acompanhou como amigo. 
Enquanto falava, a espada avanou e atravessou o peito de Euralo. Sua 
cabea caiu sobre o ombro, como uma flor cortada pelo arado. Niso investiu 
contra Volceno, mergulhando a espada em seu corpo, e foi ele prprio morto, no 
mesmo instante, recebendo inmeros ferimentos. 
MEZNCIO 


Enias chegou  cena da ao com seus aliados etruscos a tempo de 
socorrer o acampamento sitiado. Agora, sendo os dois exrcitos 
aproximadamente equivalentes em poderio, a guerra se travou com mais fria. 
No temos espao para descrever todos os pormenores, mas devemos 
simplesmente registrar o destino dos principais personagens que apresentamos 
aos nossos leitores. Vendo-se empenhado em combate contra seus 
sditos revoltados, o tirano Mezncio lutou como um animal feroz. Matava



todos que ousavam enfrent-lo e punha a multido em fuga sempre que aparecia. 
Afinal, encontrou-se com Enias e os exrcitos deixaram de lutar para assistir ao 
encontro dos dois. Mezncio atirou sua lana, que, atingindo o escudo de Enias, 
desviou-se e feriu Antores, um grego que deixara sua cidade natal, Argos, para 
acompanhar Evandro  Itlia. De maneira comovente, Virglio falou a seu 
respeito, em versos que se tornaram proverbiais: "Caiu o infeliz, ferido por uma 
arma que visava outro, olhou o cu e morreu lembrando-se de sua querida 
Argos."3 Enias atirou, ento, sua lana, que atravessou o escudo de Mezncio e 
o feriu na coxa. Seu filho Lauso, sem poder assistir  cena, correu para diante, 
colocando-se em frente ao pai, enquanto seus partidrios rodeavam Mezncio e 
o afastavam. Enias manteve a espada suspensa sobre Lauso, demorando a ferir, 
mas o furioso jovem investiu, e ele foi compelido a desfechar o golpe fatal. 
Lauso caiu e Enias curvou-se sobre ele, compadecido. 
- Infeliz jovem, que posso fazer por ti, digno de teu valor? - disse. - 
Conserva estas armas que soubeste usar e no temas que teu corpo deixe de ser 
entregue a teus amigos e de receber as devidas honras fnebres. 
Assim dizendo, chamou os tmidos companheiros do jovem e entregou-
lhes o corpo. 

3 Sternitur infelix alieno vulnere, columque, Aspicit, et dulces moriens reminiscitur Argus - Virglio. 

Enquanto isso, Mezncio era levado at a margem do rio e nele lavado seu 
ferimento. Dentro em pouco, chegou ao seu conhecimento a morte de Lauso e o 
dio e o desespero tomaram o lugar do vigor. Cavalgando seu corcel, ele 
avanou para o meio da batalha, procurando Enias. Tendo-o encontrado, ps-se 
a correr em torno dele em crculo, atirando um dardo em seguida do outro, 
enquanto Enias se defendia com o escudo, girando para no receber os dardos 
pelas costas. Afinal, depois de Mezncio ter dado trs voltas, Enias arremessou 
sua lana diretamente sobre a cabea do cavalo, atingindo-o na testa e atirando 
ao cho o cavaleiro, enquanto um grito subiu de ambos os exrcitos at o cu. 
Mezncio no implorou misericrdia, mas apenas que seu corpo fosse poupado 
aos insultos dos sditos rebeldes e enterrado no mesmo tmulo de seu filho. 
Recebeu com coragem o golpe fatal, e sua vida e seu sangue deixaram o corpo 
ao mesmo tempo. 



PALAS, CAMILA, TURNO 
Enquanto ocorriam tais fatos em uma parte do campo de batalha, em 
outra, Turno enfrentava o jovem Palas. A luta entre dois campees to 
desproporcionalmente dotados no poderia ser duvidosa. Palas bateu-se com 
bravura, mas caiu trespassado pela lana de Turno. O vencedor quase se aplacou 
ao ver o valente jovem morto aos seus ps e renunciou a usar o privilgio de 
vencedor, despojando-o de suas armas. Apenas retirou e colocou em torno do 
prprio corpo o boldrie, adornado de rebites e entalhes de ouro, deixando o resto 
para os amigos do morto. 
Depois da batalha, houve uma cessao das hostilidades durante alguns 
dias, a fim de que os exrcitos pudessem enterrar os mortos. Nesse intervalo, 
Enias desafiou Turno para decidir a luta em um combate singular, mas Turno 
fugiu ao desafio. Seguiu-se outra batalha, na qual se distinguiu particularmente a 
virgem guerreira Camila. Seus feitos de valor ultrapassaram os dos mais bravos 
guerreiros e muitos troianos e etruscos caram atravessados por seus dardos ou 
atingidos por seu machado de guerra. Afinal um etrusco chamado Aruno, que a 
observava h muito tempo, procurando uma ocasio propcia, viu-a perseguindo 
um inimigo fugitivo, cuja esplndida couraa oferecia uma presa tentadora. 
Atenta apenas  perseguio, a virgem no percebeu o perigo que corria e o 
dardo de Aruno atingiu-a e feriu-a mortalmente. Caiu e deu o ltimo suspiro nos 
braos das donzelas que a acompanhavam. Diana, porm, que assistiu ao seu 
destino, no tolerou que sua morte ficasse impune. Aruno, enquanto fugia, 
alegre mas amedrontado, foi atingido por uma seta oculta, desfechada por uma 
das ninfas do squito de Diana, e morreu ignbil e anonimamente. 

Afinal, teve lugar a luta entre Enias e Turno. Turno evitara o encontro 
enquanto pudera, mas, por fim impelido pelo insucesso de suas armas e 
pelo murmrio de seus partidrios, lanou-se ao combate. Este no podia 
ser duvidoso. Enias tinha a seu favor o decreto expresso do destino, a 
ajuda da deusa sua me em qualquer emergncia e a impenetrvel armadura 
que Vulcano, a seu pedido, fizera para o filho. Turno, por outro lado, 
fora abandonado pelos aliados celestiais, tendo sido Juno expressamente



 proibida por Jpiter de continuar ajudando-o. Turno atirou sua lana, mas esta 
caiu inofensiva, depois de chocar-se com o escudo de Enias. O heri troiano 
atirou, ento, a sua, que atravessou o escudo de Turno e feriu-o na coxa. A 
coragem de Turno abandonou-o, e ele implorou misericrdia; Enias ia 
conceder-lhe a vida, mas, nesse instante, seus olhos pousaram no boldri de 
Palas, que Turno tomara do jovem morto. Sua raiva renasceu, ento, e ele o 
atravessou com sua espada, exclamando: - E Palas que te imola! 
Neste ponto termina a "Eneida", e somos levados a deduzir que Enias, 
tendo triunfado sobre seus inimigos, obteve a mo de Lavnia. A tradio 
acrescenta que ele fundou uma cidade a que chamou Lavinium, em homenagem 
 esposa. Seu filho Iulo fundou Alba Longa, bero de Rmulo e Remo e da 
prpria Roma. 

 



 CAPTULO XXXIV 
PITGORAS - DIVINDADES EGPCIAS 
ORCULOS 
PITGORAS 
---


Os ensinamentos de Anquises e Enias, a respeito da natureza da alma 
humana, estavam conforme a doutrina pitagrica. Pitgoras, nascido em 540 
a.C, era natural da Ilha de Samos, mas passou a maior parte de sua vida em 
Crotona, na Itlia. Assim  chamado, s vezes, "o Smio" e, outras vezes, "o 
filsofo de Crotona". Quando jovem, viajou muito e, segundo a tradio, esteve 
no Egito, onde os sacerdotes lhe transmitiram todos os seus conhecimentos, e, 
mais tarde, andou pelo Oriente, visitando os magos persas e caldeus e os 
brmanes da ndia. 

Em Crotona, onde finalmente se fixou, suas extraordinrias 
qualidades fizeram reunir-se em torno dele inmeros discpulos. Os 
habitantes da cidade eram conhecidos pelo seu luxo e licenciosidade, mas, 
em breve, se tornaram palpveis os efeitos da influncia de Pitgoras. 
Predominaram a sobriedade e a temperana. Seiscentos dos habitantes 
tornaram-se seus discpulos e alistaram-se em uma sociedade 
destinada a ajudar uns aos outros na procura da sabedoria, 
tornando seus bens uma propriedade comum para benefcio de 
todos. Os pitagricos tinham de mostrar a maior pureza e 
simplicidade de costumes. A primeira lio que aprendiam era o 
silncio: durante algum tempo tinham de se resignar apenas a ouvir, tendo 

Pitgoras 

Gravura do sculo XVI 



de aceitar como suficiente por si mesma, sem provas, a palavra de Pitgoras. 
"Ele assim disse" (Ipse dixit). Apenas os discpulos mais adiantados, depois de 
anos de paciente submisso, tinham licena para fazer perguntas e apresentar 
objees. 
Pitgoras considerava os nmeros como a essncia de todas as coisas, e 
atribua-lhes uma existncia real e distinta; assim, na sua opinio, eles eram os 
elementos com os quais se construiu o universo. Jamais foi satisfatoriamente 
explicado como ele concebia esse processo. Pitgoras partia das diversas formas 
e fenmenos do mundo para chegar aos nmeros, que eram sua base e essncia. 
Considerava a "Mnada", ou unidade, como a fonte de todos os nmeros. O 
nmero Dois era imperfeito e a causa do aumento e da diviso. Trs era 
chamado o nmero completo, porque tinha comeo, meio e fim. Quatro, 
representando o quadrado, constitua o grau mais perfeito, e o Dez, contendo a 
soma dos quatro primeiros nmeros, compreendia todas as propores musicais 
e aritmticas, e representava o sistema mundial. 

Assim como os nmeros procediam da Mnada, Pitgoras considerava a 
pura e simples essncia da Divindade como a fonte de todas as formas da 
natureza. Deuses, demnios e heris eram emanaes do Supremo, e havia uma 
quarta emanao, a alma humana. Esta  imortal e, quando libertada do corpo, 
passava  habitao dos mortos, onde permanecia at voltar ao mundo, para 
morar em algum corpo humano ou animal, e, finalmente, depois de 
suficientemente purificada, voltada  fonte de onde procedia. Essa doutrina da 
transmigrao de almas (metempsicose), egpcia de origem e ligada  doutrina 
da recompensa e castigo das aes humanas, constitua o motivo principal de os 
pitagricos no matarem os animais. Ovdio apresenta Pitgoras dirigindo-se aos 
seus discpulos com as seguintes palavras: "As almas no morrem jamais, mas 
sempre deixam uma morada para passar a outra. Eu mesmo me lembro de que, 
na poca da Guerra de Tria, fui Eufrbio, filho de Pantos, e ca pela lana de 
Menelau. H pouco, visitando o templo de Juno em Argos, reconheci meu 
escudo pendurado entre os trofus. Todas as coisas mudam, nada perece. 
A alma passa daqui para ali, ocupando ora este corpo, ora aquele, indo do 
corpo de um animal para o de um homem, e deste para o de um animal, 



novamente. Do mesmo modo que se gravam na cera certas figuras, depois se 
derrete a cera e se gravam outras, assim a alma, sendo sempre a mesma, 
apresenta, contudo, em ocasies diferentes, formas diferentes. Portanto, se o 
amor do prximo no estiver extinto em vossos coraes, abstende, recomendo-
vos, de violar a vida daqueles que podem ser vossos prprios parentes." 
No Mercador de Veneza Shakespeare faz uma aluso  metempsicose, 
quando Graciano diz a Shylock: 
Levas-me quase a renegar a f 
E a crena pitagrica adotar 
Segundo a qual dos animais a alma 
Em corpo humano entra; teu esprito, 
Vindo de um lobo, morto por castigo 
De homicdio, em teu corpo refugiou-se. 
E lupino, rapaz, sanguinolento. 
A relao entre as notas musicais e os nmeros, em virtude da qual a 
harmonia resulta de vibraes em tempos iguais, e a desarmonia do inverso, 
levou Pitgoras a aplicar a palavra "harmonia"  criao visvel, querendo dizer 
com isso a justa adaptao das partes umas s outras. Esta  a idia que Dryden 
expressa no comeo de sua "Cano para o Dia de Santa Ceclia": 
Da celeste harmonia, da harmonia 
Originou-se esse sistema eterno. 
De harmonia em harmonia, 
Toda a escala das notas percorreu 
At o Homem, suprema melodia. 


No centro do universo (ensinava Pitgoras), havia um fogo central, o 
princpio da vida, que era cercado pela Terra, pela Lua, pelo Sol e pelos 
cinco planetas. As distncias dos vrios corpos celestes entre si eram concebidas 
para corresponder s propores da escala musical. Os corpos celestes,



com os deuses que os habitavam, executavam, segundo se supunha, uma dana 
coral em torno do ponto central, "no sem cantos".  a essa doutrina que 
Shakespeare faz aluso, quando Lourenzo ensina astronomia a Jessica,  sua 
moda: 
Olha, Jessica, como a superfcie 
Do cu de ouro  toda revestida. 
Mesmo a menor esfera que contemplas 
Em seu rolar entoa, como os anjos, 
Um canto que acalenta o querubim, 
Essa harmonia as almas imortais 
Ouvem, porm ouvi-la no podemos 
Sem despirmos o invlucro mortal. 
Mercador de Veneza 


As esferas, segundo se concebia, eram de um material cristalino ou vtreo, 
dispostas umas sobre as outras como um conjunto de tigelas emborcadas. 
Supunha-se que, na substncia de cada esfera, estava preso um, ou mais de um, 
corpo celeste, que se movia com ela. Como as esferas eram transparentes, os 
corpos celestes que continham e seu movimento podiam ser vistos pelo homem. 
Como, porm, essas esferas no podiam mover-se sem se atritarem umas nas 
outras, esse atrito produzia um som muito harmonioso, delicado demais para ser 
apreendido por ouvidos mortais. Milton, em seu "Hino  Natividade", assim 
alude  msica das esferas: 

 

Soai, esferas de cristal, soai! 

Os ouvidos humanos deleitai 

(Se podeis os sentidos deleitar). 

Que soem vossos carrilhes de prata 

Com ritmo que encanta e que arrebata 

E que o rgo do Cu possa soar 

Pitgoras 

E com a vossa nnupla harmonia 

O concerto da anglica harmonia. 

 



Atribui-se a Pitgoras a inveno da lira. Longfellow, no poema "Versos a 
Uma Criana", assim relata o episdio: 
Pitgoras, o sbio, certo dia, 
Ouvindo, junto  porta de um ferreiro, 
As diferentes notas produzidas 
Pelos malhos batendo na bigorna, 
Os variados sons com que vibrava 
Cada haste de ferro, ele o segredo 
Roubou das cordas de metal sonoras 
E a lira construiu de sete cordas. 
SBARIS E CROTONA 
Sbaris, cidade vizinha a Crotona, era clebre pelo seu luxo e 
licenciosidade do mesmo modo que Crotona o era pelos motivos contrrios. Seu 
nome se tornou proverbial. 
Tendo irrompido uma guerra entre as duas cidades, Sbaris foi 
conquistada e destruda. Milo, o clebre atleta, comandou o exrcito de Crotona. 
H muitas anedotas relativas  imensa fora de Milo, tal como o fato de carregar 
nas costas uma vitela de quatro anos e com-la inteira depois, no mesmo dia. 
Sua morte  contada da seguinte maneira: ao passar por uma floresta, ele viu o 
tronco de uma rvore parcialmente cortado por lenhadores e tentou alargar a 
fenda, mas a madeira fechou sobre suas mos e o prendeu e, naquela situao, 
foi atacado e devorado por lobos. 
DIVINDADES EGPCIAS 


A divindade suprema dos egpcios era Amun, depois chamado Zeus ou 
Jpiter Amon. Amun manifestou-se por sua palavra ou vontade, que criou 
Kneph e Ator, de sexos diferentes, e dos quais procederam Osris e Isis. 
Osris era cultuado como o deus do sol, fonte do calor, da vida e da 
fecundidade, alm do que era tambm considerado como deus do Nilo, que 
anualmente visitava sua esposa, Isis (a Terra), por meio de uma inundao



Serpis ou Hermes , s vezes, representado como idntico 
a Osris e, outras vezes, como divindade diferente, 
senhor do Trtaro e deus da medicina. Anbis era o 
deus guardio, representado com uma cabea de 
co, smbolo de sua fidelidade e vigilncia. 
Hrus ou Harpcrates era filho de Osris, sendo 
representado sentado sobre uma flor de ltus, 
com o dedo nos lbios, como deus do Silncio. 

 

MITO DE OSRIS E SIS 

 

Osris e Isis foram, certa vez, induzidos 
a descer  Terra levando ddivas e bnos a 
seus habitantes. Isis ensinou-lhes primeiro o 
uso do trigo e da cevada, e Osris construiu os 
instrumentos da lavoura e ensinou aos homens 
como se utilizarem deles, assim como atrelar os 
bois ao arado. Depois, deu-lhes as leis, a instituio do 
matrimnio e uma organizao civil e tambm os instruiu no 
culto dos deuses. Aps ter transformado, assim, o vale do Nilo em um 
venturoso pas, reuniu um grupo com o qual partiu a levar seus benefcios ao 
resto do mundo. Conquistou por toda parte as naes, mas no com armas, e 
sim apenas com a msica e a eloqncia. Vendo isso, seu irmo, Tfon, 
encheu-se de inveja e, maliciosamente, tratou, durante a sua ausncia, de 
usurpar o trono. Mas Isis, que sustentava as rdeas do governo, frustrou seus 
planos. Mais enraivecido ainda, Tfon resolveu matar o irmo, o que fez da 
seguinte maneira: tendo organizado uma conspirao de setenta e dois 
cmplices, compareceu com eles  festa realizada em homenagem ao regresso 
do rei. Mandou depois trazer uma caixa ou arca, que fora feita exatamente do 
tamanho de Osris, e anunciou que daria aquela caixa de madeira preciosa a 
quem nela coubesse. Todos os outros tentaram em vo; porm, mal Osris 
entrou na caixa, Tfon e seus companheiros a fecharam e a lanaram ao Nilo. 
Quando soube do brbaro assassinato, Isis chorou e lamentou-se, e, depois, 
com os cabelos cortados, vestida de preto e esmurrando o peito, procurou 
diligentemente o corpo do marido, ajudada por Anbis, filho de Osris e Nftis. 
Procuraram em vo durante algum tempo. Quando a caixa levada pelas ondas 


Osris 

Arte egpcia 



para a praia de Biblos prendeu-se nos juncos que cresciam  beira da gua, o 
poder divino que morava no corpo de Osris transmitiu ao arbusto tal fora que 
ele se transformou em rvore frondosa, envolvendo com seu tronco o atade do 
deus. Essa rvore, com seu sagrado depsito, foi, pouco depois, derrubada e 
levantada, como uma coluna, no palcio do rei da Fencia. Afinal, porm, com a 
ajuda de Anbis e das aves sagradas, Isis ficou a par desses fatos e dirigiu-se  
cidade real. Ali, ofereceu-se como criada no palcio e, tendo sido aceita, lanou 
fora seu disfarce e apareceu como deusa, cercada de troves e relmpagos. 
Tocando a coluna com sua vara de condo, f-la abrir-se e entregar o atade 
sagrado, do qual ela se apoderou e com ele regressou, escondendo-o no meio de 
uma floresta. Tfon, porm, descobriu-o e, tendo cortado o corpo em quatorze 
pedaos, espalhou-os por diversos lugares. Depois de tediosa procura, Isis 
encontrou treze pedaos do corpo, tendo os peixes do Nilo devorado o restante, 
que foi substitudo por uma imitao em madeira de Sicmoro. O corpo foi 
enterrado em Floe, que se tornou a partir de ento o lugar em que eram 
sepultadas as grandes personagens da nao e o centro da peregrinao, para 
onde acorria gente vinda de todas as partes do pas. Foi ali erguido em honra d(c) 
deus um templo de inexcedvel magnificncia, e em todos os lugares onde 
haviam sido encontradas as partes do seu corpo foram erguidos templos menores 
ou tmulos para comemorar o fato. Osris tornou-se depois a divindade tutelar 
dos egpcios. Supunha-se que sua alma habitava o corpo do Boi pis, e que, 
com a morte deste se transferia para o corpo de seu sucessor. 

pis, o Boi de Mnfis, era cultuado com a maior venerao pelos 
egpcios. O animal escolhido para ser pis era reconhecido por certos sinais. Era 
essencial que ele fosse inteiramente preto com um sinal branco e quadrado na 
testa, outro em forma de guia nas costas e, debaixo da lngua, um caroo de 
forma semelhante a um escaravelho ou besouro. Logo que era encontrado um 
touro com esses sinais pelos homens enviados  sua procura, ele era colocado 
num edifcio voltado para o nascente e alimentado com leite, durante quatro 
meses. Expirado esse prazo, os sacerdotes, por ocasio da lua "nova, dirigiam-se  



sua habitao, com grande pompa, e o proclamavam pis. Ele era, ento, levado 
para uma embarcao magnificamente decorada e transportado sobre o Nilo at 
Mnfis, onde lhe estava destinado um templo com duas capelas e um ptio para 
exerccio. Eram-lhe oferecidos sacrifcios e, todos os anos, quando o Nilo 
comeava a crescer, atirava-se ao rio uma taa de ouro e realizava-se um grande 
festival, para celebrar o nascimento do Boi pis. O povo acreditava que, durante 
esse festival, os crocodilos esqueciam-se de sua ferocidade natural e tornavam-
se inofensivos. Havia, porm, um seno nesse feliz destino do boi: ele no tinha 
permisso de viver alm de um certo tempo e, quando atingia a idade de vinte e 
cinco anos, os sacerdotes o afogavam na cisterna sagrada e o enterravam, depois, 
no templo de Serpis. Por ocasio da morte desse boi, fosse ela natural ou 
violenta, todo o pas se enchia de pesar e lamentaes, que duravam at que 
fosse encontrado seu sucessor. 
Encontramos em um jornal a seguinte notcia: 

"O Tmulo de pis. - As escavaes que esto sendo realizadas em 
Mnfis levam a crer que aquela cidade soterrada  to interessante 
quanto Pompia. O monstruoso tmulo de pis est descoberto, 
depois de ter permanecido oculto durante sculos." 

No "Hino  Natividade", Milton faz aluso s divindades 
egpcias, no como seres imaginrios, mas como verdadeiros 
demnios, postos em fuga pelo advento de Cristo: 

 

Do Nilo os deuses to grosseiros fogem, 

Isis e Hrus e o canino Anbis. 

No mais se v Osris 

Sobre os campos de Mnfis, 

Pisando a grama que no molha a chuva 1 

1 Como no chove no Egito, a grama no  molhada e o pas depende, para sua fertilidade, das cheias do Nilo. A 
aluso  arca se deve ao fato de as pinturas que ainda existem nas paredes dos templos egpcios mostrarem que a 
mesma era carregada pelos sacerdotes nas procisses religiosas. Provavelmente representava a urna em que 
Osris foi colocado. 

Nem repouso consegue 

Em sua urna sagrada. 

Acolhe-o apenas o profundo inferno. 

Em vo, gritando imprecaes sombrias, 

Os feiticeiros sua arca adoram



ORCULOS 
Orculo era uma expresso usada para designar o lugar onde se supunha 
que as divindades consultadas davam respostas a respeito do futuro, assim como 
para designar a prpria resposta dada. 

O mais antigo orculo grego era o de Jpiter, em Dodona. Segundo uma 
verso, ele surgiu da seguinte maneira: "Duas pombas pretas partiram de Tebas, 
no Egito, e uma delas voou para Dodona, no piro, e, pousando num bosque de 
carvalhos, anunciou, em linguagem humana, aos 
habitantes do lugar que eles deveriam estabelecer ali 
um orculo de Jpiter. A outra voou para o templo de 
Jpiter Amon, no Osis Lbio, e transmitiu ali a mesma 
ordem. Outra verso  a de que no foram pombas, mas 
sacerdotisas, que, levadas de Tebas, no Egito, pelos 
fencios, estabeleceram os orculos do Osis e de 
Dodona. As respostas do orculo eram dadas nas 
rvores, pelo rudo que faziam as folhas movidas pelo 
vento, sendo esses sons interpretados por sacerdotes. 

O mais clebre dos orculos gregos, contudo, 
era o de Apolo, em Delfos, cidade construda nas 
encostas do Parnaso, na Fcida. Tinha-se observado, 
desde longo tempo, que as cabras que pastavam no 
Parnaso eram atacadas de convulses, quando se 
aproximavam de uma certa gruta bem profunda situada de 
um lado da montanha. Isso se devia a um 
determinado vapor que saa da caverna, e um 
dos pastores foi levado a experimentar, ele 
prprio, seus efeitos. Aspirando o ar 
intoxicante, ele foi afetado do mesmo modo 
que as cabras, e os habitantes da regio vizinha, no 
podendo explicar o fato, atriburam as convulses a uma 
inspirao divina. A notcia se espalhou rapidamente e 
foi construdo um templo no local. A influncia 
proftica foi, a princpio, atribuda ora  deusa Terra, 
ora a Netuno, ora a Tmis, ou a outras divindades,

Coluna com 

danarina 

na cidade 

de Delfos 

MUSEU DE 

DELFOS 



mas, finalmente, a Apolo, e somente a ele. Uma sacerdotisa, chamada Ptia, teve 
o encargo de aspirar o ar corrompido. Era preparada para executar suas funes 
por uma prvia abluo na fonte de Castlia, e, depois de coroada de louro, 
assentava-se numa trpode igualmente adornada, que era colocada sobre a fenda 
de onde saa a emanao sagrada. Suas palavras, inspiradas desse modo, eram 
interpretadas pelos sacerdotes. 
ORCULO DE TROFNIO 
Alm dos orculos de Jpiter e Apolo, em Dodona e Delfos, era 
grandemente estimado o orculo de Trofnio, na Becia. Trofnio e Agamedes 
eram irmos, notveis arquitetos, que construram o templo de Apolo em Delfos 
e o tesouro para o rei Irieu. Na parede dessa tesouraria, colocaram uma pedra de 
modo que pudesse ser retirada e, graas a isso, de tempos em tempos, o tesouro 
era roubado. Irieu ficou intrigado, pois todas as fechaduras e trancas estavam 
intactas e, no entanto, suas riquezas diminuam constantemente. Afinal ele 
armou uma cilada para o ladro e Agamedes foi apanhado. 
Trofnio, no podendo livrar o irmo, e receando que este, quando 
encontrado, fosse obrigado, pela tortura, a revelar o nome de seu cmplice, 
cortou-lhe a cabea. O prprio Trofnio foi, segundo a lenda, engolido pela 
terra, pouco depois. 
O orculo de Trofnio ficava em Lebadia, na Becia. Contava-se que, 
durante uma prolongada seca, os becios foram aconselhados pelo deus, em 
Delfos, a procurar a ajuda de Trofnio em Lebadia. Para ali se dirigiram, mas 
no encontraram o orculo. Tendo, contudo, um dos homens avistado um 
enxame de abelhas, seguiu-o at uma fenda aberta na terra, que verificou ser o 
lugar procurado. 

Cerimnias peculiares deveriam ser executadas pela pessoa que ia 
consultar o orculo. Depois dessas preliminares, a pessoa penetrava na caverna 
por uma estreita passagem, somente podendo entrar  noite. Voltava pelo 
mesmo caminho, mas caminhando de costas. Mostrava-se melanclica e abatida 
e da a expresso proverbial que se aplicava a uma pessoa triste e desanimada: 
"Esteve consultando o orculo de Trofnio." 



ORCULO DE ESCULPIO 
Havia numerosos orculos de Esculpio, mas o mais clebre era o de 
Epidauro. Ali os enfermos procuravam respostas e a cura para suas 
enfermidades, dormindo no templo. Pelas descries que possumos,  de se 
deduzir que o tratamento aplicado queles doentes constitua o que hoje se 
chama de magnetismo animal ou mesmerismo. 
As serpentes eram consagradas a Esculpio, provavelmente devido  
superstio de que aqueles animais tm a faculdade de readquirir a juventude, 
mudando de pele. 
O culto de Esculpio foi introduzido em Roma por ocasio de uma grande 
epidemia, quando se enviou uma embaixada ao templo de Epidauro para 
implorar a ajuda do deus. Esculpio mostrou-se propcio e, quando o navio 
voltou, acompanhou-o sob a forma de uma serpente. Chegando ao Tibre, a 
serpente desceu do navio e tomou posse de uma ilha no rio, onde foi erguido um 
templo ao deus. 


ORCULO DE PIS 

ppiiss 

AArrttee eeggppcciiaa 

 

Em Mnfis, o boi sagrado pis 
respondia queles que o consultavam, 
pela maneira com que recebia ou 
rejeitava o que lhe era apresentado. Se o 
boi recusava alimento da mo do 
consultante, tal fato era considerado 
como sinal desfavorvel, e vice-versa. 

Tem sido motivo de controvrsia 
saber se as respostas dos orculos 
devem ser atribudas a mera simulao humana ou  maquinao de espritos 
malignos. Esta ltima opinio foi a mais aceita no passado. Uma terceira 
hiptese foi aventada depois que o fenmeno do mesmerismo despertou a 
ateno: a de que as pitonisas eram tomadas de uma espcie de transe 
mesmrico e que realmente entrava em ao a faculdade da clarividncia. 

 



Outro problema consiste em saber quando os orculos pagos cessaram de 
dar suas respostas, e autores cristos antigos afirmam que eles se calaram com o 
nascimento de Cristo. Milton adota esse ponto de vista, em seu "Hino  
Natividade", e, em versos de sbria e elevada beleza, pinta a consternao dos 
dolos pagos diante do advento do Salvador: 
Calaram-se os orculos. 
No mais voz ou sussurro 
Se faz ouvir no templo solitrio. 
Apolo a divindade 
Perdeu e, com saudade, 
De Delfos abandona o santurio. 
No poema de Cowper "O Carvalho de Yardley", h algumas belas aluses 
mitolgicas, sendo as duas primeiras  lenda de Castor e Plux, e a ltima mais 
apropriada ao assunto de que estamos tratando agora. Falando ao fruto do 
carvalho, diz ele: 
Amadureces, cais e, na terra fecunda, 
Tomado pela fora interior que o inunda, 
O vulo se rompe tal como se rompeu 
O ovo dentro do qual, hoje estrelas no cu, 
A este mundo vieram os gmeos legendrios. 
Dois lbulos iguais cresceram, solidrios. 
A uma folha sucede uma outra folha. E, a custo, 
A plantinha de ento transformou-se em arbusto. 
Quem vivia ento, carvalho secular? 
Como a rvore de Dodona, pudesses tu falar! 
Eu no iria, ento, indagar o futuro, 

Mas, antes, sondaria o passado obscuro. 



 CAPTULO XXXV 
ORIGEM DA MITOLOGIA 
ESTTUAS DE DEUSES E DEUSAS 
POETAS DA MITOLOGIA 
ORIGEM DA MITOLOGIA 
Tendo chegado ao fim de nossas narrativas de episdios da mitologia 
paga, impe-se uma pergunta: "De onde vieram aquelas lendas? Tm algum 
fundamento na verdade, ou so apenas sonhos da imaginao?" Os filsofos tm 
aventado sobre o assunto vrias teorias: 
1. Teoria Bblica - De acordo com esta teoria, todas as lendas mitolgicas 
tm sua origem nas narrativas das Escrituras, embora os fatos tenham sido 
distorcidos e alterados. Assim, Deucalio  apenas um outro nome de No, 
Hrcules de Sanso, rion de Jonas etc. "Sir Walter Raleigh, em sua Histria do 
Mundo, diz: Jubal, Tubal e Tubal Caim so Mercrio, Vulcano e Apolo, 
inventores do pastoreio, da fundio e da msica. O Drago que guarda os 
pomos de ouro era a serpente que enganou Eva. A torre de Nemrod foi a 
tentativa dos Gigantes contra o Cu." H, sem dvida, muitas coincidncias 
curiosas como estas, mas a teoria no pode ser exagerada at o ponto de explicar 
a maior parte das lendas, sem se cair no contra-senso. 
---


2. Teoria Histrica - Por essa teoria, todas as personagens mencionadas na 
mitologia foram seres humanos reais e as lendas e tradies fabulosas a 



elas relativas so apenas acrscimos e embelezamentos, surgidos em pocas 
posteriores. Assim, a histria de olo, rei e deus dos ventos, teria surgido do fato 
de olo ser o governante de alguma ilha do Mar Tirreno, onde reinou com 
justia e piedade e ensinou aos nativos o uso da navegao a vela e como 
predizer, pelos sinais atmosfricos, as mudanas do tempo e dos ventos. Cadmo, 
que, segundo a lenda, semeou a terra com dentes de drago, dos quais nasceu 
uma safra de homens armados, foi, na realidade, um emigrante vindo da Fencia, 
que levou  Grcia o conhecimento das letras do alfabeto, ensinando-o aos 
naturais daquele pas. Desses conhecimentos rudimentares, nasceu a civilizao, 
que os poetas se mostraram sempre inclinados a apresentar como a decadncia 
do estado primitivo do homem, a Idade do Ouro, em que imperavam a inocncia 
e a simplicidade. 
3. Teoria Alegrica - Segundo essa teoria, todos os mitos da antigidade 
eram alegricos e simblicos, contendo alguma verdade moral, religiosa ou 
filosfica, ou algum fato histrico, sob a forma de alegoria, mas que, com o 
decorrer do tempo, passaram a ser entendidos literalmente. Assim, Saturno, que 
devora os prprios filhos,  a mesma divindade que os gregos chamavam de 
Cronos (Tempo), que, pode-se dizer, na verdade destri tudo que ele prprio 
cria. A histria de Io  interpretada de maneira semelhante. Io  a lua e Argos, o 
cu estrelado, que se mantm desperto para velar por ela. As fabulosas 
peregrinaes de Io representam as contnuas revolues da lua, que tambm 
sugeriram a Milton a mesma idia: 
Contemplas l no alto a lua errante 
Do apogeu, pouco a pouco aproximar-se, 
Como algum que tivesse se perdido 
Nas vastides do cu, sem rumo andando. 
Il Penseroso 


4. Teoria Fsica - Para esta teoria, os elementos ar, fogo e gua foram, 
originalmente, objeto de adorao religiosa, e as principais divindades 



eram personificaes das foras da natureza. Foi fcil a transio da 
personificao dos elementos para a idia de seres sobrenaturais dirigindo e 
governando os diferentes objetos da natureza. Os gregos, cuja imaginao era 
muito viva, povoaram toda a natureza de seres invisveis, e supuseram que todos 
os objetos, desde o sol e o mar at a menor fonte ou riacho, estavam entregues 
aos cuidados de alguma divindade particular. Wordsworth, em seu poema 
"Excurso", apresentou de maneira muito feliz esse modo de encarar a mitologia 
grega: 
Nessa terra gentil, o pastor solitrio, 
Na maciez da relva, estendido, indolente, 
Repousa, no vero, o dia quase inteiro, 
Com msica pastoril se embalando, na sombra 
E aconteceu que, em pausa em que o simples rudo 
Do prprio respirar calara-se de todo, 
Ele escutar julgou, ao longe, melodia 
Mais doce, muito mais, que os acordes da rude 
Avena pastoril que ele prprio tocara. 
A fantasia, ento, foi procurar no carro, 
No rico e flamejante carro do deus Sol, 
Um jovem que, tangendo alade de ouro, 
De harmonia e esplendor encheu o campo em torno, 
Para a lua crescente o terno olhar erguendo, 
A grande caadora invoca, poderosa, 
A linda divindade errante, que concede, 
Sem relutncia, a luz que os campos ilumina. 
Uma deusa radiosa, ento, com suas ninfas 
Atravessando o prado e o bosque penumbroso 
(Seguida pelos sons de notas melodiosas 
Que o eco reproduz nos rochedos e grutas) 
Correu a perseguir a caa, ao mesmo tempo 
Que, no cu nebuloso, a lua e as estrelas 
Corriam, enquanto o vento as nuvens agitava. 

O viajante a sede ao saciar na fonte 



De linfa cristalina,  niade agradecendo, 
Raios de sol brilhando em montanhas distantes 
E, entre sombras, depois, o espao percorrendo, 
Com a ajuda sutil da leve fantasia 
Transforma seu olhar em danas de orades. 
Os zfiros que passam, abrindo as leves asas, 
No deixam de encontrar, em seu caminho, 
Criaturas que escutam, ternas, complacentes, 
As palavras de amor murmuradas no ouvido. 
Troncos de rvores j secos e de grotesco 
Aspecto e de suas folhas j despidos, 
De um solitrio vai na profundez ocultos 
Ou perdidos na verde encosta das montanhas, 
E, s vezes, junto aos quais de um bode solitrio 
A barbicha se avista, ou de um veado os galhos, 
Um bando folgazo de stiros alegres 
Ou o prprio P parecem, aos olhos do pastor. 
Todas as teorias acima mencionadas so verdadeiras at certo ponto. 
Seria, portanto, mais correto dizer-se que a mitologia de uma nao vem de 
todas aquelas fontes combinadas, e no de uma s em particular. Podemos 
acrescentar, tambm, que h muitos mitos originados pelo desejo do homem de 
explicar fenmenos naturais que ele no pode compreender e que no poucos 
surgiram do desejo semelhante de explicar a origem de nomes de lugares e 
pessoas. 
ESTTUAS DOS DEUSES 


Apresentar adequadamente aos olhos as idias destinadas a serem levadas 
ao esprito sob o nome das diversas divindades era tarefa que exigia o exerccio 
das mais elevadas potencialidades do gnio e da arte. Das muitas tentativas, 
quatro se tornaram as mais clebres, sendo as duas primeiras conhecidas apenas 
pela descrio dos antigos e as outras ainda existindo e representando realmente 
obras-primas da escultura.1

1 Bulfinch escreveu seu livro em meados do sculo passado. Hoje, a opinio praticamente unnime de 
leigos e entendidos considera como as obras-primas, entre os exemplares da escultura grega ainda existentes, a 
Vitria da Samotrcia e a Vnus de Milo, embora estejam ambas mutiladas. Essas esttuas esto no Museu do 
Louvre. 




A esttua do Jpiter Olmpico, obra de Fdias, era considerada como a 
mais perfeita realizao da escultura grega. Tinha dimenses colossais e era 
o que os antigos chamavam "criselefantina", isto , composta de marfim e de 
ouro, sendo as partes representando a carne feitas de marfim montado sobre 
uma base de madeira ou pedra, ao passo que as vestes e outros ornamentos 
eram feitos de ouro. A altura da esttua era de quarenta ps e ficava sobre 
um pedestal de doze ps de altura.2 O deus era representado sentado em seu 
trono. Estava coroado com um ramo de oliveira e tinha na mo direita um 
cetro e na esquerda uma esttua da Vitria. O trono era de cedro, adornado 
de ouro e pedras preciosas. 

2 O p corresponde a cerca de trinta centmetros. 
3 No original ingls, os versos de Homero so apresentados nas verses de Cowper e Pope e, ainda, em uma 
verso atribuda a Addison. 
4 Cerca de cinco metros. 
5 Ver nota da p. 182. 

A idia que o autor procurava apresentar era a da divindade suprema 
da nao helnica, entronizada como vencedora em um estado de perfeita 
majestade e repouso, e governando com um aceno de cabea o mundo 
subjugado. Fdias revelou que tomara a idia de Homero, na seguinte 
passagem da Hinda, Ilada, Livro I: 

 

Calou-se, e inclina a majestosa fronte 

A Vnus de Medici 

Que sombreiam os cabelos anelados 

E todo o Olimpo treme ante o seu gesto.3 
A MINERVA DO PARTENON 


Era tambm obra de Fdias e ficava no Partenon o templo de Minerva em 
Atenas. A deusa era representada de p, com a lana em uma das mos e a 
imagem da Vitria na outra. Seu elmo, profusamente decorado, era encimado 
por uma esfinge. A esttua tinha quarenta ps de altura4 e, como a de Jpiter, era 
feita de marfim e de ouro. Os olhos eram de mrmore e, provavelmente, 
pintados, para representar a ris e a pupila. O Partenon, onde ficava essa esttua, 
tambm foi construdo sob a orientao e direo de Fdias. Sua parte externa 
era ornada de esculturas, muitas delas de Fdias. Os mrmores de Elgin, 
atualmente no Museu Britnico, fazem parte delas.5 

Tanto o Jpiter como a Minerva de Fdias esto perdidos, mas h bons 
motivos para acreditar que temos em diversos bustos e esttuas, ainda existentes, 
a concepo do artista sobre a fisionomia de ambos. Ela se caracteriza



pela beleza grave e digna, livre de qualquer expresso transitria, que, em 
linguagem artstica, se chama repouso. 
A VNUS DE MDICI 
A Vnus de Mdici  assim chamada por ter pertencido aos prncipes 
daquele nome, em Roma, quando despertou pela primeira vez a ateno, h 
cerca de duzentos anos. Uma inscrio em sua base revela que  obra de 
Clemenes, escultor ateniense de 200 a.C, mas a autenticidade da inscrio  
duvidosa. Existe uma verso segundo a qual o artista foi encarregado de 
apresentar a perfeio da beleza feminina e para que pudesse executar a tarefa 
foram postas  sua disposio as mais belas mulheres da cidade. 
O APOLO DO BELVEDERE 


O mais apreciado de todos os remanescentes da antiga escultura grega  a 
esttua de Apolo, chamada do Belvedere, nome do 
apartamento do palcio do Papa em Roma, onde ela 
foi colocada. O artista  desconhecido. Supe-se que 
se trata de uma obra-de-arte romana, 
aproximadamente do primeiro sculo de nossa era.  
uma figura de p, em mrmore, com mais de sete ps 
de altura,6 nua, com exceo de um manto preso em 
torno do pescoo e que cai sobre o brao esquerdo 
estendido. Supe-se que representa o deus no 
momento em que acabara de lanar a seta para 
matar o monstro Pton (V. Captulo III). A divindade 
vitoriosa est dando um passo para diante. O brao 
esquerdo, que parece ter sustentado o arco, est 
estendido e a cabea voltada para a mesma 
direo. No que diz respeito  atitude e  
proporo,  inexcedvel a graciosa majestade 
da figura. O efeito  completado pela 
fisionomia, onde a perfeio da beleza juvenil e 
divina reflete a conscincia de um deus triunfante. 

Apolo Belvedere 

Cpia romana. 

MUSEU DO VATICANO, ROMA 

6 Cerca de dois metros e meio. 

 



A DIANA  LA BICHE 
A Diana da Cora, no Museu do Louvre, pode ser considerada como a 
contraparte do Apolo do Belvedere. Sua atitude assemelha-se muito  de Apolo, 
os tamanhos se correspondem e tambm o estilo da execuo.  uma obra do 
maior valor, embora de modo algum igual ao Apolo. A atitude  a de um 
movimento rpido e decidido; a fisionomia, a de uma caadora na excitao da 
caa. O brao esquerdo est estendido sobre a cabea da cora, que caminha ao 
seu lado, enquanto o brao direito se move para trs sobre o ombro, a fim de 
tirar uma seta da aljava. 
Os POETAS DA MITOLOGIA 
Homero, de cujos poemas "Ilada" e "Odissia" tiramos a maior parte dos 
nossos captulos sobre a Guerra de Tria e o regresso dos gregos,  um 
personagem quase to mtico quanto os heris que celebra. A verso tradicional 
 que ele era um menestrel vagabundo, cego e velho, que viajava de um lugar 
para outro, cantando seus versos ao som da harpa, nas cortes dos prncipes ou 
nas cabanas dos camponeses, e vivendo do que lhe davam voluntariamente os 
ouvintes. Byron o chama de "o velho cego da rochosa ilha de Sio" e um bem 
conhecido epigrama alude  incerteza quanto  sua terra natal: 
De ser bero de Homero a glria rara 
Sete cidades disputaram em vo. 
Cidades onde Homero mendigara 
Um pedao de po. 
Essas cidades eram Esmirna, Sio, Rodes, Colofon, Salamina, Argos e 
Atenas. 

Eruditos modernos pem em dvida o fato de os poemas de Homero 
serem obras da mesma pessoa, em vista da dificuldade de se acreditar que 
poemas to grandes pudessem ser da poca em que se supe terem sido 
escritos, poca essa anterior s mais antigas inscries ou moedas existentes 
e quando os materiais capazes de conter to longas produes ainda 



no existiam. Por outro lado, indaga-se como poemas to longos poderiam ter 
chegado at ns, vindos de uma poca em que s poderiam ter sido conservados 
pela memria. Esta ltima dvida  explicada pelo fato de que havia, ento, um 
corpo de profissionais, chamados rapsodos, que recitavam os poemas de outros e 
tinham por encargo decorar e declamar, a troco de pagamento, as lendas 
nacionais e patriticas. 
Atualmente, a opinio da maioria dos eruditos parece ser a de que o 
esboo e grande parte da estrutura dos poemas pertencem a Homero, mas que h 
muitos acrscimos feitos por outras mos. 
Segundo Hrodoto, Homero viveu cerca de oito sculos e meio antes de 
Cristo. 
VIRGLIO 
Virglio, tambm chamado pelo seu sobrenome de Maro, e de cujo 
poema, "Eneida", tiramos a histria de Enias, foi um dos grandes poetas que 
tornaram o reinado do imperador romano Augusto to clebre. Virglio nasceu 
em Mntua, no ano de 70 a.C. Seu grande poema  considerado inferior apenas 
aos de Homero, no mais elevado gnero de composio potica, o pico. 
Virglio  muito inferior a Homero em originalidade e inveno, mas superior 
em correo e elegncia. Para os crticos de origem inglesa, somente Milton, 
entre os poetas modernos, parece digno de ser classificado entre aqueles ilustres 
antigos.7 Seu poema Paraso Perdido, que citamos tantas vezes,  igual sob 
muitos aspectos, e superior, em alguns a qualquer uma das grandes obras da 
antigidade. 
OVDIO 

Freqentemente chamado pelo seu outro nome de Naso. Ovdio 
nasceu em 43 a.C. Foi educado para a vida pblica e exerceu alguns cargos 
importantes, mas a poesia era o que lhe interessava e resolveu a ela 
dedicar-se. Assim, procurou a companhia dos poetas contemporneos, 
tendo travado conhecimento com Horcio e mesmo com Virglio, embora 
este ltimo tivesse morrido quando Ovdio ainda era demasiadamente 



jovem e obscuro para que houvesse amizade entre os dois. Ovdio viveu em 
Roma gozando fartamente a vida, graas a uma renda razovel. Desfrutava a 
intimidade da famlia de Augusto e dos seus, e supe-se que alguma ofensa 
grave cometida contra algum membro da famlia imperial foi a causa de um 
acontecimento que ps fim  felicidade do poeta e amargurou a ltima parte de 
sua vida. Quando contava cinqenta anos de idade, Ovdio foi banido de Roma, 
recebendo ordem de ir viver em Tomi,  margem do Mar Negro. Ali, entre um 
povo brbaro e sujeito a um clima severo, o poeta, que estava acostumado aos 
prazeres de uma luxuosa capital e ao convvio dos mais ilustres de seus 
contemporneos, passou os ltimos dez anos de sua vida devorado pelo 
sofrimento e pela ansiedade. Seu nico consolo no exlio foi dirigir cartas, 
escritas em forma de poesia,  esposa e aos amigos. Embora esses poemas ("Os 
"Tristes" e as "Cartas do Ponto") no falassem em outra coisa a no ser nas 
mgoas do poeta, seu bom gosto e a habilidosa inveno livraram-nos da pecha 
de tediosos e so lidos com prazer e mesmo com simpatia. 
As duas grandes obras de Ovdio so as "Metamorfoses" e os "Fastos". 
So ambos poemas mitolgicos, e tiramos do primeiro a maior parte dos 
episdios narrados neste livro sobre a mitologia grega e romana. 
Um escritor moderno assim caracteriza esses poemas: 
"A rica mitologia da Grcia ofereceu a Ovdio, como ainda pode oferecer 
ao poeta, ao pintor e ao escritor, os materiais para a sua arte. 
Com raro bom gosto, simplicidade e emoo, ele narrou as fabulosas 
tradies das idades primitivas e deu-lhes uma aparncia de realidade que 
somente a mo de um mestre conseguiria. Suas descries da natureza so vivas 
e verdadeiras; escolhe com cuidado o que  adequado; rejeita o superficial; e, 
quando completa sua obra essa no apresenta nem insuficincia nem 
redundncia. As "Metamorfoses" so lidas com prazer pelos jovens e relidas 
com maior prazer ainda pelos mais idosos. O poeta aventurou-se a prever que 
seu poema lhe sobreviveria e seria lido enquanto o nome de Roma fosse 
conhecido." 

A previso a que acima se alude  contida nos ltimos versos de 
"Metamorfoses": 



 Assim eis terminada a minha obra 
Que destruir no podero jamais 
A clera de Jove, o ferro, o fogo 
E a passagem do tempo. Quando o dia 
Em que perea a minha vida incerta 
Chegar, o que em mim h de melhor 
No h de perecer. Subindo aos astros 
Meu nome por si mesmo viver. 
Em toda a parte onde o poder de Roma 
Se estende sobre as terras submissas, 
Os homens me lero, e minha fama 
H de viver, por sculos e sculos, 

Se valem dos poetas os pressgios. 



 CAPTULO XXXVI 
MONSTROS MODERNOS 
A FNIX - O BASILISCO 
O UNICRNIO - A SALAMANDRA 
MONSTROS MODERNOS 
H um grupo de seres imaginrios sucessores das "cruis Grgonas, 
Hidras e Quimeras" das velhas supersties e que, como no tm relao direta 
com os falsos deuses do paganismo, continuaram a existir na crena popular 
depois do advento do cristianismo. Podem ser mencionados pelos escritores 
clssicos, mas sua popularidade  maior nos tempos modernos. Procuramos 
basear nossas descries dos mesmos no tanto na poesia antiga como nos 
velhos livros de histria natural e nas narrativas de viajantes. ---


 

A FNIX 

 

Ovdio nos fala da seguinte maneira 
sobre a Fnix: "A maior parte dos seres nasce 
de outros indivduos, mas h uma certa espcie 
que se reproduz sozinha. Os assrios chamam-
na de fnix. No vive de frutos ou flores mas 
de incenso e razes odorferas. Depois de ter 
vivido quinhentos anos, faz um ninho nos ramos 

 



de um carvalho ou no alto de uma palmeira. Nele ajunta cinamomo, nardo e 
mirra, e com essas essncias constri uma pira sobre a qual se coloca, e morre, 
exalando o ltimo suspiro entre os aromas. Do corpo da ave surge uma jovem 
fnix, destinada a viver tanto quanto a sua antecessora. Depois de crescer e 
adquirir foras suficientes, ela tira da rvore o ninho (seu prprio bero e 
sepulcro de seu pai) e leva-o para a cidade de Helipolis, no Egito, depositando-
o no templo do "Sol". 
Tal  a narrativa de um poeta. Vejamos a de um historiador filosfico. 
"No consulado de Paulo Fbio (34 de nossa era), a milagrosa ave conhecida no 
mundo pelo nome de fnix, que havia desaparecido h longo tempo, tornou a 
visitar o Egito" - diz Tcito. "Era esperada em seu vo por um grupo de 
diversas aves, todas atradas pela novidade e contemplando maravilhadas to 
bela apario." Depois de uma descrio da ave, que no difere muito da 
antecedente, embora acrescente alguns pormenores, Tcito continua: "O 
primeiro cuidado da jovem ave, logo que se impluma e pode confiar em suas 
asas,  realizar os funerais do pai. Esse dever, porm, no  executado 
precipitadamente. A ave ajunta uma certa quantidade de mirra, e, para 
experimentar suas foras, faz freqentes excurses, carregando-a nas costas. 
Quando adquire confiana suficiente em seu prprio vigor, leva o corpo do pai e 
voa com ele at o altar do Sol, onde o deixa, para ser consumido pelas chamas 
odorferas." Outros escritores acrescentam alguns pormenores. A mirra  
compacta, em forma de um ovo, dentro do qual  encerrada a fnix morta. Da 
carne da morta nasce um verme, que quando cresce se transforma em ave. 
Herdoto descreve a ave, embora observe: "Eu mesmo no a vi, exceto pintada. 
Parte de sua plumagem  de ouro e parte carmesim; quanto a seu formato e 
tamanho, so muito semelhantes aos de uma guia." 
O primeiro escritor que duvidou da crena na existncia da fnix foi 
Sir Thomas Browne, em seus Erros Vulgares, publicado em 1646. Suas 
dvidas foram repelidas, alguns anos depois, por Alexander Ross, que diz, 
em resposta  alegao de que a fnix aparecia to raramente: "Seu instinto 
lhe ensina a manter-se afastada do tirano da criao, o homem, pois se 
fosse apanhada por ele, seria sem dvida devorada por algum ricao 
gluto, at que no houvesse nenhuma delas no mundo." No Livro V do 

 



Paraso Perdido, Milton compara a uma fnix o Anjo Rafael descendo  Terra: 
Assim, cortando o cu, voa ligeiro, 
Entre mundos e mundos navegando, 
Ora os ventos polares enfrentando, 
Ora cortando, calmo, o rseo espao, 
At que alcana as altaneiras guias. 
Crem ver nele as aves uma fenix 
Que cortasse os espaos, solitria, 
Em procura da Tebas egipciana, 
Para os restos mortais no radioso 
Templo do Sol guardar. 
O BASILISCO 
Esse animal era chamado o rei das serpentes, tendo na cabea, para 
confirmar essa realeza, uma crista em forma de coroa. Supunha-se que nascia do 
ovo de um galo, chocado por sapos ou serpentes. Havia vrias espcies de 
basilisco. Uma delas queimava todo aquele que dela se aproximava. Uma 
segunda assemelhava-se  cabea da Medusa e sua vista causava tal horror que 
provocava a morte imediata. No Ricardo III de Shakespeare, Lady Ana, em 
resposta ao galanteio de Ricardo acerca de seus olhos, retruca: "Fossem eles os 
do basilisco, para te ferir de morte!" 
O basilisco era chamado rei das serpentes porque todas as outras cobras, 
comportando-se como bons sditos e muito sensatamente no desejando serem 
queimadas ou fulminadas, fugiam logo que ouviam a distncia o silvo de seu rei, 
ainda que estivessem se banqueteando com a mais deliciosa presa, deixando o 
manjar para o monstruoso monarca. 

O naturalista romano Plnio assim descreve o basilisco: "No arrasta o 
corpo, como as outras serpentes, por meio de uma flexo mltipla, mas avana 
firme e ereto. Mata os arbustos, no somente pelo contacto, mas respirando 
sobre eles, e fende as rochas, tal  o poder maligno que nele existe." 
Acreditava-se que, se o basilisco fosse morto pela lana de um cavaleiro, o 



poder do seu veneno, conduzido atravs da arma, matava no somente o 
cavaleiro mas at o cavalo. Lucano faz aluso a esse fato nos versos: 
Ele matou o basilisco em vo, 
Deixando-o inerte no arenoso cho. 
Corre o veneno atravs da lana 
E mata o mouro, quando a mo alcana. 
Tal prodgio no podia deixar de penetrar nas lendas dos santos. Assim, 
conta-se que um santo homem, indo a uma fonte no deserto e vendo, de repente, 
um basilisco, levantou logo os olhos para o cu e, graas a um piedoso apelo  
Divindade, fez o monstro cair morto a seus ps. 
Os poderes maravilhosos dos basiliscos so atestados por vrios sbios, 
como Galeno, Aviceno, Scaliger e outros. Por vezes, algum deles duvidava de 
uma parte da lenda, mas admitia o resto. Jonston, um mdico letrado, observa 
sensatamente: "Seria difcil de acreditar que ele mata com o olhar, pois, assim 
sendo, quem o teria visto e continuado vivo para contar o caso?" O digno sbio 
no sabia que aqueles que iam caar o basilisco dessa espcie levavam consigo 
um espelho, que fazia refletir a horrvel imagem sobre o original, fazendo o 
basilisco matar-se com sua prpria arma. 
Mas quem seria capaz de atacar esse terrvel monstro? H um velho 
ditado segundo o qual "tudo tem seu inimigo" e o basilisco intimidava-se diante 
da doninha. Por mais amedrontador que fosse o aspecto da serpente, a doninha 
no se preocupava e entrava na luta ousadamente. Quando mordida, retirava-se 
por algum tempo para ingerir a arruda, que era a nica planta que o basilisco no 
fazia murchar, e voltava a atacar com redobrado vigor e coragem, no deixando 
o inimigo enquanto no o estendia morto no cho. O monstro, como se 
consciente da estranha maneira pela qual vinha ao mundo, votava, tambm, 
extrema antipatia ao galo e estava sujeito a exalar o ltimo suspiro to logo 
ouvisse o canto daquela ave. 

O basilisco tinha alguma utilidade depois de morto. Sabemos, assim, 
que sua carcaa era colocada no templo de Apolo, e em casas particulares, 
por ser um remdio soberano contra aranhas, e que tambm era posta no 



templo de Diana, motivo pelo qual nenhuma andorinha se atrevia a penetrar no 
recinto sagrado. 
 de se supor que, a uma hora destas, o leitor j esteja cansado de 
absurdos, mas, de qualquer maneira, deveria estar interessado em saber qual era 
o aspecto do basilisco. Shelley, em sua "Ode a Npoles", cheio de entusiasmo ao 
ter notcia da proclamao de um governo constitucional naquela cidade, em 
1820, faz a seguinte aluso ao basilisco: 
Blasfemar-te atreveram-se, impudentes, 
E a liberdade blasfemar? A sorte 
Tenham de Acton, que, nos dentes 
De seus prprios mastins achou a morte! 
Vencendo os desafios e o perigo 
Da tirania, em cada momento, 
Se como o basilisco, que o inimigo 
Mata por invisvel ferimento. 
O UNICRNIO 


Plnio, o naturalista romano, cuja descrio do unicrnio serve de base  
maior parte das descries feitas pelos modernos, pinta-o como um ferocssimo 
animal, semelhante no resto do corpo a um cavalo, com a cabea de cervo, patas 
de elefante, cauda de javali, voz retumbante e o nico chifre preto, de dois 
cvados1 de comprimento, no meio da testa". Acrescenta que o 
unicrnio "no pode ser apanhado vivo" e, de certo modo 
tal desculpa devia ser apresentada naqueles dias pelo fato 
de o unicrnio no aparecer nas arenas dos anfiteatros. O 
unicrnio constitua um problema para os caadores, que no 
sabiam como se apoderar de to valiosa presa. Alguns 
descreviam seu chifre como podendo mover-se  vontade do 
animal, uma espcie de espada, em resumo, a qual nenhum 
caador que no fosse habilssimo na esgrima teria 
possibilidade de enfrentar com sucesso. Outros afirmavam 
que toda a fora do animal estava no chifre e que, quando 
perseguido de perto, ele se atirava do alto dos mais elevados 

1 Cerca de 1,20 m (N. do T.) 



rochedos, com o chifre para a frente, de maneira a cair sobre ele, e, depois, 
tranqilamente, levantava-se, sem nada haver sofrido com a queda. 
Finalmente, porm, acabou-se achando um meio de vencer o pobre 
unicrnio. Descobriu-se que ele era grande admirador da pureza e da inocncia e 
que cedia terreno quando encontrava em seu caminho uma jovem virgem. 
Vendo-a, o unicrnio se aproximava cheio de reverncia, ajoelhava-se diante 
dela, e, pondo a cabea em seu regao, adormecia. A traioeira virgem fazia, 
ento, sinal aos caadores, que se aproximavam e capturavam o simplrio 
animal. 
Os modernos zologos, naturalmente descrentes de tais lendas, no levam 
a srio a existncia do unicrnio. Existem, contudo, animais que tm na cabea 
uma protuberncia ssea mais ou menos semelhante a um chifre, que podem ter 
dado origem  lenda. O chifre do rinoceronte, como  chamado,  uma dessas 
protuberncias, embora de tamanho bem pequeno e no correspondendo de 
modo algum  descrio do chifre do unicrnio. O que h de mais semelhante a 
um chifre no meio da testa  a protuberncia ssea que existe na cabea da 
girafa, mas, tambm esta  muito curta e rombuda, e no constitui o nico chifre 
do animal, e sim um terceiro chifre, em frente dos dois outros. Em resumo, 
embora possa ser excessivo negar-se a existncia de outro quadrpede de um s 
chifre, alm do rinoceronte, pode-se afirmar com segurana que a existncia de 
um chifre comprido e resistente na testa de um animal semelhante ao cavalo e ao 
veado constitui perfeita impossibilidade. 

 

A SALAMANDRA 

 

Na Vida de Bevenuto Cellini, 
artista italiano do sculo XVI, 
escrita por ele mesmo, h o 
seguinte trecho: "Quando eu tinha 
cerca de cinco anos de idade, meu pai, 
estando num pequeno quarto, onde estava fogo de madeira de carvalho, olhou 
as chamas e viu um animalzinho semelhante a um lagarto, que podia viver na 
parte mais quente do elemento. Percebendo imediatamente do que se tratava, 
chamou-me e a minha irm, e, depois de nos ter mostrado a criatura, deu-me 



um tabefe no ouvido. Ca, chorando, enquanto ele, consolando-me com carcias, 
disse estas palavras: "Meu querido filho, no te dei este tabefe por alguma coisa 
errada que tiveste feito, mas para que te lembres que a criaturinha que viste no 
fogo  uma salamandra, tal como nenhuma outra foi vista por mim at hoje." 
Assim dizendo, beijou-me e deu-me algum dinheiro." 
Parece-nos desarrazoado duvidar de um caso em que o Signor Cellini foi 
uma testemunha tanto de vista como de ouvido. Ajunte-se a essa a autoridade de 
inmeros e sbios filsofos,  frente dos quais esto Aristteles e Plnio, 
afirmando aquele poder da salamandra. De acordo com eles, a salamandra no 
somente resistia ao fogo, mas o apagava e, quando via a chama, avanava contra 
ela, como um inimigo que sabia vencer. 
No nos devemos maravilhar com o fato de que a pele de um animal 
possa resistir  ao do fogo. Assim, chegamos  concluso de que a pele da 
salamandra (pois existe realmente tal animal,  uma espcie de lagarto) era 
incombustvel e de grande utilidade para servir de invlucro a artigos muito 
valiosos para serem protegidos por material comum. Foram realmente 
produzidos panos  prova de fogo, que se diziam feitos da pele de salamandra, 
embora os conhecedores verificassem que a substncia de que eram feitos era o 
amianto, um mineral cujos filamentos muito finos podem ser aproveitados para a 
fabricao de tecidos. 

O fundamento das lendas acima relatadas parece provir do fato de a 
salamandra realmente secretar pelos poros do corpo um lquido leitoso, que, 
quando ela se irrita,  produzido em grande quantidade e que pode, sem dvida, 
durante alguns momentos, proteg-la contra o fogo. Alm disso, a salamandra  
um animal hibernante, que, durante o inverno, se refugia em algum tronco oco 
de rvore ou em outra cavidade, e ali permanece em estado de torpor, at que a 
primavera o desperte de novo.  possvel, portanto, que seja levada ao fogo 
junto com a lenha e s desperte a tempo de recorrer a suas faculdades 
defensivas. Seu suco viscoso lhe seria, ento, de grande valor e todos quantos a 
tm visto admitem que ela trata de sair do fogo o mais depressa possvel, com 
exceo de um caso, em que as patas e outras partes do corpo do animal ficaram 
seriamente queimadas. 



 CAPTULO XXXVII 
MITOLOGIA ORIENTAL - ZOROASTRO 
MITOLOGIA HINDU - CASTAS 
BUDA - DALAI LAMA 
ZOROASTRO 
Nosso conhecimento da religio dos antigos persas baseia-se 
principalmente no Zendavesta, o livro sagrado daquele povo. Zoroastro foi o 
fundador de sua religio, ou melhor, o reformador da religio que o precedeu. A 
poca em que viveu  duvidosa, mas  certo que seu sistema se tornou a religio 
dominante na sia Ocidental a partir do tempo de Ciro (550 a. C.) at a 
conquista da Prsia por Alexandre Magno. Durante a monarquia macednia, as 
doutrinas de Zoroastro foram consideravelmente corrompidas pela introduo de 
elementos estrangeiros, mas recuperaram depois sua ascendncia. ---


Zoroastro ensinava a existncia de um ser supremo, que criou dois 
outros seres poderosos e dividiu com eles sua prpria natureza at o ponto 
que lhe pareceu conveniente. Desses dois, Ormuzd (chamado pelos 
gregos Oromasdes) permaneceu fiel ao seu criador e foi considerado a fonte 
de todo bem, ao passo que Ariman (Arimanes) rebelou-se e tornou-se o 
autor de todo o mal que h na Terra. Ormuzd criou o homem e deu-lhe 
todos os recursos para ser feliz, mas Ariman frustrou essa felicidade, 
introduzindo o mal do mundo e criando as feras, plantas e rpteis venenosos. 
Em conseqncia disso, o mal e o bem se misturaram em todas as partes 



do mundo, e os seguidores do bem e do mal - os adeptos de Ormuzd e Ariman 
- passaram a travar uma incessante guerra. Esse estado de coisas, porm, no 
durar para sempre. Chegar a ocasio em que os adeptos de Ormuzd sero 
vitoriosos e Ariman e seus sequazes sero condenados s trevas eternas. 
Os ritos religiosos dos antigos persas eram muito simples. No usavam 
eles templos, altares ou imagens, limitando-se a fazer sacrifcios no alto das 
montanhas. Adoravam o fogo e o sol, como emblemas de Ormuzd, a fonte de 
toda a luz e de toda a pureza, mas no os consideravam como divindades 
independentes. Os ritos e cerimnias religiosas ficavam ao encargo de 
sacerdotes chamados magos. Os conhecimentos dos magos relacionavam-se 
com a astrologia e os encantamentos, em que se tornaram to clebres, que seu 
nome passou a se aplicar a toda sorte de mgicos e feiticeiros. 
Wordsworth assim se refere ao culto dos persas: 
O persa - to zeloso em rejeitar 
Imagem e altar e as paredes e os tetos 
Dos templos construdos pelo homem - 
Galgando os altos pncaros dos montes, 
Com simples mirto afronte coroada, 
A lua e as estrelas adorava 
E os ventos e a matria primitiva 
E todo o firmamento, para ele 
Ao mesmo tempo Deus e natureza. 
Em "Childe Harold", Byron expressa-se da seguinte maneira sobre a 
religio dos persas: 
No era sem razo que o persa antigo 
Seus altares erguia nas montanhas 
Mais altas e, num templo sem paredes, 
Adorava o Esprito, que despreza 

Os templos pelos homens construdos, 



Comparai, comparai com as colunas 
E as moradas dos dolos, que os gregos 
E os godos levantaram, esses altares 
Erguidos pela prpria Natureza, 
S pela terra e pelo ar rodeados, 
Onde no h paredes nem abbadas 
Que possam aprisionar a vossa prece. 
A religio de Zoroastro continuou a florescer mesmo depois do advento 
do cristianismo e no sculo III era a religio predominante no Oriente, at que 
surgisse a religio maometana e a Prsia fosse conquistada pelos rabes, no 
sculo VII, o que obrigou a maior parte de persas a renunciar  sua antiga f. Os 
que se negaram a abandonar a religio dos seus antepassados fugiram para o 
deserto de Querman e para o Hindusto, onde ainda existem, com o nome de 
parses, derivado de Pars, denominao primitiva da Prsia. Os rabes chamam-
nos de guebros, de um vocbulo rabe que significa infiel. Em Bombaim, os 
parses constituem uma classe muito ativa, esclarecida e prspera, destacando-se 
pela pureza de sua vida, honestidade e benevolncia. Possuem inmeros templos 
do Fogo, que adoram como smbolo da divindade. 

 

Trindade: Brahma, Vishnu e Shiva 

MITOLOGIA HINDU 

 

A religio dos hindus foi fundada, segundo est 
expressamente admitido, pelos Vedas. Os hindus 
atribuem a maior santidade a esses livros, 
afirmando que o prprio Brahma os escreveu. A 
disposio atual dos Vedas, porm,  atribuda ao 
sbio Viasa, que viveu h cerca de cinco mil anos. 

Indubitavelmente, os Vedas ensinam a 
crena em um Deus supremo. O nome dessa 
divindade  Brahma. Seus atributos so 
representados pelos trs poderes personificados da 
criao, conservao e destruio, que sob os 
nomes respectivos de Brahma, Vishnu e Shiva formam 



a Trimuri, ou trindade dos principais deuses hindus. Dos deuses inferiores, os 
mais importantes so: 1. Indra, deus do cu, do trovo, do relmpago, da 
tempestade e da chuva; 2. Agni, deus do fogo; 3. Iama, deus das regies 
infernais; 4. Suria, deus do sol. 
Brahma  o criador do universo e a fonte de onde emanaram todas as 
divindades individuais e pela qual elas sero, finalmente, absorvidas. "Assim 
como o leite se transforma em coalho e a gua, em gelo, assim Brahma se 
transformou e se diversificou em vrias coisas, sem qualquer ajuda de recursos 
exteriores." A alma humana, de acordo com os Vedas, constitui uma parte do 
poder supremo, do mesmo modo que uma fagulha pertence ao fogo. 
VISHNU 


Vishnu ocupa o segundo lugar da trindade dos hindus e  a personificao 
do esprito conservador. Para proteger o mundo em vrias pocas de perigo, 
Vishnu desceu  Terra, em diferentes encarnaes, ou formas corpreas, sendo 
essas descidas chamadas avatares. Os avatares so numerosos, mas dez deles so 
mais freqentemente mencionados. O primeiro avatar foi o de Matsia, o Peixe, 
forma sob a qual Vishnu preservou Manu, o antepassado da raa humana, 
durante um dilvio universal. O segundo avatar foi sob a forma de 
uma Tartaruga, que Vishnu assumiu para proteger a Terra quando os 
deuses estavam agitando o mar,  procura de uma bebida 
que dava a imortalidade, Anrita. Omitiremos os outros 
avatares, que tinham a mesma finalidade geral, isto , de 
proteger o bem ou punir os maus, e chegaremos ao nono, 
que  o mais celebrado dos avatares de Vishnu, no qual 
ele apareceu sob a forma humana de Krishna, um guerreiro 
invencvel, que, por suas faanhas, livrou a Terra dos 
tiranos que a oprimiam. 

Os adeptos do brahmanismo consideraram Buda 
como uma encarnao ilusria de Vishnu, assumida 
por ele a fim de induzir os Asuras, adversrios dos deuses, 
a abandonar os ensinamentos sagrados dos Vedas, graas ao 
que eles perderiam sua fora e supremacia. 



Calque  o nome do dcimo avatar, no 
qual Vishnu aparecer no fim da poca 
presente do mundo, para destruir todos os 
vcios e malvadezas e restituir  humanidade 
a virtude e a pureza. 

 

SHIVA 

 

Shiva  a terceira pessoa da trindade 
hindu.  a personificao do princpio 
destruidor. Embora venha em terceiro lugar, 
no que diz respeito ao nmero de adoradores 
e  extenso do culto,  mais importante que 
os outros dois. Nas Puranas (Escrituras da 
moderna religio hindu), no h aluso ao 
poder original desse deus como destruidor, 
no devendo tal poder ser exercido seno 
aps haverem transcorrido doze milhes de 
anos, quando o universo dever acabar. 
Maadeva (outro nome de Shiva) representa mais a regenerao que a destruio. 
Os adoradores de Vishnu e Shiva formam duas seitas, cada uma das quais 
proclama a superioridade de sua divindade favorita, negando as pretenses da 
outra, ao passo que Brahma, o criador, tendo completado sua obra, j no  
considerado como um deus em atividade e s possui um templo na ndia, ao 
passo que Maadeva e Vishnu tm inmeros. Os adoradores de Vishnu destacam-
se, geralmente, por maior apego  vida e conseqente abstinncia de alimentos 
de origem animal e um culto menos cruel que o dos adoradores de Shiva. 
JAGATAI 
Os entendidos discordam quanto  maneira de classificar os 
adoradores de Jagatai como seguidores de Vishnu ou de Shiva. O templo 
dessa seita fica perto da costa do mar, a cerca de trezentas milhas a sudoeste de 

Shiva 

 



Calcut. O dolo  um bloco esculpido de madeira, com um rosto 
pavoroso, pintado de preto e uma enorme boca vermelha. Nos dias de festa, o 
trono da imagem  colocado numa torre de sessenta ps de altura,1 que se move 
sobre rodas. A essa torre so amarradas seis compridas cordas, graas s quais a 
torre  puxada. Os sacerdotes e seus ajudantes ficam de p em torno do trono e, 
de vez em quando, dirigem-se ao povo com canes e gestos. Enquanto a torre 
avana, muitos dos fanticos adoradores deitam-se no cho diante dela, a fim de 
serem esmagados por suas rodas, e a multido grita, aplaudindo esse ato, 
considerado agradvel ao dolo. Todos os anos, particularmente por ocasio das 
duas grandes festividades em maro e julho, acorrem ao templo multides de 
peregrinos. Segundo se diz, setenta a oitenta mil pessoas visitam o lugar 
naquelas ocasies, quando todas as castas se misturam. 
CASTAS 
A diviso dos hindus em castas, com ocupaes fixadas, existia desde os 
tempos mais remotos. Alguns supem que teve sua origem na conquista, sendo 
as trs primeiras castas compostas de uma raa estrangeira, que subjugou os 
naturais do pas e os reduziu a uma casta inferior. Outros atribuem o fato  
vontade de perpetuar, pela transmisso de pai a filho, certos ofcios ou 
profisses. 
A tradio hindu explica da seguinte maneira a origem das diversas 
castas: na poca da criao, Brahma resolveu dar  Terra habitantes que fossem 
emanaes diretas de seu prprio corpo. Assim, de sua boca saiu o filho mais 
velho, Brmane (o sacerdote), ao qual ele confiou os quatro Vedas. Do brao 
direito saiu Chtria (o guerreiro) e do brao esquerdo, a esposa do guerreiro. 
Suas coxas produziam os Vaissias, do sexo masculino e feminino (agricultores e 
comerciantes) e, finalmente, de seus ps surgiram os Sudras (mecnicos e 
trabalhadores). 

Os quatro filhos de Brahma , to significativamente vindos ao mundo, 
tornaram-se os pais do gnero humano e fundadores das respectivas castas. 
Tiveram ordem de considerar os quatro Vedas como contendo todas as 
regras de sua f e tudo que era necessrio para gui-los em suas cerimnias



 religiosas. Tambm eram obrigados a se conservar dentro da classe a que 
pertenciam por nascimento, sendo os brmanes os superiores, por terem nascido 
da cabea de Brahma. 
Uma profunda linha divisria foi traada entre as trs primeiras castas e os 
sudras. Aquelas tm permisso de se instrurem nos Vedas, o que era negado aos 
sudras. Os brmanes gozam do privilgio de ensinar os Vedas e nos tempos 
primitivos estavam na posse exclusiva de todos os conhecimentos. Embora o 
soberano do pas fosse escolhido na classe dos chtrias, os brmanes dispunham 
do poder real e eram os conselheiros do rei, os juizes e os magistrados do pas; 
suas pessoas e seus bens eram inviolveis e, ainda que cometessem os piores 
crimes, no podiam ser banidos do reino. Deviam ser tratados pelos soberanos 
com o maior respeito, pois "um brmane, seja sbio ou ignorante,  uma 
divindade poderosa". 

Brahma 

Quando um brmane atingia a idade madura, tinha a obrigao de 
casar. Devia ser sustentado pelas contribuies dos ricos e no era obrigado 
a exercer qualquer atividade laboriosa ou produtiva para sua subsistncia. 
Como, porm, nem todos os brmanes podem ser sustentados pela parte



trabalhadora da comunidade, tornou-se necessrio permitir-lhes o exerccio de 
funes remuneradas. 

No h muita coisa a dizer das duas classes intermedirias, cujos 
privilgios e situao facilmente podem ser imaginados levando-se em conta 
suas ocupaes. Os sudras, a quarta classe, esto obrigados a uma dependncia 
servil s outras trs castas superiores, especialmente aos brmanes, mas podem 
exercer ocupaes mecnicas e as artes prticas, tais como a pintura e a 
literatura, ou tornarem-se comerciantes. Em conseqncia, alguns deles 
enriquecem, do mesmo modo que, s vezes, os brmanes so reduzidos  
pobreza. Quando isso ocorre, a conseqncia natural  que o brmane tem de 
trabalhar para ganhar a vida e acontece que um sudra rico emprega brmanes 
pobres em ocupaes servis. H uma classe ainda inferior  dos sudras, pois no 
 uma das castas originais puras, mas sim resultante de unies ilcitas entre 
indivduos de classes diferentes. So os prias, empregados nos servios mais 
baixos e tratados com a maior severidade. So obrigados a fazer o que nenhum 
outro pode fazer sem se poluir. No apenas so considerados impuros, como 
tornam impuro todo aquele em que tocam. So privados de todos os direitos 
civis e estigmatizados por leis particulares, que regulam seu modo de vida, sua 
casa e os mveis de que podem dispor. No tm permisso de entrar nos 
pagodes ou templos das outras castas, devendo ter seus prprios pagodes e 
cultos religiosos. No so admitidos em casa de membros de outras castas e, se 
ali penetram, por descuido ou necessidade, o local tem de ser purificado por 
meio de cerimnia religiosa. Os intocveis no devem aparecer nos mercados 
pblicos e tm de usar poos particulares, que so obrigados a cercar com ossos 
de animais, para advertir os demais, no sentido de no us-los. Moram em 
habitaes miserveis, distantes das cidades e aldeias, e no esto sujeitos a 
restries no que diz respeito  alimentao, o que no constitui um privilgio, 
mas um sinal de ignomnia, pois isso quer dizer que esto to degradados que 
coisa alguma pode polu-los. As trs castas superiores so rigorosamente 
proibidas de comer carne. A quarta casta pode comer todas as espcies de carne, 
exceto a de vaca, mas apenas a casta inferior tem permisso para se alimentar de 
qualquer coisa. 



BUDA 
Buda, que os Vedas apresentam como uma encarnao ilusria de Vishnu, 
foi, segundo seus seguidores, um sbio mortal, cujo nome era Gautama, tambm 
chamado pelos eptetos laudatrios de Saquiamni, o leo, e Buda, o Sbio. 
Comparando-se as vrias pocas em que se coloca seu nascimento,  de se 
deduzir que ele viveu cerca de mil anos antes de Cristo. 
Era filho de um rei e quando, na conformidade dos costumes do pas, foi, 
alguns dias aps o nascimento, apresentado ao altar de uma divindade, a 
imagem, segundo se diz, inclinou a cabea, como pressgio da futura grandeza 
do profeta recm-nascido. A criana logo desenvolveu extraordinariamente suas 
faculdades e distinguiu-se, tambm, por sua beleza pouco comum. Mal atingira a 
maturidade, Buda comeou a refletir profundamente sobre a depravao e 
misria do gnero humano e concebeu a idia de afastar-se da sociedade e 
dedicar-se  meditao. Seu pai em vo se ops aos seus intentos. Buda livrou-
se da vigilncia de seus guardas e, tendo encontrado um retiro seguro, viveu 
durante seis anos em devotas contemplaes, sem ser perturbado. Terminado 
aquele perodo, dirigiu-se a Benares, como pregador religioso. A princpio, 
alguns dos que o ouviram duvidaram de sua sanidade mental. Dentro em pouco, 
porm, sua doutrina adquiriu tal crdito e se propagou to rapidamente que Buda 
ainda viveu bastante para v-la espalhada por toda a ndia. Morreu aos oitenta 
anos de idade. 

Os budistas negam inteiramente a autoridade dos Vedas e as observncias 
religiosas neles prescritas e seguidas pelos hindus. Tambm no aceitam a 
separao dos homens em castas e probem todos os sacrifcios sanguinolentos e 
o uso de alimentos de origem animal. Seus sacerdotes so escolhidos em todas 
as classes; devem-se sustentar mendigando, e, entre outras coisas, tm obrigao 
de procurar utilizarem-se de objetos jogados fora como inteis por outros e 
descobrirem o poder medicinal das plantas. No Ceilo, contudo, so 
reconhecidas trs ordens de sacerdotes; os que pertencem  ordem superior so, 
em geral, homens instrudos e bem-nascidos e ligados aos templos principais, a 



maior parte dos quais recebeu riqussimos donativos dos 
monarcas do pas. 

Durante alguns sculos aps o aparecimento de 
Buda, sua seita parece ter sido tolerada pelos brmanes, e 
o budismo se espalhou pelo Hindusto em todas as 
direes, chegando at o Ceilo e a pennsula oriental. 
Posteriormente porm, o budismo sofreu na ndia tenaz 
perseguio, que o eliminou inteiramente no pas onde teve 
sua origem, mas o fez propagar-se pelos pases vizinhos. 
Segundo parece, o budismo foi introduzido na China 
aproximadamente no ano 65 de nossa era. Da China, 
ele se propagou, mais tarde, para o Japo, Coria e 
Java. 

Buda 

 

O DALAI LAMA 
Do mesmo modo que os hindus brahmanistas, os budistas acreditam que o 
confinamento da alma humana, como emanao do esprito divino, no corpo 
humano, constitui um estado de sofrimento, conseqncia das fraquezas e 
pecados cometidos durante existncias anteriores. Sustentam, porm, que tm 
aparecido na Terra, de tempos em tempos, indivduos que no se encontram 
sujeitos  necessidade da existncia terrena, mas que desceram  Terra 
voluntariamente, para promover o bem da humanidade. Esses indivduos, pouco 
a pouco, assumiram o carter de reaparecimentos do prprio Buda, e essa 
sucesso continuou at o presente, atravs dos vrios Lamas, no Tibete, China e 
outros pases onde predomina o budismo. Em conseqncia da vitria de Gngis 
Khan e de seus sucessores, o Lama residente no Tibete foi elevado  dignidade 
de sumo pontfice da seita. Foi-lhe destinada uma provncia naquele territrio e, 
alm de sua dignidade espiritual, ele se tornou, de certo modo, um monarca 
temporal, sendo chamado Dalai Lama. 
Os primeiros missionrios cristos que visitaram o Tibete ficaram 
surpresos ao encontrar no corao da sia uma corte pontificai e vrias outras 
instituies eclesisticas semelhantes s da Igreja Catlica Romana, como 
conventos para ambos os sexos e procisses e formas de cultos realizados 
com grande pompa e esplendor. Em vista dessas semelhanas, muitos deles 





foram levados a considerar o lamasmo como uma espcie de catolicismo 
degenerado. No  impossvel que os Lamas tenham copiado algumas dessas 
prticas dos cristos nestorianos, que se haviam estabelecido na Tartria, quando 
o budismo foi introduzido no Tibete. 
PRESTES JOO 
Uma antiga descrio, provavelmente transmitida por mercadores 
viajantes, de um Lama ou chefe espiritual dos trtaros, parece ter feito surgir na 
Europa a lenda de um Presbtero, ou Prestes Joo, pontfice cristo residente na 
frica superior. O Papa enviou uma misso em sua procura e o mesmo fez Lus 
IX da Frana, alguns anos depois, porm, ambas as misses foram 
malsucedidas, embora as pequenas comunidades de cristos nestorianos que 
encontraram levassem a Europa a manter a crena na existncia de tal 
personagem em algum lugar do Oriente. Afinal, no sculo XV, um viajante 
portugus, Pedro Covilh, ouvindo dizer que havia um prncipe cristo no pas 
dos abissnios (Abissnia), perto do Mar Vermelho, concluiu que ele deveria ser 
o verdadeiro Prestes Joo. Assim, para ali se dirigiu, chegando  corte do rei, a 
quem chamou de Ngus. Milton faz aluso a ele no Livro XI do Paraso 
Perdido, quando diz, descrevendo a viso de Ado de suas vrias naes e 
cidades, espalhadas sobre a face da Terra: 
No deixaram seus olhos de avistar 
O imprio do Ngus  o mais longnquo 
De seus portos, Ercoco, e outros reinos 
Mais distantes do mar, como Mombaca 

E Quiloa e Melinde. 



 CAPTULO XXXVIII 
MITOLOGIA NRDICA - VALHALA 
As VALQURIAS 
MITOLOGIA NRDICA 
As histrias que atraram at agora nossa ateno relacionam-se com a 
mitologia dos pases meridionais. H, contudo, outro ramo de antigas 
supersties que no podem ser ignorados de todo, especialmente porque 
pertencem a naes s quais est ligada nossa origem, atravs de nossos 
antepassados ingleses:  a mitologia dos povos nrdicos, chamados 
escandinavos, que habitavam os pases hoje conhecidos como Sucia, 
Dinamarca, Noruega e Islndia. Essas narrativas mitolgicas esto contidas em 
duas colees chamadas as Edas, a mais antiga das quais  em poesia e data de 
1056 e a mais moderna, em prosa, de 1640. 
Segundo as Edas, no havia, no princpio, nem cu em cima nem terra 
embaixo, mas apenas um abismo sem fundo e um mundo de vapor no qual 
flutuava uma fonte. Dessa fonte saram doze rios, e, depois de eles terem corrido 
at muito distante de sua origem, congelaram-se e, tendo as camadas de gelo se 
acumulado umas sobre as outras, o grande abismo se encheu. ---


Ao sul do mundo de vapor, havia um mundo de luz, do qual uma 
virao quente soprou sobre o gelo, derretendo-o. Os vapores elevaram-se no 
ar e formaram nuvens, das quais surgiu Ymir, o gelo gigante, e sua gerao, 
e a vaca Audumbla, cujo leite alimentou o gigante. Essa vaca, alimentava-se



 

lambendo o gelo de onde retirava a gua e o sal. 
Certo dia, quando ela estava lambendo as pedras 
de sal, surgiram os cabelos de um homem; no 
segundo dia toda a cabea e, no terceiro, todo o 
corpo, que tinha grande beleza, agilidade e 
fora. O novo ser era um deus e dele e de 
sua esposa, filha da raa dos gigantes, 
nasceram os trs irmos, Odin, Vili e Ve, que 
mataram o gigante Ymir, formando com seu 
corpo a terra, com seu sangue os mares, com 
seus ossos as montanhas, com seus 
cabelos as rvores, com seu crnio o cu e com seu crebro as nuvens carregadas 
de neve e granizo. Com a testa de Ymir, os deuses formaram a Midgard (terra 
mdia), destinada a tornar-se a morada do homem. 
Odin estabeleceu, depois, os perodos do dia e da noite, e as estaes, 
colocando no cu o Sol e a Lua e lhes determinando os respectivos cursos. Logo 
que o Sol comeou a lanar seus raios sobre a Terra, fez brotarem e crescerem 
os vegetais. Pouco depois de terem criado o mundo, os deuses passearam junto 
ao mar, satisfeitos com sua obra recente, mas verificaram que ela ainda estava 
incompleta, pois faltavam seres humanos. Tomaram, ento, um freixo e dele 
fizeram um homem e de um amieiro fizeram uma mulher, chamando o homem 
de Aske e a mulher de Embla. Odin deu-lhes ento, a vida e a alma. Vili, a razo 
e o movimento, e Ve, os sentidos, a fisionomia expressiva e o dom da palavra. A 
Midgard foi-lhes, ento, dada para moradia e eles se tornaram os progenitores do 
gnero humano. 

Odin 

Supunha-se que todo o universo era sustentado pelo gigantesco freixo 
Ygdrasil, que nascera do corpo de Ymir e tinha razes imensas, uma das 
quais penetrava no Asgard (morada dos deuses), outra no Jotunheim 
(morada dos gigantes) e a terceira no Niffleheim (regies das trevas e do 
frio). Ao lado de cada raiz havia uma fonte que a regava. A raiz que 
penetrava no Asgard era cuidadosamente tratada pelas trs Norns, deusas 
consideradas como donas do destino. Eram Urdur (o passado), Verdande (o 
presente) e Skuld (o futuro). A fonte do lado de Jotunheim era o poo 



de Ymir, no qual se escondiam a sabedoria e inteligncia, mas a do lado de 
Niffleheim alimentava Nidhogge (escurido), que corroa a raiz perpetuamente. 
Quatro veados corriam sobre os ramos da rvore e mordiam os brotos; 
representam os quatro ventos. Sob a rvore, ficava estendido o Ymir e, quando 
ele tentava livrar-se de seu peso, a terra tremia. 
Asgard  o nome da morada dos deuses, para onde se tem acesso somente 
atravessando a ponte Bifrost (arco-ris). Asgard consiste de palcios de ouro e 
prata, morada dos deuses, mas o mais belo deles  o Valhala, morada de Odin, 
que, quando sentado em seu trono, avista todo o cu e toda a Terra. Em seus 
ombros pousam os corvos Hugin e Munin, que voam durante todo o dia sobre o 
mundo e, quando voltam, contam ao deus tudo que viram e ouviram. A seus ps 
esto deitados dois lobos, Geri e Freki, aos quais Odin d toda a carne que  
colocada diante dele, uma vez que ele prprio no tem necessidade de se 
alimentar, a no ser com o hidromel, que lhe serve tanto de comida como de 
bebida. Odin inventou os caracteres rnicos, com os quais as Norns gravam os 
destinos, numa chapa metlica. Do nome de Odin, s vezes pronunciado Woden, 
vm Wednesday, nome do quarto dia da semana. 
Odin  freqentemente chamado de Alfadur (todo pai), mas esse nome , 
s vezes, usado de maneira que mostra que os escandinavos tinham a idia de 
uma divindade superior a Odin, incriada e eterna. 
As ALEGRIAS DO VALHALA 


Valhala  o grande palcio de Odin, onde ele se diverte em festins com os 
heris escolhidos, aqueles que morreram valentemente em combate, pois so 
excludos todos os que morreram pacificamente. -lhe servida a carne do javali 
Schrinnir, que chega fartamente para todos, pois, embora o javali seja cozido 
todas as manhs, fica inteiro novamente todas as noites. Para bebida, os heris 
dispem de abundante hidromel, fornecido pela cabra Heidrum. Quando no se 
encontram nos festins, os heris se divertem lutando. Todos os dias, dirigem-se 
ao ptio ou campo e lutam at se fazerem em pedaos uns aos outros. Este  seu 
passatempo, mas chegando a hora da refeio, eles se restabelecem dos 
ferimentos e voltam ao festim no Valhala. 



As VALQURIAS 
As Valqurias eram virgens guerreiras, que cavalgavam corcis, armadas 
de elmos e lanas. Odin, desejoso de reunir grande nmero de heris no Valhala, 
a fim de poder enfrentar os gigantes quando chegasse o dia da luta decisiva, 
mandava escolher em todos os campos de batalha os que deveriam ser mortos. 
As Valqurias eram suas mensageiras, e seu nome significa "as que escolhem os 
mortos". Quando galopavam em suas cavalgadas, o brilho de seus escudos 
produzia nos cus nrdicos uma luz estranha, a chamada aurora boreal. 
TOR E OUTROS DEUSES 
Tor, o senhor dos troves, filho mais velho de Odin,  o mais forte dos 
deuses e homens, e possui trs coisas preciosssimas. A primeira  um martelo 
que tanto o Gelo como os gigantes da Montanha aprenderam a respeitar, quando 
o viram lanado contra eles no ar, pois o martelo rompeu muitos crnios de seus 
pais e parentes. A segunda preciosidade que Tor possua era chamada cinto da 
fora que, quando usado pelo seu dono, dotava-o de um redobrado poder divino. 
A terceira preciosidade era o par de luvas de ferro que Tor usava para se tornar 
mais eficiente. Do nome de Tor vem Thursday, o quinto dia da semana. 
Frei era um dos deuses mais celebrados, responsvel pela chuva, pelo 
brilho do sol e por todos os frutos da terra. Sua irm Freia era a mais propcia 
das deusas. Amava a msica, a primavera e as flores e, em particular, os Elfos 
(fadas). Apreciava muito as canes amorosas e todos os amantes poderiam 
invoc-la com proveito. 
Bragi era o deus da poesia, e seus cantos recordavam os feitos dos 
guerreiros. Sua esposa, Iduna, guardava a caixa de mas que os deuses, quando 
sentiam aproximar-se a velhice, provavam, para recuperar, imediatamente, a 
mocidade. 

Heindall era o vigia dos deuses e, portanto, colocado na fronteira do 
cu, para impedir os gigantes de passar pela ponte Bifrost (o arco-ris). 
Heindall dormia menos que um pssaro e enxergava tanto de noite quanto



de dia num raio de cem milhas.1 Tinha to bons ouvidos que podia ouvir o rudo 
da relva crescendo e da l crescendo em um carneiro. 
LOKI E SUA DESCENDNCIA 
Havia uma outra divindade considerada o caluniador de deuses e 
articulador de todas as fraudes e atos condenveis. Chamava-se Loki. Era belo e 
bem feito de corpo, mas de temperamento caprichoso e maus instintos. Pertencia 
 raa dos gigantes, mas se metera  fora na companhia dos deuses e se 
comprazia em coloc-los em dificuldades, e livr-los, depois, do perigo, graas 
s suas artimanhas, inteligncia e habilidade. Loki tinha trs filhos. O primeiro 
era o lobo Fenris, o segundo, a serpente Nidgard e o terceiro Hela (Morte). Os 
deuses no ignoravam que esses monstros estavam crescendo e que acabariam 
fazendo muito mal aos deuses e aos homens. Assim, Odin achou conveniente 
mandar busc-los. Lanou, ento, a serpente no profundo oceano pelo qual a 
terra  cercada. O monstro, porm, crescera a tal ponto que, enfiando a cauda na 
boca, rodeia toda a Terra. Hela foi atirada por Odin ao Niffleheim e recebeu o 
poder de dominar nove mundos ou regies, nos quais distribui aqueles que lhe 
so enviados, isto , os que morrem em conseqncia da velhice ou da doena. 
Seu palcio chamava-se Elvidner. Sua mesa era a Fome, sua faca, a Inanio, o 
Atraso, seu criado, a Vagareza, sua criada, o Precipcio, sua porta, a 
Preocupao, sua cama e os Sofrimentos formavam as paredes dos aposentos. 
Hela podia ser facilmente reconhecida, pois seu corpo era metade cor-de-carne e 
metade azul, e tinha uma fisionomia horrvel e amedrontadora. 

1 Cerca de 160 quilmetros. (N. do T.) 

O lobo Fenris deu muito trabalho aos deuses, antes que estes 
conseguissem acorrent-lo; rompia as correntes mais fortes como se fossem 
teias de aranha. Finalmente, os deuses enviaram um mensageiro aos 
espritos da montanha, que fizeram para eles a corrente chamada Gleipnir, 
que se compunha de seis coisas, a saber: o rudo produzido pelo andar de um 
gato, a barba das mulheres, as razes das pedras, a respirao dos peixes, os 
nervos (sensibilidade) dos ursos e o cuspo das aves. Depois de pronta, a 
corrente ficou to lisa e macia como se fosse de seda. Quando, porm, os 



deuses pediram ao lobo que se deixasse amarrar naquela fita aparentemente to 
frgil, ele desconfiou de suas intenes, receando que houvesse ali algum 
encantamento. Assim, s consentiu em ser amarrado se um deus enfiasse a mo 
em sua boca para garantia de que a fita seria retirada mais tarde. Somente Tir (o 
deus da batalha) teve coragem suficiente para isto. Mas, quando o lobo verificou 
que no podia livrar-se e que os deuses no iriam solt-lo, cortou com os dentes 
a mo de Tir, que ficou maneta desde ento. 
COMO TOR PAGOU SEU SALRIO 
AO GIGANTE DA MONTANHA 
Certa vez, quando os deuses estavam construindo suas moradas e j 
haviam acabado a construo do Midgard e do Valhala, apareceu um artfice, 
oferecendo-se para construir uma morada to bem fortificada que nela os deuses 
ficariam perfeitamente protegidos contra os ataques dos gigantes do Gelo e dos 
gigantes da Montanha. Exigia, porm, como pagamento, a deusa Freia, 
juntamente com o Sol e a Lua. Os deuses concordaram com suas condies, 
contanto que ele executasse o trabalho sem ajuda de ningum e durante um s 
inverno. Se alguma coisa ainda estivesse por acabar no primeiro dia de vero, 
ele teria de desistir do pagamento pedido. Ao ouvir essa proposta, o artfice 
exigiu que pudesse utilizar-se de seu cavalo Svadilfair. Isso lhe foi concedido, 
graas  opinio de Loki. O artfice, assim, comeou a trabalhar no primeiro dia 
do inverno e, durante a noite, deixava seu cavalo carregando pedras para a 
construo. O enorme tamanho das pedras encheu de assombro os deuses, que 
perceberam, claramente, que o cavalo executava mais da metade do trabalho. A 
combinao, porm, j estava feita e confirmada por juramento solene, pois, sem 
essas precaues, um gigante no poderia considerar-se em segurana no meio 
dos deuses especialmente quando estava prximo o regresso de Tor de uma 
expedio que empreendera contra os demnios malignos. 

 medida que se aproximava o fim do inverno, a construo ia 
progredindo, e os baluartes j eram suficientemente altos e macios para 
tornar o lugar inexpugnvel. Em resumo, quando faltavam apenas trs dias 



para o vero, s faltava ser acabada a construo da porta. Os deuses, ento, se 
reuniram para discutir, a fim de saber se seria possvel livrarem-se da obrigao 
de entregar Freia ou de mergulhar o cu na escurido, permitindo que o gigante 
levasse o Sol e a Lua. 
Todos concordaram que somente Loki, o autor de tantas aes 
condenveis, poderia ter dado to maus conselhos e que ele deveria ser 
submetido a uma morte desapiedada, se no contribusse, de algum modo, para 
evitar que o artfice completasse sua obra e obtivesse a recompensa estipulada. 
Naquela mesma noite, quando o homem saiu com Svadifair para carregar as 
pedras, uma gua saiu correndo, de repente, de uma floresta e comeou a 
relinchar. O cavalo, ento, arrebentou os arreios e correu para a floresta, atrs da 
gua, o que obrigou o homem a correr tambm atrs do cavalo e, assim, a noite 
inteira foi perdida, de modo que, ao amanhecer, o trabalho no progredira no 
ritmo costumeiro. Vendo que no podia completar a tarefa, o homem reassumiu 
sua estatura gigantesca e os deuses perceberam, ento, que se tratava, na 
verdade, de um gigante das montanhas que viera para o meio deles. Achando 
que no mais estavam presos ao juramento, chamaram Tor, que, imediatamente, 
correu a ajud-los e, levantando seu malho, pagou ao trabalhador seu salrio, 
no com o Sol e a Lua e nem enviando-o de volta ao Jotunheim, pois, com a 
primeira pancada do martelo, despedaou a cabea do gigante e o atirou ao 
Niffleheim. 
A RECUPERAO DO MARTELO 


Aconteceu certa vez que o martelo de Tor caiu em poder do gigante 
Thryn, que o enterrou sob as rochas de Jotunheim numa profundidade de 
oito braas.2 Tor mandou Loki negociar com Thryn, mas Loki somente 
conseguiu obter uma promessa do gigante de restituir a arma se Freia 
consentisse em casar-se com ele. Loki voltou para informar o resultado de 
sua misso, mas a deusa do amor ficou horrorizada  idia de oferecer os 
seus encantos ao rei dos gigantes do Gelo. Nessa emergncia, Loki 
persuadiu Tor a meter-se nas vestes de Freia e acompanh-lo ao Jotunheim. 
Thryn recebeu sua noiva, que estava com o rosto coberto por um vu, com a 

2 Braa era uma antiga medida de comprimento, equivalente aproximadamente a dois metros (N. do T.) 



devida cortesia, mas ficou muito surpreso, ao v-la devorar oito salmes e um 
boi inteiro, alm de outros petiscos, e bebendo, por cima, trs toneis de 
hidromel. Loki, porm, afirmou-lhe que ela no comia h oito noites, to grande 
era seu desejo de ver o amante, o famoso rei de Jotunheim. Afinal, Thryn teve 
curiosidade de olhar sob o vu de sua noiva, mas recuou, espantado, e perguntou 
por que os olhos de Freia brilhavam como fogo. Loki deu a mesma desculpa e o 
gigante se satisfez. Deu ordem para que fosse trazido o martelo, e colocou-o no 
regao da donzela. Tor, ento, livrando-se do disfarce, agarrou sua terrvel arma 
e matou Thryn e todos os seus sequazes. 
Frei tambm possua uma arma maravilhosa, uma espada que espalhava 
sozinha a carnificina em um campo de batalha, quando o seu dono o desejasse. 
Frei perdeu sua espada, porm, menos feliz que Tor, no a recuperou. O fato se 
passou da seguinte maneira: certo dia, Frei subiu ao trono de Odin, do qual se 
pode ver todo o universo, e, olhando em torno, avistou no reino dos gigantes 
uma linda donzela, e desde ento foi tomado de tanta tristeza, que no pode mais 
dormir, beber ou falar. Afinal, Skirnir, seu mensageiro, conseguiu arrancar-lhe o 
segredo e disps-se a obter-lhe a donzela em casamento, se ele lhe desse a 
espada como recompensa. Frei consentiu, e deu-lhe a espada. Skirnir partiu para 
a sua viagem e obteve da donzela a promessa de que, dentro de nove noites, iria 
a um determinado lugar e ali desposaria Frei. Quando Skirnir anunciou o xito 
de sua misso a Frei, este exclamou: 
Uma noite  bem longa 
E duas mais longas ainda. 
Como, porm, suportarei trs noites? 
O espao de um ms 
Antes me parecia 
Mais curto que a metade desse tempo. 


Assim, Frei conseguiu Gerda, a mais bela de todas as mulheres, para 
esposa, mas perdeu sua espada. 



 CAPTULO XXXIX 
A VISITA DE TOR A JOTUNHEIM 
A VISITA DE TOR A JOTUNHEIM, 
O PAS DOS GIGANTES 
---


Certo dia, o deus Tor, com seu criado Tialfi e acompanhado por Loki, partiu 
para uma viagem ao pas dos gigantes. Tialfi era o mais veloz na carreira de 
todos os homens. Carregava a mochila de Tor, que continha as suas provises. 
Quando chegou a noite, eles se viram numa imensa floresta e procuraram, em 
todos os lados, um lugar onde pudessem se abrigar, chegando, afinal, a um 
grande palcio, com uma entrada que ocupava uma de suas fachadas inteira. Ali 
se deitaram para dormir, mas  meia-noite foram alarmados por um tremor de 
terra que sacudiu todo o edifcio. Tor, levantando-se, chamou os companheiros 
para procurarem, com ele, um lugar seguro. A direita encontraram um aposento 
adjacente, no qual os outros entraram, enquanto Tor ficava  porta empunhando 
seu malho, disposto a defender-se se acontecesse alguma coisa. Ouviu-se, 
durante a noite, um terrvel rugido e, ao amanhecer, Tor saiu e encontrou 
estendido perto de si um enorme gigante que dormia e roncava, produzindo o 
rugido que o assustara tanto. Conta-se que, pela primeira vez, Tor teve medo de 
se utilizar de seu malho e, como o gigante tivesse acordado, limitou-se a 
perguntar-lhe o nome. 



- Chamo-lhe Skrymir - disse o gigante. Mas no preciso perguntar teu 
nome, pois sei que tu s o deus Tor. O que aconteceu, porm, com a minha luva? 
Tor percebeu, ento, que aquilo que tomara, durante a noite, por um 
palcio, era a luva do gigante, e o quarto onde seus companheiros se haviam 
refugiado, o dedo polegar da luva. Skrymir props, ento, que viajassem juntos 
e, tendo Tor concordado, eles se assentaram para fazer a refeio matinal, depois 
do que Skrymir arrumou todas as suas provises em uma mochila, que atirou s 
costas, e ps-se a caminhar  frente dos outros, que s a custo acompanhavam 
seus passos enormes. 
Assim viajaram durante todo o dia; ao anoitecer, Skrymir escolheu um 
lugar para passarem a noite, sob um grande carvalho, e disse aos outros que iria 
deitar-se para dormir, acrescentando: 
- Ficai com a minha mochila e preparai vossa ceia. 

Dentro em pouco, o gigante estava dormindo e roncando, mas Tor, 
tentando abrir a mochila, verificou que Skrymir a amarrara to bem que era 
impossvel desatar um nico n. O deus acabou se irritando e, agarrando o 
malho com ambas as mos, desfechou uma furiosa pancada na testa do gigante. 
Skrymir, acordando, limitou-se a perguntar se havia cado alguma folha em sua 
cabea e se eles haviam ceado e j iam dormir. Tor respondeu 
que j iam dormir e, assim dizendo, foi se estender embaixo 
de uma outra rvore. No conseguiu, porm, conciliar o 
sono e, quando Skrymir recomeou a roncar com tanta fora 
que o rudo ecoava pela floresta, ele se levantou e, 
segurando o malho desfechou uma pancada com 
tanta fora no crnio do gigante que produziu 
uma profunda depresso. 

- Que aconteceu? - gritou 
Skrymir acordando. - H 
pssaros empoleirados nessa 
rvore? Senti um pouco de 
musgo dos ramos cair em 
minha cabea. Que tens, Tor? 

Tor tratou de afastar-se 
rapidamente, dizendo que acabara de acordar,



e que, como era apenas meia-noite, ainda havia tempo para dormir. Estava 
disposto, porm, a chegar a uma deciso, se tivesse oportunidade de desfechar 
uma terceira pancada. 
Pouco antes do amanhecer, percebeu que Skrymir dormira de novo e, 
mais uma vez, pegou o malho e deu uma pancada com tal violncia que o 
mesmo penetrou na cabea do gigante at o cabo. Skrymir, porm, sentou-se e 
esfregando a cabea, exclamou: 
- Uma bolota caiu em minha cabea. O qu? Ests acordado, Tor? Acho 
que j  hora de nos levantarmos e nos vestirmos. Mas no tendes de andar 
muito para chegardes  cidade chamada Utgard. Eu vos ouvi sussurrando uns 
para os outros que no sou um homem de pequenas dimenses. Ao chegardes 
em Utgard, porm, vereis muitos homens mais altos do que eu. Aconselho-vos, 
portanto, quando ali chegardes, a no terdes confiana demasiada em vs 
mesmos, pois os seguidores de Utgard-Loki no admitiro fanfarronadas de 
criaturinhas to pequenas quanto vs. Deveis seguir a estrada que segue para 
leste e a minha vai para o norte. Portanto devemos aqui nos separar. 
Assim dizendo, atirou a mochila aos ombros e, virando as costas, entrou 
na floresta, deixando Tor sem nenhuma vontade de det-lo e pedir-lhe para 
continuar fazendo-lhes companhia. 
Tor e seus companheiros seguiram viagem e, por volta de meio-dia, 
avistaram uma cidade no meio de uma plancie. Era to alta que eles foram 
obrigados a dobrar a cabea at quase os ombros para poder avist-la at em 
cima. Continuaram a andar e entraram na cidade e, avistando diante deles um 
grande palcio com a porta escancarada, nele penetraram e ali encontraram um 
certo nmero de homens de estatura prodigiosa, sentados em bancos, em um 
salo. Continuando a caminhar, chegaram diante do rei, Utgard-Loki, a quem 
saudaram com grande respeito. 
- Se no me engano, este rapazola ali deve ser o deus Tor - disse o rei, 
encarando-os com um sorriso zombeteiro. 
Depois, dirigindo-se a Tor acrescentou: 

- Talvez valhas mais do que pareces. Em que tu e teus companheiros vos 
destacais, pois no tem permisso de permanecer aqui quem no se destaca, 
desse ou daquele modo, sobre os outros homens? 



- O que sei com perfeio - disse Loki -  comer mais depressa do 
que qualquer outra pessoa, e estou disposto a oferecer uma prova, enfrentando 
qualquer um que seja escolhido para competir comigo. 
- Ser uma qualidade levada em conta, se conseguires fazer o que 
prometes, e vamos tentar agora mesmo - replicou o Utgard-Loki. 
Ordenou, ento, que se aproximasse e experimentasse sua capacidade, em 
comparao com Loki, um homem que estava sentado na extremidade do banco 
e que se chamava Logi. Tendo sido colocado no salo um recipiente cheio de 
carne, Loki colocou-se de um lado do mesmo e Logi de outro lado, e cada um 
comeou a comer to depressa quanto podia, at os dois se encontrarem no meio 
do recipiente. Verificou-se, porm, que Loki comera apenas a carne, ao passo 
que seu adversrio devorara tanto a carne quanto os ossos. Assim todos os 
presentes proclamaram que Loki fora vencido. 
Utgard-Loki perguntou, ento, que faanha seria capaz de executar o 
jovem que acompanhava Tor. Tialfi respondeu que correria a tal velocidade que 
ningum seria capaz de se emparelhar com ele. O rei observou que tal 
capacidade era algo que realmente podia ser apresentado, mas que, para vencer a 
competio, o jovem precisaria ser muito gil. Levantou-se, ento, e dirigiu-se, 
com todos os presentes, a uma plancie onde havia um bom terreno para corrida, 
e, chamando um jovem por nome Hugi, ordenou-lhe que disputasse uma corrida 
com Tialfi. Na primeira corrida, Hugi ficou to  frente de seu concorrente que o 
alcanou por trs, no muito distante do ponto de partida. Correram uma 
segunda e uma terceira vez, mas Tialfi no foi melhor sucedido. 
Utgard-Loki dirigiu-se a Tor: que faanha estaria disposto a executar para 
provar que merecia, realmente, a fama que tinha? Tor respondeu que disputaria 
uma prova de bebida com qualquer um. Utgard-Loki mandou seu copeiro buscar 
o grande chifre que seus seguidores eram obrigados a esvaziar quando alguns 
deles cometiam qualquer falta que implicasse violar os costumes do festim. 
Tendo o copeiro apresentado o chifre a Tor, Utgard-Loki explicou: 

- Quem  bom bebedor, esvazia esse chifre de um s gole, embora a 
maior parte dos homens o esvazie de duas vezes, e os fracos s o consigam de 
trs. 



Tor olhou para o chifre, que no era de tamanho descomunal, embora 
muito comprido. Como estava sedento, levou-o aos lbios e bebeu durante o 
maior tempo que pde, a fim de no ser obrigado a tomar um segundo gole, mas, 
quando afastou o copo dos lbios e o olhou, percebeu que a bebida mal havia 
diminudo. 
Depois de respirar com fora, Tor tentou outra vez, com toda a energia, 
mas aps afastar o chifre da boca teve a impresso de que bebera ainda menos 
que da vez anterior, conquanto a bebida j no respingasse agora. 
- E ento, Tor? - exclamou Utgard-Loki. - No deves te poupar; se 
queres esgotar o chifre no terceiro gole, precisas beber muita coisa, e devo dizer 
que no sers considerado aqui um homem to forte quanto s em tua terra, se 
no executares outras faanhas melhor do que ests executando esta. 

Furioso, Tor levou novamente o chifre aos lbios, e fez o possvel para 
esvazi-lo; mas, ao olhar a bebida, viu que ela estava apenas 
um pouco mais baixa. Assim, resolveu no tentar outra vez e 
devolveu a vasilha ao copeiro. 

- Agora estou vendo que no s o que 
julgvamos que fosses -disse Utgard-Loki. Poders, no 
entanto, tentar outra faanha, embora me parea que no 
tens condio para conquistar qualquer prmio. 

Tor 

- Que experincia propes agora? - perguntou 
Tor. - Costumamos praticar aqui uma brincadeira da 
qual participam somente as crianas - respondeu 
Utgard-Loki. Consiste apenas em levantar meu 
gato do cho, e eu no me atreveria a propor tal 
coisa ao grande Tor, se j no tivesse observado 
que no s, de modo algum, o que espervamos. 

Mal acabara de falar, um grande gato 
cinzento entrou no salo. Tor segurou-o pela barriga 
e fez o possvel para levant-lo do cho, mas o 
gato, recurvando as costas, tornou vos todos os 
esforos do deus, que no conseguiu levantar seno 
uma pata do animal. Vendo isso, Tor desistiu de 
fazer nova tentativa.



- A experincia deu o resultado que eu esperava - disse Utgard-Loki. O 
gato  grande, mas Tor  pequeno em comparao com nossos homens. 
- Pequeno como sou - retrucou Tor -, deixa-me ver quem de vs, 
agora que estou enfurecido, estar disposto a lutar comigo. 
- No vejo ningum - disse Utgard-Loki, olhando para os homens 
sentados nos bancos - que no se julgasse diminudo lutando contigo. Deixarei, 
contudo, que algum v chamar a velha Elli, minha ama, e Tor lutar com ela se 
quiser. Ela j lanou ao cho muitos homens como tu, Tor. 
Entrou no salo, nesse momento, uma velha desdentada, a quem Utgard-
Loki deu ordens de lutar com Tor. No  preciso dizer que, por mais que Tor se 
esforasse, no conseguiu derrubar a velha. Depois de uma violenta luta, Tor 
comeou a ceder terreno, e afinal caiu ajoelhado. Utgard-Loki disse-lhe, ento, 
para desistir, acrescentando que Tor no teria mais oportunidade de lutar com 
outra pessoa e que j estava ficando tarde; levou Tor e seus companheiros para 
os aposentos em que eles passaram a noite. 
Na manh seguinte, ao nascer do dia, Tor e seus companheiros vestiram-
se e preparam-se para partir. Utgard-Loki mandou servir uma mesa repleta de 
iguarias e bebidas. Depois do repasto levou os hspedes at a porta da cidade, e, 
antes que aqueles partissem, perguntou a Tor o que achava de sua viagem e se 
havia encontrado algum homem mais forte do que ele prprio. Tor respondeu 
que no podia negar que se sentia envergonhado. 
- E o que mais me aborrece - acrescentou -  que podeis me chamar 
de uma pessoa de pouco valor. 

- No - disse Utgard-Loki. - Agora que ests fora da cidade, 
posso dizer-te a verdade: enquanto eu viver e mandar, jamais entrars aqui 
de novo. E, palavra de honra, se eu tivesse sabido antes que tinhas tanto 
vigor e me levarias to perto do revs, no teria permitido que aqui 
entrasses desta vez. Fica sabendo, portanto, que te iludi durante todo o 
tempo, com minhas artimanhas. Primeiro, na floresta, amarrei a mochila 
com arame para que no pudesses desamarr-la. Depois, tu me deste trs 
pancadas com teu malho. A primeira, embora a mais fraca, teria terminado 
com meus dias se me tivesse atingido, mas deslizei para um lado e tuas 
pancadas atingiram a montanha, onde abriram trs fendas, uma das quais de 



grande profundidade. Lancei mo de recursos semelhantes, nas provas que 
disputastes com meus homens. Na primeira, Loki, como a prpria fome, 
devorou tudo que tinha diante dele, mas Logi era, na realidade, nada menos que 
o Fogo e, portanto, consumiu no apenas a carne mas o osso que a sustenta. 
Hugi, com quem Tialfi disputou a corrida, era o Pensamento, sendo impossvel 
para Tialfi correr na mesma velocidade que ele. Quando tu, por tua vez, tentaste 
esvaziar o chifre, executaste uma faanha to maravilhosa que, se eu a no 
tivesse visto, no teria acreditado. De fato, uma das extremidades daquele chifre 
ia dar no mar, que tu no conseguiste esgotar, mas, quando chegares  praia, 
percebers quanto do mar foi por ti bebido. Realizaste uma faanha no menos 
maravilhosa com o gato e, para dizer-te a verdade, quando vimos que uma de 
suas patas estava acima do cho, ns todos ficamos horrorizados, pois o que 
julgavas ser um gato era, na realidade, a serpente do Midgard, que rodeia a Terra 
e foi to distendida por ti que mal conseguiu rode-la entre sua cabea e sua 
cauda. A luta com EUi no constituiu faanha menos admirvel, pois jamais 
houve um homem ou haver que, mais cedo ou mais tarde, no acabe sendo 
vencido pela Velhice, e era isso que Elli era realmente. Agora, porm, que 
vamos nos separar, deixa-me dizer-te que ser prefervel para ns que jamais te 
aproximes de mim novamente, pois, se assim fizeres, defender-me-ei, outra vez, 
por meios de artimanhas, de modo que desperdiars teus esforos e no 
adquirirs fama lutando comigo. 

Ouvindo tais palavras, Tor, enfurecido, levantou o malho e teria 
desfechado uma pancada, se Utgard-Loki no tivesse desaparecido. Quando 
voltou  cidade para destru-la, Tor nada encontrou alm de uma verdejante 
plancie. 



 CAPTULO XL 
A MORTE DE BALDUR - Os ELFOS 
CARACTERES RNICOS 
Os ESCALDOS - A ISLNDIA 
A MORTE DE BALDUR 
Baldur, o Bom, tendo sido atormentado com horrveis pesadelos que mostravam 
que sua vida corria perigo, contou-os aos deuses reunidos, que resolveram 
conjugar o perigo que o ameaava. Ento, Friga, a esposa de Odin, conseguiu 
que o fogo e a gua, o ferro e todos os outros metais, as pedras, as rvores, as 
feras, as aves, os peixes e os seres que rastejam jurassem que nenhum deles faria 
mal a Baldur. Odin, no satisfeito com tudo isso e assustado com o destino de 
seu filho, resolveu consultar a profetisa Angerbode, uma giganta, me de Fenris, 
de Hela e da serpente Midgard. Angerbode morrera, e Odin foi forado a 
procur-la nos domnios de Hela. ---


Os outros deuses, porm, julgando suficiente o que Friga fizera, 
divertiram-se, utilizando-se de Baldur como alvo: alguns lhe atiravam dardos; 
outros lhe atiravam pedras, outros o feriam com suas espadas e suas achas-de-
armas, pois, por mais que fizessem, nenhum deles conseguira feri-lo. Isso se 
tornara o passatempo favorito e era considerado como uma honra dispensada 
a Baldur. Loki, porm, ao assistir  cena, ficou profundamente irritado 
vendo que Baldur ficava ileso. Assim, tomando a forma de uma mulher, 
dirigiu-se a Fesalir, a manso de Friga. Ao ver a suposta mulher, aquela 



deusa perguntou-lhe se sabia o que os deuses estavam fazendo em suas reunies. 
A mulher respondeu que estavam lanando dardos e pedras contra Baldur, sem 
conseguirem feri-lo. 
- Ah! - exclamou Friga. - Nem as pedras, nem as lanas, nem 
qualquer outra coisa conseguir ferir Baldur, pois obtive um juramento de todas 
elas. 
- Como? - perguntou a mulher. - Todas as coisas juraram que 
pouparo Baldur? 
- Todas as coisas - replicou Friga - com exceo de uma planta que 
cresce no lado oriental do Valhala, chamada visco e que achei muito jovem e 
muito fraca para poder jurar. 
Logo que ouviu essas palavras, Loki afastou-se e, retomando a sua forma 
natural, cortou a planta e voltou ao lugar onde os deuses estavam reunidos. Ali 
encontrou Hodur afastado dos outros, sem compartilhar da diverso, devido  
sua cegueira. 
- Por que no atiras, tambm, alguma coisa em Baldur? - perguntou-
lhe Loki. 
- Porque sou cego e no vejo onde est Baldur e, alm disso, nada tenho 
para atirar - respondeu Hodur. 
- Ora! Faze como o resto e concede uma honra a Baldur atirando contra 
ele este pedao de madeira - disse Loki. Dirigirei teu brao para o lugar onde 
ele se encontra. 
Hodur pegou, ento, a madeira, e, dirigido por Loki, atirou-a em Baldur, 
que, atravessado por ela, caiu sem vida. 
Certamente, jamais se testemunhara, quer entre os deuses quer entre os 
homens, atrocidade comparvel a essa. Quando Baldur caiu, os deuses foram 
tomados de horror, incapazes de dizer uma palavra, e depois olharam uns para 
os outros, todos desejosos de pr as mos no autor do atentado, mas foram 
obrigados a adiar a vingana, em respeito ao lugar sagrado onde se achavam 
reunidos. Deram vazo a seu pesar por altas lamentaes. Quando se acalmaram, 
Friga perguntou-lhes quem dentre eles desejava conquistar todo seu amor e boa 
vontade. 
- Para isso - disse ela - ele ter que ir  morada de Hela e oferecer-lhe 
um resgate se ela permitir que Baldur volte a Asgard. 



Ouvindo isto, Hermod, apelidado o gil, filho de Odin, ofereceu-se para 
fazer a viagem. O cavalo de Odin, Sleipnir, que tinha oito pernas e corria mais 
que o vento, foi arreado, e, cavalgando-o, Hermod partiu a galope para a sua 
misso. Durante nove dias e nove noites, galopou atravs de to profunda 
escurido que no podia distinguir coisa alguma, at que chegou ao rio Gyoll, 
onde ele passou por uma ponte revestida de ouro reluzente. A donzela que 
guardava a ponte perguntou-lhe seu nome e sua linhagem, dizendo-lhe que, na 
vspera, cinco bandos de mortos haviam galopado pela ponte sem abal-la tanto 
quanto a abalara ele sozinho. 
- Mas tu no tens o aspecto de morto - acrescentou. Por que galopas a 
caminho da morada dos mortos? 
- Para procurar Baldur - respondeu Hermod. - Viste-o passar? 
- Baldur atravessou a ponte sobre o Gyoll e ali fica o caminho que ele 
seguiu para a morada da morte - respondeu a donzela. 
Hermod prosseguiu viagem at chegar s portas da morada dos mortos. 
Ali apeou, apertou bem a sela e, montando de novo, cravou ambas as esporas no 
cavalo, que atravessou a porta sem toc-la, dando um enorme salto. Hermod, 
ento, galopou para o palcio, onde encontrou seu irmo Baldur ocupando o 
lugar mais destacado do salo, e passou a noite em sua companhia. Na manh 
seguinte, pediu a Hela que permitisse que Baldur regressasse com ele, 
afirmando-lhe que, entre os deuses, todos lamentavam a sua morte. Hela 
respondeu que verificar-se-ia agora, realmente, se Baldur era to amado quanto 
dizia. 
- Se, portanto - acrescentou -, todas as coisas do mundo, tanto vivas 
como sem vida, o pranteiam, ele voltar  vida. Se, porm, alguma coisa falar 
contra ele, ou se recusar a chor-lo, ele ficar aqui. 
Hermod voltou ento a Asgard e relatou tudo que vira e ouvira. 

Os deuses enviaram, ento, mensageiros ao mundo inteiro, a fim de 
pedir a todas as coisas que chorassem, para que Baldur pudesse sair da 
manso dos mortos. Todas as coisas atenderam de boa vontade ao pedido, 
tanto os homens e os outros seres vivos como a terra, as pedras, as rvores e 
os metais, da mesma maneira que vemos estas coisas chorar, quando so 
levadas de algum lugar quente para um lugar frio. Quando regressavam, 
os mensageiros encontraram uma velha chamada Thaukt, sentada numa 



caverna, e pediram-lhe que chorasse, para tirar Baldur da morada dos mortos. 
Ela, porm, respondeu: 
Com os olhos bem enxutos 
A velha vai chorar 
A morte de Baldur. 
Deixai Hela o guardar. 
Houve srias desconfianas que a velha no era outra seno o prprio 
Loki, que jamais cessou de fazer o mal entre os deuses e os homens. Assim 
Baldur foi impedido de voltar a Asgard. 
Os FUNERAIS DE BALDUR 
Os deuses levaram o corpo do morto para a costa onde estava o navio de 
Baldur, "Hringham", que passava por ser o maior do mundo. O cadver foi 
colocado na pira funerria, a bordo do navio, e a dor de sua esposa Nanna foi to 
grande que ela morreu e seu corpo foi cremado na pira, junto com o do marido. 
Assistiram aos funerais de Baldur Odin, acompanhado de Friga, das Valqurias e 
seus corvos; Frei em seu carro puxado pelo javali Guillibursti; Heindall 
montando seu cavalo Gulltopp, e Freia em seu carro puxado por gatos, alm de 
muitos gigantes do Gelo e gigantes da montanha. O cavalo de Baldur foi 
colocado na pira, inteiramente arreado e consumido pelas mesmas chamas que 
consumiram o corpo de seu dono. 

Loki, porm, no escapou ao merecido castigo. Quando ele viu o 
quanto estavam indignados os deuses, fugiu para a montanha e construiu, 
para morar, uma cabana com quatro portas, de modo que pudesse vigiar, por 
todos os lados, qualquer perigo. Inventou uma rede para apanhar peixes, que 
todos os pescadores usaram desde ento. Odin, porm, descobriu-o em seu 
esconderijo, e os deuses se reuniram para prend-lo. Loki ento 
transformou-se num salmo e escondeu-se entre as pedras do regato. Os 
deuses, contudo, vasculharam o regato com sua rede e pegaram Loki, que 
tudo fez para escapar entre as malhas da rede. Tor agarrou-o pela cauda, 



apertando-a, e  por isso que os salmes tm, at hoje, a cauda muito fina. Os 
deuses, ento, acorrentaram Loki e suspenderam sobre sua cabea uma serpente, 
cujo veneno cai constantemente sobre seu rosto, gota a gota. Sua esposa Siguna, 
sentada a seu lado, apanha as gotas em uma taa,  medida que caem, mas, 
quando vai esvaziar a taa, o veneno cai em cima de Loki, fazendo-o contorcer-
se de horror, com tal violncia, que a terra inteira treme, produzindo o que os 
homens chamam de terremoto. 
Os ELFOS 
Os "Edas" mencionam outra classe de seres, inferiores aos deuses, mas 
que, ainda assim, possuam grande poder: eram chamados Elfos. Os espritos 
brancos, ou Elfos da Luz, eram dotados de grande beleza, mais brilhantes que o 
sol e traziam vestes delicadas e transparentes; amavam a luz, eram benevolentes 
para com a humanidade e, em geral, tinham o aspecto de crianas louras e belas. 
Seu pas chamava-se Alfheim e era domnio de Freyr, o deus do sol, sob cuja luz 
os elfos estavam sempre brincando. 

Os elfos negros, ou Elfos da Noite, eram criaturas diferentes: anes feios, 
narigudos, de uma cor escura e suja, que apareciam somente  noite, pois 
evitavam o sol como o inimigo mais mortal, uma vez que, se os raios solares 
cassem sobre eles, os transformavam imediatamente em pedras. Sua linguagem 
era o eco das solides e suas moradas, as cavernas e covas subterrneas. 
Supunha-se que eles tinham surgido como larvas, produzidas pela carne em 
decomposio do cadver de Ymir, e receberam depois, dos deuses, uma forma 
humana e grande inteligncia. Distinguiam-se, particularmente, pelo 
conhecimento dos poderes misteriosos da natureza e pelos caracteres, 
que gravavam e explicavam. Eram habilssimos artfices e 
trabalhavam em metal e madeira. Entre suas obras mais notveis 
estavam o machado de Tor e o navio "Skiddaladnir", que 
ofereceram a Freyr e que era to grande que nele cabiam todas as 
divindades com suas armas e utenslios domsticos, mas construdo 
com tal habilidade que, quando dobrado, podia caber em um bolso. 

 



RAGNAROK 
O CREPSCULO DOS DEUSES 
Os nrdicos acreditavam firmemente que chegariam a um tempo em que 
seriam destrudos, com toda a criao visvel, os deuses do Valhala e de 
Niffleheim, os habitantes de Jotunheim, Alfheim e Midgard, juntamente com 
suas moradas. O pavoroso dia da destruio no viria, porm, inesperadamente. 
Para anunci-lo surgiria, primeiro, um inverno trplice, durante o qual a neve 
cairia dos quatro cantos do cu, o congelamento seria rigoroso, o vento cortante, 
o tempo tempestuoso e o sol no traria alegria. Suceder-se-iam trs invernos sem 
serem temperados por um nico vero. Trs outros invernos seguir-se-iam, 
durante os quais a guerra e a discrdia se espalhariam pelo universo. A prpria 
Terra ficaria amedrontada e comearia a tremer, o mar sairia de seu leito, o cu 
se abriria e os homens morreriam em grande nmero, enquanto as guias do ar 
se regozijariam sobre seus corpos trmulos. O lobo Fenris arrebentar a corrente 
que o prende, a serpente de Midgard levantar-se- de seu leito no mar e Loki, 
libertado de suas cadeias, juntar-se- aos inimigos dos deuses. No meio da 
devastao geral, os filhos de Musplheim acorrero, sob a chefia de Surtur, 
adiante e atrs do qual irrompero, chamas devastadoras. Os assaltantes 
avanariam pela ponte do arco-ris, Bifrost, que se quebraria sob os cascos dos 
cavalos. Sem se incomodar com a queda, porm, eles se dirigiriam ao campo de 
batalha chamado Vigrid, onde tambm apareceriam o lobo Fenris, a serpente de 
Midgard, Loki com todos os seguidores de Hela e os gigantes do Gelo. 

Heindall levantar-se-ia e soaria a trombeta Giallar, para chamar  luta 
todos os deuses e heris. Os deuses avanam, chefiados por Odin, que ataca o 
lobo Fenris, mas cai vtima do monstro, que, por sua vez,  morto pelo filho de 
Odin, Vidar. Tor destaca-se, matando a serpente de Midgard, mas cai morto, 
sufocado pelo veneno que o monstro moribundo vomita sobre ele. Loki e 
Heindall enfrentam-se e ambos so mortos. Tendo cado na batalha os deuses e 
seus inimigos, Surtur, que matou Freyr, incendeia o universo, que  inteiramente 
consumido pelo fogo. O sol se apaga, a terra se afunda no oceano, as estrelas 
caem do cu, e deixa de haver o tempo. 



Depois disso, Alfadur (o Todo-Poderoso) far com que surjam do mar um 
novo cu e uma nova terra. A nova terra contar com abundantes recursos, que 
produziro espontaneamente os seus frutos, sem necessidade de trabalho ou 
preocupao. A maldade e a misria no sero mais conhecidas, e os deuses e os 
homens vivero felizes para sempre. 
CARACTERES RNICOS 
No se pode viajar extensamente pela Dinamarca, Noruega ou Sucia, 
sem se encontrar grandes pedras de formatos diferentes que tm gravados os 
caracteres chamados rnicos,  primeira vista diferentes de todos os outros que 
conhecemos. As letras consistem, quase invariavelmente, de varinhas retas, 
dispostas isoladamente ou juntas umas com as outras. 
Essas varinhas eram usadas, nos tempos primitivos, pelos povos nrdicos, 
para predizer os acontecimentos futuros. Sacudiam-se e, pelas figuras que 
formavam, faziam-se as adivinhaes. 

Os caracteres rnicos so de vrios tipos, sendo usados principalmente 
para finalidades mgicas. Os malignos, ou runas amargos, como eram 
chamados, eram empregados para causar aos inimigos vrias espcies de mal, e 
os caracteres benignos para evitar o infortnio. Alguns tinham finalidades 
medicinais, outros eram empregados para a conquista do amor etc. Em pocas 
posteriores passaram a ser empregados, com freqncia, em inscries, mais de 
mil das quais foram descobertas. A lngua  um dialeto do godo, chamado 
norreno, ainda usado na Islndia. As inscries podem, portanto, ser lidas, mas, 
at agora, foram encontradas muito poucas capazes de trazer qualquer 
esclarecimento sobre fatos histricos. Em sua maior parte so epitfios gravados 
em tmulos. 



OS ESCALDOS 
Os escaldos eram os bardos e poetas da nao, classe de homens muito 
importante em todas as comunidades ainda no estgio primitivo da civilizao. 
Eram os depositrios de todas as narrativas histricas, e sua funo consistia em 
misturar algo de deleite intelectual com os rudes festins dos guerreiros, 
relembrando, atravs das obras de poesia e msica, que estavam a seu alcance 
executar as faanhas dos heris vivos ou mortos. As composies dos escaldos 
eram chamadas Sagas e muitas delas chegaram at ns, contendo valiosas 
contribuies para a histria e uma descrio fiel do estado da sociedade na 
poca a que se refere. 
A ISLNDIA 
Os "Edas" e as sagas vieram-nos da Islndia. O seguinte trecho da obra de 
Carlyle Heris e Culto do Herosmo apresenta uma viva descrio do pas onde 
tiveram sua origem as estranhas histrias que acabamos de ler. O leitor notar o 
contraste com a Grcia, ptria da mitologia clssica: 

"Naquela estranha ilha, a Islndia - empurrada, segundo dizem os 
gelogos, pelo fogo do fundo do mar, uma terra selvagem de desolao e lava, 
engolida durante muitos meses de cada ano por negras tempestades, embora 
dotada no vero de uma beleza selvagem e brilhante, erguendo-se imponente e 
sombria no Oceano Nrdico com suas yokuls (montanhas de neve), giseres 
(fontes de gua quente) borbulhantes, lagoas de enxofre e hrridas fendas 
vulcnicas, semelhante a um desolado e catico campo de batalha do Gelo e do 
Fogo, onde, entre todos os lugares, menos poderamos esperar uma literatura ou 
memrias escritas -, foi escrito o registro dessas coisas. Na costa dessa terra 
selvagem fica uma faixa de verdura, onde o gado pode subsistir, e o homem, por 
meio dele e do que o mar lhe fornece; e parece que eram muito poticos esses 
homens, homens que tinham em si pensamentos profundos e exprimiam 
musicalmente seus pensamentos. Muito se teria perdido se a Islndia no tivesse 
irrompido do mar, nem tivesse sido descoberta pelos nrdicos." 



 CAPTULO XLI 
Os DRUIDAS - IONA 
---


 
Os DRUIDAS 
Os druidas eram os sacerdotes entre as antigas naes clticas da Glia, 
Bretanha e Germnia. O que sabemos a respeito deles  tirado dos escritores 
gregos e romanos, comparado com o que ainda resta da poesia galica. 
Os druidas combinavam suas funes de sacerdotes com as de 
magistrados, sbios e mdicos. Colocavam-se, em relao ao povo das tribos 
clticas, de maneira bem semelhante  que os brmanes da ndia, os magos da 
Prsia e os sacerdotes do Egito se colocavam diante de seus respectivos povos. 
Os druidas ensinavam a existncia de um deus, a quem davam o nome de 
"Be'ai", que, segundo os entendidos, significa "a vida de tudo" ou "a fonte de 
todos os seres" e que parece ter afinidade com o Baal dos fencios. O que torna 
essa afinidade mais notvel  o fato de os druidas, do mesmo modo que os 
fencios, identificarem aquela sua divindade suprema com o sol. O fogo era 
considerado como smbolo da divindade. Os escritores latinos afirmam que os 
druidas tambm cultuavam numerosos deuses inferiores. 

Templo dos druidas 

No usavam imagens para representar o objeto de seu culto, no se 
reuniam em templo ou construes de qualquer espcie para a realizao de 
seus rituais sagrados. Seus santurios consistiam em um crculo de pedras 



(cada uma das quais, em geral, de tamanho muito grande), cercando uma rea de 
vinte ps a trinta jardas de dimetro.1 O mais clebre deles  o de Stoneheng, na 
plancie de Salisbury, Inglaterra. 
Esses crculos sagrados ficavam, em geral, perto de um rio, ou  sombra 
de um bosque ou de um frondoso carvalho. No centro do crculo havia o 
Cronlech, ou altar, que era uma grande pedra colocada  maneira de uma mesa, 
sobre outras pedras. Os druidas tinham, tambm, seus santurios em lugares 
elevados, com grandes pedras ou montes de pedras no alto dos morros. Eram 
chamados Cairns e usados para cultuar a divindade simbolizada pelo sol. 
No pode haver dvida de que os druidas ofereciam sacrifcios  sua 
divindade. H, contudo, certa dvida a respeito da espcie de sacrifcio que 
ofereciam, e quase nada sabemos sobre as cerimnias relacionadas com seus 
servios religiosos. Os escritores clssicos (romanos) afirmam que eles 
ofereciam sacrifcios humanos nas grandes ocasies, como, por exemplo, para 
obterem a vitria na guerra ou livrarem-se de molstias perigosas. Csar 
descreve minuciosamente a maneira como isso era feito: "Tm imagens imensas, 
cujos membros so feitos de madeira tranada e se enchem com pessoas vivas. 
Essas imagens so queimadas e os que dentro dela se encontram vitimados pelas 
chamas." Muitas tentativas tm sido feitas pelos escritores simpticos aos celtas 
para desmentir o testemunho dos historiadores romanos a esse respeito, mas sem 
sucesso. 
Os druidas realizavam dois festivais por ano. O primeiro tinha lugar no 
princpio de maio e era chamado Beltane ou "fogo de Deus". Nessa ocasio, 
acendia-se uma grande fogueira em algum lugar elevado, em honra ao sol, cujo 
benfico regresso era saudado, depois da sombria desolao do inverno. 
Reminiscncia desse costume perdura at hoje em algumas partes da Esccia, 
sob o nome de Whitsunday. 

O outro grande festival dos druidas era chamado Samti in, ou "fogo da 
paz", e se realizava no princpio de novembro, costume que ainda permanece 
na regio montanhosa da Esccia, sob o nome de Hallow-eve. Por essa 
ocasio, os druidas reuniam-se em assemblia solene, na parte mais 
central da regio, para desempenhar as funes judiciais de sua classe. 
Todas as questes, fossem pblicas ou privadas, e todos os crimes contra 



pessoas ou propriedade eram-lhes, ento, apresentados, para apreciao e 
julgamento. Esses atos judiciais estavam ligados a certas prticas supersticiosas, 
especialmente o ato de acender o fogo sagrado, o qual serviria, por sua vez, para 
acender todos os fogos da regio, que tinham sido, antes, escrupulosamente 
apagados. Esse uso de acender fogueiras no dia primeiro de novembro foi 
conservado nas Ilhas Britnicas, at muito depois do advento do cristianismo. 
Alm dessas duas grandes festividades anuais, os druidas tinham o hbito 
de comemorar a lua cheia e, especialmente, o sexto dia da lua. Nesse dia 
procuravam o visco que crescia em seus carvalhos favoritos e ao qual, assim 
como ao prprio carvalho, atribuam peculiar virtude e santidade. Sua 
descoberta era uma ocasio de regozijo e culto solene. "Eles o chamam - diz 
Plnio - por uma palavra que, em sua lngua, significa "cura-tudo" e, tendo 
feito solenes preparativos para as festividades e sacrifcio embaixo da rvore, 
para ali levam dois touros inteiramente brancos, cujos chifres so, ento, 
amarrados pela primeira vez. O sacerdote, vestido de branco, sobe  rvore, e 
corta, com uma foice de ouro, o visco, que  recolhido em um pano branco, 
depois do que se processa a matana das vtimas. Ao mesmo tempo, dirigem 
preces a Deus, para que lhes conceda prosperidade." Era bebida a gua em que o 
visco fora colocado, tida como remdio para todas as enfermidades. O visco  
uma planta parasita e, como no  freqentemente encontrada nos carvalhos, o 
seu encontro se tornava mais precioso. 

Os druidas eram mestres de moralidade como de religio. Um valioso 
exemplo de seus ensinamentos ticos foi conservado nas Trades dos 
bardos galicos, e dele podemos deduzir que a idia que faziam da inteira 
moral era justa em seu conjunto, e que eles adotavam e ensinavam muitas 
regras de conduta nobres e valiosas. Tambm eram os cientistas e sbios 
da sua poca e de seu povo. E discutvel se estavam ou no familiarizados 
com o alfabeto, embora haja grande probabilidade de que estivessem, de 
certo modo. E certo contudo que no passaram para a escrita coisa alguma 
de suas doutrinas, de sua histria ou de sua poesia. Seus ensinamentos eram 
orais e sua literatura (se a expresso pode ser usada em tal caso) preservada 
apenas pela tradio. Os escritores romanos, todavia, admitem que 
"eles prestavam muita ateno  ordem e s leis da natureza, e investigava



e ensinavam aos jovens entregues aos seus cuidados muitas coisas referentes s 
estrelas e seus movimentos, ao tamanho do mundo e das terras e concernente  
fora e ao poder dos deuses imortais". 

Sua histria consistia em narrativas tradicionais, em que eram celebrados 
os feitos hericos de seus antepassados. Segundo parece, essas narrativas eram 
em versos e constituam, pois, parte da poesia, assim como da histria dos 
druidas. Nos poemas de Ossian temos, seno verdadeiras produes dos tempos 
dos druidas, pelo menos o que se pode considerar como fiel representao das 
canes dos bardos.2 
Os bardos constituam parte essencial da hierarquia drudica. A propsito, 
observa um autor, Pennant: "Supunha-se que os bardos eram dotados de poder 
igual  inspirao. Eram os historiadores orais de todos os acontecimentos 
passados, pblicos e particulares. Tambm eram perfeitos genealogistas" etc. 
Pennant apresenta uma descrio minuciosa dos Eisteddfods, ou reunies 
de bardos e menestris, que se realizavam no Pas de Gales durante muitos 
sculos, muito depois de j terem desaparecido todos os outros setores do 
sacerdcio drudico. Nessas reunies somente os bardos de valor podiam 
apresentar suas peas e somente podiam execut-las os menestris realmente  
altura. Eram nomeados juzes para decidir o valor dos concorrentes e conferir-
lhes os graus adequados. Primitivamente os juzes eram nomeados pelos 
prncipes de Gales e, depois da conquista do pas, por designao dos reis da 
Inglaterra. Conta a tradio, porm, que Eduardo I, em represlia  influncia 
exercida pelos bardos para estimular a resistncia do povo ao seu jugo, 
perseguiu-os, com grande crueldade. Essa tradio ofereceu ao poeta Gray o 
assunto para a sua conhecida ode, "O Bardo". 
Ainda se realizam, ocasionalmente, reunies dos amantes da poesia e da 
msica galicas, conservando essas reunies o seu antigo nome. 

2 Os poemas atribudos ao bardo Ossiam, que, na realidade, nunca existiu, eram dantitoria do poeta escocs Mac-
Pherson. 

O sistema drudico estava em seu apogeu por ocasio da invaso romana 
comandada por Jlio Csar. Aqueles conquistadores do mundo dirigiram toda a 
sua fria contra os druidas, considerando-os seus principais inimigos. Os 
druidas, perseguidos em toda parte do continente, refugiaram-se em Anglesey e 
lona, onde encontraram abrigo e continuaram a prtica de seus ritos, agora 
proibidos. 



Mantiveram seu predomnio em Iona, no litoral e nas ilhas adjacentes, at 
que foram suplantados e suas supersties vencidas pela chegada de So 
Columbano, apstolo da Esccia que converteu os habitantes ao cristianismo. 
IONA 


Iona, uma das menores das Ilhas Britnicas, situada perto de uma costa 
inspita e acidentada, rodeada por mares perigosos e no dispondo de fontes de 
riqueza, conseguiu, no obstante, um lugar imperecvel na histria, como centro 
de civilizao e religio, em uma poca em que as trevas do paganismo 
dominavam quase todo o norte da Europa. Iona ou Icolnkill est situada na 
extremidade da ilha de Mull, da qual se acha separada por um estreito de meia 
milha de largura, sendo de trinta e seis milhas a distncia que a separa da 
Esccia.3 
Columbano era natural da Irlanda e parente dos prncipes do pas. A 
Irlanda era, naquele tempo, uma terra iluminada pelo Evangelho, ao passo que o 
oeste e o norte da Esccia ainda estavam mergulhados nas trevas do paganismo. 
Columbano, com doze amigos, desembarcou na Ilha de Iona no ano de 563, 
depois de ter feito a travessia em um frgil barco revestido de couro. Os druidas 
que ocupavam a ilha tentaram impedi-lo de ali se fixar, e os povos selvagens da 
costa prxima perseguiram-no com sua hostilidade, e, por diversas ocasies, 
puseram sua vida em perigo. Graas, contudo  sua perseverana e zelo, ele 
venceu todas as dificuldades, obteve do rei que a ilha lhe fosse doada e ali 
estabeleceu um convento, do qual se tornou abade. Era incansvel em seus 
esforos para disseminar o conhecimento das Escrituras no interior da Esccia e 
nas ilhas adjacentes, e isso lhe assegurou tal prestgio que, embora no fosse 
bispo, mas um simples presbtero e monge, toda a provncia, com os seus bispos, 
ficou sujeita a ele e aos seus sucessores. O monarca dos Pictos ficou to 
impressionado com sua sabedoria e dignidade que lhe concedeu as maiores 
honrarias, e os chefes e prncipes vizinhos procuravam seu conselho e 
entregavam-lhe a soluo de suas disputas. 

3 A milha inglesa tem 1.609 metros, e a martima, 1.852. (N. do T.) 

Quando Columbano desembarcou em lona, estava acompanhado por 
doze companheiros com os quais formou um corpo religioso de que se 



tornou chefe. Mais tarde, chegaram outros, de maneira que o nmero original 
fosse conservado sempre. Sua instituio foi chamada de mosteiro, e o superior, 
de abade, mas o sistema tinha pouca coisa em comum com as instituies 
monsticas das idades posteriores. O nome pelo qual os monges foram 
submetidos  regra era o de culdees, provavelmente derivado do latim cultores 
Dei, adoradores de Deus. Eles constituam um corpo de religiosos associados 
para assistirem uns aos outros no trabalho comum de pregao do Evangelho e 
instruo da mocidade, assim como para conservarem em si mesmos o fervor da 
devoo, atravs do exerccio comum do culto. Ao entrar na ordem, seus 
membros tinham de prestar certos votos, mas que no eram os votos 
habitualmente impostos pelas ordens monsticas, que so trs: celibato, pobreza 
e obedincia. Os culdees s estavam presos ao terceiro desses votos. No se 
obrigavam  pobreza; ao contrrio, trabalhavam diligentemente para assegurar 
as comodidades materiais a si mesmos e aos seus. Tambm tinham permisso de 
contrair matrimnio e parece que, em sua maior parte, se casaram. Na verdade, 
suas mulheres no tinham permisso de viver em sua companhia n d,o convento, 
tendo-lhes sido destinada uma residncia em localidade prxima. Existe, perto 
de lona, uma ilha que ainda se chama Eilen nam ban, Ilha das mulheres, onde, 
segundo parece, os maridos residiam com suas respectivas esposas, exceto 
quando suas obrigaes exigiam sua presena na escola ou no santurio. 
Sob este e outros aspectos, os culdees afastavam-se das regras 
estabelecidas pela Igreja Romana e, em conseqncia, foram considerados 
herticos. O resultado foi que,  medida que aumentava o poder daquela igreja, o 
dos culdees diminua. Somente no sculo XIII, contudo, suas comunidades 
foram extintas e seus membros dispersados. Eles ainda continuaram a trabalhar 
individualmente e resistiram  intromisso papal, tanto quanto puderam, at que 
a luz da Reforma iluminou o mundo. 

Iona, pela sua posio nos mares ocidentais, estava exposta aos assaltos 
dos piratas noruegueses e dinamarqueses que infestavam aqueles mares e foi, 
repetidamente, saqueada por eles, suas casas incendiadas, seus pacficos 
habitantes passados a fio de espada. Essas circunstncias desfavorveis, 
juntamente com a disperso dos culdees por toda a Esccia, acarretou, 



pouco a pouco, sua decadncia. Durante o domnio do papismo, a ilha tornou-se 
sede de um convento de monjas, cujas runas ainda podem ser vistas. Com a 
Reforma, as freiras tiveram permisso de l permanecer, vivendo em 
comunidade, quando o convento foi extinto. 
Hoje, lona  visitada principalmente devido aos numerosos remanescentes 
de monumentos eclesisticos e sepulturas que ali se encontram, sendo as 
principais a Catedral, ou Igreja Abacial, e a capela do convento de freiras. Alm 
destes remanescentes eclesisticos, existem alguns da poca anterior, que 
relembram a existncia na ilha de formas de culto e crena diferentes do 
cristianismo. So os Cairns que se encontram em vrias partes e que tm sua 
origem nos druidas. Foi com referncia a todos esses remanescentes da antiga 
religio que Johnson observou que " pouco digno de inveja o homem cujo 
patriotismo no se pde fortalecer nas plancies de Maratona, ou cuja piedade 
no se torne mais calorosa nas runas de Iona". 
No poema "Senhor das Ilhas", Scott contrasta, de maneira feliz, a igreja de 
Iona com a caverna de Staffa, que lhe fica em frente: 
A prpria natureza parecia 
Um templo haver erguido ao Criador! 
Para finalidade mais humilde 
Levantar no iria tais colunas 
Nem sustentar abbadas to belas. 
Nem  menos solene a harmonia 
Que das ondas o eterno movimento 
Provoca reboando na caverna 
E que de um rgo a msica recorda. 
Em sua frente se ergue o velho templo 
De longa, e de natura a voz potente 
Parece lhe dizer: "Muito fizeste, 
Frgil filho da argila! Teu humilde 
Poder, este imponente santurio 
Ao levantar, foi grande. Mas compara 

Com meu poder todo esse esforo ingente! 



 CAPTULO X LII 
BEOWULF 
Embora o manuscrito que contm o poema pico de Beowulf tenha sido 
escrito, aproximadamente, - no ano 1000 de nossa era, o prprio poema j era 
conhecido h sculos, tendo sido composto pelos menestris que recitavam os 
feitos hericos do filho de Ecgtheow e sobrinho de Hygelac, Rei dos Geats, cujo 
reino ficava na atual Sucia Meridional. 
Em sua infncia, Beowulf deu provas de grande fora e coragem, que o 
levaram, depois de adulto, a libertar Hrothgar, Rei da Dinamarca, do monstro 
Grendel e, mais tarde, seu prprio reino do feroz drago que lhe infligiu um 
ferimento mortal. 
Beowulf conquistou fama vencendo muitos monstros marinhos, quando 
nadou durante sete dias e sete noites, antes de chegar ao pas dos fineses. 
Ajudando a defender a terra de Hetware, matou muitos inimigos e, mais uma 
vez, mostrou suas qualidades de nadador, levando ao seu navio as armaduras de 
trinta de seus perseguidores, que matara. Tendo-lhe sido oferecida a coroa de 
seu pas natal, Beowulf, ento muito jovem, recusou-a, em favor de Heardred, 
filho da rainha, ainda criana, de quem se tornou guardio e conselheiro, at que 
ele pudesse governar sozinho. ---


Durante doze anos, Hrothgar, Rei da Dinamarca, sofreu as 
conseqncias das devastaes praticadas em seu pas por um monstro 
cruel, Grendel, que era encantado, no podendo morrer por qualquer arma 



construda pelo homem, morava nas terras desertas e que, certa noite, saiu para 
atacar o palcio de Hrothgar, aprisionando e matando muitos de seus convivas. 
Sabendo, pelos marinheiros, das sanguinolentas expedies de Grendel, 
Beowulf partiu, com quatorze companheiros decididos, para prestar ao rei sua 
valiosa ajuda. Ao desembarcar na costa dinamarquesa, foi tomado por espio, 
mas conseguiu convencer os guardas que o deixassem passar e foi acolhido 
prazerosamente por Hrothgar. Quando o rei e sua corte foram dormir,  noite, 
Beowulf e seus companheiros ficaram sozinhos no palcio. Todos, com exceo 
de Beowulf, adormeceram. Grendel entrou e matou um dos companheiros de 
Beowulf adormecido, mas o jovem, embora desarmado, lutou com o monstro e, 
graas a sua fora prodigiosa, conseguiu arrancar-lhe o brao. Mortalmente 
ferido, Grendel retirou-se, deixando um rastro sangrento, desde o palcio at o 
seu covil. 
Tendo perdido o temor de outro ataque por parte de Grendel, os 
dinamarqueses voltaram ao palcio, e Beowulf e seus companheiros foram 
abrigados em outro lugar. A me de Grendel foi-se vingar do ferimento fatal 
sofrido por seu filho e levou consigo um nobre dinamarqus e a pata do monstro 
que ficara no palcio. Seguindo o rastro sangrento, Beowulf foi liquidar a me 
do monstro e, armado com sua espada Hrunting, chegou  beira dgua, 
mergulhou e nadou at um aposento no fundo do mar. Ali enfrentou a me de 
Grendel, matando-a com uma velha espada que encontrou na caverna martima. 
Perto estava o corpo de Grendel. Beowulf cortou-lhe a cabea e levou-a como 
trofu ao Rei Hrothgar. Grande foi o regozijo no palcio e maior foi a acolhida a 
Beowulf, quando regressou  sua terra, onde lhe foram concedidos muitos bens e 
altas honrarias. 
Pouco depois, o rei menino Heardred foi morto na guerra com os suecos, e 
Beowulf sucedeu-lhe no trono. 
Durante cinqenta anos, ele reinou em paz. Depois, um drago, furioso 
porque lhe fora roubado seu tesouro, colocado em um tmulo, comeou a 
devastar o reino de Beowulf. Como Grendel, esse monstro saa de seu covil  
noite para pilhar e devastar. 

Beowulf, agora um idoso monarca, resolveu lutar sozinho contra o 
drago. Aproximou-se de seu covil, de onde saa um vapor fervente. Sem 



se intimidar, avanou, gritando um desafio. O drago saiu, lanando fogo 
pela boca, e investiu contra Beowulf, furioso, quase o esmagando nesse 
primeiro ataque. To terrvel foi a luta que todos os homens que 
acompanhavam o rei, com exceo de um s, abandonaram-no e fugiram 
para salvar a pele. Wiglaf permaneceu ao lado do velho rei, cuja espada foi 
despedaada por nova investida do monstro, que cravou as garras no 
pescoo de Beowulf. Correndo para participar da luta, Wiglaf ajudou o 
heri j moribundo a matar o drago. 

Antes de morrer, Beowulf nomeou Wiglaf seu sucessor no trono e 
ordenou que suas prprias cinzas fossem colocadas em um santurio, no 
alto de um rochedo, junto ao mar. Seu corpo foi queimado em uma grande 
pira funerria, enquanto doze homens rodeavam o tmulo cantando, para 
manifestar seu pesar e lembrar as proezas do bom e grande homem, 
Beowulf. 

 

 

 





 

ndice Onomstico 

 

 

 

 

 

 

Anteu - 150, 180, 181 

B 

Circe - 76, 77, 202, 287, 

 

Antgona - 220, 221, 222 

Baco - 14, 17, 59,60, 124, 151, 

288, 289, 290, 291 

A 

Antilquio - 250, 264 

196, 197, 199, 200, 201, 202 

Cirene - 229, 231 

Absirto - 168 

Antope - 189, 232 

Baldur - 395, 396, 397, 398 

Climene - 51, 52 

Acates - 333 

Antores - 337 

Balona - 16 

Clo - 15 

Acetes - 199, 202, 313 

Anbis - 345, 346 

Bardos - 406, 402 

Clitenestra - 278 

cis - 251, 252 

pis - 346, 347, 350 

Basilisco - 364, 365, 366 

Clria - 128 

Aconteus - 149 

Apolo - 10, 11, 13, 14,20, 

Bucis - 63, 64, 64 

Clo - 136 

Acrsio - 142, 243 

27, 28, 30, 31, 32, 49, 51, 

Belo - 312 

Cron - 221, 222 

Acton - 44, 45, 46, 47, 115 

60, 83, 84, 86, 101, 112, 

Belorofonte - 153, 154, 155 

Crseis - 259 

Ado - 215 

120, 124, 128, 137, 138, 

Beowuelf - 410, 411, 412 

Crises - 259 

Admeta - 179 

140, 151, 156, 193, 197, 

Broe - 196 

Crcale - 45 

Admeto - 219 

214, 218, 219, 224, 233, 

Breas - 215, 311 

Cronos - 11, 16, 174, 353 

Adnis - 81, 82,83 

236, 240, 248, 259, 261, 

Bragi - 383 

Crusa - 167 

Adrastos - 220 

263, 265, 266, 268, 271, 

Brahma - 371, 372, 373, 

Cupido - 13, 14, 28,30, 67, 

Afrodite - 13 

276, 300, 308, 314, 322, 

374, 375 

81, 99, 101, 104, 107, 109, 

Agamedes - 349 

325, 348, 349, 352, 357, 

Briareu - 67, 150, 318 

110, 127, 233 

Agamnon - 256, 257, 259, 

358, 365 

Briseis - 259 

 

260, 262, 265, 278 

Aquelau - 216, 217, 218 

Buda - 377, 378 

D 

Agave - 202 

Aquiles - 116, 169, 213, 

 

Dafne - 28, 31 

Agenor - 112, 266 

250, 255, 256, 257, 259, 

C 

Dalai Lama - 378 

Agni - 372 

260, 261, 262, 263, 264, 

Caco - 182 

Dnae - 134, 142, 243 

Ajax - 169, 256, 260, 262, 

265, 266, 267, 268, 269, 

Cadmo - 44, 112, 113, 114, 

Danaus - 226 

263, 264, 272 

271, 272, 276, 277, 305 

115, 161, 213, 220, 353 

Drdano - 248, 308 

Alcestes - 219, 220 

Aracne - 130, 133, 134, 

Calais - 215 

Ddalo - 187, 191, 193 

Alcinous - 295, 297, 300, 301 

135, 136 

Calope - 15, 224 

Defobo - 257, 266 

Alcone - 86, 87, 88, 89, 91, 

Ares - 13 

Calipso - 292 

Dejanira - 182, 183, 216, 

92, 93 

Aretusa - 71,72, 74 

Calisto - 42, 44 

218 

Alcmena - 176 

Argonautas (os) - 160, 194 

Calque - 372 

Demter - 14 

Alecto - 15, 329 

Argos - 39, 40, 160, 163, 278 

Camila - 330, 338 

Demdoco - 243, 300 

Alfadur - 401 

Argos (co) - 303, 304, 353 

Caos - 11, 19,57 

Deucalio - 24, 25, 352 

Alfenor - 138 

Ariadne- 188, 191, 202, 203 

Capaneu - 221 

Diana - 13, 35, 40, 45, 47, 

Alfeu - 72, 74, 179 

Ariman - 369, 370 

Carbdis - 290, 291, 292, 310 

49, 67, 72, 81, 111, 123, 

Almatia - 218 

rion - 235, 236, 237, 238, 

Caronte - 108, 318, 319 

137, 138, 151, 156, 169, 

Altia - 169, 171, 172 

239 

Cassandra - 276 

170, 172, 189, 246, 247, 

Altonoe - 202 

Aristeu - 224, 228, 229, 

Cassiopeia - 145, 147, 148 

248, 257, 278, 279, 308, 

Amata - 329 

230, 231 

Castor - 163, 194, 243, 

314, 330, 338, 358, 366 

Amione - 179 

rtemis - 13 

244, 351 

Dcdis - 243 

mon - 151 

Aruno - 338 

Cauchas - 257, 260, 274 

Dicto - 200 

Amor - 11, 110, 226 

Astages - 149 

Cebriones - 263 

Dido - 311, 312, 313, 319 

Ampix - 149 

Astria - 23 

Ccrope - 130 

Diomedes - 256, 262, 272, 

Amun - 344 

Asuras - 372 

Cfalo - 35, 36, 37, 38, 116 

273, 276 

Anaxrete - 96, 97, 98 

Atalanta - 82, 169, 170, 

Cefeu - 145, 146, 148 

Dione - 13 

Anceu - 170 

171, 172, 173, 174, 175 

Ceix - 86, 87, 88,90, 91, 92 

Dioniso - 14 

Andrmon - 79, 80 

Aramas - 159, 213 

Celeus - 68, 69, 73 

Dirce - 232 

Andrmaca - 268, 310 

Ate - 265 

Centauros - 156 

Dis - 12 

Andrmeda- 146, 148 

Atlas- 12, 57, 145, 180, 184 

Crbero - 108, 182, 237, 319 

Dris - 56, 211, 213 

Anfiarus - 220, 221 

Ator - 344 

Ceres- 14, 67, 68, 69,71, 

Drades - 206, 208 

Anfon - 138, 323 

ugias - 179 

72, 73, 105, 106, 174, 

Drope - 79, 80 

Anfitrite - 211, 213, 238 

Aurora - 9, 11, 32, 35, 43, 

208, 209, 210 

Druidas - 403, 404, 405, 

Angerbode - 395 

54, 68, 89, 249, 250 

Cibele - 174, 175 

406, 407 

Anquises - 306, 308, 314, 

Autnoe - 202 

Ciclopes - 150, 151, 218, 282, 

 

322, 323, 324, 340 

 

251, 284, 285, 310 

E 

Antia - 154 

 

Cmon - 189 

aco - 116 

Antero - 13, 14 

 

Cinda - 247 

 





Ecgtheow - 410 

Euristeus - 158, 163, 176, 

H 

I 

Eco - 38, 123, 124, 125, 

179 

Hades - 182 

Iama - 372 

126 

Eurtion - 180 

Hamadrades - 206, 211 

Iapeto - 25 

dipo -152, 153, 220, 222 

Europa - 112, 134 

Harmonia - 115, 220 

Isio- 169 

Egria - 189, 214 

Euterpe - 15 

Harpias - 302, 327 

bicus - 235, 239, 240, 241, 

Egeu - 167, 186, 187 

Eva - 12, 25, 115, 126, 

Heardred - 410, 411 

242 

gide - 134 

215, 352 

Hebe - 10, 166, 184, 185 

Icrio - 222 

Egisto - 278 

Evadne - 221 

Hcate - 161, 164, 166, 

caro-191, 193 

Electra - 248, 278, 279 

Evandro - 331, 332, 333, 

316 

celo - 89 

Elfos -158, 383, 399 

337 

Hcuba - 266, 267, 268 

Ideu - 268 

Enclado - 67, 150 

 

Heindall - 383, 398, 400 

Iduna - 383 

Endimio - 77, 84, 246, 

F 

Heitor - 257, 258, 260, 

Ifignia - 252, 257, 279 

247 

Faetonte -51, 53, 55,57, 

261, 263, 264, 265, 266, 

fis - 96, 97, 98 

Enias - 77, 257, 264, 265, 

58 

267, 268, 270, 271, 276, 

fitus- 182 

306, 308, 309, 310, 311, 

Fantasos - 89 

310 

Ilioneus - 138 

312, 313, 314, 315, 316, 

Faonte - 244 

Hela - 384, 395, 396, 397, 

naco - 39, 40 

318, 319, 320, 321, 322, 

Fauno - 16, 204, 251, 287 

398, 400 

Indra - 372 

323, 324, 325, 327, 328, 

Fecios - 262, 294, 295, 

Helena - 96, 189, 194, 254, 

Ino - 115, 202, 213 

331, 332, 333, 334, 335, 

296, 300, 301 

255, 256, 266, 273, 276, 

Io - 39, 40, 41, 353 

336, 339, 340, 359 

Febo - 13, 31, 34, 45, 50, 

277 

Iobates - 153, 154 

Eneus - 169, 171 

52, 54, 83, 84, 89, 112, 

Heleno - 310 

Iole - 79. 80. 183 

Enone - 273 

207, 263 

Heles - 159 

Iona - 409 

olo - 86, 93, 287, 310, 

Fedra - 189 

Helades (as) - 57 

Irieu - 349 

311, 353 

Fnix - 260, 362 

Hmon - 222 

ris - 12, 88, 89, 90, 261, 

Epimeteu - 20, 25 

Fenris - 395, 400 

Hrcules- 158, 160, 163, 

268, 334 

Epopeu - 200 

Fdias - 356 

164, 176, 179, 180, 181, 

sis - 344, 345, 346 

rato - 15 

Filmon - 63, 64, 65 

182, 183, 184, 185, 186, 

Ismenos - 138 

Erebo - 11 

Filoctetes- 183, 272 

188, 189, 203, 216, 217, 

Iulo - 327, 335, 339 

rebo - 72, 108, 189, 227, 

Fineu - 160, 308 

218, 219, 232, 272, 331, 

xion - 226, 321 

329 

Flora - 16, 215 

352 

 

Erifila - 220, 221 

Forbas - 314 

Hermes - 14, 25, 345 

J 

Ernias - 15, 279 

Frei - 383, 387, 398 

Hermone - 277 

Jacinto - 83, 84, 272 

ris - 254 

Freia - 383, 385, 386, 387, 

Hermod - 397 

Jagatai - 373 

Rrischton - 206, 208, 209, 

398 

Hero - 128, 129 

Jano - 17, 332 

216 

Freyr - 399, 400 

Hespria - 68 

Jaso- 160, 161, 162, 164, 

Eros - 11, 13, 14 

Friga - 395, 396, 398 

Hesprides - 59, 180 

166, 167, 169, 170, 171, 

Eso - 159, 164, 166, 167 

Frineu - 148, 149, 160 

Hspero - 180 

182 

Escaldos - 402 

Frixo - 159 

Hades - 197 

Jocasta-153, 220 

Escopas - 243, 244 

Frias (as) - 171, 226, 239, 

Hiale - 45 

Jove - 11, 12, 25, 26, 42, 

Esculpio - 156, 184, 214, 

316, 318, 320, 329 

Hidra de Lema - 179 

43, 58, 67, 72, 99, 110, 

218, 261, 350 

 

Hidras - 318, 362 

122, 145, 194, 196, 197, 

Esfinge - 150, 153 

G 

Higia - 214 

211, 216, 217, 218, 220, 

Estaes - 9, 13 

Galatia - 213, 237, 251, 

Hilas - 164 

221, 251, 260, 263, 269, 

Estrfius - 278 

252 

Himeneu - 28, 224 

285, 292, 297 

Etecles - 220, 221 

Ganimedes - 185 

Hiprion - 11, 12, 280 

Juno - 12, 13, 18, 39, 41, 

Etes - 159, 160, 162, 168 

Gengis khan - 378 

Hipodmia - 156 

42, 43, 44, 48, 49, 88, 89, 

Etra - 186 

Gerda - 387 

Hiplita - 179, 189 

99, 116, 123, 137, 151, 

Eumnides - 15, 242, 278 

Gerio - 179, 180, 182 

Hiplito - 189 

174, 176, 179, 180, 184, 

Eumeu - 302, 305 

Glauco - 74, 75, 76, 77, 

Hipmenes - 82, 172, 173, 

185, 196, 197, 216, 217, 

Eunpio - 248, 249 

214, 257, 290 

174, 175 

254, 259, 261, 263, 310, 

Eurtion - 156 

Grdio - 62 

Hodur - 396 

311, 329, 331, 334, 338, 

Eurgnome - 11 

Grgonas (as) - 143, 145, 

Horas (as) - 52, 206, 250 

341 

Euralo - 334, 335, 336 

362 

Hrus - 345 

Jpiter - 9, 11, 12, 13, 14, 

Eurdice - 224, 226, 227, 

Graas (as Trs) - 10, 15 

Hrothgar - 410, 411 

15, 16, 20, 21, 23, 24, 26, 

228, 230, 231 

Greias (as) - 142 

Hugi - 391 

30, 39, 40, 41, 42, 50, 53, 

Eurloco - 288 

Grendel - 410, 411 

Hygelac - 410 

56, 57, 62, 6, 67, 72, 109, 

Eurnome - 12 

Grifo - 158 

 

112, 117, 118, 130, 134, 





142, 145, 146, 151, 154, 

Melagro - 169, 170, 171, 

Nereu - 56, 211, 213, 214, 

Plias - 160, 162, 167, 219 

156, 157, 159, 176, 183, 

172 

251 

Penaces - 17 

184, 185, 189, 190, 194, 

Melicertes - 213 

Nssus - 182, 183 

Penlope - 92, 222, 223, 

196, 213, 218, 221, 227, 

Melisseu - 218 

Nestor - 160, 169, 170, 

244, 255, 302, 304 

232, 246, 248, 249, 250, 

Mmnon - 147, 148, 249, 

250, 256, 260, 261, 262, 

Peneu - 28, 30, 179 

254, 260, 261, 263, 264, 

250, 271 

263 

Pentensilia - 271 

268, 269, 276, 287, 292, 

Menclau - 254, 255, 256, 

Netuno - 11, 12, 24, 56, 

Penteu - 115, 197, 199, 

308, 312, 319, 320, 321, 

262, 263, 276, 277, 278, 

130, 134, 162, 179, 189, 

202 

348, 349, 356 

341 

210, 211, 213, 214, 229, 

Pon-214 

 

Menoceu - 221 

238, 240, 248, 259, 260, 

Prdix-193 

K 

Mentor - 293 

261, 265, 273, 290, 301, 

Periandro - 235, 236, 238 

Kneph - 344 

Mercrio - 14, 20, 40, 41, 

311, 313, 314, 348 

Perifetes- 186 

 

62,72, 109, 143, 151, 

Nobe - 137, 138, 139, 140 

Persfone - 14 

L 

154, 159, 182, 232, 258, 

Niso - 120, 334, 336 

Perseu - 142, 143, 145, 

Laertes - 223 

269, 288, 292, 299, 312, 

No - 352 

146, 147, 148, 149, 153, 

Laio - 152 

352 

Numa - 17, 215 

243 

Laocoonte - 140, 273, 275 

Mrope - 248 

 

Pgmeus - 157, 158 

Laodmia - 258 

Metbus - 330 

O 

Pictos - 407 

Laomenonte - 249 

Metania - 69 

Oceano - 11, 43, 57, 75, 

Pigmalio - 78, 79, 312 

Lares - 17 

Mtis - 12 

211 

Plades - 278 

Latino - 327, 328 

Meupmene - 15 

Ocroe - 156 

Pramo - 32, 33, 34, 35 

Latona - 13, 47, 48, 49, 50, 

Mezncio - 330, 333, 336, 

Odin - 381, 382, 383, 384, 

Pritos - 156, 169, 188, 

137, 139 

337 

387, 395, 397, 398, 400 

189, 194 

Lauso - 330, 337 

Midas - 59, 60, 62 

Ofon - 11, 12, 15 

Pirra - 24, 25 

Lavnia - 327, 339 

Milo - 344 

nfale - 182 

Pirro - 276 

Leandro - 128 

Minerva - 10, 14, 20,63, 

Ops - 11, 174 

Pton - 27, 357 

Leda - 134, 194, 243 

67, 130, 133, 134, 135, 

Orade - 204, 209 

Pliades (as) - 248, 250 

Leocotia-213, 214 

136, 143, 151, 153, 154, 

Orestes - 278, 279 

Plxipo - 171 

Lestrigonianos - 287 

182, 188, 190, 193, 221, 

Orfeu - 160, 163, 194, 224, 

Pluto - 12, 14, 67, 68, 71, 

Lber - 17, 18 

223, 254, 259, 273, 274, 

226, 227, 228, 230, 231, 

72, 73, 108, 156, 166, 182, 

Lcabas - 200 

279, 293, 295, 296, 297, 

234 

189, 218, 226, 314, 318 

Licaonte - 265 

299, 302, 303, 356 

rion - 150, 248, 249 

Pluto - 16 

Licas - 183 

Minos - 116, 120, 121, 

Ortia - 215 

Polidectes - 142, 243 

Licmedes - 189, 255 

122, 187, 188, 189, 191, 

Ormuzd - 369, 370 

Polido - 154 

Lcus - 232 

202, 319 

Osris - 344, 345, 346, 347 

Polidoro - 308 

Lino - 232 

Minotauro - 187, 188 

 

Polifemo - 213, 251, 252, 

Logi - 391, 394 

Mirmides - 116, 262 

P 

284, 285, 310 

Loki - 384, 385, 386, 387, 

Mitros - 120 

P - 15, 41, 42, 60, 94, 

Polnia - 15 

388, 391, 394, 395, 396, 

Mnemsine - 11,15 

204, 206, 207 

Polinice - 220, 221 

398, 399, 400 

Momo - 16 

Pafos - 79 

Polites - 276 

Ltis - 80 

Morfeu - 89, 90, 91 

Palamedes - 255 

Polixena - 271, 276 

Lucina - 16 

Mulcber - 17 

Palas - 14, 99, 266, 297, 

Plux - 163, 194, 243, 244, 

 

Musas (as) - 15, 227 

331, 333, 338, 339 

351 

M 

Museu - 234 

Palmon - 213, 214 

Pomona - 16, 18, 35, 94, 

Maadeva - 373 

 

Pales - 16, 18 

95, 96, 98 

Machaon - 261, 262, 272 

N 

Palinuro - 313, 314, 318, 

Portuno - 214 

Maia - 14 

Niades - 48, 204, 214, 217 

319 

Poseidon - 12 

Mrsias - 233 

Nanna - 398 

Pandora - 20, 21, 25 

Prestes Joo - 379 

Marte - 13, 115, 130, 161, 

Narciso - 123, 124, 125, 

Parcas (as) - 15, 82, 169, 

Pramo - 250, 256, 257, 

259, 266 

126, 127 

219 

259, 265, 266, 267, 268, 

Media - 151, 162, 164, 

Nausica - 295, 296, 302 

Paris - 254, 255, 256, 259, 

269, 271 

166, 167, 168, 182 

Nausitous - 294, 295 

261, 271, 272, 273, 276, 

Prcris - 35, 37, 38 

Medusa - 142, 143, 145, 

Nefele - 45, 159 

310 

Procusto - 187 

148, 153, 364 

Nftis - 345 

Ptroclo - 261, 262, 263, 

Prometeu - 20, 24, 25, 26, 

Megera - 15 

Nmese - 15 

265 

43, 219 

Melmpus - 234 

Neoptolemus - 277 

Pgaso - 145, 146, 155 

Prosrpina - 14, 68, 71, 72, 

Melanto - 200 

 

Nereidas - 206, 213, 237 

Peleu - 169, 213, 254 

 





73, 108, 182, 226, 315, 316 

Sono - 88, 89, 90, 263, 314 

304, 305, 306, 310, 311 

Protesilau - 258 

Suria - 372 

Unicrnio - 366, 367 

Proteu - 75, 153, 154, 213, 214 

Surtur - 400 

Urnia - 15, 154, 155 

Psique - 99, 100, 101, 102, 

 

Utgard-Loki - 390, 391, 

103, 104, 105, 106, 107, 

T 

392, 393, 394 

108, 109, 110 

Talia - 15 

 

 

Tmiris - 232 

V 

Q 

Tntalo - 137, 222, 321 

Valqurias - 383, 398 

Quedalio - 249 

Tarchon - 333 

Ve - 381 

Quimera - 150, 153, 154, 

Tlamon - 119, 169, 170 

Vedas - 371, 372, 374, 375, 

318, 362 

Telmaco - 255, 277, 293, 

377 

Quirino - 16 

302, 303, 304, 305 

Vnus- 13, 14, 18,20, 28, 

Quron - 156, 157, 213 

Tlus - 164 

67, 78, 79, 81, 82, 83, 94, 

 

Tmis- 11, 14, 15, 348 

96, 98, 99, 101, 105, 106, 

R 

Trminus - 16 

107, 108, 109, 115, 128, 

Radamanto - 320 

Terpscore - 15 

151, 173, 174, 203, 251, 

Reco - 211 

Tersites - 271 

254, 255, 259, 261, 276, 

Ria - 11, 14, 15, 174, 197, 

Tesceleu - 149 

313, 315 

218 

Teseu - 160, 167, 169, 171, 

Vertuno - 96, 98 

Remo - 339 

182, 186, 187, 188, 190, 

Vsper (Estrela d'Alva) - 86, 

Rmulo - 16, 339 

191, 194, 202, 203 

87, 88 

Rtulos - 327 

Ttis - 43, 53, 75, 211, 

Vesta - 17 

 

213, 214, 254, 255, 260, 

Vestais - 17 

S 

264, 268, 272 

Viasa - 371 

Sabrina - 231, 232 

Thryn - 386, 387 

Vidar - 400 

Safo - 50, 244 

Tialfi - 391, 394 

Vili - 381 

Salamandra - 367, 368 

Tfon - 345, 346 

Vishnu - 371, 372, 373, 

Salmoneu - 320 

Tfon (gigante) - 67, 150 

377 

Sanso - 352 

Tfon (vento) - 311 

Volceno - 335, 336 

Sarpedon - 257, 263 

Tir - 385 

Vulcano - 10, 12, 13, 17, 

Stiros - 16 

Tirsias - 221 

51, 54, 115, 151, 186, 

Saturno -11, 12, 14, 15, 16, 

Tirreu - 329 

248, 264, 265, 338, 352 

327, 332, 357 

Tisbe - 32, 33, 34, 35 

 

Seguna - 399 

Tisfone - 320 

W 

Semeie - 14, 115, 196, 197 

Tits- 11, 12, 20, 26, 320 

Wiglaf - 412 

Semramis - 32 

Ttio - 150, 321 

Woden - 382 

Serpis - 345, 347 

Titono - 240 

 

Sesto - 129 

Tmolo - 56, 60 

Y 

Shiva - 371, 373 

Tor - 383, 385, 386, 387, 

Ymir - 380, 381, 382, 399 

Sibila - 314, 315, 318, 319, 

388, 389, 390, 391, 392, 

 

320, 321, 322, 324, 325, 

393, 394, 398, 399, 400 

 

326 

Toxcu - 171 

Z 

Sicheus - 312 

Triptlemo - 73 

Zfiro - 13, 84, 102, 103, 

Sila (donzela) - 75, 76, 77, 120, 

Trito - 24, 75, 211, 213, 

105, 215, 324 

121, 251 

311 

Zetes - 215 

Sila (monstro) - 290, 292, 310 

Trofnio - 349 

Ztus - 163, 215 

Sileno - 59 

Turno - 327, 329, 330, 

Zeus - 11, 174, 344 

Silvano - 94, 204 

331, 333, 334, 338, 339 

Zoroastro - 369, 371 

Slvia - 329 

 

 

Simnides - 242, 243, 244 

U 

 

Snon - 274, 275 

Ulisses - 76, 77, 96, 222, 

 

Srinx - 40, 41, 42 

223, 255, 256, 260, 262, 

 

Ssifo - 226, 321 

272, 273, 274, 276, 277, 

 

Skrymir - 389 

281, 282, 284, 285, 286, 

 

Sleipnir - 397 

287, 288, 289, 290, 291, 

 

 

292, 293, 294, 295, 296, 

 

 

297, 299, 300, 301, 303, 

 



 





Orelha do livro: 
As religies da Grcia e da Roma Antiga desapareceram. Mas o 
legado de seus mitos e heris continua presente at nossos dias. Estes j no 
pertencem  teologia, mas s artes,  literatura e  erudio. Tornaram-se 
de tal modo permanentes que esto vinculados ao imaginrio de todos os 
povos ocidentais, revelando-se na poesia, nas belas-artes, na psicologia e na 
psicanlise, como parmetros e modelos. 
Para os gregos seu pas ocupava o centro da Terra e o centro deste 
pas era o Monte Olimpo, na Tesslia, que abrigava os deuses - Zeus 
(Jpiter), Cronos (Saturno), Eros, os Tits, e tantos outros. 
O leitor vai distrair-se com as mais encantadoras histrias que a 
fantasia humana jamais criou e, a um s tempo, adquirir conhecimentos 
indispensveis a sua formao cultural. 
Vai conhecer as idias sobre a estrutura do universo, aceita pelos 
gregos que passaram para os romanos que, por sua vez, disseminaram 
entre outros povos atravs de sua cincia e de sua religio. 
Mergulhando nestas histrias o leitor vai compreender seu prprio 
mundo. 


Thomas Bulfinch nasceu em 1796 em Massachussets, Estados Unidos, 
filho do famoso arquiteto Charles Bulfinch. Graduou-se em 1814 pela 
Universidade de Harvard e foi professor da Boston Latin School. A 
literatura foi seu interesse principal durante toda a vida e seu trabalho mais 
conhecido  A Idade da Fbula, que corresponde ao Livro de Ouro da 
Mitologia. Estava escrevendo Heris e Sbios da Grcia e Roma quando 
faleceu, em 1867. 



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totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles 
que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at 
mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente condenvel em qualquer 
circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este 
livro livremente. 
Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim 
voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras. 
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